Podcast,
Transcrição: Emicida e Arthur Dantas no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #203, uma conversa sobre literatura, rap e espiritualidade a partir do novo álbum do rapper
21ago2026 • Atualizado em: 20ago2026Em clima de comemoração pelos sete anos do 451 MHz, este episódio recebe o rapper Emicida e o jornalista e pesquisador da cultura hip-hop Arthur Dantas, que conversam com o apresentador Paulo Werneck sobre literatura, rap e espiritualidade a partir do álbum Emicida racional volume 2: mesmas cores & mesmos valores, lançado no fim de 2025. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi! Está começando o episódio #203 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um.Toda sexta-feira a gente conversa aqui com autores críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Emicida [E]:
Me cercar de livro foi a coisa mais inteligente que eu pude fazer — e eu pude entender que inteligência era aquilo. Quantas pessoas não têm essa oportunidade? Tá ligado, mano? Tipo, o que eu tava brisando era nesse tamanho de pensamento brasileiro quando eu fiz o disco, sacou?
Arthur Dantas [AD]:
Isso é legal — o que você tá falando — porque eu tive uma dimensão, Leandro, que nesse disco o substrato dele é a memória negra. Em qual sentido? Porque você rememora Racionais [MC’s], você rememora sua mãe, você rememora momentos vividos com seus iguais, como na música que vocês estão na praça. Nada disso é exatamente novo.
Mais Lidas
PW:
As vozes que você acabou de ouvir são do Emicida e do Arthur Dantas. Eu já vou te falar mais sobre eles, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com apoio da Lei Rouanet.
O episódio de hoje tem clima de festa, porque o 451 MHz está comemorando o seu sétimo aniversário. Um outro dia a gente já estava aqui em clima de festa comemorando o episódio número 200. E esse episódio número 203 está saindo exatamente no dia em que, sete anos atrás, a gente inaugurou esse feed para falar dos livros mais legais que acabaram de sair no Brasil.
São sete anos no ar, trazendo conversas com escritores, tradutores, críticos, pesquisadores e jornalistas, mas sobretudo, grandes leitores que ajudam a gente a contar toda semana um pedaço da história da literatura produzida e publicada no Brasil.
E tudo isso só é possível porque a gente tem vocês aí do outro lado ouvindo e apoiando a gente. Então fica aqui o nosso agradecimento pela companhia nesses sete anos de podcast. E se você chegou pelo meio do caminho ou entrou recentemente aqui no nosso feed ou ouviu falar do 451 MHz no último ano, vale a pena dar uma olhada na retrospectiva que a gente preparou com alguns dos melhores episódios desses sete anos aqui nos seus ouvidos.
Eu quero aproveitar também para agradecer o carinho de todo mundo que comentou os dois episódios especiais que a gente publicou nas últimas semanas para celebrar a marca de 200 programas. Se você ainda não ouviu, vale a pena conferir a conversa que a gente teve com o grande cronista Mario Prata no episódio 200 e a entrevista que ele fez com o histórico personagem Julinho da Adelaide, que é um pseudônimo criado pelo Chico Buarque nos anos 70 para driblar a censura implacável que ele estava sofrendo por parte da ditadura.
É uma entrevista que o Mario Prata fez em 1974 e cujo áudio é um documento histórico que a gente publicou aqui no 451 MHz para você. Eu recomendo então que se você ainda não ouviu, volte um pouco no feed e ouça os episódios “Minhas vidas passadas” e “O drible de Julinho da Adelaide”.
Bom, e para o programa de hoje, a comemoração também vai ser em grande estilo. A gente convidou o rapper, apresentador e escritor Emicida para falar sobre o seu novo disco, Emicida racional volume 2: mesmas cores & mesmos valores, que foi lançado no final de 2025. Nesse álbum, ele faz uma espécie de releitura e homenagem ao grande disco dos Racionais Cores e valores, que saiu em 2014.
Essa é a segunda vez do Emicida aqui no 451 MHz. A primeira foi lá em outubro de 2020, no episódio #27, que foi gravado em plena pandemia.Não só ele participou do 451 MHz, como ele também estrelou a capa da nossa edição infantojuvenil de outubro, caracterizado como Gepeto, criador do Pinóquio. Todo mundo sabe que naquela época a gente estava vivendo uma epidemia de fake news no nosso país.
Para participar dessa conversa, eu convidei também o jornalista e pesquisador Arthur Dantas.O Arthur entende muito de rap e de cultura hip-hop. Ele escreveu, por exemplo, Racionais MC’s: Sobrevivendo no inferno que foi publicado em 2021 na belíssima coleção O Livro do Disco, da Cobogó — uma coleção que cada volume conta a história, a repercussão e os bastidores de um grande disco da música brasileira.
Bom gente, já vamos com a entrevista do Emicida, mas tem mais uma novidade: o programa de hoje marca o início de um novo quadro aqui do 451 MHz: o Livro Marcador. Nele a gente vai descobrir quais livros marcaram a vida de escritores e de outras personalidades da cultura e das artes. É a nossa chance de dar uma espiadinha nas referências dos autores queridos e, quem sabe, adicionar novos títulos à nossa lista de leitura. Então, fique até o final do episódio para saber qual foi o livro que marcou a vida do Gregorio Duvivier. E agora, vamos lá para a primeira parte da conversa com o Emicida e o Arthur Dantas.
Então, estamos aqui hoje com o grande Emicida, que retorna aqui ao 451 MHz. É uma honra muito grande receber esse grande artista brasileiro. Seja muito bem-vindo, Emicida, ao 451 MHz . Seja bem-vindo de volta.
E:
Muito obrigado, meu mano. A alegria é toda minha. Estou feliz aqui num nível que vocês não estão ligados. Eu leio muito a Quatro Cinco Um, eu conheci muitos autores através de vocês, desde aquela nossa capa.
PW:
Que legal, aquela maravilhosa capa especial que a gente fez em plena pandemia. Emicida interpretando ali o Gepeto, o pai do Pinóquio, no momento que as fake news estavam destruindo o nosso país. Foi muito lindo aquilo. Aproveito pra te agradecer de novo, cara. Muito obrigado. É nóis!
E:
Mano, é nóis! A partir dali eu passei a buscar a revista e aí eu me tornei assinante também, porque é o Brasil que eu acredito.
PW:
Que alegria! Muito obrigado, você me deixa até sem graça. Estamos aqui do lado com o Arthur Dantas, que é um especialista, pesquisador conhece a obra do Emicida. Trabalhou com ele e conhece o Sobrevivendo no inferno, que é um pouco do assunto que a gente tem hoje aqui, porque publicou o livro naquela linda coleção da Cobogó chamada O Livro do Disco. É isso, né? É isso. Sobrevivendo no inferno. Seja bem-vindo, Arthur, você também, aqui ao nosso podcast.
AD:
Muito obrigado, feliz de estar aqui com vocês. Também gosto muito da revista.
PW:
Beleza, obrigado. Então, vambora, vamos lá. Você não quer começar fazendo uma pergunta aí para o Emicida? Não sei se você já conversou muito com ele sobre esse trabalho incrível que ele… quando foi que saiu? Foi em 2025, Emicida? Mesmas cores & mesmos valores.
