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Annie Ernaux: Nobel de Literatura 2022

A autora francesa de “Os anos”, “O lugar” e “O acontecimento”, convidada da Flip 2022, foi premiada

06out2022 - 11h43 | Edição #62

A escritora francesa Annie Ernaux venceu hoje o Nobel de Literatura 2022 “pela coragem e acuidade clínica com a qual ela revela as raízes, os estranhamentos e as limitações da memória pessoal”. Ernaux torna-se a 17ª mulher a ganhar o prêmio, entre 115 premiados na história do Nobel.

“Fiquei muito surpresa… Nunca imaginei isso em meu horizonte como escritora”, comentou Ernaux sobre o Nobel para a rede sueca SVT. “É uma grande responsabilidade testemunhar, não necessariamente em termos de minha escrita, mas testemunhar com precisão e justiça em relação ao mundo.”

No anúncio do prêmio, a academia ressaltou o motivo da escolha: “Em sua escrita, Ernaux, consistentemente e por ângulos diferentes, examina uma vida marcada por fortes desigualdades em relação a gênero, linguagem e classe. Seu caminho para se tornar escritora foi longo e árduo.”

Ganhadora de muitos prêmios (Strega, Formentor, Renaudot, Hemingway, Marguerite Yourcenar), a francesa Annie Ernaux é uma das escritoras confirmadas para a Festa Literária Internacional de Paraty em 2022. 

Aos 82 anos, Annie Ernaux publicou 24 livros desde a estreia, em 1974, com o romance Les Armoires vides (Os armários vazios, inédito no Brasil). Suas obras ora são classificadas como ficção, ora não-ficção pelo estilo que adota, um misto de relatos e ensaios, comumente caracterizados como autoficção, rótulo que a autora recusa pelos dois polos do termo. “Ao declarar que não inventa nada ao escrever, ela abdica do ficcional para sua escrita, ainda que o trabalho de linguagem a torne literária; ao admitir a instabilidade do “eu” que narra, recusando-lhe uma posição fixa, ela escapa ao elemento meramente autobiográfico.” escreve Natália Timerman.

São memórias de tempos passados, muitas vezes escritas décadas depois. É o caso de O acontecimento, que narra o aborto realizado nos anos 70, quando Ernaux tinha 23 anos, e escrito de fevereiro a outubro de 1999. Publicado neste ano no Brasil, Ernaux revela as motivações por ter escrito sobre isso após quase trinta anos.

Quero mergulhar mais uma vez nesse período da minha vida, saber o que se encontra ali. Essa exploração vai se inscrever na trama de um relato, o único capaz de recuperar um acontecimento que era apenas tempo dentro e fora de mim. Uma agenda e um diário íntimo mantidos durante esses meses vão me trazer as referências e as provas necessárias ao estabelecimento dos fatos. Vou me esforçar, acima de tudo, para me aprofundar em cada imagem, até que tenha a sensação física de “alcançá-la”, e que surjam algumas palavras sobre as quais eu possa dizer “é isso”. Ouvir de novo cada uma dessas frases, que não se apagaram em mim, cujo sentido na época deve ter sido tão insuportável, ou, inversamente, tão reconfortante, que afundo em desgosto ou doçura ao pensá-las hoje.

Através do relato pessoal, seus livros retratam ao mesmo tempo toda uma geração. E surpreendem pela coragem de colocar em palavras o indizível — a vergonha da forma como o pai pronunciava certas palavras e de sua origem social, a forma como perseguia rapazes, como fazia esportes desejando sofrer um aborto espontâneo do feto que carregava. 

A tensão de linguagem e classe é latente em O lugar, que traz suas memórias de infância em uma pequena vila francesa e sua relação com os pais, que pertencem a classe operária e têm uma pequena mercearia, enquanto Ernaux estuda e torna-se uma acadêmica. Questões de gênero transbordam no aborto narrado em O acontecimento e no caso de violência doméstica que presencia em A vergonha, situações que evidenciam sua posição de mulher e pouco privilegiada.

Ernaux no Brasil

Ernaux teve um livro publicado no Brasil, em 1994, pela Objetiva: Uma paixão simples, traduzido por Adalgisa Campos da Silva. Responsável pela sua redescoberta no Brasil, a editora de Ernaux, Rita Mattar, publicou a autora pela primeira vez quando trabalhava na extinta editora Três Estrelas, com Os anos.

O título foi escolhido para iniciar os trabalhos da Fósforo, em 2021, onde Rita é diretora editorial. A casa já publicou quatro títulos de Ernaux — Os anos, O lugar, O acontecimento e A vergonha — e prepara O jovem para a visita da autora ao Brasil, na Flip. Ela vai se apresentar no sábado, dia 26, ao lado de Verônica Stigger. As edições de Ernaux publicadas pela Fósforo tem tradução de Marília Garcia.

A cerimônia de entrega do Nobel deverá acontecer duas semanas depois, em Estocolmo, em 10 de dezembro. O prêmio repercutiu no meio literário brasileiro. 

"Ernaux com sua escrita simples e direta construiu uma fascinante obra política. Literatura com toques de sociologia e história, e forte viés de classe," comentou Itamar Vieira Junior.

Para a editora Simone Paulino, “Annie Ernaux é uma das autoras contemporâneas mais brilhantes que já li. Uma representante extraordinária do que na França vem se nomeando “Transclasse”. Me identifico profundamente com sua literatura  e sua visão de mundo”.

