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Transcrição: Julinho da Adelaide no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #200 bônus, que levou ao ar a entrevista histórica feita por Mario Prata em 1974 com o sambista inventado por Chico Buarque
21ago2026 • Atualizado em: 20ago2026Este episódio do 451 MHz traz a íntegra da entrevista feita pelo escritor Mario Prata com o sambista Julinho da Adelaide, pseudônimo criado nos anos 70 por Chico Buarque para driblar a censura da ditadura militar. Prata contou no programa que foi ao ar em 12 de junho os bastidores da entrevista, publicada em 7 de setembro de 1974, no jornal Última Hora. Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi. Está começando o episódio #200 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Julinho da Adelaide [JA]:
Não deu tempo de tocar “Tenho tanto medo do vexame. Chame lá, chame lá, chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão. Acorda, amor…” É uma música que precisa de violão, precisa de harmonia para acompanhar, entende?
PW:
Essa voz que você acabou de ouvir é do sambista Julinho da Adelaide. Ou melhor, do criador dele. Mas antes de mais nada, eu preciso te falar que esse episódio foi produzido com o apoio da Lei Rouanet.
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Se você esteve aqui no feed do 451 MHz na semana passada, você ouviu a entrevista com o grande escritor Mario Prata e tudo o que ele contou sobre a censura nos anos 70. Um dos episódios mais saborosos e mais importantes do enfrentamento à censura no Brasil foi uma entrevista histórica que ele fez com o Julinho da Adelaide, esse personagem que foi criado pelo Chico Buarque para conseguir fazer passar pela censura algumas músicas — já que com o nome próprio dele, de Chico Buarque, ele não conseguia aprovar nada na censura que vigorava durante a ditadura brasileira nos anos 70.
Então ele escolheu esse nome, Julinho da Adelaide, emplacou três músicas que, ainda por cima, tinham muita crítica e muita ironia à ditadura e àquele clima de repressão do país, e deu um drible na ditadura, que nem se deu conta disso, na verdade.
Então o Chico resolveu, ainda por cima, dar uma entrevista para a Última Hora, — que era um jornal editado pelo Samuel Weiner, grande jornalista que também era perseguido pela ditadura —, para o repórter Mario Prata, que foi lá, pediu a entrevista e recebeu um Chico Buarque incorporando o personagem Julinho do Adelaide.
Vale a pena voltar lá no episódio #200 e ouvir um pouco dos bastidores dessa história. Nesse episódio do 451 MHz, a gente se transporta para a rua Buri, que é onde morava a família Buarque de Holanda e onde aconteceu essa entrevista histórica. O Chico marcou lá, na casa do pai dele, o professor Sérgio Buarque de Holanda, e da mãe dele, a dona Maria Amélia, e também convidou alguns amigos para fazer aquela sessão de entrevista, que na verdade foi uma farra.
O próprio professor Sérgio Borges de Holanda deu palpite, contribuiu um pouquinho com a história e vários outros amigos que estavam ali também. Esse esse áudio do Mario Prata com o Julinho Adelaide poderia ser comparado mais ou menos àquele que a gente publicou aqui no 451 MHz no episódio que até hoje é o mais ouvido da história do nosso podcast, a entrevista da Clarice Lispector para o Affonso Romano de Sant’anna e para a Marina Colassanti e também para o João Salgueiro.
Então eu agradeço demais ao Mario Prata e ao Chico Buarque por nos autorizarem a publicação da entrevista aqui para você diretamente no 451 MHz. Eu não vou me demorar mais em explicações, vamos direto para a sala do professor Sérgio Buarque de Holanda ouvir o Julinho Adelaide conversando com o Mario Prata.
Julinho da Adelaide [JA]:
Não, pegou assim, o cabo aqui e a caixa desse outro lado.
Mario Prata [MP]:
Quer dizer que você é um ser marcado pela música popular brasileira.
JA:
Eu sou marcado pela música popular. Foi aí que eu despertei para a música, inclusive. Foi nesse momento aí que eu despertei para a música popular.
MP:
Certo, e Julinho, essa segunda vez que você… Essa primeira vez que você veio a São Paulo, você estava passeando só?
JA:
Estava. Eu, inclusive, não tinha vocação nenhuma musical. Foi aí que eu despertei realmente o problema da música popular.
Falante A:
Veio de ônibus?
JA:
Vim de ônibus, vim de ônibus.
MP:
Nessa época você não estava construindo casa na Gávea?
JA:
Não, isso é um pouco de confusão que tão fazendo. Quem está construindo casa na Gávea é o meu irmão, o Leonel.
MP:
Leonel?
JA:
É, meu irmão e meu procurador.
MP:
Certo, depois a gente fala do do Leonel. [Risadas] Mas ô Julinho, e essa segunda vez agora que você está em São Paulo, você está aqui profissionalmente, porque eu soube que você está com três músicas novas aí, você está para…
JA:
Três não, tem muito mais que três, devo dizer isso. Agora, não tenho culpa se as pessoas pedem sempre as mesmas. As pessoas pedem, em geral, o “Chame o ladrão”, o “Jorge Maravilha” e o “Milagre”. São as três que pedem mais. Agora, eu tenho um par de músicas que isso. Estou falando aqui mesmo, já fiz.
MP:
Só se paga a guarda, né?
JA:
Não. Olha, o “Chame o ladrão” teve um problema com a censura, e o “Milagre” teve também. Agora, inclusive, eu queria dizer aqui que eu não quero criar nenhum conflito com a censura, entende? Porque eu tenho, através do Leonel, um diálogo muito bom com eles, entende? E eu entendo… O Leonel é meu procurador. E ele me quebra todos os galhos, em todo sentido, entende?
Falante A:
Mas ele tem qual profissão?
JA:
Ele é comerciário na carteira, mas ele não exerce muita profissão de comerciário, ele trabalha mais mesmo como meu procurador. E tem, assim boas relações e tal, e ele vive disso. Inclusive tem boas relações na polícia. Então com relação à censura, eu tenho essa posição, entendeu? Os caras… Eu acho bobagem a pessoa falar que a censura prejudica, quando eu acho que o negócio de fazer samba, tem que fazer muito samba mesmo, entende?
Então eu faço muito samba, entende? Faço vários por dia mesmo. Tanto que o sujeito que trabalha lá, o trabalho dele é censurar a música, eu respeito muito o trabalho do cara, ele terminou o dia: “quantas músicas você censurou hoje?”. Ele fala: “sete”. O cara que censurar dezessete, por exemplo, vai ser promovido logo. Eu também, meu trabalho é fazer samba. “Quantas sambas você fez hoje? Oito, nove?”. Se eu digo que eu faço dez, eu vou dormir em paz com a minha consciência, cada um no seu ramo.
MP:
Você realmente faz oito, dez sambas por dia?
JA:
Faço e faço sambas duplex também.
MP:
Espera aí. Antes de falar de samba duplex, por que você só foi descoberto agora? Por que é que só agora estão cantando suas músicas?
JA:
Porque eu, relativamente, há pouco tempo que eu estou fazendo mesmo, profissionalmente. E estou divulgando e a gente tem um grande problema. O autor jovem… Eu andei em todas as fábricas e não consegui nada. É claro que a minha voz não é muito boa para cantar, eu não sou cantor. Hoje em dia, quase todos os compositores são cantores, entende? Então eles… eles que defendem o material lá deles, a matéria-prima deles, eles que lançam.