E:
Finalzinho do ano passado.
PW:
Um livro… Eu já chamei de livro, já chamei de livro. Mas é um disco, um projeto maravilhoso, que é uma releitura do trabalho dos Racionais. Querem os dois falar um pouquinho sobre esse trabalho?
E:
Eu acho que eu tenho preguiça, tá ligado, de escrever um livro. Fala aí, Arthur, quantas vezes eu já fui com as ideias malucas, pra cima de você, de livro.
AD:
Várias vezes.
E:
E aí, eu precisei de um processo muito longo de psicanálise pra entender que, assim, mano, faz seu rap que já tá bom. Se você fizer seu rap com esse apreço, você não precisa ficar fazendo quinze coisas, tá ligado? E aí, o que eu faço, mano? Eu ponho os livros que eu gostaria de escrever dentro dos discos, tá ligado?
Então, assim, já comecei daquele jeito, né? Eu vou fazer uma pergunta pro Arthur. Arthur, você é maluco, mano. Por quê? Obrigado, tio, a essa altura do campeonato, [por] acreditar nesse barato de literatura.
AD:
Cara, eu vi, inclusive, uma pesquisa recente — vocês devem tá a par disso, né —, que fala que mais de 80% da produção de livros no Brasil tá na região Sudeste. Tipo, isso é muito aterrador, cara. Assim, tipo, isso me deu um nó na minha cabeça, assim, sabe? Porque eu escrevi um livro, vou escrever outros. Eu fico pensando pra quem que a gente tá escrevendo, né?
PW:
E eu não sei se vocês viram que saiu uma pesquisa agora também, uma outra pesquisa, que aponta quem mais compra livro no Brasil. Você até podia falar: não, se é no Sudeste 80%, então também é [onde estão os maiores compradores]. Não, os maiores compradores de livros hoje são mulheres do Nordeste. Mulheres negras, mulheres de classe C do Nordeste.
Então é uma loucura isso, porque de fato estamos aqui no Sudeste produzindo livros aqui para os nossos vizinhos. No entanto, quem está lendo está ali do outro lado e a gente não está produzindo exatamente para essa população.
Falei sobre isso com a Djamila Ribeiro outro dia, [ela] que estava aqui com a edição comemorativa do Lugar de fala. E ela é uma pioneira na edição voltada para mulheres, mulheres negras. E colocou um monte de autor em circulação, autores inéditos. Então tem muito a ser feito também. Emicida, não foi pra mim que você perguntou, mas eu te respondo aqui um pouco, que eu acho que a alegria de ser editor no Brasil é que você ainda tem muita coisa pra fazer ainda. Tem muita coisa pra gente fazer, porque não tá feito o trabalho, né?
E:
Mano, eu tenho uma tendência de ser otimista. Eu tenho uma tendência de ver o copo meio cheio e, assim, quando eu olho pra um dado como esse, eu considero ele um dado aterrador de certa maneira. Mas eu também observo o tamanho da oportunidade que a gente tem, tá ligado? De pessoas que não entendem o potencial que é pegar esse bloquinho de papel colado, tá ligado?
E conectar seu pensamento, nesse nível de profundidade que só um livro oferece, com o de qualquer outro grande pensador da história, tá ligado? Tipo, é um nível de conexão existencial que na hora que essas duas pecinhas se conectarem num lugar como o Brasil, mano… Tá ligado? É tipo, assim, chuva de Nobel, mano.
PW:
Ainda não aconteceu, ainda não choveu Nobel, mas eu acho que a gente tá, de fato… isso que você tá falando, a gente tá observando acontecer, né? Com autores como o Jeferson Tenório, é um cara que foi ler o primeiro livro dele aos 21 anos, né? E hoje é um dos principais autores do país e tal. Mas, assim, vamos entrando um pouquinho no projeto. Eu posso chamar de disco, desculpa que eu sou “old school”. Como você chama isso, o projeto?
E:
Eu chamo de disco também, cara, porque eu também sou “old school”. Eu só finjo de jovem, é meu trabalho.
PW:
Muito bom. Fiz a pergunta sincera porque eu sou um tiozão aqui e não sou exatamente um conhecedor do rap, mas é muito livresco o trabalho. Porque, assim, eu até até fiquei aqui me preparando pra entrevista, vendo no YouTube com aquela série que se chama Lyric Video, né. Eu acho que é uma coisa comum, mas é maravilhoso porque você pode ler o disco de um jeito que não era, assim, que nem com os encartes das antigas, a gente fazia, né… você fica lendo em animação as letras e o livro… e o disco, quer dizer. Perdão, de novo o ato falho, é muito psicanalítico, né, assim, você falou de psicanálise.
É por isso que eu queria aproveitar essa deixa: aquele começo que tem, não sei se são áudios, falando do dia a dia, de comida, de coisas, de vida. É muito impressionante aquilo e nos joga numa dimensão de psicanálise mesmo, né, assim…
E:
É, mano, pensando no disco, se eu tivesse que definir ele em uma palavra, eu diria que a palavra dele é zen. Por quê? Tem uma coisa que é muito paradoxal, que é o seguinte: a melhor maneira, e talvez a única, de você lidar com um sentimento aterrador é você olhar ele de frente, tá ligado? Quando vira o rosto, você foge. Quando você foge, você se prende àquilo pela eternidade, saca?
Então, se eu encarasse aquilo [mais] como um fato do que como um erro da natureza — quando na verdade aquilo também faz parte da natureza, porque tudo é uma coisa só —, essa fragmentação que a gente produz, ela no final acaba se tornando a raiz do nosso próprio sofrimento. Então eu quis pegar compositores — tá ligado? — que eu admiro a minha vida inteira, tipo o Moacir Santos. Porra mano, eu só não sou maestro, tá ligado? Mas assim, meu grande norte e meu grande sonho é pegar a obra dele pra fazer isso, sacou irmão?
Porque, assim, é de uma sofisticação e de uma simplicidade que gera uma atenção provocativa eterna em quem se conecta, por isso que eu falo de olhar o Brasil como oportunidade da próxima década. Segundo a Unesco, é a década da cultura. Por quê? Está todo mundo maravilhado com as máquinas, aprendendo coisas, [o] que não é necessariamente aprendizado, são máquinas de quebra-cabeça muito rápidas. Pensar é uma outra coisa, entendeu? E pensar exige uma coisa muito característica de nós, que é sentir, não é calcular. Tá ligado? E fabulação de pensamento
AD:
Abstrato, né?
E:
Tá ligado, irmão? Tá ligado? Tipo, todo exercício que eu tô dizendo pra vocês vai chegar num resultado racional. Não foi isso que trouxe nós até aqui, sacou? Muito pelo contrário. Meu racional diria pra mim fazer qualquer coisa, menos rap. Então, esse é o tamanho do pensar com o coração, sacou? Porque o pensar com o coração diminui nosso eu. E quando eu diminuo o meu eu, mano, eu olho para todos aqueles artistas que compõem as inspirações da dimensão instrumental da música.
