Listão da Semana,

O 13 de Maio, Hannah Arendt e mais 7 lançamentos

Livros da semana abordam ainda temas como o luto, a era dos muros e as armadilhas do ciberpopulismo

13maio2021 - 02h00 | Edição #46

“Será que a lei Áurea, tão sonhada, há tanto tempo assinada, não foi o fim da escravidão?”, indagava o clássico samba-enredo da Mangueira em 1988, nos cem anos da Lei Áurea (em, 2019, a escola afirmava: “não veio do céu nem das mãos de Isabel a liberdade”). Muito antes de os questionamentos sobre a Abolição chegarem à cultura popular do país, um descendente de escravizados já escrevia, em 1905, sobre o orgulho de não “ser treze” — “isto é: de não ter ganhado a libertação com a Lei Áurea, mas tê-la conquistado antes desse ato que, para alguns negros e negras, não teve o menor valor”, como escreve Paulo Lins no prefácio de O 13 de Maio e outras estórias do pós-Abolição, de Astolfo Marques. A antologia de contos, que chega nesta semana às livrarias, é uma boa oportunidade para repensar o que os livros de história de outrora nos ensinaram.

Completam a seleção da semana uma biografia de Hannah Arendt, o luto segundo Chimamanda Ngozi Adichie, uma novela de Patrick Süskind, poemas de Paul Celan, análises sobre a era dos muros e as armadilhas do ciberpopulismo, o novo romance de Yoko Ogawa e um ensaio de Vittorio Lingiardi.

Viva o livro brasileiro!

O 13 de Maio e outras estórias do pós-Abolição. Astolfo Marques.
Org. e intr. Matheus Gato • Pref. Paulo Lins • Fósforo • 208 pp. • R$ 54,90

Descendente de escravizados, o escritor maranhense Astolfo Marques (1876-1918), contemporâneo de Lima Barreto, aprendeu a ler sozinho enquanto ajudava sua mãe, cafuza livre que trabalhava como lavadeira e engomadeira, e tornou-se jornalista e tradutor. Foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras, em 1908, e escreveu livros de contos (A vida maranhense, 1905; Natal, 1908), peças (O Maranhão por dentro, 1907) e romances (A nova aurora, 1913) em um estilo que recorda o de Machado de Assis, com “parágrafos curtos, com tópicos frasais precisos” — é o que diz o escritor Paulo Lins no prefácio da antologia que reúne dezessete contos de Marques.

A coletânea foi organizada pelo historiador Matheus Gato, autor de O massacre dos libertos: sobre raça e República no Brasil (1888-1889)resenhado na edição 40 da Quatro Cinco Um, e que concedeu uma entrevista ao podcast Vinte Mil Léguas sobre a maneira como as fronteiras raciais vão sendo redesenhadas ao longo da história. O livro marca a estreia da Editora Fósforo, criada por Fernanda Diamant, Rita Mattar e Luis Francisco Carvalho Filho, e que também está lançando O lugar, uma das principais obras da escritora francesa Annie Ernaux, e Psiconautas, livro do jornalista Marcelo Leite sobre ciência e psicodelia.

Leia aqui um trecho do prefácio assinado por Paulo Lins.

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Arendt: entre o amor e o mal — uma biografia. Ann Heberlein. 
Trad. Kirstin Lie Garrubo • Posf. Heloisa Murgel Starling • Companhia das Letras • 256 pp. • R$ 64,90

A professora de filosofia da Universidade de Lund conta a vida da pensadora alemã, aluna de Martin Heidegger e Karl Jaspers e amiga de Walter Benjamin e Gershom Scholem. Arendt ficou conhecida por duas obras capitais: Origens do totalitarismo (1951) e Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (1963).  “Hannah Arendt não foi apenas uma pensadora brilhante, mas uma pessoa fascinante que viveu uma existência cheia de emoções. Quero falar sobre isso”, escreve a biógrafa, que explica que não pretende fornecer um retrato completo e exaustivo da filósofa. “Minha ambição é descrever a vida de Hannah, sua evolução como intelectual — seu pensamento está intimamente ligado a suas experiências concretas — e delinear uma sequência de acontecimentos cruciais na história da humanidade.”

