Repertório 451 MHz,

Mulheres e relacionamentos abusivos

A escritora Carla Madeira e a jornalista e poeta Stephanie Borges falam sobre relacionamentos abusivos e outras violências contra a mulher no mundo e na literatura

11mar2022 - 00h51

Está no ar o 60º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros! Nesta semana da Mulher, catapultada pelo simbólico 8 de março, discutimos diferentes tipos de abusos em relacionamentos e como eles aparecem na literatura. Carla Madeira, a segunda autora mais lida no Brasil no ano passado, comenta da violência que toma conta do cotidiano dos personagens de Tudo é rio e Véspera, e Stephanie Borges fala sobre o livro Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado, que trata de relacionamentos lésbicos abusivos. A conversa foi conduzida por Paula Carvalho, editora da Quatro Cinco Um.

Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. O 451 MHz tem apoio dos Ouvintes Entusiastas. Seja um você também! O podcast tem ainda apoio da Companhia das Letras.

Uma mulher não é só a vítima

O dia 8 de março marca o Dia Internacional da Mulher e, em vez de presentear as mulheres com rosas, resolvemos trazer para o 451 MHz uma discussão que ainda é um tabu: o abuso sofrido pelas mulheres tanto em relações heterossexuais quanto homossexuais. A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), que criminaliza a violência doméstica contra mulheres, só foi sancionada no Brasil em 7 de agosto de 2006, sendo, portanto, muito recente, e ainda temos muito que caminhar para que essas violências sejam combatidas e punidas.


 

Para tratar desse tema dentro da literatura, convidamos a jornalista, tradutora, poeta e também podcaster Stephanie Borges. Ela ganhou o quarto prêmio Cepe de poesia, com Talvez precisemos de um nome pra isso, resenhado por Ricardo Aleixo na edição 28 da revista dos livros. Também traduziu livros como Olhares negros: raça e representação, de bell hooks, e Irmã outsider, de Audre Lorde. Stephanie Borges já colaborou diversas vezes com a Quatro Cinco Um — inclusive resenhando o livro Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado, publicado pela Companhia das Letras.

    
 

A obra é um misto de memória, ensaio, história, crítica cultural sobre o relacionamento da autora norte-americana com uma ex-namorada, que a agredia verbal e psicologicamente.O primeiro livro de Machado, O corpo dela e outras farras (Planeta Minotauro, 2018), reúne contos que tratam de violências diversas – inclusive um conto sobre um relacionamento lésbico abusivo. A autora ainda veio à Festa Literária de Paraty em 2019.

    
 

A outra convidada é a escritora mineira Carla Madeira, que foi a segunda autora brasileira mais lida em 2021, com o romance Tudo é rio, relançado pela editora Record. O livro conta a história de um triângulo amoroso entre um homem, a esposa e uma prostituta, que envolve um episódio de agressão. No ano passado, Carla Madeira lançou seu terceiro romance, Véspera (Record), que também traz um relacionamento amoroso envolto em violência. Este ano, ela vai relançar seu segundo romance, A natureza da mordida.

Violência histórica e invisível

A mulher vítima de abuso não é uma figura recente na nossa sociedade, mas a sociedade só avançou para debater sobre o tema, talvez, no século 20. Sobre a invisibilidade dessas histórias de violência doméstica, Borges relembra o conceito do silêncio de arquivo da escritora norte-americana Saidiya Hartman, uma das principais referências contemporâneas em estudos afro-americanos, professora de inglês e literatura comparada na Universidade Columbia. Em seus escritos, Hartmann discute realidades que não foram documentadas, mas que, mesmo assim, não deixaram de existir.

    
 

Hartman vai participar do Festival serrote, que começa na próxima sexta (18), às 19h, com mediação da própria Stephanie Borges. A autora, que tem três livros publicados agora no Brasil — Perder a mãe (Bazar do Tempo), Vidas rebeldes, belos experimentos (Fósforo) e Cenas de sujeição (Crocodilo/Bazar do Tempo) —, apresentará seu ensaio “A trama para acabar com ela”, publicado na serrote n. 40. A transmissão do evento acontece ao vivo no YouTube do Instituto Moreira Salles e no Facebook da revista serrote.

        
 

Histórias de abuso passaram a aparecer na literatura feita por mulheres de origens diferentes nos últimos anos. Entre esses títulos, podemos destacar Garotas mortas, da argentina Selva Almada (Todavia, 2018), que tira do anonimato três casos de feminicídio; Minha sombria Vanessa, da norte-americana Kate Elizabeth Russell (Intrínseca, 2020), romance que explora a relação de abuso sexual entre professor e adolescente pelo olhar da vítima; Terráqueos, romance da japonesa Sayaka Murata (Estação Liberdade, 2021), que traz tom mais pesado que o de Querida konbini ao abordar abuso sexual; entre outros.