Eu não posso fazer isso. Eu tenho que procurar, então, eu tenho que procurar as fábricas, aí o sujeito me empurra para o outro. Um dia eu fui parar na Philips, acabei no departamento gráfico. [Risadas] Fui de porta em porta: “Não, você fala com o…”. Isso lá no Rio, na Philips, cheguei a falar até com o Roberto Menescal do autor do…
Falante:
Esse lance da cicatriz não ajuda muito também né?
JA:
Não. É que eu, embora não seja cantor, um dia eu pretendo gravar um disco. Pra você ver, gente que não canta bem, como o Chico Buarque, o Vinicius de Moraes, o Antônio Carlos Jobim, essa gente toda canta também, entende? Quer dizer, a minha voz não é muito boa. Outro dia eu vi um disco do Nelson Cavaquinho, ele é mais rouco que eu e grava disco. Eu posso ter que gravar um disco um dia, aí a minha foto vai atrapalhar a vendagem do disco, né?
Claro que eu não vou botar na capa do disco a minha foto. Mas se já tiver a minha foto ligada à minha pessoa amanhã, sei lá, uma menininha dessas meninas bonitas aí da rua Augusta e tal, quepode comprar pensando que é um sujeito bonito e fica… E vende mais o disco, eu acho, né? Pelo menos com a minha cara ligada à minha pessoa, vende menos. Então é melhor não ter cara, do que ter a cara que eu tenho. Eu fico meio nervoso quando falam nisso. [Risadas]
MP:
Aí é um problema pessoal, a gente não vai forçar. O Bosco pode inclusive, o Bosco que é fotógrafo, ele vai entender isso, não tem problema nenhum.
JA:
Se quiser tirar, tira de costas.
MP:
Não, mas aí vai ficar uma brincadeira…
JA:
Ou então tira do meu irmão, o Leonel. Não, é claro, o Leonel já se ofereceu, inclusive, pro dia que eu fizer um disco, ele vai aparecer na capa. [Risadas] Leonel quebra galho.
Falante A:
O Leonel tá com você aqui agora?
JA:
Não, ele me mandou. Ele me mandou, que ele disse que leu nos jornais. Leonel, ele lê muito o jornal.
Falante A:
O que você está fazendo aqui?
JA:
Aqui em São Paulo tem muito negócio de casa de samba. Uma coisa que lá no Rio não tem. Lá tinha uma só, mas… era o Sucata, mas já era um show já montado, então eu não podia entrar e cantar no meio. E aqui parece que as pessoas podem chegar no… Eu não sei porque eu cheguei agora, eu quero ver… Eu tenho que pedir o conselho pra vocês pra ver quais são as casas melhores. Vou lá e pedir a minha vez pra cantar. Já avisando, desculpe não ser um bom cantor. Mas eu acho… eu tenho muita música, já fiz uma chegando aqui hoje.
Falante A:
Você faz uma música, faz a música e a letra?
JA:
Faço tudo junto. Claro que eu faço samba duplex, e quase todos são duplex.
Falante A:
Sambas duplex o que que é?
JA:
São sambas que você pode mudar. Entende? Por exemplo, esse que eu fiz agora pode mudar, que é sobre o problema da meningite, que o Leonel falou que tinha isso. Ele falou: “olha, vai pra casa do samba e cuidado com a meningite”. Me explicou o que é e tal, porque eu não leio muito jornal, ele que lê mais. Aí eu fiz um samba aqui no caminho que diz assim: “eu fui pra São Paulo com a Judite, só saí de lá com a meningite”.
Agora do jeito que é feita a música, dá pra cantar… Porque eu sei que tem agora propaganda de vir pra São Paulo em fim de semana e tal, e eu não quero prejudicar ninguém, pode dar problema isso. Então se der problema eu posso dizer: “eu fui para São Paulo com a meningite e saí de lá com a Judite”. Quer dizer, inclusive fica como se São Paulo tivesse curado a meningite.
Falante A:
A Judite é paulista?
JA:
A Judite é paulista? [Risos] Dependendo… O samba é duplex. Se eu tiver chegado com a Judite, cheguei de algum lugar… Da Bahia, pode ser que ela seja baiana. Se eu tiver chegado com a meningite e saí com a Judite, a Judite é paulista. O samba é duplex. Inclusive eu faço adaptação de samba, eu tenho umas ideias… Tava contando aí agora para o Vinicius Moraes, que eu admiro muito, aliás.
Falante A:
Você trabalha com ele?
JA:
Não. Eu não conheço ele pessoalmente, estou procurando um contato com ele, porque… Eu fiz até uma adaptação daquele samba dele, “Formosa”, conhece? “Formosa”, assim, para “China nacionalista”. Eu já estou com bastante tarimba nesse negócio.
Falante A:
Ô Julinho, você lê muitos jornais?
JA:
Não, eu leio só mais… só o que o Leonel manda ler. Agora ele, em geral, já dá o serviço todo, em vez de mandar ler. Porque eu sou um criador, entende? Se eu ficar o tempo todo lendo, acho que eu não vou poder me expressar bem.
Falante A:
O Leonel é uma figura importante.
JA:
Bom, eu devo, acho que tudo na minha carreira [a ele]. Bom, eu devo a criação… Eu devo a minha vida a duas pessoas: a minha mãe, Adelaide, à qual eu devo inclusive o meu nome. Meu sobrenome é Oliveira, mas “Oliveira” todo mundo é, então eu sou “da Adelaide”. E a Adelaide aqui pode não ser muito conhecida, mas no Rio ela é muito conhecida. E devo ao Leonel, que é quem me orienta agora na minha carreira.
MP:
Fala um pouco da Adelaide.
JA:
Adelaide foi a pessoa que me orientou na minha vida inteira, entende? Ela…
Falante A:
Existe inclusive um boato aí, eu li numa revista uma vez, que Adelaide teria sido uma das mulheres do Vinicius.
JA:
Não posso falar assim da minha mãe, né? Uma das mulheres do Vinicius, porque ela conheceu o Vinicius…
Falante A:
Desculpa, mas…
JA:
Não, minha mãe, desculpe muito, ela é uma mulher muito honesta, ela casou mais de uma vez, mas casou sempre, entende? Quando ela viajou para a Alemanha, ela casou com um luterano. O Leonel é luterano por causa disso, é louro e luterano. Inclusive, agora ele alisou o cabelo e está dizendo que ele é parecido com esse Robert Redford. [Risadas] Mas ele não é muito parecido, não, porque o nariz dele é igual ao da minha mãe, é grossão assim. É louro sarará, né? Aquele negócio, né?
É parecido, assim, com o Ademir da Guia. É bem parecido, tipo o físico com o Ademir da Guia, só que agora ele alisou o cabelo. E está achando que ele é artista de cinema. Agora, minha mãe casou com esse alemão… ela esteve na Europa com a Brasiliana [grupo artístico]. Ela é casada na igreja católica apostólica, é casada na igreja católica brasileira, é casada na igreja luterana e tem mais uns três casamentos aí. Agora, eu sou filho da igreja católica brasileira.
Falante A:
Você é filho do primeiro casamento?
JA:
Não, terceiro.
Falante A:
Como ele não sabe nada? Sua mãe então, que foi com a Brasiliana, é mulata mesmo?
JA:
Mulata retinta, preta, quase preta, quase sangue puro.
