Literatura japonesa,

A música do mundo

Premiado romance japonês narra a busca de um afinador de pianos pela perfeição possível

09maio2024 - 16h48 • 10maio2024 - 13h30

Dias perfeitos, filme dirigido por Wim Wenders, mostra a rotina meticulosa e contemplativa do personagem Hirayama. O longa, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano e deu ao ator Koji Yakusho o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 2023, era para ser, segundo o próprio Wenders, um documentário institucional sobre os incríveis banheiros públicos de Tóquio, num projeto assinado por arquitetos renomados. Acabou saindo uma história ficcional, protagonizada pelo silencioso Hirayama, um amante das artes, principalmente da música. Ele faz do trabalho pesado e impopular de limpar banheiros um exercício de presença e dedicação.

Quem assistiu ao filme talvez se lembre de Hirayama ao ler Floresta de lã e aço, de Natsu Miyashita, publicado pela editora Zain, dedicada a temáticas musicais. O romance ganhou o Japanese Booksellers’ Award em 2016, foi traduzido para mais de dez idiomas, transformado em filme e agora tem sua tradução no Brasil por Eunice Suenaga. Nele, acompanhamos a vida do jovem Tomura, que cresce nas proximidades das montanhas em uma pequena cidade na região de Hokkaido, no Japão.

Assim como o protagonista do romance, a autora, que nasceu em 1967 na província de Fukui, tem uma forte relação com o piano, instrumento que aprendeu a tocar desde cedo — é a paixão pela música que impulsiona a narrativa. Tomura tem o futuro delineado quando escuta, por acaso, o afinador profissional Itadori trabalhar num piano no ginásio da escola:

Diante de mim havia um piano. Sim, um grande piano de cauda preto, imponente, com a tampa aberta. Ao lado, estava um homem de pé. Ele olhou de relance para mim, mas não dissemos nada. Quando pressionou algumas teclas, senti mais uma vez emanar, da floresta que havia ali, no interior daquele instrumento, o cheiro das árvores a balançar. A noite avançou mais um pouco. Eu tinha dezessete anos.

Notando o interesse instantâneo do rapaz, Itadori lhe recomenda uma boa escola profissionalizante para afinadores. Após dois anos de estudos, Tomura começa a trabalhar na pequena loja de instrumentos musicais Etô, especializada em pianos, onde também trabalha Itadori.

Enquanto a trama se desenvolve entre a loja e as casas dos clientes, conhecemos de maneira mais profunda os pensamentos de Tomura. Sua postura é a de um aprendiz radical. Logo nota-se a disposição para o autoaperfeiçoamento constante, a assiduidade no estudo, a abertura para a dúvida, a observação e a hesitação, a criação de laços com outros afinadores da empresa, que de mestres passam a amigos.

Se de início suspeitamos estar diante de uma narrativa de memórias — Tomura abre o livro relembrando seu primeiro contato com um piano —, passamos aos dilemas do personagem em seu trajeto como afinador. O enredo, afinal, se configura como uma espécie de romance de formação: acompanhamos seus primeiros deslumbramentos, as descobertas sobre métodos, de como se relacionar com os clientes e com os colegas de profissão, a passagem de estagiário a funcionário respeitado, as desconfianças quanto às próprias capacidades.

Fagulha

A pesquisa incessante com o som alimenta perguntas sobre a própria vida. Atravessamos uma série de reflexões e entendimentos que, de tão primordiais, permanecem na fase adulta. Para Tomura, tal pesquisa ganha forma no trabalho dos afinadores de piano. Mas é no encontro com as gêmeas Yuni e Kazune, em uma visita a clientes, que outra fagulha se acende.

Ambas as irmãs tocam piano e uma delas chama a atenção de Tomura. O estilo de Kazune é o mais delicado que ele escutara até então. Observando as irmãs, compreende como um mesmo piano, um mesmo trabalho de afinação, no encontro com a singularidade de quem toca, cria resultados antes imprevistos — uma das irmãs traz brilho e força; a outra, sublime discrição. A partir daí, Tomura começa uma importante e duradoura relação de afeto.

A prosa de Miyashita, que tem formação em filosofia e seis livros de ficção publicados, nos faz acompanhar o amadurecimento do narrador e nos reconhecer em seus aprendizados. Tomura se questiona constantemente sobre a própria capacidade de afinar pianos. Fala da dificuldade que é chegar à excelência da afinação e, de tanto hesitar, custa a se reconhecer como bom profissional.

A narrativa de Miyashita faz um elogio não só ao aprendizado, mas às ações cotidianas

O conflito entre a necessidade de perfeição e, ao mesmo tempo, de realizar o trabalho se estende ao longo da história. Ainda que não se resolva, rende boas formulações. O modo de trabalhar e os conselhos dos afinadores experientes introduzem caminhos: para eles, mais importante que perfeição, é um bom método para equilibrar prazer e necessidade. Em um diálogo de Tomura com o resolutivo Yanagi, este o aconselha a se concentrar e decidir.

Por exemplo, dizem que os cozinheiros ficam sérios quando provam a comida, não é? Eles inspiram profundamente, fecham os olhos, provam e decidem. O afinador também, se não decidir o som de uma vez, vai continuar indeciso por muito tempo.

Há ainda a ideia de que, tão ou mais importante que um talento inato é o estudo e o trabalho contínuo. A narrativa de Miyashita faz um elogio não só ao aprendizado, mas às ações cotidianas. A pequena loja de afinadores se torna, afinal, uma comunidade em torno dos pequenos afetos verdadeiros e da dedicação silenciosa que embasa grandes belezas.

Voltamos então a Dias perfeitos. Ali, a contemplação e o trabalho são um caminho para a beleza possível do cotidiano. Algo parecido é construído em Floresta de lã e aço. Com o tempo, Tomura parece compreender que a perfeição que busca está no mundo e na continuidade de sua música: “Mesmo que eu não tivesse nada, as coisas belas e a música estavam sempre ali, dissolvidas no mundo, desde o princípio.”

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Ana Luiza Rigueto