 

Borges afirma que Machado, ao comentar no livro que achava que ninguém iria amá-la por ser gorda, fez com que ela se lembrasse das memórias de Roxane Gay. Em Fome: uma autobiografia do (meu) corpo (Globo, 2017), Gay explica por que se recusou a fazer uma cirurgia bariátrica e conclui que o mundo precisa ser melhor para acolher a diferença. “Em vez de ela tentar simplificar a própria história, ela vai abrindo vários caminhos mostrando que as pessoas são complexas, as relações são complexas”, fala a poeta e tradutora.

Ponto de vista

Outro ponto discutido é de que ponto de vista vemos uma história. Do ponto de vista do abusador ou da vítima? As histórias das vítimas ainda faltam ser contadas e ouvidas, e podem mostrar que a mulher pode ser vítima, mas que não é só a vítima. A mulher também pode reproduzir uma série de violências e oprimir crianças, entre outros grupos mais vulneráveis.


 

Sobre trazer o ponto de vista dos agressores na literatura, em A cor púrpura, de Alice Walker (José Olympio, 2009), o personagem (filho de Celie) passa a reproduzir com sua própria esposa o tratamento violento que via na relação entre seu pai e sua mãe. 

Família

Madeira comenta do caso de violência doméstica que ela testemunhou na sua própria família, afirmando que esse caso influenciou muito a sua literatura e que não era possível se esquivar do tema. Ela também fala de como as famílias são matrizes de comportamentos violentos e como é preciso acabar com o conceito de “família feliz”; a própria reprodução desse modelo é uma violência.

A frase no fim de Véspera, “Uma mulher que apanhou uma vez de um homem apanhou para sempre”, é uma referência a uma citação que Caetano Veloso fala, no documentário Narciso em férias (2020), sobre uma pessoa que foi torturada uma vez foi torturada para sempre. O filme está disponível no Globoplay.

“Isso está na ordem do irreversível, do irreparável”, fala Madeira. “O perdão existe para perdoar algo perdoável. […] Parece uma espécie de contradição. Como perdoar o imperdoável? Não tem perdão possível, sequer punição possível.” O que se pode perdoar é a pessoa, não o ato. O perdão, ao final, é o antídoto do ódio.

Mais na Quatro Cinco Um

 

A violência contra a mulher já havia sido tema de outros dois episódios do 451 MHz. No 29º episódio, “O país que mais mata mulheres”, foram entrevistadas Branca Vianna, idealizadora do podcast Praia dos Ossos, e Patrícia Melo, autora do romance Mulheres empilhadas (Leya, 2019), para falar sobre mais de quarenta anos de feminicídios brasileiros: do caso Ângela Diniz, em 1976, à violência contra mulheres indígenas na Amazônia do século 21.

Já no 43º episódio, “O indizível do horror”, recebemos autoras de um romance e de uma crônica que narram um estupro e as suas consequências na vida de duas mulheres: Tatiana Salem Levy (Vista chinesa, Todavia, 2020) e Paloma Franca Amorim (Eu preferia ter perdido um olho, Alameda, 2017) conversam sobre as representações literárias da violência sexual.

A colaboradora Maíra Rosin, em texto para a seção As Cidades e As Coisas, escreveu sobre como a lei não impede que ruas sejam nomeadas em memória de criminosos que violentaram mulheres.

O melhor da literatura LGBTI+

Neste episódio, o advogado, professor da FGV e colunista da Folha de S.Paulo, Thiago Amparo, recomenda o livro Guardei no armário: trajetórias, vivências e a luta por respeito à diversidade racial, social, sexual e de gênero, de Samuel Gomes (Companhia das Letras, 2020), em que o autor (que é negro e gay) comenta da luta dele e de outras pessoas em defesa da diversidade sexual e racial, mostrando a interseccionalidade na prática.

Ao longo de 2021, o quadro contou com o apoio do C6 Bank e reuniu catorze livros e dicas literárias LGBTI+ de colaboradores da Quatro Cinco Um. Veja a lista completa

Narradores do Brasil

Na coleção de episódios roteirizados Narradores do Brasil, o 451 MHz faz breves incursões no formato narrativo para explorar a vida e a obra de nossos grandes autores. Ouça o último episódio sobre o casal Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop. Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Nelson Rodrigues, Paulo Freire e Caio Fernando Abreu  foram os outros autores contemplados nessa coleção.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação 451.
Apresentação: Paulo Werneck e Paula Carvalho
Coordenação Geral: Évelin Argenta, Paula Scarpin e Vitor Hugo Brandalise
Produção: Gabriela Varella
Edição: Claudia Holanda
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger e FêCris Vasconcellos
Gravado com apoio técnico da Confraria de Sons & Charutos (SP).
Para falar com a equipe: [email protected]