MP:
Mas essa seria a sua cor, assim, mais clara?
JA:
É que meu pai eu não cheguei a conhecer, entende? Ele morreu um pouco depois de eu nascer. [Risadas]
MP:
Ele fazia o quê?
JA:
Meu pai? Meu pai trabalhava em jornal, fazia copidesque [risadas].
MP:
Quer dizer que você teve uma origem….
JA:
Naquele tempo [risadas]. Naquele tempo isso.
MP:
Quer dizer que você teve uma origem assim, vamos dizer, um pouco já cultural. Você recebeu uma certa formação…
JA:
Sempre tive muitos livros, apesar de ser… de morar em favelas. Eu não tenho vergonha nenhuma disso, de ter sido criado em favelas porque tem muita favela lá que é melhor do que essas coisas que estão construindo agora no Rio, que são casas de tijolo e cimento armado. Mas que eu não trocava a favela onde eu me criei por esses empreendimentos agora que tão fazendo aí. Eu vi até um anúncio agora no intervalo daquela novela O espigão, eles anunciam muito esses novos apartamentos, sabe? Eu fui até ver um porque o Leonel disse que tinha um dinheirinho pra mim que talvez desse. Mas eu fui… Negócio é um quartinho assim. Menor do que o barraco onde eu me criei. Já morei em vários lugares.
MP:
Já tá pintando um dinheirinho?
JA:
Diz o Leonel que sim, entende? Eu ainda não pus a mão nesse dinheiro porque o Leonel… Parece… Ele tem procuração minha pra fazer tudo, entende? Ele acha que não é bom pegar o dinheiro e fazer logo alguma coisa, é melhor empregar. Ele empregou meu dinheiro, parece que o dinheiro já vai dar agora um dividendo, algumas coisas assim.
MP:
Mas e aquela casa que você está construindo na Barra, é com dinheiro de vendagem?
JA:
Não, não sou eu que construí. Quem tá… Aliás, quem comprou um terreno lá foi o Leonel e vai construir uma casa agora. Mas isso é problema do Leonel. O Leonel tem os bicos dele por fora. Leonel ganha, entende? Ele tem participação nos meus lucros, ele faz do dinheiro dele o que bem entende.
MP:
Agora, Julinho, essa transposição do anonimato… Aqui em São Paulo, não, você está chegando aqui agora, é só um incidente aqui. Mas quando… Lá no Rio de Janeiro você é muito conhecido, pelo menos no Tebral, no Antonio’s. Como é que essa transposição do anonimato, com devido respeito, da favela para as colunas sociais, para as colunas de música. Quem é que te deu essa força? Como é que você… Porque é muito difícil isso para o compositor novo.
JA:
Isso eu devo ao Leonel, inclusive, entende? Porque ele é muito ligado ao pessoal do Rio, Zózimo Barrozo do Amaral, que trabalha no Jornal do Brasil, ele é ligadíssimo, é como se fosse irmão, assim, entende? E tem amigos donos de jornal… Ele já falou de muita gente que ele é amigo aí, em bloco. Então, ele me promove, entende? Me promove muito. Ele é um cara 100%. Vocês precisam conhecer ele.
Falante A:
Agora, me explica uma coisa, Julinho. Eu te conheço recentemente. Preciso confessar isso, porque você, convenhamos, é uma figura pouco conhecida no Brasil.
JA:
Ainda sou, infelizmente. Mas eu confio em Deus que, com a ajuda dele, de Deus e do Leonel, eu vou…
Falante A:
Você não seria uma criação da imprensa carioca? Como é que você entende isso?
JA:
Por algum tempo eu fiquei meio magoado com isso.
Falante A:
Seu pai foi um copidesque de jornal. Você acha que você está sendo lançado pela imprensa carioca, que tem tradição nacional? Ou… Como é que você se sente?
JA:
Bom, é claro que a imprensa me ajuda muito, mas eu tenho meu trabalho também, entende? Eu vim aqui para mostrar meu trabalho, não é uma badalação só, não. Essa nossa badalação só de jornal não dá dinheiro a ninguém, não dá camisa a ninguém. Eu vou lançar agora, minha primeira música vai ser gravada agora finalmente, só agora, mas eu tenho feito uma média de quatro, cinco songs por dia. Quer dizer, com essa primeira música, acho que vai ser um grande empurrão que eu vou receber na minha carreira. E daí por diante, eu acho que todo mundo vai se interessar em gravar a música do Julinho da Adelaide.
MP:
Quem é que já cantou música tua até agora? Ou já gravou?
JA:
O Chico Buarque cantou num show que ele fez no Rio. E aliás foi muito bom. Leonel disse, daí, que deu mais dinheiro, porque ele teve dinheiro de desbaste e tal. Foi “Jorge Maravilha”. E o MPB4, a Nara Leão. E entreguei outras músicas, não sei se estão cantando, pra uma porção de gente. Mandei pro Tim Maia, mandei música… Tem vários estilos, inclusive, entende? Mandei pra Ângela Maria. Não sei se estão cantando também, não tenho controle. O Leonel é que sabe.
Falante A:
Estou curioso de saber o seguinte: o nome Julinho da Adelaide… porque o nome do Julinho da Adelaide começou a se projetar. É inegável.
JA:
Quer saber de onde vem o nome?
Falante A:
O nome do Julinho da Adelaide começou a se projetar, entende? Eu estou preocupado em saber se você realmente tem uma profissão muito boa ou se você está utilizando do Chico Buarque, do MBP4, do Tim Maia, de todo esse pessoal que você mandou música, para se projetar, entende?
JA:
Não. Desculpe, mas como eu disse antes, eu não sou cantor. Eu preciso dos cantores para lançar meu nome, entende? Então, o Chico Buarque, eu acho que o interesse é recíproco. Eu não devo nada a ele e ele também não. Quer dizer, ele está faturando em cima do meu nome, e eu estou faturando em cima do [nome] dele. Eu acho que isso é normal. Não acho que seja aético da minha parte, entende? Eu sou pragmático!
MP:
Ô, Julinho, aqui em São Paulo, o pouco que se sabe de você são histórias mirabolantes, histórias de… O pessoal comenta, inclusive o Chico Buarque falou, não sei se você soube, no show dele, que Julinho era uma figura das crônicas policiais que passou para as crônicas sociais e tal. Você tem realmente um passado que o denigra?
JA:
Não, o que aconteceu é o seguinte, aí eu vou dizer: o meu irmão… eu sou muito tímido, você pode perceber que eu sou tímido. O Leonel, com essa história dele ser procurador, eu vou dizer para vocês, o Leonel é uma pessoa muito descontraída, entende? Então ele faz muitas coisas, às vezes, inclusive impensadas, entende? E aí, quando vão perguntar o nome dele, ele diz que é Julinho da Adelaide porque ele tem procuração minha. [Risadas] Então, é justo que eu pague aquelas coisas boas e ruins que ele faz, entende? Às vezes ele faz coisas ruins. E depois não acontece muita coisa com ele, porque, como eu disse, ele tem relações muito boas na polícia. Coisa que eu não tenho.
MP:
Mas coisas ruins que ele faz como, por exemplo?
JA:
Ah, ele faz um pouco de bagunça, entende? É um negócio de… Ele faz uns forrós por aí. E já algumas vezes, eu conto isso inclusive no samba “Chama o ladrão”.