A gente está falando do Moacir, mas a gente também está falando de Chopin. Porque o Amaro Freitas [pianista que participa de várias faixas de Emicida racional volume 2] trouxe tanta coisa — tá ligado, mano? —, mas tanta coisa que assim eu fiquei brisando só de viver aquele momento, de sentir aquilo, só de existir naquela conversa. Não precisava nem ser protagonista dela, eu só queria ter visto aquela conversa.
PW:
Esse piano dele é uma coisa linda mesmo no disco. Ele traz uma.. e tem uma unidade toda que é meio trazida por ele, né? Isso com o trabalho dos Racionais, né? No Cores e valores. Como é que você pega ele e também devolve numa chave otimista, como você falou. Como é que você pega isso e interpreta, né, e devolve ao mundo de outra maneira.
E:
Pegando esse gancho, mano, de, tipo, toda essa erudição, né? Das inspirações eruditas e populares se fundindo ali, vários tempos, tanto no Amaro quanto em mim, saca? Então tem esse grau de densidade erudita — tá ligado? — com profundidade popular, sendo só a cama de conversas que qualquer um de nós troca no dia a dia. São a coisa mais trivial e ordinária, que é onde mora a verdadeira beleza, tá ligado?
Então, aquilo ali são vários fragmentos de encontros e desencontros, de diálogos que eu fui tendo com a minha mãe ao longo da vida, né? Às vezes a gente estava mais próximo, às vezes a gente estava mais distante, né? Mas as nossas trocas sempre foram num grau de riqueza muito intenso, sabe? E essa intensidade precisava ser evidenciada a partir do potencial artístico do Emicida de hoje.
E o potencial artístico do Emicida de hoje diz que, às vezes, a coisa mais importante que um artista pode fazer é ficar calado e observar. Tipo, já tava a conversa, não precisava de uma intervenção que não fosse a intervenção técnica que eu fiz, de editar, sacou? Eu não precisava entrar naquilo porque, na minha cabeça, mano, esse disco, ele é o extremo da escuridão e da dor e o extremo da luz e da beleza, tá ligado?
Tipo, então tudo isso é o que eu sinto quando eu coloco, por exemplo, o disco Nada como um dia após o outro dia, do Racionais, que é o disco solar do céu azul [na capa], né, mano? Da capa com aquele cadilac reluzente, tá ligado? O All Star com a sola limpinha, a calça com o vinco, tá ligado? Tipo assim, é um dia muito louco num rolê de malandro, tá ligado? E esse disco começa com um despertador, uma série de tiros na madrugada, um pneu cantando, o carro desaparece, depois de algum tempo entra o som da rua e da vida começando e começa a tocar um despertador, as primeiras palavras que os Racionais dizem na abertura desse disco são “benção, benção, mãe, bom dia”, né? Gente, é a benção de uma mãe na vida.
AD:
Leandro, eu quero retomar essa questão do zen que você falou porque eu tinha pensado na pergunta que eu te fiz agora, e aí eu fui olhar a capa do disco do seu álbum e aí tá lá a sua mesa de trabalho, despretensiosa, com vários livros aparecendo. Só que eu falei: “o Leandro é nerd pra caramba, né? Certeza que ele colocou esses easter eggs aí na capa que têm relação com o conteúdo do disco”. E aí eu vi lá o livro sobre zen, do Byung Chun-Han [Filosofia do zen-budismo], e aí eu pensei, tipo, que esse disco, pra mim, parece um caminho do meio em dois sentidos distintos.
Não é virulento e assertivo como o Emicida do “Velho Testamento”, apesar [de] que as pessoas que foram na audição do teu disco, todas saíram falando: “Não, o Emicida do ‘Velho Testamento’ voltou e tal”. Eu não acho que é isso, e não é nem exatamente terno como o Emicida do “Novo Testamento” porque… só para os ouvintes terem essa dimensão quando eu falo “Velho Testamento” e “Novo Testamento”, é que os fãs do Emicida colocam a carreira dele em dois lugares: tem o Emicida do “Velho Testamento”, que é o Emicida das mixtapes, e o emicida do “Novo Testamento”, que é o Emicida dos álbuns, é o Emicida aqui de agora.
E também, [em] outro sentido, é porque através dos interlúdios — que são exemplares do caminho do zen, do caminho do meio zen-budista —, [eles] exemplificam experiências da tua vida, mas sem criar nós de apego ou de aversão. Como que tua vivência no budismo informou tuas escolhas estéticas nesse álbum?
E:
Talvez uma das definições possíveis de nirvana seja qualquer momento que ele [o momento] não precisa de um antes e um depois. Ele, por si só, é capaz de te oferecer todo o brilho que uma existência pode ter. Sentir isso é, sei lá, ver o nascimento dos seus filhos, tá ligado? É ver o sorriso dos seus filhos, tá ligado? É, tipo, conseguir se sentir importante por fazer o bem de uma forma simples.
O que foi que o budismo me deu? Eu sempre fui um leitor muito ávido de mangás, tá ligado? Embora eu tenha tido minha primeira experiência com o budismo, ainda na infância, por causa de um tio meu que sugeriu pra minha mãe que ela frequentasse as reuniões da Soka Gakkai, tá ligado? Essas famosas reuniões de palestra. E era um bagulho muito louco, né?
Então, se você for ver, eu cresci num lugar onde as pessoas se levantavam, né? Pessoas iguais a nós, assim, que estavam conhecendo o budismo também. Iam até a frente das outras e eram grupos de cinco, dez, quinze, vinte, trinta pessoas… coisas muito pequenininhas, para os padrões de hoje. Porque agora todo mundo quer bater um bilhão, então tudo que não é um bilhão é ser derrotado.
A frase do Darcy Ribeiro nunca foi tão valiosa: “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Porque nesse lugar, mano, [de] que eu tô falando, se articula uma tensão muito foda, tá ligado? Que é a coragem de você levantar e falar do seu sonho na frente de vários dos seus iguais. Eu cresci nesse lugar, sacou? Vindo da macumba, depois fui pros evangélicos, saca?
Então eu atravessei três formas de interpretar o invisível na espiritualidade brasileira de uma forma muito profunda, entendeu? A macumba, o budismo e o cristianismo. Isso aí involuntariamente, mano, aumenta a qualidade da sua sinapse muito, porque eu precisei ler em profundidade a Europa, a África, a Ásia, enquanto eu vivia na América Latina, que me trazia a experiência de carne e osso do bagulho mesmo.
O que é ser um latino-americano no Brasil, tá ligado? Tipo, com toda a dor e com toda a sua delícia. Então, assim, a música “Finado Neguinho”, acho que ela fala desse lugar, mano. Porque, assim, só para não perder o fio da meada, falei que gosto de mangá, porque foi através do Lobo Solitário, do Kazuo Koike e do Gozeki Kojima, que eu conheci uma forma de literatura budista chamada koan. Os koans são narrativas curtas, que não necessariamente são racionais ou têm um sentido por trás, mas eles brincam muito com essa nossa necessidade de ver sentido em tudo, de estar preso a querer superar aquilo com a sua intelectualidade.
