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Miniatura perfeita

‘O jovem’, romance mais recente da Nobel Annie Ernaux, traz todos os elementos pelos quais a autora se consagrou

04nov2022 - 12h06 | Edição #64

“Se não escrevo as coisas, elas não encontram seu termo. São apenas vividas.” É com essa frase que Annie Ernaux abre seu livro mais recente, O jovem. Escrito entre 1998 e 2000, o romance foi publicado em 2022 e chega ao Brasil pela editora Fósforo, com tradução da poeta Marília Garcia. Ocupando o lugar físico de uma epígrafe, a afirmação pode ser lida como uma síntese do projeto literário da autora. Quem já leu seus livros publicados pela mesma editora — O lugar (de 1983), Os anos (de 2008), O acontecimento (de 2000) e A vergonha (de 1997) —, talvez possa identificar, logo nessa frase de abertura, algo que guia a escrita da autora francesa, laureada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2022.

Em O jovem, Ernaux narra sua relação afetiva com um estudante, identificado apenas como A., trinta anos mais jovem do que ela. Mas se há algo de muito específico nessa história, também há algo de genérico, como costuma acontecer em seus livros: “Tinha a sensação de nunca ter me levantado de uma cama, a mesma desde os meus dezoito anos, mas em lugares diferentes, com homens diferentes e indiscerníveis entre si”, escreve.

Ernaux também menciona brevemente o aborto clandestino que antes compartilha em O acontecimento, como se sua obra fizesse uma dobradura para dentro e funcionasse quase como um projeto contínuo e único. Para Nelly Kaprièlian, crítica literária francesa, “O jovem é a obra-prima de Annie Ernaux, uma miniatura perfeita que concentra todos os seus livros num gesto proustiano de uma beleza de tirar o fôlego”.

Romance de uma vida

Embora cada uma de suas publicações possa ser lida e apreciada de maneira autônoma, quem lê todas pode ter uma visão privilegiada, pois, no lugar de fragmentos — por mais emblemáticos e significativos que sejam, como de fato são —, lê também o grande romance de uma vida.

Um dos maiores méritos da obra de Ernaux é essa costura hábil entre o campo público e o privado

A relação entre o pequeno e o grande, digamos assim, é algo que a autora busca estabelecer entre a narrativa de episódios de sua vida pessoal, com riqueza de detalhes, ainda que num estilo seco e direto, e a história coletiva de seu país e de seu tempo. Um dos maiores méritos da obra de Annie Ernaux é justamente essa costura hábil que ela faz entre o campo público e o privado.

A escavação íntima que se propõe a fazer literariamente, em um gênero híbrido ou indistinto (autobiografia romanceada, romance autobiográfico, ensaio ou, como prefere boa parte da crítica, autoficção), não se dá em uma chave narcísica, observando as minúcias de sua própria história em um microscópio de forma meramente egoica — como se cada uma de suas experiências pessoais merecesse estar em páginas de livros, e que esses livros merecessem ser publicados e lidos e que, por isso, sua obra inclusive viria a receber a chancela do Nobel, o prêmio literário internacional mais prestigioso do nosso tempo. Ao contrário dessas hipóteses, os relatos íntimos de Ernaux humanizam e amplificam questões maiores do que as suas próprias.

Como faz Elena Ferrante no campo da ficção, Ernaux se vale de uma escrita com aparência simples, quase transparente, muito próxima da linguagem do dia a dia, para tratar de temas que dizem respeito não apenas a sua vida privada, mas à vida das pessoas, em especial das mulheres, com quem compartilha o espaço e o tempo. E, de forma mais ampla, ela aborda ainda outros temas relevantes da cultura contemporânea.

Também como acontece com as personagens de Ferrante, para Ernaux a experiência de ter nascido em uma classe social diferente da qual depois passou a pertencer, mais pela via da intelectualidade — a autora foi professora por mais de trinta anos no Centre National d’Enseignement par Correspondance — do que propriamente pela via da ascensão financeira, é um tema recorrente, um fio condutor, com destaque para os conflitos internos e externos que esse movimento social implica.

Desejo e vulnerabilidade

Em O jovem, no entanto, Ernaux fala sobretudo do desejo, da vulnerabilidade que existe em uma relação afetiva e dos dilemas atrelados ao envelhecimento, uma vez que a autora-personagem está lidando com questões muito diferentes das que enfrenta o jovem estudante com quem está envolvida: “Ele me arrancava da minha geração, mas eu não pertencia à dele.”

Quanto ao envelhecimento, como de hábito, a autora ocupa sempre uma posição crítica, apontando as diferenças desse processo para homens e mulheres: “Meu corpo não tinha mais idade. Era necessário o olhar pesado e reprovador de clientes ao nosso lado num restaurante para que eu me desse conta desse corpo. Olhar que, longe de me envergonhar, reforçava minha determinação de não esconder meu relacionamento com um homem ‘que poderia ser meu filho’, enquanto qualquer sujeito de cinquenta anos podia se exibir com uma moça que claramente não era sua filha sem nenhuma reprovação”. Escrever e tornar pública essa história é uma outra forma de reafirmar essa posição.

Investigação da memória

A edição de O jovem também traz quase uma dezena de fotos que talvez funcionem como complemento à narrativa que lemos, dando a ela uma outra materialidade e aprofundando o tema da investigação da memória, que perpassa toda a obra de Ernaux — neste caso, tanto no texto como nas imagens.

A autora já havia abordado o desejo e a sexualidade feminina em outro de seus livros, Uma paixão simples. Lançado no Brasil em 1994 pela Objetiva, em 2020 foi reimpresso pela Livros do Brasil. Esse livro pode ser considerado uma leitura-irmã de O jovem. Felizmente, sendo Ernaux a escritora profícua que é — ela já publicou mais de vinte títulos na França —, quem aprecia a contemporaneidade e o valor de seu projeto literário pode se alegrar com a perspectiva de que tem muito mais vindo por aí.

Nota de correção: uma versão anterior do texto dizia que todos os livros de Annie Ernaux foram publicados pela mesma editora no Brasil. 

Quem escreveu esse texto

Fabiane Secches

É psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.