Falante B:
Eu queria saber também, o negócio é o seguinte: na medida em que você mesmo disse que é muito pragmático, esse negócio de carregar o nome da mãe, não é uma jogada oportunista da sua parte, para sensibilizar uma parte do público?
JA:
Não, de jeito nenhum! Mais uma vez, eu quero repetir que não sou aético. [Risadas] Eu me chamo Julinho da Adelaide porque todo mundo só me chama assim lá no morro, entende? Minha mãe é mais famosa do que eu lá no Rio. Ainda é! Minha mãe é séria. Minha mãe, eu vou te contar o que ela fez, ela estava… Pera um pouquinho!
Minha mãe estava no primeiro elenco, o primeiro elenco do Orfeu Negro, foi amiga íntima de Vinicius Moraes, Antônio Carlos Jobim e Oscar Niemeyer, que fazia o cenário do… não, Haroldo Costa, que fazia o cenário do Oscar Niemeyer, fazia o cenário do Orfeu [Negro] no Municipal. Ela conheceu intimamente o Oscar Niemeyer. Tanto é que há cinco, seis anos atrás, eles moravam ali na favela da Rocinha, quando começaram a erguer aquele Hotel Nacional, você conhece o Hotel Nacional?
Falante A:
Sim.
JA:
Ela dizia pra mim: “Tá vendo, filho? Tá vendo, Julinho? É uma homenagem do Oscar para mim. É uma homenagem do Oscar para mim, aquele hotel.” Você conhece? Inclusive, agora brotaram uma porção de homenagem na Barra. E ela lembra dele, assim, entende? É claro que ela está mais velhinha agora. Ela falando isso…
Eu estou sabendo que não é uma homenagem do Oscar Niemeyer para ela, o Oscar talvez nem se lembre dela. Mas ela foi, entende? Viajou com a Brasiliana, casou com o luterano. Não é pouca coisa, não. Aprendeu a fazer cassoulet, e o feijão branco, a feijoada branca dela no morro é conhecidíssima. Então, eu fiquei sendo o Julinho. Qual o Julinho? O Julinho da Adelaide, pô. Eu sou o Julinho de Oliveira.
Falante B:
Mas é possível fazer uma tapadura na sua mãe com esse negócio de Julinho da Adelaide, tanto que o Leonel não se chama Leonel da Adelaide, não é conhecido como Leonel da Adelaide.
Falante A:
Acontece o seguinte, espera um pouco. Não, a pergunta dele é boa, mas…
JA:
Leonel é Leonel Kuntz.
Falante A:
Eu quero lançar uma outra observação, que é a seguinte: pode ser que doravante a tua mãe seja conhecida como a Adelaide do Julinho.
JA:
Adelaide do Julinho. Não tenho nada contra isso.
MP:
Agora, a Adelaide mora com você ainda?
JA:
Eu não tenho uma moradia muito fixa, entende? Mas eu sempre que posso, passo uma noite com ela.
MP:
Mas você mora onde, atualmente, no Rio?
JA:
Atualmente, eu estou morando na… no Selva de Pedra.
MP:
Sei.
JA:
Eu aluguei um apartamento lá. O Leonel alugou pra mim.
Falante A:
Tá dando pra ganhar um dinheirinho, né.
JA:
Tá, tá dando para comer e…
Falante A:
Morar na Selva de Pedra.
JA:
E morar na Selva de Pedra. E pegar o ônibus pra São Paulo.
Falante A:
Mas o que é a Selva de Pedra?
JA:
Selva de Pedra é um conjunto que fizeram lá no Rio. Iam fazer um parque quando derrubaram a favela do Pinto. Eu tenho origens lá, inclusive, eu já morei na favela do Pinto.
MP:
Você nasceu em que favela?
JA:
Eu nasci na favela da Rocinha, me mudei para várias favelas. E eu tenho talvez mais raízes na favela da Rocinha, mas tem também raízes na favela do Pinto. E hoje eu moro lá, que não deixa de ser uma volta às raízes. Destruíram a favela do Pinto, não fizeram muito bem e iam fazer um jardim lá. Depois, mudaram de ideia e fizeram a Selva de Pedra. São vários prédios assim, que se chamam de Selva de Pedra. Prédios assim, com janelas pequenas. Mas é perto da praia.
MP:
Mas você mora sozinho, sem sua mãe?
JA:
Lá eu moro sozinho.
MP:
E a Adelaide, como é que está?
JA:
Adelaide está muito bem. Fazendo aquele feijão dela, cada vez melhor.
MP:
Para fora?
JA:
Para fora, como?
MP:
Ela…
JA:
Não, ela tem um quiosque, né? Lá na casa dela, uma vez por semana, enche de gente.
Falante A:
A sua mãe é do Rio mesmo?
JA:
É, carioca.
MP:
É neta de escravo, né?
JA:
É neta de escravo. Ela conheceu a avó dela e a avó dela… A mãe dela foi beneficiada com a Lei do Ventre Livre, entende? Quer dizer, a gente tem uma gratidão muito grande pelo José Bonifácio. Bom moço.
MP:
E o que você acha hoje, dessa música que é feita aqui no asfalto sobre música do morro? Você acha que é autêntica?
JA:
Olha, eu não quero me comprometer. Eu sei que aqui em São Paulo, inclusive, estão fazendo muito samba, tem muitos sambistas aqui. Eu não posso dizer para vocês que não é boa a música aqui, senão essa entrevista pode sair e eu vou ficar muito mal com meus colegas aqui, capaz que nem arranje emprego. Entende? Agora, eu vou dizer só que eu prefiro a música autêntica, né? Prefiro a música autêntica.
MP:
O que é a música autêntica?
JA:
A música feita… a música da favela feita na favela. A música da cidade feita… Eu, por exemplo, gosto muito do Charles Mingus.
MP:
Mas qual é a relação do Charles Mingus com a música da favela?
JA:
O Charles Mingus é americano e ele faz música americana, entende? Então eu sou um pouco… Esse negócio de morar aqui e fazer música de outro lugar eu não gosto, entende? Agora eu gosto também, às vezes são boas.
Falante A:
É a segunda vez que você vem?
JA:
A São Paulo é a segunda vez. Encontrei muito mudada de 67 ou 68 para cá, foi quando eu vim para o festival.
MP:
Mas você veio para o festival por interesse musical ou você estava ali…
JA:
Não, eu mandei, eu mandei, eu mandei… Claro. Foi, aliás, foi quando eu despertei para a música, como eu disse, entende? Mas antes de despertar, eu fiz umas músicas. Eu fazia já músicas, mas eu não tinha despertado para a música. Eu fazia quase que… quase que como se a minha mão fizesse e eu não soubesse dela, entendeu? Não sei. Quando eu tomei aquela pancada na cara… [risadas] eu rio, mas eu fico muito nervoso com esse negócio de novo.
Falante A:
Para interessar o leitor: como é que foi o seu contato com o Chico, com o Vinicius, com o Tim Maia?
MP:
Com o Chico, principalmente, que está divulgando sobremaneira.
JA:
Isso é o seguinte: eu, coisa de um ano atrás, estava trabalhando na fábrica, lá no Rio de Janeiro, na Boa Vista, no Alta Boa Vista, na fábrica da Fonogram. Na fábrica, entende? Prensagem de discos e tal. E lá eles tem um time que aos sábados joga contra compositores, contra essa gente assim. E eu estava sempre nessa pelada, e aí que eu fiquei conhecendo esse pessoal. Fiquei conhecendo o Silvio César, fiquei conhecendo o maestro Érlon Chaves, fiquei conhecendo o Paulo Sérgio Valle, uma porção de artistas. E o Chico Buarque e o MPB4.