Então, quando o koan debocha do seu eu dessa maneira, quando você entende o valor desse deboche que ele faz da sua inteligência racional — tá ligado? —, a sua vida se abre pra beleza de um mistério que tá além da nossa inteligência. E esse mistério, ele só é articulado pela nossa imaginação. E tudo que um ser humano pode ter, mano, é a sua imaginação, tá ligado? Então, imagina, parça, que o budismo me plantou um koan na minha cabeça quando eu tinha quinze anos e eu não entendi, mano.Eu não entendi e, ao longo da minha vida, eu entendi de mil formas, tá ligado? E talvez eu tenha entendido agora, mas eu já senti isso algumas vezes na minha vida. E o koan era o seguinte: quando encontrar o Buda, mate o Buda.
Então esse koan, mano, ele se tornou minha utopia, tá ligado? Alcançar uma amplitude mental que fosse possível mesmo na presença do que é o meu maior desejo, tá ligado? O que é um bagulho muito difícil, porque, como dizem os chineses, né, mano, a mente, ela é um macaco errante, tá ligado?
Você olha aqui, ela tá ali, agora ela tá ali, agora ela tá ali, de repente você tá, mano, no maior inferno mental que você fala, caralho, como eu cheguei aqui, truta? Puta, tipo, essa foi a influência do budismo na minha vida, mano. E o que acontece é que quando eu retorno pra ele, eu retorno decidido a estudar do ponto de vista teórico, porque é uma forma de manutenção da espiritualidade que abre três caminhos muito interessantes, que eu posso interpretar ele como uma religião.
Eu posso interpretar ele como uma filosofia ou eu posso interpretar ele e praticar ele como um estilo de vida Tá ligado? Um não antagoniza com o outro, muito pelo contrário Eles podem se complementar e sempre abrindo espaço Pra que, por exemplo, putz… nesse ponto aqui o cristianismo me serve melhor, tá ligado? Ou nesse ponto aqui o candomblé me serve de maneira melhor ou, nesse ponto aqui, o ifá, meu, me acompanha de uma maneira melhor. Dessa forma, a qualidade de sinapse que uma realidade como a do Brasil pode oferecer é muito ampla, mano, tá ligado? Tipo, por isso, sei lá, eu acho, por exemplo, que é por isso que o avião foi inventado no Brasil.
PW:
A gente tem muita caixa de ferramenta à nossa disposição, né? Como é que isso deságua num projeto como esse? Porque você puxou, então, leituras de 2000 e… Quando você falou de 2000 e de quando você tinha catorze anos, é isso? Quinze anos? Isso. E isso deságua nesse projeto de agora.
Como é que isso vai se constituindo como um projeto? Como é que é o seu processo de criação mesmo? Você começou esse trabalho quando? Daria para você dizer isso? Daria para fixar, mais ou menos? Porque é um trabalho que tem algo quase de… parece quase uma ópera, é um negócio… dá um trabalhão. Eu posso imaginar, leva um tempo longo pra compor e acertar tudo, né?
E:
Mano, eu acho que eu me considero sempre em processo. Então, por exemplo, o AmarElo [álbum lançado por Emicida em 2019] ele é uma parte parte de uma história que eu consigo organizar naquela emoção, naquele momento. Da mesma forma, sobre crianças, foi aquilo… Mas se você prestar atenção no que é o fio principal da história que o MC dá conta, talvez a grande diferença seja a quantidade de tensão que eu consigo articular na minha forma de contar a história, tá ligado?
Então, ao mesmo tempo que é ancestral, ele também fala de futuro. Ou, é louco, porque às vezes uma dimensão racional tá num lugar e a emocional tá na outra, então ele te faz sentir sensações que são antagônicas, até se você só interpreta pelo prisma racional, sabe? Então, ao mesmo tempo que reconhece a capacidade da vida preta doer no Brasil, também mantém um horizonte com o sol aceso da celebração, tá ligado? A dor não pode apagar esse bagulho, saca?
Ao mesmo tempo que eu só tô contando uma coisa que se passou na minha vida, na minha pele. Ele também tem uma dimensão coletiva pra caralho, tá ligado? Porque o coletivo, no final, é só o agrupamento de várias pedrinhas de areia, tá ligado, maninho?
AD:
Isso é legal — o que você tá falando — porque eu tive uma dimensão, Leandro, que nesse disco o substrato dele é a memória negra. Em qual sentido? Porque você rememora Racionais [MC’s], você rememora sua mãe, você rememora momentos vividos com seus iguais, como na música que vocês estão na praça. Nada disso é exatamente novo, como já te falei.
Assim como o gigante Martinho da Vila você trabalha numa síncope que conjuga sempre tradição e renovação, até porque é impossível não enxergar como esteticamente esse trabalho traz ventos novos ao gênero rap também. Eu penso nesse sentido. Você tinha dimensão dessa exaltação da memória negra no que diz respeito, sobretudo, aos últimos trinta anos do Brasil?
E:
Você pergunta, Arthur, se eu tinha dimensão disso durante o fazimento dele ou se eu tinha noção disso ao longo da minha vida inteira? Eu acho que durante o disco, mano, durante o disco eu tinha. Durante o disco foi na maldade, tá ligado? E na maldade porque, assim, olhando aquela brisa que eu falei no começo, né, mano, você pode conectar sua mente com qualquer grande pensador numa profundidade — tá ligado? — onde você nem sabe se aquele pensamento é dele ou se é seu. E você estabelecer essa qualidade de relação é um negócio maravilhoso, tá ligado?
Então, por exemplo, a hora que a rapaziada começar a pegar todos os easter eggs a respeito disso… tipo, e eu tenho a plena paciência do mundo, tipo, eu vou dar algumas indicações ainda, tá ligado? Mas, assim, a quantidade de sinapse que tem ali dentro, fruto de uma pesquisa que atravessa a obra como um todo, mano, que é tipo… ela é uma atenção dialética mesmo, tá ligado?
Ela faz o cérebro se transformar, tipo, além de ser muito grato por conseguir fazer isso, pensar pra mim nessa escala é um luxo, tá ligado? A ponto de conseguir sintetizar isso numa rima. E acho que o rap sistematicamente oferece pra nós as ferramentas pra brincar com a intelectualidade humana nesse nível. Tipo, assim, não só eu consigo fazer isso, como eu consigo fazer isso dançando, que é uma característica do hemisfério Sul. É incrível isso.
PW:
Ouvir você falando aí… você vai juntando muitos fios que estão puxados há muito tempo, muita história. Essa questão da psicanálise, você faz psicanálise, Emicida? Você tem essa prática? Você frequenta consultório de psicanálise?
E:
Eu demorei muito, me interessei há algum tempo, mas demorei muito para encontrar uma profissional, mano, que conseguisse me provocar nesse lugar. Quem me falou uma parada uma vez, há muito tempo, foi o João Vicente, tá ligado? Porque ele falou assim: “eu sei como é que deve ser foda pra você ir trocar uma ideia nesse lugar”, tá ligado? Tá sujeito a estar aberto nesse lugar e, tipo, mano, é mó treta, mas você… aí ele fez uma zoeira, falou: “você é um cara filho da puta, porque você vai ter que encontrar primeiro alguém inteligente pra caralho.”