Trecho do posfácio, por Heloisa Murgel Starling: “A relação entre liberdade e ação escancara o significado da opressão totalitária e a maneira de enfrentá-la com chance de sucesso. Se considerarmos que essa relação vale a pena, então, a contribuição de Hannah Arendt para nossa contemporaneidade será imensa. ‘Para combater o totalitarismo’, ela diz, ‘basta compreender uma única coisa: o totalitarismo é a negação mais radical da liberdade’. E acrescenta: ‘Contudo, quem não se mobiliza quando a liberdade está sob ameaça jamais se mobilizará por coisa alguma’. O perigo existe, é real e há riscos concretos para a liberdade aqui e em outros países. Então, talvez seja urgente ler Hannah Arendt no Brasil”.

Leia também:  resenhas dos Escritos judaicos por Eduardo Jardim, de Eichmann em Jerusalém por Paulo Roberto Pires, de A liberdade para ser livre por Virginia Siqueira Starling e de Ação e a busca pela felicidade por Pedro Duarte.

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Notas sobre o luto. Chimamanda Ngozi Adichie.
Trad. Fernanda Abreu • Companhia das Letras • 144 pp. • R$ 29,90

Escrito pela romancista nigeriana após a morte de seu pai, professor emérito de estatística na Universidade da Nigéria, o livro narra a dolorosa experiência da perda de um membro da família e a devastação emocional provocada pelo luto: “Preciso esconder o quão duro é o abraço de ferro da dor. Finalmente entendo por que as pessoas fazem tatuagens daqueles que perderam. A necessidade de expor não só a perda, mas o amor, a continuidade”. O livro narra ainda a luta da escritora para conseguir sepultar o pai em meio à pandemia da Covid-19 de acordo com as tradições religiosas de seu povo: os aeroportos da Nigéria estavam fechados e as funerárias locais lotaram devido ao coronavírus, atrasando todos os enterros.

Trecho do livro: “O luto é uma forma cruel de aprendizado. Você aprende como ele pode ser pouco suave, raivoso. Aprende como os pêsames podem soar rasos. Aprende quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca das palavras. Por que sinto tanta dor e tanto desconforto nas laterais do corpo? É de tanto chorar, dizem. Não sabia que a gente chorava com os músculos. A dor não me causa espanto, mas seu aspecto físico sim: minha língua insuportavelmente amarga, como se eu tivesse comido algo nojento e esquecido de escovar os dentes; no peito um peso enorme, horroroso; e dentro do corpo uma sensação de eterna dissolução. Meu coração me escapa — meu coração de verdade, físico, nada de figurativo aqui — e vira algo separado de mim, batendo depressa demais num ritmo incompatível com o meu. É um tormento não apenas do espírito, mas também do corpo, feito de dores e perda de força. Carne, músculos, órgãos, tudo fica comprometido. Nenhuma posição é confortável”.

Leia também: Chimamanda Ngozi Adichie resenha o livro de memórias do ex-presidente norte-americano Barack Obama

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A rosa de ninguém. Paul Celan.
Trad. e apres. Mauricio Mendonça Cardozo • Editora 34 • 192 pp. • R$ 52

Chega em edição bilíngue (em alemão e português) o livro de poemas publicado pelo escritor romeno em 1963, numa época em que enfrentava uma intensa campanha difamatória: era acusado, sem fundamento, de ter plagiado outro escritor e de ter inventado que seus pais tinham morrido em um campo de concentração para posar de vítima do nazismo. Enviado a outro campo de concentração, Celan sobreviveu dezoito meses até ser libertado pelas tropas soviéticas em 1943. Após a guerra, mudou-se para Paris em 1948, trabalhou como tradutor e professor de alemão e passou a publicar poemas densos sobre a condição humana, a transitoriedade da existência e a importância da linguagem, que em 1960 lhe renderam o Prêmio Buchner, o mais importante em língua alemã.

A rosa de ninguém, seu quinto livro, é dedicado ao poeta russo (também judeu) Óssip Mandelstam, que morreu em um campo de trabalhos forçados na União Soviética em 1938 e cujos poemas se salvaram porque foram memorizados por sua mulher, Nadejda (como mostra o livro O que ela sussura, de Noemi Jaffe). Celan havia descoberto os versos de Mandelstam alguns anos antes e se identificou plenamente com sua obra: “Para mim, traduzir Mandelstam para o alemão não tem significado menor do que a minha própria poesia”. 

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A era dos muros: por que vivemos em um mundo dividido. Tim Marshall. 
Trad. Maria Luiza X. de A. Borges • Zahar/Grupo Companhia das Letras • 352 pp. • R$ 69,90

O autor de Prisioneiros da geografia (2018) mostra que as esperanças abertas pela queda do Muro de Berlim, em 1989, mostraram-se infundadas: os últimos anos têm sido marcados pela proliferação de barreiras em todo o mundo, com o objetivo de deter o fluxo de migrantes. Para Marshall, apesar de tantos muros, as migrações devem se intensificar: “Não há soluções simples aqui, mas o que está claro é que se não deslocarmos mais dinheiro para onde a maioria das pessoas está, muita gente vai tentar se deslocar para onde está o dinheiro”.