MP:
Mas como é que foi? Você chegou para o Chico e mostrou a música, deu uma fita, cantou para ele?
JA:
Não, eu não falei direto com ele, eu falei antes com um dos integrantes do conjunto vocal MPB4. Justamente quando [risadas] eu estava entrando na área e aquele mais baixinho, sabe o gordinho, chamado Rui? Me deu uma porrada por trás e o juiz não deu pênalti. Na hora que eu estava caindo no chão ele foi legal, ele falou: “desculpa!” Eu aproveitei que ele tinha puxado a conversa comigo [risadas] e falei: “eu sou compositor.” [risadas] E ele não deu muita bola e tal… [risadas] Mas aí, como eu tenho… O contato já estava feito, entende? E quando eu trabalho ali na fábrica, e ali tem prensagem de discos e tal, eu consegui prensar um acetato, com uma camaradagem do pessoal lá. Eu prensei um acetato com duas músicas, justamente com “Jorge Maravilha” e o…
MP:
“Pega ladrão”.
JA:
“Chame o ladrão”. Aí parece que eles gostaram, mostraram pro Chico Buarque e eles dividiram. Mas depois eu fiz “Milagre”, e o “Milagre” eu achei que era melhor ainda, para mim era a música mais forte. Aí eu gravei de novo um acetato do “Milagre” para eles. E parece que a Nara Leão se interessou pelo “Chame o ladrão” [“Acorda amor”], coisa assim, mas aí houve um problema com a música.
MP:
Agora há um problema de, sem querer dedar [dedurar] ninguém, que o Chico tem cantado essa música e tem dado a entender que a música é dele. Ele fala de você como se fosse uma figura mitológica, mas no fundo parece que é dele. Eu acho que você tinha que tomar uma certa providência aí, porque nunca se sabe, né?
JA:
Olha, eu não sei. Esse pessoal que já tem nome feito, entende, pode fazer muita coisa. Não adianta eu ficar aqui, que nem um sapo, ficar reclamando desse pessoal. Como eu disse para vocês, eu sou pragmático. Eu preciso dele, ele precisa de mim. Então eu não vou agora… Não adianta você dizer isso, parece que você está querendo me colocar contra ele. Não vou dizer nada, talvez quando eu, no dia que eu for conhecido e famoso, talvez eu faça a mesma coisa, entende? Porque, não sei, as pessoas têm que tirar proveito do que lhe cai na mão, né? Foi o Leonel que me disse isso.
Falante A:
Agora, eu queria que você definisse a expressão “pragmático”, você tem utilizado o tempo todo. Faça uma definição, você.
JA:
Não sei. Para falar a verdade, Leonel que mandou dizer que eu sou pragmático [risadas]. Se você me perguntasse alguma coisa, o que eu achava disso ou daquilo, eu lhe dizia coisa mais complicada, entende? O que você acha, entende, da censura, do pragmático. Ele falou “pragmático” e falou “ecumênico” também. Bom, quando você pergunta, essa foi a proposta da versão que eu fiz, que ele me contou, da China. Isso foi ontem, antes de sair daqui.
MP:
Eu não sei disso.
JA:
Eu contei, da “Formosa”, que eu mudei a letra para “China Nacionalista”. Porque ele que me contou esse negócio “quando perguntarem se você gosta da China…” Ele falou assim de Cuba: “Se falar que você gosta de Cuba, você fala que é ‘pragmático’ e ‘ecumênico’. Porque, se não, você se mete em complicação.” Então eu digo. Agora, eu não posso definir exatamente. Eu acho que essa foi uma definição pragmática. Esse era o ponto, não foi?
MP:
Bom, Julinho [risadas], você encerrou a entrevista. Mas prossigamos.
JA:
Quem encerrou a entrevista?
MP:
Você que encerrou, mas prossigamos.
JA:
Olha só, eu quero dar… não ficar muito tempo aqui, porque vocês sabem que eu tenho que fazer a ronda da noite agora.
MP:
Você vai aonde?
JA:
Eu quero pedir um roteiro para vocês, porque eu estou aí pronto para…
Falante A:
Fala da avenida Ibirapuera.
JA:
Falar o quê?
Falante A:
Fala da avenida Ibirapuera.
JA:
Avenida Ibirapuera?
Falante A:
Pode falar.
JA:
Avenida Ibirapuera.
MP:
A avenida Ibirapuera tem boas casas de samba lá, você vai se dar bem.
JA:
É lá que é a boa, é? Então é pra lá que eu vou, fala com o táxi aí. A avenida Ibirapuera é a melhor? E qual é a melhor casa, assim., eles pagam bem ou não?
MP:
Tem o [bar] Bambu, sambão.
JA:
Bambu… Porque o Leonel só me deu um nome, falou do tal de Catedral do Samba, é lá também?
Falante A:
Não, Catedral, não. Catedral é o samba do Benito de Paula.
MP:
Conhece o Benito? Conhece, né?
JA:
Conheço.
MP:
O que você acha dele?
JA:
Eu acho legal [risadas]. Acho que todo mundo deve fazer o que pode, o que sabe.
MP:
Nessa linha…
Falante A:
Ele está cantando na Catedral.
MP:
O Benito.
JA:
Onde é que eles dão chance aos novos, entende? Ou eu tenho que ter um contrato? Eu queria saber o quê? Entrar num lugar desse… Vou falar a verdade, o que eu quero: entrar num lugar desse, cantar um samba meu e, se possível, arrebatar o pessoal. Daí o dono da casa vem lá… como eu vi no filme da vida do…
Falante A:
Por que o Leonel não veio? O Leonel está sempre com você, para ele te dar a dica.
JA:
Não, às vezes ele me manda para o lugar… porque ele não sai do Rio, porque ele tem muitos afazeres.
MP:
Mas o Leonel, ô Julinho, com o maior respeito a você e a sua família, o que eu ouço falar do Leonel é que ele é um tremendo mau caráter, que ele não paga a conta, pede aval…
JA:
Bom, se o senhor estiver querendo me irritar, eu já acabei de falar. Vocês são de jornal, meu pai é de jornal também, eu não quero me irritar com ninguém. Meu pai foi de jornal. Meu irmão, se você quiser falar isso…
MP:
Um parênteses só, Julinho. Tem uma história que ele alugou um apartamento lá onde era a favela do Pinto, depois mudou do Rio, o compromisso caiu em cima de você, e sumiu, tem umas histórias assim. Não sei se é boato, mas corre. Corre à boca pequena.
Falante A:
Normal, a despeito de [risadas] de Leonel, tudo é possível.
JA:
Eu quero ver você dizer isso na frente dele, entende? Eu não vou te responder [risadas]. Eu falei já, eu devo tudo a meu irmão, entende? Irmão a gente só tem um, apesar de eu ter vários, entende? Mas cada um é único pra mim.
MP:
Como assim, “apesar de ter vários”?
JA:
Eu tenho outros irmãos que eu não vejo quase, o que eu estou mais ligado é ao Leonel. Mas estou ligado não só afetivamente como também profissionalmente. Eu devo tudo na minha carreira ao Leonel. Ou você acha que não?