"Annie Ernaux é uma voz de libertação, da possibilidade de autonomia que todos nós temos e nem sempre levamos à frente. É também uma combatente feroz do clichê, a começar pelo rótulo da "autoficção" que se tenta colar à sua obra. Em seus livros, literatura e política têm um encontro de raro equilíbrio e felicidade", diz o jornalista Paulo Roberto Pires, editor da revista Serrote e colunista da Quatro Cinco Um.

A jornalista e tradutora Rosa Freire d'Aguiar acrescenta: “Todas as razões para celebrar o Nobel de Annie Ernaux. Porque ela sabe falar de si, da família, do aborto (que continua a criar dramas monstruosos no Brasil) com um olhar que só uma mulher é capaz de ter. Porque ela se tornou um modelo para uma jovem geração de escritores. Porque é a primeira mulher entre os dezesseis franceses nobelizados.”

“Uma das mágicas que Annie Ernaux consegue fazer é partir de uma linguagem hiper objetiva, seca e sintética para criar cirurgicamente um mundo com máxima potência de emoção, transbordamento afetivo e experiência”, comentou Marília Garcia, tradutora das edições publicadas pela Fósforo.

“Annie Ernaux realiza a escrita de um eu que se assume e se recusa, a escrita brilhante, vigorosa, de um projeto literário coerente, de uma voz que pensa e diz o mundo enquanto mulher e o transforma pelo próprio dizer. É uma alegria vê-la ganhar o Nobel, será uma alegria celebrar o prêmio com a sua presença viva na Flip”, completa a escritora Natalia Timerman.

Livros publicados pela Fósforo

O lugar

Publicado originalmente em 1983, O lugar não inova no ponto de partida, a morte do pai. A partir disso, a autora retoma a vida de um homem que prosperou materialmente — conseguindo arranjar o seu lugar —, sem ascender socialmente — sabendo qual era o seu lugar. “Talvez seu maior orgulho, ou até mesmo o que justificava a sua existência: que eu fizesse parte de um mundo que o desprezou.” Leia mais na resenha de Antonio Mammi.

O acontecimento

Lançada em 2000, a narrativa trata do aborto feito por Ernaux aos 23 anos, quando havia deixado os horizontes estreitos de Yvetot, a vila da Normandia onde nasceu, para estudar literatura em Rouen. Se na década de 70 a novata se valia do anteparo convencional dos gêneros, dezesseis anos mais tarde explora esse episódio crucial já no domínio de sua invenção literária, que chama de “postura de escrita” e pode ser resumida pela objetividade distanciada com que expõe o entrelaçamento implacável entre privado e público, biografia e história. Leia mais na resenha de Paulo Roberto Pires.

O livro foi adaptado para o cinema por Audrey Diwan. O longa ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2021. 

Os anos

Em Os anos, que também trata da sensação de deslocamento, a posição de observadora de Ernaux chega à excelência em que ela costura “a passagem do tempo histórico (com coisas, ideias e costumes se transformando) e o espaço íntimo”. Se pode soar uma platitude dizer que um bom escritor tem a capacidade de olhar para os outros e para si mesmo, a afirmação é necessária porque a francesa o faz com esmero. De tanto escrutinar pai, mãe, filhos, amantes, ela consegue elaborar com atenção desconcertante as condições materiais e culturais que moldam as pessoas em diferentes épocas. Leia mais na resenha de Antonio Mammi.

A vergonha

Em A vergonha, Ernaux rememora um episódio traumático ocorrido quando ela tinha apenas doze anos: seu pai, num acesso de fúria, tentou matar sua mãe num domingo de junho. A partir daí, ela passou a sentir vergonha por estar ligada a essa família quando a comparava com as famílias das outras meninas que frequentavam a mesma escola. O episódio incutiu nela um agudo sentimento de inferioridade de classe, que ela tentará superar pelo acúmulo de capital cultural. Esse fato despertou sua consciência de si e de certa forma encerrou a sua infância. 

Trecho do livro: “Ali tínhamos deixado de pertencer à categoria das pessoas corretas, que não bebem, não batem umas nas outras e se vestem de modo adequado para ir à cidade. Mesmo tendo um jaleco novo a cada começo de ano e um missal bonito, mesmo sendo a primeira da turma e fazendo minhas orações, eu já não me parecia com as outras meninas da classe. […] Eu me tornei uma pessoa que não merecia a escola particular, sua excelência e perfeição. Entrei no território da vergonha. O pior da vergonha é que achamos que somos os únicos a senti-la”.

O jovem

Ernaux retrata a relação que viveu com um homem trinta anos mais novo e os desconfortos que essa dinâmica carregava — a inveja que sentia com relação à beleza e juventude de seu amante; a manipulação da escritora reconhecida, afluente e madura. Assim como seus outros livros, o relato é objetivo mas carregado de emoção, e mergulha na experiência que por alguns meses a fez voltar a uma “menina escandalosa”. 

Trecho do livro: “Muitas vezes fiz amor para me obrigar a escrever. Queria encontrar, na sensação de cansaço e desamparo de depois, motivos para não esperar mais nada da vida. Nutria a esperança de que, ao fim da espera mais violenta de todas, a de um orgasmo, eu pudesse ter certeza de que não havia orgasmo mais intenso que a escrita de um livro.” Leia na íntegra.

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.