Repertório 451 MHz,

A Semana de 22 posta em questão

O historiador Rafael Cardoso e o crítico literário Eduardo Sterzi conversam sobre os mitos em torno do marco cultural brasileiro

11fev2022 - 04h51

Está no ar o 58º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros! Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. O 451 MHz tem apoio dos Ouvintes Entusiastas. Seja um você também! O podcast tem ainda apoio do Grupo Editorial Record.

A Semana de Arte Moderna de 22 é considerada um marco na história cultural brasileira, no entanto, as comemorações do seu centenário neste ano trazem vários questionamentos sobre a sua importância. O escritor e historiador da arte Rafael Cardoso e o crítico literário Eduardo Sterzi conversam com o apresentador Paulo Werneck sobre os mitos em torno desse evento.

 

Paranoia ou mistificação

O grande marco da cultura brasileira, que aconteceu há 5200 semanas, está sendo posto em questão de maneira feroz em vários tipos de eventos, exposições e livros; ao mesmo tempo, está sendo celebrado e questionado. A Semana foi um evento fundador da cultura brasileira ou foi um evento super-valorizado da história cultural brasileira?

A conversa girou em torno de pontos cegos na historiografia que ajudou a criar os mitos em torno da Semana de Arte Moderna. Para Cardoso, o modernismo já existia na cultura midiática desde fins do século 19 e múltiplos agentes e autores ligados a essa modernidade anterior eram afrodescendentes ou de classes populares, fatos que foram ignorados e/ou invisibilizados pela historiografia. Na sua visão, a importância desse evento cultural foi construída a partir de 1945, uma vez que Mário de Andrade já havia decretado o fracasso da Semana, em 1942. Vários autores resgataram a Semana de Arte Moderna para fins políticos, principalmente o crítico de arte, historiador da arte, professor, cientista político e jornalista Lourival Gomes Machado (1917-67).

Sterzi amplia a discussão para pensar a Semana para além do evento em si, tentando definir o que é acontecimento e mito. Ainda observa a falta de imagens da Semana, tanto em fotografias quanto em registros audiovisuais – tema abordado por Carlos Adriano em texto publicado na edição 54 da revista dos livros
 

     
 

Sterzi comenta como o livro A arte moderna, de Joaquim Inojosa, foi importante para consolidar o imaginário em torno da Semana de Arte Moderna, e destaca a importância do livro A semana sem fim, de Frederico Coelho (Leya, 2012), para fazer esses questionamentos em torno desse evento cultural. 



 

O crítico literário também aponta que houve vários modernismos, cujas referências culturais iam além das vanguardas francesas, como os futuristas, Marinetti, o poeta Gabriele d'Annunzio e até mesmo em obras brasileiras como Os condenados, de Oswald de Andrade, cujo primeiro volume saiu em 1922, ou até em poetas mais populares como Juó Bananère.

Resgate histórico-cultural

Figuras consideradas na época marginais, como Lima Barreto, rotulado nos manuais escolares como “pré-modernista”, e a música popular da época, têm sido resgatadas na atualidade e recolocadas no seu lugar dentro do modernismo brasileiro, como se vê pelo tema deste ano da Festa das Literária das Periféricas (Flup), sobre o qual Júlio Ludemir, um dos criadores do festival, falou em entrevista concedida a Jefferson Barbosa para a Quatro Cinco Um.


 

Para Cardoso, a cegueira historiográfica veio da pesquisa feita por pesquisadores em São Paulo nos anos 60 e 70, que não conseguiam ver o modernismo em outros lugares do Brasil. “O mito apagou o que veio”, diz ele. E esses equívocos acontecem em obras importantes como Artes plásticas na semana de 22, de Aracy Amaral, publicada em 1970; a sexta edição foi lançada em 2010 pela Editora 34. Outro ponto discutido é a revolução que a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional causou entre os pesquisadores, facilitando o acesso a uma série de jornais de várias épocas e estados do Brasil.

A poesia concreta, a Tropicália, a poesia marginal, o Cinema Marginal, a Semana de Arte Moderna da Periferia e o show-álbum-documentário-manifesto Amarelo, de Emicida, são manifestações culturais posteriores que se apropriaram da ideia da Semana de 22. 