PW:
Imagina fazer a psicanálise do Emicida… não é brincadeira, né? É igual o Caetano Veloso. Outro dia eu li um depoimento dele sobre a psicanálise, uma época que ele fazia com dois psicanalistas ao mesmo tempo, separadamente, não eram dois ao mesmo tempo, na mesma hora. Mas deve ser uma experiência riquíssima, porque é das grandes experiências intelectuais da vida, né, a psicanálise.
Para além da questão individual, pessoal, é uma descoberta do mundo de uma outra forma. Eu vi muita psicanálise no disco aqui. Eu acho que esse legado negro que o Arthur traz, ele tem uma dimensão psicanalítica também, porque durante uma época a psicanálise foi muito elitizada, ela não era… imagino que na periferia demorou a chegar, a não ser com algumas exceções e tal. Então, quando isso se produz, é muito rico, é muito legal a gente imaginar essa dimensão e tem grandes intelectuais que falam disso, [Frantz] Fanon e outros.
E:
Barato o que você falou. Ele é muito foda porque… o Fanon é o quê, mano, se não radical por tentar entender o mundo a partir da perspectiva de onde ele nasceu, tá ligado? A quantidade de choque que isso gera no mundo que tá em volta, tá ligado, mano? Tipo, não é nem o que o cara tá procurando racionalmente no começo. E eu acho que o disco tem, de fato, essa dimensão, porque eu acho que ele tenta tocar na quantidade de tensão que o brasileiro articula diariamente para se manter um povo com a energia que tem. Saca, mano?
Tipo, um povo com a reluzência que tem, um povo que reproduz em muitas dimensões da existência a exuberância da sua flora tropical, mano. Saca? Então assim você pega o escuro do escuro obscuro, onde é esse lugar que é o lugar primeiro onde as pessoas interpretam a obra dos Racionais, tá ligado? Mas pensa comigo, mano, que é daquele escuro que você adquire uma noção absurda de capacidade de reconhecimento da importância da mais pequena luz.
Deus te abençoe, saca? Durante muito tempo, mano, eu morei num barraco sem janela, saca? Tipo, hoje minha casa mal tem parede, entendeu? A luz importa pra caralho. Alguns anos atrás, o Dilated People, né, o grupo de rap de Los Angeles, lançou um disco chamado Directors of Photography, tipo, diretores de fotografia, tá ligado? E o Evidence, que é um dos meus rappers favoritos, ele tinha enfrentado uma situação muito difícil e tava ali em volta com essa emoção, porque ele tinha perdido a esposa por um câncer, mano.
Tipo, e o cara faz um disco de rap abrindo o coração nesse lugar. Porque, tipo assim, fazer rap é o quê, viado, se não surfar na psique, entendeu? Tipo, mano, tô dropando nas ideias que tem aqui dentro. Só essa dimensão do rap, tá ligado, já devia fazer ele estar no SUS.
PW:
É a cura pela palavra, como se diz na própria psicanálise, né? O discurso livre.
AD:
Você [Emicida] falou em uma entrevista recente que o rap era o melhor da inteligência das ruas. E tem uma coisa que é muito louca, que o Brasil nos últimos anos vem descobrindo que você é um intelectual também. Além de ser um rapper incrível que você é, você é um cara que pensa o mundo, pensa as coisas e tal.
Como que você faz? Você tem um esforço consciente para equilibrar a urgência das ruas com o pensamento temperado de um intelectual. Como você faz para construir essas duas dimensões? E eu acho que esse disco está muito nesse lugar porque quando você faz, por exemplo, a faixa “Us memo preto zica”, que você reconstrói através de colagens, você pega trechos de frases dos Racionais de diversas épocas e constrói uma letra nova que funciona como uma letra nova, realmente você está vendo uma ideia nova a partir daquilo.
Eu até lembrei da comunidade do Orkut, daquela comunidade que tinha… “Pra cada fase da vida, tem uma frase do Racionais”. Parece que me soa que você fez até como uma brincadeira, deve ter começado a pensar nessa música como um exercício, como uma brincadeira, até chegar no resultado dela afinal.
E:
Todas elas, mano, tipo, com exceção da primeira, todas eu interpretei não é nem como só um exercício, [mas] como um jogo, tá ligado? Eu achei divertido jogar. Então, aquela coisa de voltar pro que eu li aos quinze anos, eu também voltei pro que eu ouvia aos quinze anos. E aos quinze anos eu ouvia muito Racionais, saca? De maneira que, tipo assim, eu não preciso ensaiar, mano. Eu sempre tô pronto pra cantar Racionais. Eu preciso ensaiar as minhas, sacou?
Foi uma coisa que mexeu muito comigo, né? Essa coisa de olhar pro que me formou, eu também, tipo, trago meus questionamentos — tá ligado? — altos e baixos da vida. Eu também tava num momento ali de me questionar, tipo, assim: por que que eu gosto do que eu gosto, como que eu construí a dimensão que eu mais gosto de mim, tá ligado?
E, nesse sentido, mano, eu acho que a quantidade das metáforas que o Racionais gravou em nós e provocou em nós, fazendo a gente articular razão e imaginação numa amplitude tão grande, por causa da intensidade com a obra que… assim, eu conheci uma professora de Harvard através do livro da história do Projeto Rappers, do [instituto] Geledés, tá ligado?
O livro que tem homenagem ao Projeto Rappers abre com uma frase de uma intelectual chamada Marcyliena Morgan [criadora do Arquivo de Hip-Hop da Universidade Harvard]. É uma frase longa e eu vou resumir ela porque ela basicamente diz o seguinte: “Eu não queria simplesmente que a cultura hip-hop tivesse o respeito do mundo acadêmico, eu gostaria que o mundo acadêmico tivesse a sensibilidade de quão é importante se inspirar na cultura hip-hop”, saca, mano?.
Esse é o tamanho do hip-hop pra mim. E, depois de frequentar o ambiente acadêmico e, tipo, foi foda porque eu fui ter a honra, né, mano, de ir lá pro Centro de Estudos Sociais de Coimbra. Foi minha primeira experiência como, entre muitas aspas, docente. Tá ligado, mano? E tá lá. Eu lembro que eu comecei a trocar ideia. Eu saía pra almoçar ali com a rapaziada do centro de pesquisa e, assim, os primeiros três almoços eu me sentia um bebezinho, mano, tá ligado? Porque o nível das ideias tava num lugar, do ponto de vista técnico, que eu fiquei… tipo, assim, eu só tinha coisas que eu achava — tá ligado? —, na sacola. Só que, assim, isso era a primeira semana, mano, eu tinha quatro meses, mano, pra trampar com os caras, saca?
Aí eu voltei pra casa, irmão. Eu lembro que eu comecei a montar uma biblioteca lá em Portugal, até falei pra Elizandra Mjiba [escritora e poeta, também conhecida como Elizandra Souza]: todo lugar que eu paro nasce uma biblioteca impressionante, tá ligado? Então, eu comecei a estudar muito mais porque o ambiente universitário me obrigou a elaborar o que eu acredito que precisa ser defendido em um nível que as ruas me testaram de mil formas, mas elas não me deram essa dimensão estrutural técnica que, sinceramente, mano, é mó boi, tá ligado?