MP:
Não sei, estou te conhecendo hoje, eu estou dizendo o que eu…
JA:
Você está me conhecendo porque o Leonel me mandou para cá.
MP:
Foi.
JA:
Então eu estou dando uma entrevista… Primeira entrevista que estou dando para um jornal de São Paulo. No Rio já dei muita entrevista, viu?
MP:
Eu sei! Para onde?
JA:
Dei para A Notícia, para a Última Hora do Rio de Janeiro, e dei uma para a Manchete, que até agora não saiu, mas deve sair daqui a pouco.
MP:
Mas Julinho, eu só levantei esse problema porque é um… Às vezes, você podia corrigir isso, se defender, porque falam que ele assina um contrato com você e você não aparece, coisas assim. E que ele está vivendo atualmente em função do teu nome. Sabe? Inclusive ele já está dizendo, sou o Leonel da Adelaide, coisa que nunca disse.
JA:
Leonel Kuntz.
MP:
Kuntz, né?
JA:
Leonel Kuntz, ele não se chama Leonel da Adelaide, quer dizer, ele não se diz. Ele quer dizer isso, ele não é Leonel da Adelaide porque ele saiu cedo de casa. Ele não é conhecido como Leonel da Adelaide. Ele é Leonel, pô. Tem gente que pensa que ele é meu primo, ou um parente próximo, um amigo que vai lá de vez em quando.
Agora, outro dia veio um cara e disse que ele tinha feito um contrato leonino comigo. Isso é trocadilho, né? [Risadas] Porque o cara se chama Leonel e ele não veio em contrato leonino, só porque ele quis 50%. E diz que os empresários normalmente tem 20% só. Aqui no Brasil, diz que lá fora tem 10%. Agora, ele não é só um empresário, se fosse só um empresário, tá legal, eu dava 20%. Ele não é só meu empresário, ele é meu conselheiro e meu irmão, entende? Então a gente divide irmãmente as partes. Acho justo isso. E ainda tem mais, ele aplica no mercado de capitais os meus lucros.
MP:
Agora, Julinho, pergunta de ordem econômica: você estando no Rio de Janeiro, onde o mercado da música é muito maior, por que você está agora em São Paulo, tentando?
JA:
Não, o mercado da música não é maior. Pelo que me informaram, para o tipo de música que eu faço, São Paulo está muito melhor agora. As casas de samba no Rio não têm… entende?
MP:
Você é mais um cantor da noite do que um compositor, é isso?
JA:
É como eu disse para você, para falar a verdade, eu tenho bastante autocrítica, não sou um bom cantor, então eu só posso cantar depois de meia-noite [risadas]. Porque lá para as oito ou nove horas, em horário de teatro, ninguém me atura não, eu não canto muito bem. Mas depois de meia-noite, como todo mundo canta, está todo mundo mais alegre, as pessoas na mesa cantam, eu sou um cara que canta no microfone como se estivesse cantando na mesa. Agora, o que eu estou vendendo ali não é minha voz, né? É meu material, minhas composições, eu sou o compositor Julinho da Adelaide.
MP:
Agora, aqui em São Paulo, não fez nenhum show ainda?
JA:
Não. Se eu der sorte, eu começo hoje [risadas]. No Rio eu já fiz ali naquelas noites de samba do Opinião, segunda-feira, já me apresentei lá, mas não pagam, entende? Lá é mais para prestígio, eu ganhei muito prestígio lá com isso. Então a gente canta em troca de prestígio. Agora eu acho que já tem um certo prestígio.
MP:
Você está achando que o seu nome está crescendo?
JA:
O Leonel disse que estavam falando muito em mim aqui.
MP:
Realmente estão.
JA:
A prova é que vocês estão aí, jornalistas, me entrevistando aqui. Não fui eu que fui à redação do jornal, como eu fazia antigamente.
Falante B:
Você acha que essa facilidade de adaptação da tua música ao gosto do momento existe, você reconhece? Não te aproxima, assim, da obra, vamos dizer, de Dom & Ravel [compositores do jingle ufanista “Eu te amo meu Brasil”], por exemplo, na música brasileira, apesar de serem formas completamente diferentes?
JA:
Eu admiro essa dupla, Dom & Ravel, pela oportunidade que eles aproveitaram um determinado momento e [por] fazer uma música determinada. E é mais ou menos esse tipo de trabalho que eu faço, entende?
Falante B:
Você não acha que é esse pragmatismo…
JA:
Eu seria capaz. É esse pragmatismo.
Falante B:
Apesar de eu achar que você está na vanguarda nesse sentido de adaptação ao gosto da sociedade brasileira, que hoje eu acho muito importante, que a gente tenha compositores com essa perspectiva, você se sente e tem uma influência de Dom & Ravel direta?
JA:
Eu não citaria só eles, porque há muita gente boa fazendo esse tipo de trabalho agora, entende? E eu acho isso uma coisa muito boa, que é um trabalho, vamos dizer, é quase um parente do jingle e parente também do samba crônica, entende? Você lê no jornal e no dia seguinte tem um negócio oportuno, tem um assunto fervendo. Aquele samba que talvez não se eternize, mas que no momento…
Falante B:
O samba pragmático, que é o que você está fazendo.
JA:
É o samba pragmático.
Falante B:
Por exemplo, a TV Globo não se interessou ainda em musicar nenhuma novela, usar como tema esse seu alto sentido pragmático?
JA:
Eu fui contatado. Eu já estive lá nos corredores da TV Globo, um dia eu vi até o Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o então todo-poderoso diretor de programação da emissora carioca].
MP:
Falou com quem?
JA:
Eu falei com o rapaz lá que eu não sei o nome, [risadas] disse que era Walter. Mas eu não sei… O nome dele é Walter [Walter Clark, então um dos principais executivos da Globo], nem sei bem qual é a função dele lá.
Falante B:
Você acha válido ou você teria qualquer tipo de direção? Você acharia válido? Válido eu acho que é a palavra certa.
JA:
Não, é válido, eu acho que tudo é válido. Tudo é válido desde que a gente esteja fazendo, entende? Desde que a gente esteja criando. O importante é criar, não é mesmo?
MP:
Do tipo operacional.
JA:
É, tipo operacional. Eu faço qualquer coisa, entende? Eu faço até novelas, se me pedirem, e eu acho que vou fazer muito bem.
MP:
Julinho, você estudou até que ano?
JA:
Eu fiz até o primeiro ginasial.
MP:
Primeiro? E parou por quê?
JA:
Depois eu fui tomar aula particular, na escola da vida [risadas]. Daí, eu sei ler e escrever, e acho que me inspiro muito bem.
MP:
Não, mas as suas músicas, das que três eu conheço, elas denotam uma certa cultura, não só de viver, mas uma cultura geral. Da onde eu teria vindo?
Falante A:
Você incorpora uma série de coisas, que realmente não são normais nas pessoas do seu nível.
JA:
Eu tenho uma explicação pra isso. A minha origem… Vamos dizer, eu tenho parceiros pela vida, entende? Meu pai é copidesque, então eu faço copidesque do cotidiano do morro, vamos dizer assim, entende? Muitas das músicas que eu faço…
Falante A:
Você fez, né? Porque você não mora no morro.
JA:
Mas eu vou sempre lá porque eu tenho que voltar às raízes, entende? Apesar das minhas raízes, que eu estou em cima da favela do Pinto, eu disse para vocês que pelo menos uma vez por semana eu durmo lá em casa da minha mãe, na Rocinha, na casa de Adelaide
MP:
Você está com quantos anos?
