Repertório 451 MHz,
Meu pai e eu
José Henrique Bortoluci e Julia de Souza conversam sobre o processo de escrita de seus livros inspirados na trajetória de seus pais
08ago2025 • Atualizado em: 01jul2026Está no ar o 158º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Às vésperas do Dia dos Pais, este episódio traz uma conversa entre o ensaísta José Henrique Bortoluci e a poeta Julia de Souza. Os dois escreveram livros a partir da trajetória de seus pais e falam no programa sobre como a escrita ajuda a compreender a influência deles em nossas vidas e elaborar o luto depois que eles morrem.
O encontro foi gravado durante A Feira do Livro 2024, na mesa Em busca do pai, com mediação do jornalista Paulo Roberto Pires, que é colunista da Quatro Cinco Um e editor da revista Serrote, do Instituto Moreira Salles (IMS). O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
José Henrique Bortoluci é sociólogo, professor universitário e autor de O que é meu (Fósforo), com o qual estreou na literatura em 2023. A obra venceu o prêmio APCA do mesmo ano na categoria de ensaios e já foi traduzida para doze línguas. No livro, Bortoluci parte de entrevistas realizadas com seu pai, que durante cinquenta anos foi motorista de caminhão e enfrentava um câncer, e entrelaça sua história a reflexões sobre o passado recente do Brasil.
Já Julia de Souza é poeta, tradutora e profissional do mercado editorial. Autora dos livros de poemas Covil, de 2013, e As durações da casa, de 2019, ambos publicados pela editora 7 Letras, publicou em 2023 o ensaio autobiográfico John (Âyiné), em que acompanha o adoecimento e a morte de seu pai, diagnosticado com demência, enquanto reflete sobre seu próprio futuro.
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No episódio, ela e Bortoluci compartilham o processo e as motivações que os levaram a escrever John e O que é meu, respectivamente. Falam também sobre os desafios de transitar entre a escrita literária, artigos acadêmicos e ensaios. Para além do tema semelhante, os dois tiveram em comum um mesmo ponto de partida: a consciência de que era preciso registrar memória e encontros com seus pais doentes para lidar com a possibilidade de perdê-los.
“Desde o final da vida do meu pai eu já vinha anotando coisas de forma bem esparsa, para tentar ter algum registro daqueles momentos finais da vida dele. E eu ia guardando esses registros em notas de celular, ou tinha um arquivo no Word que eu abria de seis em seis meses e fazia uma anotação”, conta Souza.
No caso de Bortoluci, ele ainda desejava escrever fora do campo acadêmico e mostrar como a trajetória do pai, que lhe narrava histórias da sua vida na estrada, espelhava a história recente do país. “O Brasil é a soma dessas histórias, como a de um caminhoneiro que, por cinquenta anos, percorreu o país numa época de brutal e violenta expansão do sistema rodoviário”, diz. “Eu sempre me interessei por essa relação entre o muito pequeno, o muito pessoal, e aquilo que é estrutural, de grandes dimensões, de larga escala.”
Cicatrizes e metáforas
Os dois escritores usaram a metáfora da cicatriz para falar de memória e da perda. “Eu consegui ver o que seria o livro quando imaginei algumas metáforas para fazer a conexão entre o pessoal e o coletivo, entre o muito pequeno e o muito grande. Uma dessas foi entre estradas e cicatrizes”, conta Bortoluci ao lembrar que “Estrada e cicatriz” foi, inclusive, um dos títulos provisórios do livro.
Souza destaca outra semelhança entre as obras: a preocupação com o vocabulário que descreve um corpo que adoece. “Mesmo quando estou falando da memória, acabo falando que a falta da memória também é uma cicatriz. Aquilo que resta é uma marca, esse corpo que está sempre sendo submetido a intervenções e tudo mais, e que, ao mesmo tempo, vai se esvaziando”, afirma.
“Tem um trecho do Zé [José Henrique Bortoluci] em que ele fala dessa coisa do corpo adoecido que é muito lindo. Você fala das dobras, que é um corpo que vai adquirindo novas geometrias, novas superfícies”, ela lembra. “Acho que isso tem em comum nos dois livros, a gente tenta tratar desse corpo que agora está no mundo de um outro jeito e precisa ser descrito de outra forma.”
Livros do episódio
Veja abaixo a lista de livros que aparecem nesta edição do 451 MHz, incluindo os títulos lançados pelos convidados e outras leituras recomendadas:
- John, de Julia de Souza (Âyiné, 2023).
- O que é meu, de José Henrique Bortoluci (Fósforo, 2023).
- Covil, de Julia de Souza (7 Letras, 2013).
- As durações da casa, de Julia de Souza (7 Letras, 2019).
- Arquiteturas políticas: projeto, trabalho e habitação popular em São Paulo, de José Henrique Bortoluci (Alameda, 2023).
- Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust (várias editoras).
- Desarticulações, seguido de Vária imaginação, de Sylvia Molloy, traduzido por Paloma Vidal (Editora 34, 2022).
- Argonautas, de Maggie Nelson, traduzido por Rogério Bettoni (Autêntica, 2017).
- A preparação do romance, de Roland Barthes, traduzido por Leyla Perrone-Moisés (WMF Martins Fontes, 2005).
Mais na Quatro Cinco Um
O que é meu, de José Henrique Bortoluci, foi resenhado por Francesca Angiolillo na edição #69 da Quatro Cinco Um, publicada em maio de 2023. Em março do ano seguinte, a colunista da revista dos livros Bianca Tavolari escreveu sobre Arquiteturas políticas: projeto, trabalho e habitação popular, que surgiu a partir de tese de doutorado de Bortoluci e explora os significados sociais da construção civil, discutindo os desafios da moradia popular.
Já John, de Julia de Souza, foi tema da coluna de Paulo Roberto Pires na edição #76 da revista. Além disso, a autora já colaborou algumas vezes com a Quatro Cinco Um. Em dezembro de 2021, por exemplo, ela resenhou Risque esta palavra, livro de poemas de Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 2021).
Também escreveu sobre a poesia de Maria Lúcia Alvim e a poeta polonesa Wislawa Szymborska, premiada com o Nobel de Literatura de 1996. Em março de 2023, Julia de Souza foi retratada na coluna Folha de Rosto da Quatro Cinco Um.
O melhor da literatura LGBTQIA+
Este episódio traz ainda uma dica da tradutora e intérprete simultânea Anna Vianna. Ela esteve recentemente no 141º episódio do 451 MHz, ao lado do tradutor e escritor Paulo Henriques Britto, falando de tradução literária e dos desafios da profissão hoje. Ouça aqui.
Vianna indica a graphic novel Azul é a cor mais quente, de Julie Maroh, publicada em 2013 pela editora Martins Fontes em tradução de Marcelo Mori.
“A história trata do despertar do desejo, da descoberta da identidade sexual, da dificuldade de você ter um relacionamento fora das normas, digamos assim, que é um assunto muito atual e necessário”, explica Vianna. “O autor é transgênero, é não binário, e publicou essa obra quando tinha dezenove anos, antes de fazer a transição. Julie Maroh é uma das vozes mais potentes da cena queer europeia”, ela afirma.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Apresentação exclusiva: Petrobras
Para falar com a equipe: [email protected]
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