Os convidados também diferenciam a Antropofagia do modernismo da Semana de 22, criticando a forma como os manuais escolares e movimentos culturais posteriores se apropriaram da ideia de “vomitar o estrangeiro” para formar a identidade nacional, o que, segundo Sterzi, é completamente “antiantropofágico”, mas que foi difundida por Antonio Candido, pelos poetas concretos e pela Tropicália. A grande novidade da Antropofagia é a sua separação com relação ao modernismo inicial e o questionamento profundo da própria ideia de identidade nacional. O artista plástico Hélio Oiticica e os poemas de Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade, também são citados.



 

No final, ambos defendem que a história cultural brasileira deveria mostrar que existiram vários modernismos que aconteceram concomitantemente. Um livro muito elogiado por Cardoso e Sterzi e que, segundo eles, está um tanto esquecido, é Orfeu extático na metrópole, de Nicolau Sevcenko (Companhia das Letras, 1992). Ambos prestaram homenagem ao professor da Universidade de São Paulo morto em 2014, cuja visão sobre o modernismo brasileiro os influenciou profundamente.

Modernidades
 


 

Rafael Cardoso é escritor, além de historiador da arte e do design – com uma bibliografia extensa nessa área. Ele é também professor de História da Arte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisador associado à Universidade Livre de Berlim. Cardoso publicou agora Modernidade em preto e branco: arte e imagem, raça e identidade no Brasil, 1890-1945, pela Companhia das Letras, trata do modernismo brasileiro e da formação histórica do nosso país, a partir da questão racial com a questão de classe. É uma versão revisada e ampliada de Modernity in Black and White: Art and Image, Race and Identity in Brazil, 1890-1945, publicada pela Cambridge University Press em 2021.

          
 

Cardoso é autor de Uma introdução à história do design (Blucher, 2008), Design para um mundo complexo (Ubu, 2022), entre outros. Ele escreveu também ficção, com o romance O remanescente, publicado em 2016 pela Companhia das Letras, em que conta a descoberta da história familiar do narrador, cujos avós fogem da Alemanha para fugir da Segunda Guerra Mundial.

O outro convidado é o poeta, jornalista e crítico literário Eduardo Sterzi, que também é professor de Teoria Literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Junto com a escritora Veronica Stigger, com quem é casado, eles vão lançar – no segundo semestre deste ano – um livro pela editora Todavia sobre a Semana de 22 e os desdobramentos desse movimento, que tem o título provisório de A Semana e o século: as ruínas de 22. Sterzi lançou livros de poemas, como Aleijão (7Letras, 2009), e de crítica literária, como Por que ler Dante (Globo, 2008).

Mais na Quatro Cinco Um

Eduardo Sterzi já havia colaborado para a Quatro Cinco Um, escrevendo sobre a Documenta de Kassel e Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo, na edição 13 da revista.

Na última segunda (7), Paulo Werneck, diretor de redação da Quatro Cinco Um, participou da bancada do programa Roda Viva, da TV Cultura, apresentado pela jornalista Vera Magalhães, tendo como entrevistado o escritor Ruy Castro, justamente para falar sobre o centenário da Semana de Arte Moderna.

O melhor da literatura LGBTI+

Neste episódio, a pesquisadora e poeta Bruna Beber, autora de Ladainha, Rua da padaria, entre outros, recomenda o livro Eu sou uma lésbica, de Cassandra Rios, de 1979, que toca em temas que ainda reverberam na sociedade brasileira atual. O livro está fora de circulação (assim como sua obra) conta as aventuras amorosas de uma lésbica nos anos 60 e 70.

Ao longo de 2021, o quadro contou com o apoio do C6 Bank e reuniu catorze livros e dicas literárias LGBTI+ de colaboradores da Quatro Cinco Um. Veja a lista completa. 

Narradores do Brasil

Na coleção de episódios roteirizados Narradores do Brasil, o 451 MHz faz breves incursões no formato narrativo para explorar a vida e a obra de nossos grandes autores. Ouça o último episódio sobre o casal Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop. Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Nelson Rodrigues, Paulo Freire e Caio Fernando Abreu  foram os outros autores contemplados nessa coleção.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação 451.
Apresentação: Paulo Werneck e Paula Carvalho
Coordenação Geral: Évelin Argenta, Paula Scarpin e Vitor Hugo Brandalise
Produção: Gabriela Varella
Edição: Claudia Holanda
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger e FêCris Vasconcellos
Gravado com apoio técnico da Confraria de Sons & Charutos (SP).
Para falar com a equipe: contato@arevistadoslivros.com.br