JA:
25 [risadas]. Tem gente que me chama de gato, mas não é verdade não.
MP:
Seu nome todo, como é?
JA:
Júlio César de Oliveira.
Falante B:
Quando você tem uma figura assim bem popular, uma figura física e tal, você acredita que você poderia fazer uma experiência com androgenia? Você acha que daria pé, por exemplo, ou nunca pensou nisso e tal? Você acha interessante o movimento andrógeno brasileiro? Te apetece?
JA:
É esse negócio de Secos & Molhados, né? [Risadas] Olha, meu amigo, não. [Risadas] Com todo respeito, eu não ia fazer uma coisa dessa. Quer dizer, eu acho que aquilo é uma viadagem, entende? [Risadas] Agora, eu respeito o trabalho deles! Eu respeito o trabalho deles, como respeito o de todo mundo, como eu já disse antes. Mas eu não ia fazer uma coisa daquelas não.
MP:
Mas porque é um problema de formação cultural ou familiar ou é apenas um pragmatismo?
JA:
Bom, aí que tá. Entenda, se me dessem… Não sei, um cachê muito bom na TV Globo para fazer um número musical, que eu tivesse que ficar com o corpo pintado, bom, aí talvez eu fosse pragmático, entende? Mas assim, falando assim, de fora, sem… A experiência é que ensina a gente muita coisa, né? Eu tô falando sem experiência que eu nunca tive nenhuma experiência andrógina, entende?
MP:
Eu só perguntei isso, você não me leve a mal, eu só perguntei isso porque o Caetano Veloso, você deve conhecer, obviamente…
JA:
Conheço, admiro muito, apesar de…
MP:
O Caetano Veloso, no último show dele, que está em cartaz aqui em São Paulo, ele canta o tempo todo passando a mão no cabelo e tem um brinco na orelha esquerda. Você acha… Eu não sei… Nunca vi nenhum show seu, mas você usa desses recursos?
JA:
Não. Não uso brinco, não senhor. De jeito nenhum. Nem passo a mão no cabelo, que o meu cabelo do jeito que é… Já é difícil passar a mão dentro, ele só passa por fora.
MP:
Me falaram uma coisa aí, porque… Você vai me perdoar as perguntas, mas tudo que eu sei de você é o que me falaram, eu estou te conhecendo agora.
JA:
É, porque eu sou muito falado, realmente. Eu acho isso bom, já é um bom sinal. O Leonel me disse isso mesmo: “sabe que já aqui está todo mundo falando de você”.
MP:
Não, o Leonel inclusive deu uma entrevista para a Rádio Marconi.
JA:
Ah, mesmo?
MP:
Foi.
JA:
Quando? Aqui em São Paulo?
MP:
É. Há umas duas semanas atrás.
JA:
Ele não me disse, não me falou.
MP:
E ele falou o seguinte: perguntaram para ele se o Julinho seria a favor ou contra o black power. E o Julinho… aí ele contou uma história do Julinho, foi isso, que o Julinho antigamente, há dez anos atrás, quando tinha quinze ou dezesseis anos, se não me engano, o Julinho alisava o cabelo, passava muito Brylcreem. E depois, quando começou o black power, ele começou a içar o cabelo. É verdade isso? Você teve uma fase, assim, de ocidentalização do cabelo?
JA:
Tive, tive sim. Mas agora ele não está mais nem black power, agora ele está…
MP:
Está normal, né? Mas como é que foi essa…
JA:
Pragmático, desculpe abusar dessa.
Falante B:
Eu queria que você desse nota agora, de zero a dez, para três personalidades, para [a cantora] Nara Leão, [o colunista social] Ibrahim Sued e [o presidente dos Estados Unidos] Gerald Ford.
JA:
Dez para todos.
Falante B:
Perfeito. Dez pra todos.
JA:
Dou dez a todos.
JA:
Alguns com louvor, outros com…
MP:
Garrincha.
JA:
Garrincha… O Garrincha, né? O Garrincha dou nota dez pra ele. Ele é casado com a Elza Soares, ela pode querer gravar um samba meu, é bom ele estar sempre aí. Por isso que eu falei. Nara Leão pode gravar o samba meu, o Gerald Ford, o presidente, é nota dez, porque ele pode fazer um arranjo muito bom. O Ibrahim Sued pode dar uma nota a meu respeito, né? Nota dez. Agora não publica isso que eu estou falando, as explicações das notas. Só põe as notas, né?
MP:
Então, outra figura: [o cantor] Wilson Simonal.
JA:
Nota dez.
MP:
Eu estou achando você muito condescendente, Julinho.
JA:
Como?
MP:
Você está… Me perdoa, não me leve a mal, mas você me parece sem uma posição política definida. Você me parece muito preocupado em colocar sua música no mercado…
JA:
Você vai me obrigar a dizer que eu sou pragmático de novo? [Risadas] Eu não sou pragmático, ou sou descontraído, entende? Você está querendo me contrair, me deixar…
MP:
Não, em absoluto, de maneira nenhuma.
Falante A:
Então, ainda dentro daquela linha do nosso amigo aqui. Eu vou te pedir para você dar nota para três personalidades: Sabu [Dastagir].
JA:
Sabu morreu, né? Eu não achava ele muito bom ator, não. Nota quatro.
Falante A:
Nota quatro. Golbery [do Couto e Silva, então ministro da Casa Civil e homem forte da ditadura]?
JA:
Golbery, nota dez.
Falante A:
Caetano Veloso?
JA:
Eu também dou nota dez. Eu também dou nota dez. Não sou que nem aquela moça da televisão que dá nota dez para todo mundo. Por exemplo, o Sabu é nota quatro. Eu lembro ter visto um filme dele, do tapete voador, do nosso tapete mágico e tal, do gênio da lâmpada [O ladrão de Bagdá], e eu não achei ele muito bom ator.
Falante B:
A gente não tem visto você, pessoalmente, nunca na televisão. Por quê?
JA:
Eu sou um cantor de rádio, né? Esse é o problema que eu já falei antes, mesmo problema é o da fotografia. Não posso… quer dizer, eu tenho uma imagem a preservar [risadas]. Quer dizer, uma imagem, que não deve aparecer, a preservar. Tem uma falta de imagem a preservar.
Falante B:
Tem uma curiosidade do público muito grande, você entende?
JA:
É, o Leonel me disse. Eu não sei… Quem sabe… Eu tenho esse probleminha, realmente eu… Eu estou pensando, tem o [cirurgião plástico Ivo] Pitanguy aí para essas coisas, né? Agora, por enquanto, não dá.
MP:
Você tem condições, já, de pagar o Pitanguy?
JA:
Não, por enquanto não dá. Se eu colocar mais uns quatro, cinco músicos de sucesso, eu posso ir ao Pitanguy.
MP:
Então, fica aqui um alô ao Pitanguy.
JA:
Fica aqui um alô ao Pitanguy, se, por acaso, pintar alguma coisa, se quiser fazer um trabalho de solidariedade e tal. Ou se a ordem dos músicos financiar, não sei. A ideia fica lançada, entende? Pode haver um show em benefício. Eu não vou pedir nada.
Falante A:
Ô Julinho, você gostaria de dizer o que para esse pessoal todo?
MP:
Não, eu queria dizer justamente que era isso, ô Julinho.
