Repertório 451 MHz,
Escrita na estrada
Calila das Mercês fala, na coluna Lado Beber, sobre as viagens e vivências que deram origem a Nódoa, sua estreia no romance
21ago2026Está no ar o 209º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a coluna Lado Beber recebe a escritora Calila das Mercês, que fala sobre Nódoa (Companhia das Letras), sua estreia no romance. Escrito durante viagens e vivências da autora pelo interior do Brasil, o livro é ambientado nos anos 60 e sua trama é povoada por gerações de mulheres em deslocamento.
A conversa com a poeta e colunista Bruna Beber passa pela infância de Calila das Mercês na cidade de Conceição do Jacuípe — conhecida como Berimbau —, no Recôncavo Baiano, por sua relação com as escritoras Conceição Evaristo e Tatiana Nascimento, e por casos de quase morte que aparecem no romance. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet.
Também poeta, jornalista e pesquisadora, Calila das Mercês estreou na literatura com a coletânea de poemas Notas de um interior circundante e outros afetos (Padê, 2019). Com o livro de contos Planta oração (Nós, 2022), foi indicada ao Prêmio Jabuti. Doutora em literatura pela UnB, supervisionou, na USP, grupos de estudos em escrevivência, sob coordenação de Conceição Evaristo. Além disso, foi curadora da Festa Literária Internacional de Cachoeira (BA) em 2024.

A conversa com Bruna Beber começa com a escritora transportando os ouvintes para o Recôncavo Baiano, onde viveu até os vinte anos. Voltando à infância em Berimbau, ela lembra da primeira vez em que se emocionou com a poesia, ao ler num livro didático a letra da canção “Maria, Maria”, de Fernando Brant e Milton Nascimento.
Passeios de bicicleta, escapadas para a zona rural e idas com o pai até a única banca de revistas da cidade para comprar o jornal de domingo inspiraram a jovem Calila a criar um “blog secreto”, onde anotava o que via e escrevia seus primeiros poemas.
“Eu ia anotando essas coisas e depois fui sendo descoberta; foram me tirando do armário. Comecei a participar de saraus. Lia minhas poesias com um tanto de vergonha, porque era como se eu estivesse pelada. E, de alguma forma, eu estava pelada”, conta.
Encontros
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Segundo Calila das Mercês, quem a ajudou a perder a vergonha foi a escritora e slammer Tatiana Nascimento, autora de vários livros de poesia, que estreou no romance com Água de maré (Pallas, 2025). “Todas as vezes eu vou agradecer a Tati, porque ela é responsável por convocar coragem. Porque se autoafirmar poeta, escritora, exige muita coragem.”
Calila das Mercês também recorda o encontro com Conceição Evaristo, numa edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Durante um mal-estar físico, ela foi acolhida e incentivada por Evaristo.
“A Conceição veio com aquele canto da sereia dela. Aí eu falei: nossa, a Conceição falou para eu escrever, então vou ouvir a Tati, vou ouvir a Conceição e vou escrever esse livro de poesia”, conta a autora sobre a origem de Notas de um interior circundante e outros afetos.
Viagens
Sobre Nódoa, a escritora explica que o ponto de partida foi um conto que não entrou em seu livro anterior, Planta oração. A história se chamava “Cajueiro” e se passava em um lugar com esse nome. O romance foi escrito ao longo de dois anos e começou a ganhar forma durante viagens pelo interior do Maranhão e do Piauí.
Na estrada, dentro de um ônibus, “veio a voz da primeira personagem” de Nódoa, Raimunda. Em outros deslocamentos, surgiram as vozes de outras mulheres que aparecem no livro, todas em trânsito. O título, diz Calila das Mercês, surgiu num aeroporto.

Além dos deslocamentos, a trama do romance envolve histórias de pessoas declaradas mortas que despertam para contar sobre a fronteira entre a vida e a morte. A autora diz que se inspirou na própria família: um parente passou por um episódio de catalepsia e acordou depois de ser dado como morto.
Nó do nariz
Desse universo surge um dos símbolos centrais do romance, o nó feito, nas antigas mortalhas, próximo ao nariz dos cadáveres, na tentativa de garantir a possibilidade de sobrevivência caso a pessoa enterrada estivesse viva. “Nó no nariz”, inclusive, era o título original do livro, para o qual Calila das Mercês diz ter colecionado episódios reais de quase morte a partir da ajuda de amigos médicos.
“Eu mudo a cidade, mudo uma referência ou outra para não expor algo muito factual, mas são casos que aconteceram. Pessoas que acordaram pedindo uma bebida, pessoas que acordaram no meio do sepultamento, pessoas que acordaram no necrotério, no carro.” Há até casos de corpos que, ao serem exumados, apresentavam vestígio de madeira nas unhas ou que estavam virados, com as costas para cima, dentro do caixão.
A morte, segundo a escritora, aparece no romance também como reflexão sobre a vida. Ao lembrar do cajueiro, elemento importante na obra, ela afirma que a própria natureza ensina a lidar com o fim das coisas. “Acho que a planta tem uma coisa — ela é uma sabedoria, um conhecimento que ajuda a gente a pensar na continuidade e também na finitude. A gente tem muita dificuldade de olhar para a finitude das coisas.”
Livro Marcador
O episódio traz uma sugestão literária de João Tokunbó Carneiro, autor de Café da manhã com os orixás (Pallas, 2025), que participa do quadro Livro Marcador. Ele recomenda Orixás: os deuses que habitam em nós, de Reginaldo Prandi, publicado pela Companhia das Letras em 2025.

“Reginaldo Prandi tem uma maneira muito poética, muito bonita de sentir e pensar os orixás a partir do que a alma fala e não do que os acadêmicos dizem. Então é um texto que marcou muito — li recentemente e realmente criou um paradigma novo na minha na minha cabeça, no meu coração, relacionado a como sentir os orixás pela literatura, pelo poema”, diz.
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