Tipo, assim, depois de viver o que nós vivemos, parça… Mano, entendeu? Antonio Candido tá facinho, tá ligado? Pegar o Euclides da Cunha, atravessar de uma ponta até a outra, tá facinho, mano. Entendeu? Consigo fazer dançando agora. É um lugar, mano. E, por isso, me torna ainda mais otimista, sabe, mano? A tentar, por isso me provoca nesse lugar de tentar ler o Racionais de uma maneira solar, sacou?
AD:
Você esses dias postou uma foto de uma capa de um trabalho acadêmico sobre o seu trabalho, não sei se era um TCC, um mestrado, não sei o que que era. Mas aí eu resolvi pesquisar na internet, eu vi que já tem vários trabalhos acadêmicos sobre o seu trabalho. Se [você] acompanha, como é que é, o que você acha da universidade falando lendo da rua?
E:
Mano, eu acho que é o retrato maravilhoso do como a nossa rapaziada, mano, rapaziada preta, tem não só ocupado o ambiente universitário, como produzido conhecimento a respeito de seus amores e seus sonhos, seus desejos de transformação. Esse projeto, mano, ele não é um dos únicos, não. Tem uma amiga minha que estuda só isso. A tese dela é sobre como o Emicida se tornou uma referência bibliográfica para toda uma comunidade, tá ligado?
Então, hoje, se eu não me engano, está entre 1.500 artigos acadêmicos sobre o Emicida, que é um número bastante expressivo, né? Outro dia aconteceu uma parada muito engraçada. Eu fui levar minha filha num pico, aí na hora tava na fila do caixa e uma menina disse assim: “Nossa, Emicida, eu citei você no meu TCC”. E aí eu falei assim: “Nossa, da hora, obrigado, uma satisfação”. Aí falei: “O que é que era o tema do seu TCC?”. Aí ela falou assim, mano: “É um bagulho muito cabeçudo de química você não vai entender não”.
Então, assim, ao mesmo tempo que ela reconhece a importância do Emicida nessa dimensão intelectual, ela também reconhece que uma das especificidades do Emicida é outra, tá ligado?
AD:
A crítica literária Louisa Yousfi fez um livro que, eu não sei se você viu, se chama Permanecer bárbaro, que é um livro que saiu recente agora. Ela é uma franco-argelina, ela diz que um dos traços mais estonteantes do rap é, cito entre aspas agora: “a faculdade de compor combinações inéditas, de produzir obras de uma heterogeneidade aberrante”. Tipo, esse disco seu em particular, parece que essa afirmação foi feita pra ele, né?
Não… esse é o elogio mais bonito do mundo, sobretudo se você pensa eu não li esse livro, mas eu comprei ele. Ele tá aqui na pilha, tem uma pilha que tá grande aqui, mano, tá ligado? Mas, assim, a premissa já é fascinante pra mim. Ela já é deliciosa, tá ligado? Porque lembra daquela… a série do Raoul Peck e do Sven lá [Extermine todos os brutos], do parceiro dele, que eu infelizmente não lembro o nome agora [Sven Lindqvist]. Se eu não me engano, era sueco. Mas que tem o livro também, né? Exterminem todos os bárbaros, tá ligado? Exterminem todos os malditos, tá ligado? Tipo, assim, o que é permanecer bárbaro perante uma sociedade que tem potencial de alcançar tamanha abstração que ela ignora uma criança passando fome no farol. Entendeu?
Permaneça bárbaro, irmão. Sacou? Permaneça selvagem. Porque é justamente essa característica que vai proteger a humanidade. Tá ligado, mano? A inteligência suficiente para olhar tamanha aberração social, que é existir fome no século 21, e reconhecer que isso é a coisa mais desumana que a gente pode produzir enquanto espécie.
Então, um elogio como esse vindo da Argélia… A Argélia foi o laboratório da revolução, mano. Saca? Vale dez pontos. Não é um ponto só não. Isso aí vale dez pontos. O rap é literalmente isso, mano, tá ligado? É o nível de… eu acho que as crianças tinham que ouvir na escola, entendeu? É uma forma de organizar as ideias, tipo, assim, durante muito tempo eu fiquei repetindo isso pros camaradas, tá ligado? Eu falava, mano, hip-hop é tipo o budismo do gueto, tá ligado?
Hip-hop é o budismo do gueto. Por quê, irmão? Porque é um exercício de autoconhecimento, mano, tá ligado? E não tô falando de você ser mercadologicamente famoso, reconhecido, relevante, não. Eu tô falando do que o rap fez por mim como ser humano. Como ser humano, tá ligado, mano? Que teve a capacidade de olhar por redor, independente do que tivesse, mano. E olhar pra catástrofe e dizer, eu não sou a catástrofe. Não negociar a minha humanidade perante nenhuma aberração que a sociedade pode produzir.
PW:
Ô, Emicida, mas o budismo, ele chegou a ser também cooptado pelo capitalismo, né? Virou produto de consumo, virou… e o hip-hop chegou aos quarenta anos, teve uma exposição maravilhosa no Sesc…
Você acha que existe um risco de institucionalização do hip-hop? De ele perder alguma força? Eu não acho que esteja acontecendo isso de modo algum, mas como que você, como um grande artista, vê essa questão da institucionalização de um movimento revolucionário? Chega uma hora que as coisas, você falou, daqui a pouco já está sendo estudadas na escola e como é que isso permanece sem perder a força revolucionária?
E:
É a grande pergunta da esfinge para a própria cultura hip-hop, sacou? Porque carregar essa verdade até aqui também aumenta, em muito, o sarrafo do desafio de se institucionalizar. Mas eu acho que esse desafio está à altura das sinapses que o hip-hop produz. Então, eu não estou dizendo que existe uma única forma, mas eu acho que vai haver também a dimensão institucionalizada dessa cultura.
Essa vai ser uma das frentes. Por quê? A partir do momento que se produz conhecimento na magnitude que a cultura hip-hop produz, seria um imenso desperdício que isso se perdesse em nome da gente ser bem-sucedido única e exclusivamente na dimensão que a maior parte das pessoas conhecem, que é através da indústria fonográfica dentro da música rap, tá ligado?
Isso aqui é uma porta de entrada pra um estilo de vida. Pra uma forma de olhar pro mundo e entender ele como casa, tá ligado? E aí você volta, tipo: mano, isso aí, eu vi ontem essa ideia e eu achei muito mil grau, mano.
Que, tipo, economia é do grego, vem do grego. É a administração do lar, mano. Tá ligado? E, tipo, o que é a cultura hip-hop se não cuidar bem do lugar que eu moro, reconhecer nós que nem uma comunidade, toda a sua insurgência, toda a insurgência da cultura hip-hop está em olhar para a realidade do mundo ocidental e dizer para ele: não abrirei mão dos meus valores coletivos, não abrirei mão de reconhecer o valor da comunidade.
