Coluna

Ondjaki

Deslembramentos

lugares com maresia dentro

o nosso poeta apenas se interessava por livros que realmente tivessem um prazo de vida. segundo ele, há livros que foram pré-destinados a não estar muito tempo entre nós

01jan2024 - 00h00 | Edição #77

“havia um dentro maior/ no dentro dos olhos/ das crianças”. o verso, inacabado, foi encontrado nas anotações do poeta, que se crê ter nascido num dos Congos, e que se dizia ser colecionador de livros com prazo de validade.

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sabe-se que há colecionadores de quase tudo e também de primeiras edições, certas edições com raridades de erros que se tornaram preciosidades, erros de impressão no sentido da página, alguma característica que afectou, de uma longa tiragem, apenas dez livros ou, indo mais longe, algum livro que contenha em si sangue de algum autor importante. mas o nosso poeta apenas se interessava por livros que realmente tivessem um prazo de vida. segundo ele, há livros que foram pré-destinados a não estar muito tempo entre nós. está a ser estudado. é um fenómeno tão eficaz que o livro se desfaz, por acidente, por fogo, por mancha, por lavagem, por uma espécie, digamos, de autodestruição ao fim do seu prazo de vida. isto é real! já agora se começa a falar disso.

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em fins de 1997, “o Congolense”, como era chamado entre os alfarrabistas europeus, desfez-se de alguns negócios para juntar fundos para a viagem. algo entretanto sucedeu: ao longo das suas buscas no continente africano, por modo de custear as suas deslocações, foi comprando arte urbana, leve e interessante, que repassava adiante lucrando aquilo que necessitava para prosseguir a viagem.

mas o seu nome ganhou nome. também lhe chamaram “o trader”, “o homem-vento” e, já mais acima no continente, “o sorriso que voa devagar” (livre tradução do árabe). foi incrível: viajando de sul para cima, o seu nome começou a chegar antes dele. as peças que ele tocava, que ele escolhia comprar, recebiam um selo invisível de qualidade. e não há duvida que a sua lucidez estética se foi aperfeiçoando, tanto pela prática quanto pela porção de peças que adquiriu, trocou, almejou e até revendeu. era hábil no uso do olhar que via e na decisão que escolhia. a partir daí, o objecto parecia crescer com ele.

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quando começou a chamada “volta para descer”, a sua bagagem não era tão pouca ou tão leve. deslocava-se, nesse então, com caixas de couro ornamentadas por figuras decorativas, animais, nuvens, árvores baixas, desenhadas por gente do deserto. até as próprias malas denunciavam o seu bom gosto. amarradas com fortes tiras de couro, guardavam nelas o brilho omisso da curiosidade de quem as via desfilar.

‘o Congolense’ foi, aos poucos, voltando para casa até que um dia conseguiu lá chegar com as suas malas de segredos bem amarrados

muitos pensaram tratar-se de uma derradeira coleção privada que ele havia recolhido e escolhido a dedo — e com dedinhos. e era. mas não era. era a sua, era a que ele por enquanto desejava, e tinha encontrado a ponta do início da sua vasta coleção. mas não era o que as galerias e artistas haviam imaginado, uma seleção coerente, um labirinto codificado, um colar de peças que juntas formariam um colar transafricano.

o homem a quem chamavam “o Congolense” foi, aos poucos, voltando para casa até que um dia conseguiu lá chegar com as suas malas de segredos bem amarrados. mas ninguém, dos que se haviam com ele cruzado, tinha o conhecimento da localização dessa casa do “homem vento”.

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há um longo artigo publicado na revista ganesa Joy-Ride, perto dos anos 80, onde várias frases são atribuídas ao “Congolense”. aparentemente o jovem que escreve o artigo terá conhecido “o trader” numa viagem à Tanzânia. as frases são citadas de memória e fazem sentido estético. o jovem declara que, na altura, ficara tão impressionado com o raciocínio do “Congolense” que nessa noite incluíra no seu diário tudo o que lembrava “desse encontro inesquecível”.

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de resto, existem em publicações avulsas, resquícios de um caderno esquecido num acampamento em Taudeni, na região desértica do norte do Mali. parte desse caderno, cheio de anotações, desenhos e mapas, contém um agrupamento de poemas designado “lugares com maresia dentro” (tradução livre; há aceso debate sobre este título: no original, não se consegue saber qual a palavra usada em “maresia”).

também esse caderno foi, sabe-se hoje, um “livro” com prazo de validade. mas foi lido e reproduzido. no relatório final sobre o que sobrou do livro, pode ler-se que “o original desapareceu por efeito da presença excessiva de NaCl” (cloreto de sódio).

mas há partes legíveis marcantes. no capítulo em que refere à Palestina, escreve num tom sombrio mas com acentuada lucidez: “havia um mundo maior/ bem dentro/ das crianças que ainda se salvavam/ a brincar.”

Quem escreveu esse texto

Ondjaki

Poeta e escritor angolano, publicou Materiais para confecção de um espanador de tristezas (Pallas).

Matéria publicada na edição impressa #77 em novembro de 2023.