Repertório 451 MHz,

Minhas vidas passadas

Mario Prata relembra sua trajetória, episódios da ditadura e a histórica entrevista com Julinho da Adelaide, compositor inventado por Chico Buarque para driblar a censura

12jun2026

Está no ar o 200º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Para celebrar, esta edição especial recebe um convidado à altura: o escritor Mario Prata, que em 2026 completou oito décadas de vida e de muita história para contar.  No episódio, ele relembra momentos importantes da carreira, com destaque para um marco do nosso jornalismo cultural: a entrevista que fez, em 1974, com Julinho da Adelaide, compositor inventado por Chico Buarque para driblar a censura da ditadura militar. O programa publica trechos do áudio da entrevista pela primeira vez. 

Prata também fala sobre novelas que escreveu para a TV, peças e livros de sucesso, caso de Diário de um magro (Planeta, 2011). E revela bastidores da amizade com Chico e da criação de canções deste, como “João e Maria”. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet.

Escritor, dramaturgo, jornalista e cronista, Mario Prata nasceu em Uberaba (MG) e cresceu em Lins, no interior de São Paulo. Em mais de sessenta anos de carreira, escreveu dez peças de teatro, seis novelas de TV, cinco séries, sete roteiros de cinema, mais de trinta livros e cerca de três mil crônicas. Recebeu mais de vinte prêmios no Brasil e no exterior e, em 2022, foi finalista do prêmio Oceanos, com o romance O drible da vaca (Record, 2021). 

Para o escritor, sua trajetória tem raízes fincadas nos anos 60, época de transformações culturais e da projeção de grandes figuras da música, cinema, literatura e arquitetura no Brasil. “Só quem viveu sabe o que foi aquilo”, diz. “Eu entrei com catorze e saí com 24 [anos]. Toda a minha formação cultural e política foi lá.”

O escritor Mario Prata (Divulgação)

Prata lembra do convívio, a partir daí, com “muitos gênios” e destaca episódios com Caetano Veloso — que via a novela Estúpido cupido (1976), exibida pela Globo e escrita pelo autor mineiro — e com Chico Buarque, com quem estabeleceu uma grande amizade no período. Ele conta que vai publicar em breve Chico, justamente sobre essa relação

“É um livro para mostrar um lado do Chico que ninguém sabe, que é o Chico brincalhão. O Chico é uma das pessoas mais engraçadas que eu conheço”, diz o escritor, que revela uma história saborosa sobre a origem da música “João e Maria”. Segundo Prata, o compositor tirou versos como “o meu cavalo só falava inglês” e “os alemães e seus canhões” de frases que crianças de uma escola do Rio de Janeiro escreveram sobre o livro infantil Chapeuzinho vermelho de raiva (Globo, 1970), de Prata.   

Julinho da Adelaide

Em boa parte do episódio, Prata relata o clima de tensão envolvendo a censura do regime militar ao trabalho de artistas, escritores e jornalistas. Ele lembra que censores conviviam com profissionais da imprensa nas redações e, numa época em que nenhuma música assinada por Chico Buarque passava pela censura, o compositor inventou o sambista Julinho da Adelaide — que assinou canções como “Jorge Maravilha” e “Acorda, amor” e conseguiu driblar a ditadura.

Prata então teve uma ideia: entrevistar Julinho da Adelaide para o jornal paulistano Última Hora, que publicou a conversa com o título “O samba duplex e pragmático de Julinho da Adelaide”, em pleno 7 de setembro de 1974, numa provocação aos militares. Ele conta os bastidores da entrevista, que aconteceu na casa do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), pai de Chico Buarque, com o cantor incorporado no personagem e cercado de amigos e familiares.

Fac símile da entrevista de Julinho da Adelaide no jornal Última Hora (Reprodução)

Autor do clássico Raízes do Brasil (1936) e do conceito de homem cordial, o pai de Chico também entrou na brincadeira, diz Prata. Enquanto o cantor inventava na hora a biografia do pseudônimo — filho de uma ex-sambista chamada Adelaide, que fora obrigada a deixar a música depois de casar com um alemão —, Sérgio Buarque de Holanda mexia em livros numa estante próxima. 

“Uma hora ele pegou um livrão de capa dura e abriu. Tinha uma preta africana bonita. Ele falou baixinho assim: ‘Adelaide’.” A foto foi parar na matéria, que virou um marco de como o jornalismo cultural conseguiu enganar a censura imposta pela ditadura. 

Carreira

Com carreira estabelecida como autor de novelas e de peças como Fábrica de chocolate (1979), que tematiza a tortura, Prata lembra que se tornou cronista só a partir dos anos 90. Ele atribui a mudança ao jornalista Aluízio Maranhão, na época editor do Estadão, que o procurou com o objetivo de “ressuscitar a crônica” na imprensa.

Por ter crescido lendo grandes cronistas nos anos 50 e 60, como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, Prata não teve dificuldades para mergulhar no gênero. “Minha formação de cronista é muito maior que a de romancista”, diz. Ele conta que “ficava com a cabeça funcionando em ritmo de crônica” e até hoje tem ideias para “três, quatro crônicas por dia.”

O escritor lembra que só ficou conhecido como autor de livros quando já tinha por volta de cinquenta anos, no fim da década de 90. A obra que o projetou nesse campo foi Diário de um magro (1997), em que relata uma temporada num spa para emagrecimento no interior de São Paulo e brinca com o best-seller de Paulo Coelho O diário de um mago (1987) —  o livro com o trocadilho é até hoje o mais vendido de Prata.

O escritor também fala no episódio sobre as quase duas décadas em que viveu em Florianópolis, de onde presenciou o avanço do bolsonarismo na região Sul nos últimos anos. Prata conta que decidiu retornar a São Paulo para escapar da pressão que pessoas identificadas com a extrema direita na capital catarinense estavam impondo a quem, como ele, tem visões mais à esquerda.

Mais na Quatro Cinco Um

Na edição de 2025 d’A Feira do Livro, Mario Prata e o cineasta Ugo Giorgetti compartilharam histórias engraçadas envolvendo sua paixão pelo futebol e o ofício de cronista. Saiba mais aqui.

Prata foi entrevistado pela jornalista Marília Kodic para a revista dos livros em 2021, quando lançou O drible da vaca. Na conversa, ele fala de seu interesse pelo futebol, que deu origem ao romance. Leia na íntegra.

 O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura –  Lei Rouanet
Para falar com a equipe: [email protected]