Algo que, inclusive, tem sido, de novo, ou talvez tem sido, como nunca, uma urgência de saúde. Precisamos restabelecer o valor de uma comunidade, sacou? Não vai… A era do individualismo é uma bananeira que já deu fruto muito.
PW:
Bom, você também está assinando um livro agora com uma economista que é uma das maiores do mundo, que é a Esther Duflo, que ganhou o Prêmio Nobel e tal [Emicida lançou, em coautoria com Duflo, Volta por cima: vocação e trabalho eConta comigo: estratégias para a redução da pobreza]. Queria saber: que livrinho é esse? É um livro infantil, é uma das partes importantes da sua produção, literatura infantil. Esse livro, o que é? O que vocês aprontaram juntos e como foi escrever junto com a Esther Duflo? Como é que vocês se entenderam, como é que foi a conversa?
E:
Mano, primeiro foi uma honra,foi uma honra sem tamanho. Eu, de verdade, eu conhecia a Esther por um… alguns artigos, assim, que eu tinha pego, passado os olhos e tal. Depois eu vi os livros, eu não tinha lido todos, eu li o A economia dos pobres, se eu não me engano. Acho que é esse, mas nunca na intenção de… tipo, você não acha que você vai ler o Kafka e vai trombar o Kafka, vão te ligar pra falar: “ô mano, o Kafka quer trocar uma ideia com você”, tá ligado?
E aí passaram-se alguns meses e tal da minha leitura e eu já tinha pirado na tese dela de desenvolver pequenos laboratórios de políticas públicas, tá ligado? Eu acho que isso, inclusive, se eu não me engano, foi o que fez ela ganhar o Nobel, né? Aí, assim, a rapaziada me ligou e falou que ela queria saber se eu estava interessado em ajudar a traduzir os conceitos dela para o Brasil.
E a rapaziada, visivelmente, assim, achando que eu ia falar não. Tipo, será que ele vai pra pular nesse bagulho? Tipo, mano, foi um processo delicioso, mano, de troca. Me surpreendeu muito como a Esther é inteligente e humana. E essas duas características, elas não são antagônicas no comportamento dela, na forma dela de pensar e olhar pro mundo, tá ligado? Às vezes, as pessoas têm uma imagem disso que se chama de intelectual, que ele tá distante da realidade, enclausurado no bunker dele. E eu acho que a Esther sintetiza uma ideia que, cada vez mais, se cristaliza em mim: de que a inteligência de verdade é compaixão, tá ligado? A inteligência de verdade é quando você consegue minimizar o seu eu, colocar ele em stand-by e conseguir se colocar no lugar do outro, tá ligado?
E entender, conseguir ir além de você. Acho que, inclusive, a inteligência do ser humano é mais ampla quando ela pensa em termos existenciais, não termos proprietários, pura e simplesmente. Um conduz a gente a ser cada vez mais amedrontado, reacionário, defensivo, tá ligado? E o outro — tá ligado, mano? — oferece uma gama de ferramentas tão ampla, tá ligado? Mas tão ampla que o único resultado possível é você permanecer otimista, tá ligado?
Porque o tempo histórico da parada… não seria justo condenar o estado das coisas no Brasil com um tempo histórico desse. É um país jovem de fato, entendeu? E outra: eu nunca conheci alguém realmente inteligente que não gostasse do Brasil.
AD:
Tem um lance do Caetano [Veloso] que ele fala que filosofia, todo mundo sabe, que só é possível em alemão. Mas se você quer comunicar uma ideia em português, que se faça uma canção. Tipo, você comunicou a ideia pra caramba nesse disco, cara. Tipo, o que tava mexendo no teu universo, quais eram as grandes ideias que estavam mexendo com o teu pulso, assim, que foram parar no disco?
E:
Mano, eu recebi um convite, tipo, que foi uma honra. Foi prefaciar um livro do João Cezar de Castro Rocha, tá ligado? E é um livro chamado Exílio como forma [:Gonçalves Dias e o dilema brasileiro], um livro onde ele se debruça não só sobre a obra do Gonçalves Dias, mas em específico com o olhar para a “Canção do exílio”, tá ligado? A qualidade da crítica que o João Cezar de Castro Rocha fez da “Canção do exílio”, colocando em perspectiva tanto a jornada do Gonçalves Dias no seu momento histórico, a idade dele e a idade do Brasil, né? A gente tá falando de um cara, mano, que acho que tinha… era dois anos mais velho que o Brasil no momento que a “Canção do exílio” foi composta, tá ligado?
Então, imagina o que é você ser mais velho que o seu país, tá ligado? Esse formato que ele usou pra estruturar a “Canção do exílio” eu nunca tinha visto de uma forma tão ampla, até ler esse livro. E eu quis me provocar a gerar um nível de amplitude, me provocar a tentar gerar um nível de amplitude interpretativa daquele tamanho, tá ligado, mano?
Então, o João Cezar pegou o que ele tava estudando e você até reinterpreta a “Canção do exílio” a partir das informações que ele traz, porque, por exemplo, “Canção do Exílio é composta no momento em que o Gonçalves Dias estava estudando um ano de alemão, ou seja, o cara estava estudando alemão durante um ano e já deu uma saudade do Brasil daquele tamanho, pra você fazer um poema daquele ele, tá ligado?
O cara: meu Deus do céu, irmão, preciso voltar pra casa. I wanna [go] back to my parças. Sacou? Então, eu fiquei olhando essa situação, mano, e na análise dele tem um ponto que é muito valioso, que é o fato do Gonçalves Dias ter extraído conscientemente qualquer tipo de adjetivo e usar a extração do adjetivo como subterfúgio de provocação, tá ligado? Que é um recurso muito utilizado pela poesia brasileira, tá ligado, mano?
De maneira que, sobretudo no cancioneiro, né — você mencionou o Caetano e faz todo sentido —, é na canção popular que a gente alcança o coração do povo, tá ligado? Por isso o Dorival Caymi vai perguntar pra você: você já foi à Bahia, nêgo? Não? Então vá. Não cabe no adjetivo. Você precisa ir até lá, mano. Sacou? É o Sabotagem falando que o rap é compromisso, não é viagem. Entendeu, tipo, do que ele tá falando? Que tipo de compromisso? Que tipo de viagem? Que contradição foi essa que ele criou a partir dessa elaboração, tá ligado? Você vai precisar entender o que é o rap, saca?
Então, essa leitura da paisagem natural do Brasil, mano… tá ligado? Foi o que ele usou pra fazer com que as pessoas olhassem pro Brasil. E quando você olha pro Brasil no tempo histórico do Gonçalves Dias, quem que vai estar entre você e a exuberância? A escravidão. O colonialismo. Tá ligado, mano? A desumanidade da escravidão. Tá ligado? Em uma das suas faces mais cruéis, por ser um país que recebeu metade das pessoas que foi pro continente americano. É essa dor, que estava sendo imposta aos africanos, que se apresenta no meio do desejo de conhecimento [em] que um Gonçalves Dias nasce. E ele nasce laureadão, inclusive pela colônia.
