Crítica Literária,

Animais escritos

Pesquisadora analisa como cães, baratas e outros bichos se relacionam com obras de escritores e cada momento histórico

17jul2023 - 15h15 | Edição #72

O cachorro se foi. Temos saudades dele. Quando toca a campainha, ninguém late. Quando chegamos tarde em casa, não tem ninguém nos esperando. Ainda encontramos seus pelos brancos pela casa e nas nossas roupas. Catamos todos os pelos que encontramos. Deveríamos jogar tudo fora. Mas é só o que nos resta dele. Não jogamos os pelos fora. Temos uma esperança irracional — a de que se conseguirmos juntar bastante pelo, conseguiremos juntar o cachorro pelo a pelo.

O trecho acima faz parte do livro Nem vem, de Lydia Davis, traduzido por Branca Vianna e publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Foi esse o trecho escolhido por Maria Esther Maciel, escritora, pesquisadora e professora de literatura, como epígrafe para o capítulo “Quando morre um cão”, de sua antologia Animalidades: zooliteratura e os limites do humano.

Talvez esse seja o capítulo com o qual a maior parte de seus leitores pode se identificar. Na literatura, no cinema, nas artes e na vida, a relação das pessoas com seus cães ocupa um lugar inquestionável. Mas, quando pensamos nas espécies companheiras — como a filósofa Donna Haraway chamou os animais com quem dividimos o mundo — e suas respectivas figurações literárias, não temos apenas a inesquecível cachorra Baleia de Vidas secas, de Graciliano Ramos, uma das mortes mais comoventes da história da literatura brasileira; temos também as outras alteridades que Maria Esther Maciel se dedica a analisar, de baratas a ursos polares.

É verdade que os cães ocupam uma parte significativa da obra (são, ao todo, três capítulos dedicados a eles), pois, na nossa cultura, talvez seja primeiro por meio deles que conseguimos compreender sensibibilidades que podemos encontrar em outras espécies. Talvez sejam eles que abram a porta para nossa própria sensibilidade, nos confrontando com questões éticas e filosóficas importantes e que ajudam a nos lembrar de nossa própria animalidade recalcada.

O livro nos faz pensar como podemos estar no mundo de uma forma menos antropocêntrica

Maciel é a principal estudiosa brasileira da representação dos animais na literatura e dedica parte expressiva de seu novo livro a obras como a de Machado de Assis, o primeiro escritor a representar animais  sob uma perspectiva que podemos chamar de pós-humanista; às obras de Clarice Lispector e a de Hilda Hilst e aos paradoxos da animalidade; e a de Carlos Drummond de Andrade, tão atento a diferentes formas de estar no mundo.

A autora também menciona Jacques Derrida (pensador fundamental para esses estudos), Charles Darwin (outro nome inescapável), Franz Kafka, Virginia Woolf, Paul Auster, Yoko Tawada, J.M. Coetzee, Vinciane Despret e Nastassja Martin, entre outros, na tentativa de mapear os diferentes caminhos da figuração dos animais na literatura e o que essas figurações revelam sobre seus respectivos momentos históricos.

Maciel também escreve poemas e romances e deve ser por isso que, nesses textos, apesar do rigor acadêmico, tenha um trabalho especial com a forma que torna possível a apreciação de seu valor literário. A clareza com que transmite suas ideias demonstra que, mais do que se apropriar do tema como a especialista que é, a autora deseja aproximar leitores das questões a que se dedica, incentivando reflexões e diálogos.

Em seu livro anterior a respeito do mesmo tema, Literatura e animalidade, publicado pela Civilização Brasileira, Maciel faz um apanhado da história do pensamento a respeito dos animais na cultura ocidental, com destaque para o capítulo “Pensar o animal”, em que trata de Montaigne e Derrida.

Fascínio e assombro

Gosto muito do trecho que abre essa primeira obra, logo na introdução, chamado “Os animais escritos”: 

Os animais, sob o olhar humano, são signos vivos daquilo que sempre escapa à nossa compreensão. Radicalmente outros, mas também nossos semelhantes, distantes e próximos de nós, eles nos fascinam ao mesmo tempo que nos assombram e desafiam nossa razão. Temidos, subjugados, amados, marginalizados, admirados, confinados, comidos, torturados, classificados, humanizados, eles não se deixam, paradoxalmente, capturar em sua alteridade radical.

Em Animalidades: zooliteratura e os limites do humano, a autora lembra que “os animais sempre frequentaram o imaginário cultural da humanidade, sob diferentes configurações poéticas, artísticas e religiosas, evidenciando a nossa intrínseca (e milenar) relação com os viventes que compartilham conosco a experiência do mundo”.

Desde as fábulas de Esopo e História dos animais, de Aristóteles, a representação dos animais na literatura sofreu diversas mudanças, acompanhando novas vertentes do pensamento, como as que atualmente reconhecem a complexidade e a importância de outras formas de vida e as que defendem a ideia de subjetividades animais — até mesmo para o nosso Direito, os animais deixaram de ser classificados como objetos e passaram a ser considerados sujeitos.

De forma sintética e organizada, mas sem simplificações, Maria Esther Maciel faz um breve passeio histórico para então se deter no nosso tempo e pensar sobre as mudanças de perspectiva, de sensibilidade e de responsabilidade sobre as inúmeras questões que nossa relação com as espécies companheiras suscitam num mundo em colapso, de modo cada vez mais urgente.

“Se a literatura não tem que dar, necessariamente, respostas às questões do mundo, ela pode, por certo, provocar novas indagações e nos mostrar que não existem respostas definitivas para o que está em constante movimento e nos sobressalta a cada instante no mundo vivo”, escreve nesse seu novo livro.

Temos sorte de compartilhar o mesmo tempo e o mesmo idioma que uma pesquisadora tão comprometida a acompanhar esse movimento e tratar do tema sem a condescendência ou a infantilização com que, infelizmente, ainda vemos acontecer por aí na maior parte das vezes.

Essa é uma obra que trata da presença dos animais na literatura, mas que também extrapola o tema e nos faz pensar sobre como podemos estar no mundo de uma forma menos antropocêntrica — visão que restringe e exclui. Os ensaios de Maciel nos oferecem uma visão mais aberta e interconectada, que amplia e inclui — tão mais rica e interessante do que aquela que toma as pessoas e suas infinitas limitações como única medida e único valor para todas as coisas.

Quem escreveu esse texto

Fabiane Secches

É psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.