Trecho do livro: “Fala-se muito sobre o muro israelense, o muro na fronteira dos Estados Unidos com o México e outros na Europa, mas o que muita gente não compreende é que estamos construindo muros em fronteiras por toda parte. É um fenômeno mundial, no qual o cimento foi misturado e o concreto assentado sem que a maioria de nós sequer notasse. Milhares de quilômetros de muros e cercas foram erguidos no século 21. Pelo menos 65 países, mais de um terço dos Estados-nações do planeta, construíram barreiras ao longo de seus limites; metade das que foram erigidas desde a Segunda Guerra Mundial surgiram entre 2000 e agora”.

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A história do senhor Sommer. Patrick Süskind.
Ils. Sempé • Trad. Samuel Titan Jr. • Editora 34 • 96 pp. • R$ 58

Avesso a noites de autógrafos e aparições públicas, Süskind escreveu duas obras que conheceram imenso êxito nos anos 80: o romance O perfume (1985), vertido para o cinema em 2006 por Tom Tykwer depois de vender 15 milhões de exemplares, e o monólogo O contrabaixo (1981), uma das peças teatrais mais representadas na Europa. A história do senhor Sommer, outro texto que alcançou grande sucesso, é uma novela ambientada na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial que narra as recordações de um homem adulto sobre sua adolescência, marcada pela presença de um enigmático andarilho que morava em sua vila. Süskind já recusou diversos prêmios literários e raramente concede entrevistas.

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Ciberpopulismo: política e democracia no mundo digital. Andrés Bruzzone.
Contexto • 128 pp. • R$ 35

Especialista em inteligência digital, Bruzzone sustenta que “o ciberpopulismo reúne o velho populismo com as tecnologias mais modernas de comunicação”, o que permitiu “a irrupção de um movimento político de dimensões globais”, graças à comunicação digital em rede, que demoliu os filtros criados pelos meios de comunicação tradicionais. Com isso, as vozes antidemocráticas ganharam visibilidade e relevância, acentuando as fraturas da sociedade e polarizando o debate político. Segundo o autor, Bolsonaro é um produto do ciberpopulismo e o Brasil caiu nas mãos de “uma extrema direita vinculada a milícias, uma ameaça real e concreta para a democracia e retrocesso das artes, da cultura, da ciência, da educação”. “Um dos países mais admirados do mundo virou motivo de chacota e de comiseração internacional.”

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A polícia da memória. Yoko Ogawa.
Trad. de Andrei Cunha • Estação Liberdade • 328 pp. • R$ 65

Comparado a 1984, de George Orwell, o romance tem como foco o desaparecimento das coisas em uma ilha: pássaros, pessoas, aromas, objetos. Assim que somem, a polícia da memória passa a vigiar os habitantes da ilha e perseguir quem retém a capacidade de recordar o que já não existe. Lançado em 1994, o livro que chega agora ao Brasil pela Estação Liberdade (que já publicou da autora A fórmula preferida do professor e O museu do silêncio) foi finalista do International Booker Prize e do National Book Award, no Reino Unido. 

Leia também: Yoko Ogawa escreve sobre os 75 anos da bomba atômica: “A literatura é um refúgio quando somos forçados a encarar contradições que estão além da razão e da lógica”.

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Diagnóstico e destino. Vittorio Lingiardi.
Trad. Julia Scamparini • Ayiné  • 196 pp. • R$ 69,90

“Tentando traduzir todas aquelas frases complicadas, obscuras, científicas, em linguagem normal, tentando encontrar nelas a resposta para a pergunta: ‘Estarei mal, realmente muito mal ou, ao final das contas, isso não é nada?’”. A pergunta formulada pelo protagonista de A morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, carrega boa parte das questões abordadas no ensaio do psiquiatra, psicanalista e professor de psicologia dinâmica na Universidade La Sapienza, de Roma. Para entender o que nos aflige e as questões psicológicas, sociais e éticas envolvidas, Lingiardi usa não só fontes da medicina e psicoterapia, mas também muito da produção literária de todos os tempos: Tolstoi e Joan Didion, Susan Sontag e Virginia Woolf, Joan Didion e Proust, Allen Ginsberg e Jorge Luis Borges, John Donne e Philip Roth.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #46 em abril de 2021.