Tá ligado? Esse poema já nasce aplaudido. Ele é muito lindo. Mas entre a beleza do poema e a sensibilidade do poeta, tal que levou ele pro exílio: a luta por um mundo melhor. Tá ligado? Então ele escreve lá de fora pra gente sentir aqui de dentro. E a gente tem essa experiência na arte brasileira como um todo, né? Quando a gente vai pegar, uns anos à frente, pega um cara que foi super influenciado por ele, o Machado de Assis, mano. Saca? E o Machado vai pegar o quê? Essa paisagem criada pelo Gonçalves Dias.
E ele vai tirar um retrato da paisagem psíquica daquele lugar, né? Do que é invisível dentro daquilo que estrutura as relações do Brasil, as contradições dela, as ironias dela, a dor dela, a sutileza dela, a beleza dela, mas o que também ela pode produzir de horrível está ali. Tudo isso, mano, está pingando no Quincas Borba, saca? Tipo, talvez o pior verme não seja o que come o cara no [Memórias póstumas de] Brás Cubas, saca?
Essa brisa do realismo, né? O rap é muito associado ao realismo, né? A crônica das ruas e tal. Mas essa dimensão do realismo — tá ligado? —, que é tipo essa geração do Machado de Assis… Machado de Assis, Júlia Lopes de Almeida, tá ligado? Que é tipo assim, mano, eu vou falar de uma janela, tá ligado? Mas vai ter tanta coisa entre você e a janela que, tipo, sua orelha vai sair pegando fogo daqui. Sua cabeça vai explodir, entendeu?
Tipo, então eu acho que esses dois caras [Machado de Assis e Gonçalves Dias], eles constroem o que é a nossa cultura, mano. Entendeu? É o mundo interior, a paisagem interior do Brasil e a paisagem exterior do Brasil desenhada com duas canetas majestosas, saca? E aí no final ainda vem, mano, tipo, daqui de São Paulo, vem meu amorzinho que é Mário de Andrade, tá ligado, mano?
Porque, aí, o Mário de Andrade vai pegar tudo isso que veio antes e fala: mano, isso aqui não só é muito interessante do ponto de vista de pesquisa, como precisa orientar a política pública. Então, assim, a ideia vai ser materializada em produto artístico, vai ser estudada como material técnico e vai desaguar numa ferramenta de transformação do mundo, tá ligado?
O Mário de Andrade levou até esse lugar e, tipo, assim, nada me tira da… todos têm suas versões, eu tenho a minha, mano. Eu acho que o que adoece o Mário de Andrade é o racismo, tá ligado? É dedicar uma vida a elaborar um evento amparado do ponto de vista técnico e social, mas por uma razão política, ver a homenagem do cinquentenário da abolição e, em vez das frentes e organizações negras, ser reduzida a uma homenagem à princesa Isabel, pura e simplesmente. Isso tem seu valor, mas isso não pode sobressair ao tamanho do que foi a luta do Brasil pelo fim da escravatura, tá ligado, mano?
E quando a gente personifica num único personagem, dessa maneira meio mítica, a gente também tá corroborando com uma prática da superestrutura do pensamento brasileiro, que é essa de tirar o movimento social e mitificar aquele que é a exceção da regra, muito pelo contrário. E é por isso.. isso eu aprendi com o Brown, tá ligado? Ele falou pra mim uma vez esse bagulho, falou: mano, a coisa que eles mais tentam é fazer eu sair daqui, tá ligado? Mas eu tô tentando também convencer esses arrombados que, mano, quem quer me ver vitorioso não pode querer me separar daqui, tá ligado? Então, assim, mano, não é ser um ponto acima da média, tá ligado?
Tudo isso aqui é sobre oportunidades. Eu tive a oportunidade de ir para uma biblioteca. Eu tive a oportunidade de abrir um livro certo no momento em que eu necessitava da ideia certa. Me cercar de livro foi a coisa mais inteligente que eu pude fazer — e eu pude entender que inteligência era aquilo. Quantas pessoas não têm essa oportunidade, tá ligado, mano?
Tipo, o que eu tava brisando era nesse tamanho de pensamento brasileiro quando eu fiz o disco, sacou? Que é o que eu acredito: que pra uma expectativa como a que se tem num artista Emicida, por parte dos fãs… eles são exigentes pra caralho, tá ligado? Mano, meus fãs, eles me trombam, tio, eles não vêm tirar foto, eles vêm sentar pra nós continuar as ideias, tá ligado? É tipo assim, mano: você não tá ligado na Índia? Sabe o que tava acontecendo nesse período?
PW:
Demais, cara, isso é coisa de professor, né, dos grandes professores que os alunos vão lá, a conversa não acaba. A nossa, infelizmente, tá acabando aqui porque o Emicida é um cara cheio de compromisso, vai ter que ler agora Gonçalves Dias, uma série de coisas. Mas que beleza essa resposta que mostra que vai de Gonçalves Dias a Mano Brown, né? Esse arcabouço literário aí, essas ideias que inspiraram. Muito bom, cara, muito obrigado por aqui, por essa entrevista.
Obrigado, Arthur, por contribuir aqui com o 451 MHz, estar junto comigo aqui. Eu, então, falei as besteiras, o Arthur perguntou as coisas certas. Muito obrigado, Elicida e Arthur Dantas. Valeu demais. Muito obrigado, gente, até a próxima. Então, vai voltar, agora já é a segunda vez, agora já ficou no comitê, falou? Abraço. Obrigado. Tchau.
E antes de me despedir, eu quero passar para o nosso novo quadro do 451 MHz, o Livro Marcador. Nesse quadro, a gente convida grandes autores e grandes leitores em geral para compartilhar uma leitura que marcou a vida deles. Pode ser um livro lido na infância que mexeu com a relação deles com a escrita, que fez eles mudarem de opinião sobre algum assunto ou que fez parte de algum momento difícil.
No episódio de hoje, quem revelou para a gente qual foi livro marcador da vida dele é o ator e escritor Gregorio Duvivier. Ele é autor de Aos pés da letra, que foi publicado pela Companhia das Letras em maio deste ano. A gente falou com ele em junho, minutos antes da participação dele na última edição d’A Feira do Livro, o festival literário que a Quatro Cinco Um organiza em parceria com a Maré Produções todo ano, no feriado de Corpus Christi, em São Paulo.
Gregorio Duvivier:
Eu vou falar então do.. ai, tantos que eu não sei muito como começar. Matilda, [do] Roald Dahl. Quando eu era pequeno, amava e me identificava com ela porque eu era apaixonado por livros e era meio “excluidinho” — assim, a dificuldade de lidar com as pessoas. Me ajudaram muito a atravessar a infância o Matilda e todos os livros do Roald Dahl — eu sou apaixonado por ele. Todos — o James e o pêssego gigante era incrível, A fantástica fábrica de chocolate… Está aí alguém que escreveu para a infância com graça e humor, com respeito à criança.
RODAPÉ
Siga o 451 MHz e ouça no seu aplicativo favorito: Apple Podcasts, Spotify, Deezer, Amazon Music, Castbox, YouTube. Saiba mais sobre este episódio e confira outras entrevistas sobre grandes livros e grandes autores aqui.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fábio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Para falar com a equipe: [email protected]

