Literatura em língua francesa,

Sem afeto, com afeto

Ao contar a história de seu pai, Annie Ernaux escapa ao rótulo da autoficção e enuncia contradições da linguagem

01dez2021 - 04h51 | Edição #52

A escrita como último recurso quando se traiu: a epígrafe de Jean Genet a O lugar, de Annie Ernaux, lançado no Brasil em ótima tradução de Marília Garcia, assinala a necessidade e a culpa que circunscrevem cada palavra empregada pela narradora. Para contar a história de seu pai e, inevitavelmente, a própria, ela conta também a história da cisão entre ambas que a linguagem vem apenas confirmar, pois “para escrever”, diz, “caminha-se no limite entre reconstruir um modo de vida em geral tratado como inferior e denunciar a condição alienante que o acompanha”.

Filha de proletários que ascendeu socialmente pelos estudos, ela ao mesmo tempo investiga e denuncia a fratura que torna paradoxal a escrita de sua origem: as palavras parecem não poder alcançar o lugar de onde justamente a fizeram sair. No entanto, elas alcançam, e assim sabemos que seu pai vivia em um ambiente medieval, trabalhando em uma terra que não era a sua, que serviu o Exército só depois da Primeira Guerra Mundial, que mudou de cidade e abriu um café-mercearia, o qual se esforçou para manter funcionando durante a Segunda Guerra, e também sobre suas tentativas frustradas de leitura, sobre seu humor, sua vergonha; sabemos que ele era uma pessoa alegre. Tudo isso em um livro curto, mas do tamanho certo, um livro que não poderia exceder a si mesmo, que não desperdiça adjetivos e prescinde de afetação.

A descrição da cena após a morte do pai da autora poderia caber ao livro todo: “singela, sem choros, nem soluços”, com gestos “tranquilos, sem perturbação, acompanhados por conversas banais”. O esforço de contenção passa também pela impossibilidade de inventar, a escrita se configurando mais como recolha que como ficção: “Não posso assumir, de saída, um ponto de vista artístico, nem tentar fazer alguma coisa ‘cativante’ ou ‘comovente’. Vou recolher as falas, os gestos, os gostos do meu pai, os fatos mais marcantes de sua vida, todos os indícios de uma existência que também compartilhei”.

É curioso notar, em resenhas e artigos sobre O lugar, que abundam comparações com outros livros. Uma leitura sempre suscita a lembrança de outras, mas este livro parece suscitar ainda mais. É como se a neutralidade da linguagem, a escolha de recusar ao leitor “o prazer da cumplicidade”, instaurasse um espaço que esse mesmo leitor acabasse por ocupar. Como se abrir mão da afetação de um ponto de vista individual convidasse, paradoxalmente, o leitor a preencher a distância deixada com a evocação de suas leituras e seus próprios afetos.

A condição de quem mudou de classe dominada à dominante a torna alheia a ambas

O dilema da narradora de O lugar remeteu-me a A amiga genial, de Elena Ferrante. Elena Greco, ainda que difira substancialmente de Ernaux por ser uma narradora romanesca, também é trânsfuga de classes, também ascendeu socialmente, por meio dos estudos e da escrita, da classe dominada, à qual continuam pertencendo seus pais, para a dominante. Em Ferrante, no entanto, o dialeto é algo a ser eliminado, enquanto Ernaux faz questão de sublinhar as frases que “expressam os limites e dão colorido ao mundo” em que ela e o pai viveram, num empenho em se “manter o mais perto possível das palavras e das frases ouvidas”, como num resgate do que a narradora de A amiga genial se esforça para esconder.

O lugar evocou a mim também Wunschloses Unglück (Infelicidade extrema, sem edição no Brasil), de Peter Handke, em que, para ser fiel à figura da mãe, morta por suicídio, ele recorre à tentativa de fazer dela um recorte sociológico, como se isso a salvasse de ser transformada em personagem. “Nada de memória poética, nem de ironia grandiloquente”, frase de Ernaux, poderia figurar no livro de Handke, embora, no caso do austríaco, a tentativa de neutralidade talvez seja específica do relato sobre sua mãe, enquanto no de Ernaux é uma constante, uma busca em toda a sua obra. Ela não só parte do pressuposto de que uma história individual é sempre coletiva, de que falando de si está sempre falando do outro, mas assume em entrevistas que não é possível associar o “eu” que aparece em cada um dos seus livros a uma identidade estanque. Tratar-se-ia de um “eu” feito de outras vozes, feito de seu próprio tempo, que ultrapassa o que poderia caber em um único indivíduo.

Recusa à autoficção

A conhecida recusa ao rótulo de autoficção por Ernaux se dá pelos dois polos do termo. Ao declarar que não inventa nada ao escrever, ela abdica do ficcional para sua escrita, ainda que o trabalho de linguagem a torne literária; ao admitir a instabilidade do “eu” que narra, recusando-lhe uma posição fixa, ela escapa ao elemento meramente autobiográfico. Não à toa, foi a partir de sua obra, ao lado da de Claude Simon e Pierre Michon, que Dominique Viart elaborou o conceito de récit de filiation, ou narrativa de filiação, que se caracteriza por dizer do outro, um outro ancestral, como desvio necessário para se chegar a si (o que talvez se relacione com que, em Os anos, também publicado este ano no Brasil, Ernaux se refira a si mesma por “ela”); por acomodar-se mal ao modelo romanesco; por não se desenvolver segundo uma cronologia linear que se pretende restituir, mas antes como investigação; e por abordar a linguagem como questão ética.

A recusa dos polos da autoficção opera, talvez, movimento pendular semelhante ao que Ernaux precisa fazer ao escrever. A condição de quem mudou de classe dominada para a dominante a torna, de certa forma, alheia a ambas; daí a distância que precisa estabelecer entre o “eu’’ que vive e o que narra, a única capaz de traduzir a sensação de não pertencer definitivamente a lugar nenhum. “Meu pai morreu exatamente depois desse dia”, ela afirma com precisão acerca de quando tirou o certificado de aptidão do cargo para professora, para em seguida dizer que com frequência se confunde e não sabe se esse dia “precede ou se segue ao sufocante mês de junho” da morte dele; ela rememora a simplicidade de sua infância enquanto afirma que “gostaria de falar ao mesmo tempo dessa felicidade e de sua condição alienante. Sensação de que fico oscilando de um lado para o outro dessa contradição”.

Contradição que não se resolve e move o livro até o final, homenagem ao pai que ultrapassa a si mesma. O pai, que a levava para a escola de bicicleta, fazendo metaforicamente o percurso entre a vida de classe dominada e a de dominante: “barqueiro entre duas margens, debaixo de sol e de chuva. Talvez seu maior orgulho, ou até mesmo aquilo que justificava sua existência: que eu fizesse parte de um mundo que o desprezou”.

Das tantas remissões despertadas pela leitura de O lugar, muitas são obras que abordam a relação com o pai, a mãe, com a morte deles. Talvez porque, como fica claro no livro, não sabemos e talvez nunca saibamos o que fazer com nosso passado. 

Esse texto foi realizado com apoio  da Embaixada da França

Quem escreveu esse texto

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #52 em outubro de 2021.