Repertório 451 MHz,

O drible de Julinho da Adelaide

Ouça a histórica entrevista feita por Mario Prata em 1974 com o sambista inventado por Chico Buarque para burlar a censura da ditadura

19jun2026

Está no ar o episódio bônus da 200ª edição do 451 MHz, o podcast dos livros. Este programa traz a íntegra da entrevista feita pelo escritor Mario Prata com o sambista Julinho da Adelaide, pseudônimo criado nos anos 70 por Chico Buarque para driblar a censura da ditadura militar. Prata contou no programa que foi ao ar em 12 de junho os bastidores da entrevista, publicada em 7 de setembro de 1974, no jornal Última Hora.  

Agora, os ouvintes do 451 MHz têm a oportunidade de escutar a conversa completa, em que Chico Buarque incorpora o personagem e cria, na hora, a história de vida do sambista e de seus familiares, como o irmão Leonel e a mãe Adelaide. Em clima de brincadeira, a entrevista mostra como a criatividade do compositor enganou os censores. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.

Chico Buarque inventou o sambista Julinho da Adelaide numa época em que nenhuma música assinada por ele passava pela censura. Com o pseudônimo, o compositor conseguiu burlar os censores e lançar três canções que provocavam o regime, entre elas os clássicos “Jorge Maravilha” e “Acorda, amor”. 

Prata entrevistou Julinho da Adelaide na casa da família Buarque no bairro paulistano do Pacaembu — também estavam presentes o jornalista Melchíades Cunha Júnior, que ajudou na condução da entrevista, amigos de Chico e ainda seus pais, Sérgio Buarque de Holanda e Maria Amélia. A conversa foi publicada no Última Hora com o título “O samba duplex e pragmático de Julinho da Adelaide”, que usa expressões ditas por Julinho.

Fac-símile da entrevista de Julinho da Adelaide no jornal Última Hora (Reprodução)

A entrevista teve grande repercussão na época, pois furou a marcação cerrada da ditadura sobre a imprensa, que convivia com censores dentro das redações. E foi um marco para o setor cultural brasileiro, que precisava submeter novos filmes, peças teatrais e livros aos censores.

Jovem é detido durante manifestação contra a ditadura militar, em 1968 (Acervo Arquivo Nacional/Reprodução)

A verdadeira identidade de Julinho da Adelaide só foi publicamente revelada em 1975, quando o Jornal do Brasil publicou uma matéria informando que ele e Chico Buarque eram a mesma pessoa. Depois, a ditadura passou a exigir cópias dos documentos dos autores das músicas submetidas à censura, a fim de evitar que o drible voltasse a acontecer.  

Origem

Na pele de Julinho da Adelaide, Chico Buarque apresenta na entrevista o personagem que, para a grande maioria dos brasileiros, era uma figura desconhecida. Com humor e ironia, Julinho destaca a importância da mãe, Adelaide, que seria uma ex-sambista da velha guarda, e do irmão, o empresário Leonel — curiosamente, o nome de um irmão de Mario Prata.

Ele conta que à primeira deve o nome e ao segundo, as orientações sobre a carreira. “Minha mãe é mais famosa do que eu lá no Rio”, diz, antes de revelar que cresceu na favela da Rocinha.

“Eu não tenho vergonha nenhuma disso — de ter sido criado em favela. Porque tem muita favela lá que é melhor do que essas coisas que estão construindo agora no Rio, que são casas de tijolo e cimento armado”, afirma o personagem.

Samba duplex

Ao falar sobre sua música, Julinho da Adelaide diz que faz “samba duplex”, um gênero que permite a mudança de palavras e sentidos sem comprometer a composição. E que o irmão Leonel lhe recomendou o uso de “palavras difíceis”, como “pragmático” e “ecumênico”. 

Ele faz questão de afirmar que é compositor, e não cantor, pois não tem uma boa voz — mais uma ironia, dessa vez ligada às críticas que Chico Buarque recebia por, supostamente, não saber cantar. Mesmo assim, diz que um dia pretende gravar um disco. “Para você ver, gente que não canta bem, como o Chico Buarque, o Vinicius de Moraes, o Antonio Carlos Jobim — essa gente toda canta também”, brinca.

Chico Buarque e Mario Prata anos mais tarde, em 1992 (Acervo pessoal)

Julinho da Adelaide ainda comenta sua relação com Chico Buarque. “Eu preciso dos cantores para lançar meu nome, entende? Quer dizer, ele está faturando em cima do meu nome e eu estou faturando em cima do dele. Eu acho que isso é normal. Não acho que seja a aético da minha parte. Eu sou pragmático. Eu preciso dele, ele precisa de mim.”

Censura

A entrevista também aborda o trabalho dos censores durante a ditadura. Em vez de partir para a crítica direta, o personagem usa, outra vez, a ironia. “Eu queria dizer aqui que eu não quero criar nenhum conflito com a censura, entende? Porque eu tenho, através do Leonel, um diálogo muito bom com eles”, diz. 

No episódio #200 do 451 MHz, Mario Prata lembra que Chico Buarque de fato tinha certa proximidade com um censor, o ex-jogador de futebol Augusto da Costa. Lateral da Seleção Brasileira na Copa de 1950, ele virou chefe da censura durante o regime militar.   

Em mais uma provocação à ditadura, Julinho da Adelaide chega ao ponto de defender o trabalho dos censores. “O rapaz que trabalha na censura é um homem, pai de família, igual a mim — apesar de eu não ser pai nem ter família”, diz, mais uma vez em tom de brincadeira. 

“Ele está lá fazendo o emprego dele, entende? Se ele parar de proibir as músicas, ele perde o emprego, porque fica um trabalho inútil. Assim como, se eu parar de fazer samba, eu deixo de ser sambista.”

Mais na Quatro Cinco Um

Também autor de peças que marcaram o teatro brasileiro, como Roda viva (1967), e de romances como Benjamin (1995) e Budapeste (2003), Chico Buarque esteve nas páginas da revista dos livros em várias ocasiões. Em 2021, por exemplo, sua coletânea de contos Anos de chumbo (Companhia das Letras) foi resenhada por Bia Abramo. Leia aqui.

Sobre seu romance mais recente, Bambino a Roma, que saiu em 2024 pela mesma editora, Odorico Leal escreveu: “o autor emaranha memória e ficção para pintar os dois anos em que foi menino na capital da Itália”. Leia na íntegra.  

Já Mario Prata foi um dos autores convidados d’A Feira do Livro 2025, onde conversou com Ugo Giorgetti. Em 2021, quando lançou O drible da vaca (Record), ele foi entrevistado pela jornalista Marília Kodic. Na conversa, Prata fala de seu interesse pelo futebol, que deu origem ao romance. Leia na íntegra.

 O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura –  Lei Rouanet
Para falar com a equipe: [email protected]