Ondjaki
Poeta e escritor angolano, publicou Materiais para confecção de um espanador de tristezas (Pallas).
um farol chamado saudade
diz-me onde estás que eu preciso de falar contigo e ir visitar essa misteriosa pessoa que és quando os meus eus metafísicos precisam de precisão
Ondjaki
o não esquecimento
quem foi levado pelos seus personagens não se esquece deles: as cicatrizes das leituras são marcas que carregamos pela vida
Ondjaki
o pássaro que adormecia gaiolas
ao falar dos seus ‘azulões’ e ‘cardeais’, Ardernôr dos Passarinhos me faz duvidar de tudo; ele, devagar, me apassarinha
Ondjaki
a imitação da pequenez
há janelas que se abrem como portas e ao debruçarmo-nos sobre elas estreamos aquilo que nos traz arejamento e travessia
Ondjaki
as lições de Ionescu
seu livro, que me auxiliava a ler a minha própria angústia de adolescente, fazia-me companhia, e aquele personagem passou mesmo a ser o senhor
Ondjaki
o mar carregado de borboletas
e eu que pensei que era possível fazer do voo contágio, e de uma carta um reencontro, vim trazer o recado da deusa com o coração aceso
Ondjaki
a mão de fazer adeus
esse gesto, que acaricia o vento como se tocasse a face de outra pessoa: mesmo pouco visível, toda despedida tem uma lágrima por perto
Ondjaki
triste Cina, a dela
as estórias em angola sobrevivem à escrita e circulam na memória colectiva como fantasmas sem sono — e sobretudo sem paz
Ondjaki