JA:
Aquele abraço para o povo paulistano! [Risadas]
MP:
Não. Antes disso é o seguinte: a gente está com um jornal aqui, a gente trouxe três exemplares pra você dar uma olhada.
JA:
Uau, três?
MP:
Você gostou, né? A gente tem uma liberdade para dizer o que quiser. Então, eu estou… O Grupo Frias está lhe oferecendo uma página para você dizer o que quiser. Eu queria saber o que você… O que é que o Julinho da Adelaide quer dizer hoje, quer passar hoje? Exatamente em agosto de 74, o que é que você quer dizer? Não, não digo uma mensagem assim.
Falante A:
Pragmático, mas nem tanto.
MP:
É. [Risadas]
JA:
Mas não entendi, uma página inteira para dizer o quê?
MP:
Não, porque eu vou fazer uma matéria com você de uma página inteira.
JA:
Sei.
MP:
Então, você tem uma página inteira para falar o que você quiser: reivindicar asfalto na favela… Entendeu? Pedir para o Leonel: tire o alisamento do cabelo.
JA:
Não, eu não tenho nada com o Leonel.
MP:
Que o Chico seja mais honesto com você…
JA:
Não, não tenho queixa nenhuma de ninguém.
MP:
Eu não estou querendo jogar você contra o Chico Buarque!
JA:
Eu só estou chegando aqui em São Paulo. Eu quero então, como eu falei, mandar aquele abraço para o povo paulistano e se alguém ler, imagino que vá ler a sua coluna, me disseram que é muita lida… Qual o jornal mesmo? [Risadas]
MP:
Diário de Notícias.
JA:
Diário de Notícias é muito lido aqui em São Paulo. Leonel disse mesmo que era o mais lido. Então, se alguém se interessar, alguém que tem uma casa de samba, e tal, eu estou aí. Eu estou aí.
MP:
Tá em que hotel?
JA:
Eu não estou em hotel ainda. Cheguei agora. Estou aqui, como você está me vendo, aqui…
MP:
Na redação.
JA:
Na redação. Não quis dizer que vinha a redação, não põe isso no jornal. Isso não sei como é que se vai resolver porque fica meio chato o artista que vai à redação, para… Parece que fica… [Risadas]
MP:
Não, é todo mundo que faz isso, todo mundo que conversa faz isso.
JA:
Então, olha, aproveitando, eu tenho uma ideia. Aproveitando o fato que meu pai ter sido copidesque, então que eu tenho esse vínculo muito estreito com o jornalismo, com a imprensa, então diga na sua entrevista: se alguém se interessar pelo meu concurso, pelo meu trabalho nas casas de samba, para enviar para qualquer redação de jornal que eu [inaudível]. [Risadas]
Falante A:
Agora, no fundo, no fundo, se já é pragmático, faça uma frase nessa linha.
JA:
Como é? Se já é pragmático?
Falante A:
Se já é pragmático…
MP:
Não, tem fita pra caralho.
Falante B:
Eu tenho uma pergunta: o Caetano Veloso, na sua entrevista no Jornal de São Paulo, disse que, pessoalmente, com ele, a censura tem causado grandes problemas. Você poderia dizer a mesma coisa para você?
JA:
Eu já disse isso no começo da entrevista. Eu vou repetir. Quer dizer…
Falante A:
Porque ele disse que é melhor parar de falar nesse tipo de assunto.
JA:
Não, eu digo abertamente tudo, já disse, eu não tenho pelos na língua [risadas]. Disse tudo no começo da entrevista, é que você… O senhor não estava aqui no início da entrevista… Eu disse mesmo, entende? E já disse tudo isso.
MP:
Não, eu gostaria que o senhor respondesse à pergunta dele.
Falante B:
Já disse tudo.
Falante A:
Não, esqueceu.
JA:
O que é?
MP:
Acho que foi… Pelo seguinte, que eu não sei se você sabe, mas a censura hoje, isso na minha parca opinião, ela tem, eu não diria tesourado… mas ela tem bloqueado o trabalho criativo dos criadores. Frase bonita, não? [Risadas] Então, eu queria saber se essa mesma censura, que tem inclusive perturbado um colega teu, um rapaz que eu acho que inclusive está dando uma força para você, que é o Chico Buarque de Holanda, se ela tem também te prejudicado.
Porque uma das histórias que o Leonel divulgou na Rádio Marconi aqui, é que você teria já uma música proibida e pelo fato… Inclusive, Leonel, eu acho que foi um pouco sacana com você. Ele falou: “bastou ter uma música proibida, ele começou a construir uma casa na Barra da Tijuca”. Então, eu queria saber se você realmente tem alguma coisa proibida, algum problema com censura.
JA:
Mas eu tenho, mas eu já falei que tenho, mas eu tenho mais diálogo ainda do que problemas. Quer dizer, cada vez que surge um problema… É para isso mesmo que eu fiz o samba duplex, que eu pretendo, inclusive, patentear. [Risadas] Porque é uma ideia minha, que se puder patentear, não sei como é que esse negócio de patente. E depois, eu acho que quem faz um samba faz dez. Não tem isso. Se proíbem um, então é tal negócio. Censura… O rapaz que trabalha na censura é um homem, pai de família, igual a mim. Apesar de eu não ser pai, nem ter família. [Risadas] Mas posso ser, mas ele é um pai de família, um homem honesto, como eu, ele tem que trabalhar.
Ele está lá, está fazendo o emprego dele, entende? Se ele parar de proibir as músicas, ele perde o emprego, porque fica um trabalho inútil. Assim como se eu parar de fazer samba, eu deixo de ser sambista. Então o censurador deixa de ser censor, quando ele parar de proibir. Então vamos nos unir, né? Num grande abraço! Então, o censor censura, e a gente faz música, e o censor censura e a gente faz música!
MP:
Você tem alguma pergunta mais importante?
Falante A:
Não, não é mais importante.
MP:
Não, deixa ele fazer a pergunta.
Falante B:
Eu tinha uma pergunta, que eu acho o seguinte, se o Julinho tem consciência de que se isso pode realmente inaugurar até uma vanguarda no Brasil, esse samba duplex, que eu acho que é a obra, é o samba que o ouvinte completa em casa. E você tem a oportunidade de atingir uma faixa de grandes ouvintes… É um samba que dá várias leituras, em qualquer nível, você completa em casa!
JA:
Não, mas aí é diferente, o samba duplex não se propõe a isso! O samba duplex não se propõe isso, não é uma obra aberta. É uma obra aberta até passar pelo filtro. Quer dizer, ele é duplex quando eu componho.
Falante B:
O ouvinte escolhe, você deixa uma escolha.
JA:
Não, não, não. Quando chega nos canais competentes, quando for passar no canal competente, o samba duplex assume uma das duas… Se eu pudesse, eu faria duplex de um lado e outro lado, a lei pode desagradar… Tem que agradar a gregos e troianos, né? Quem me falou isso foi o Leonel. O Leonel que me falou isso: “para gregos e troianos”. Então, eu tenho que fazer, em primeiro lugar, para gregos e troianos. Depois vai ver se o censor é grego ou é troiano e ver o que ele acha bom [risadas].
Porque muitas vezes eu não sei mesmo, entende? Se eu devo falar a favor da meningite ou contra a meningite, entende? Quer dizer, eu sou contra a meningite, mas eu devo dizer que a meningite está braba aqui em São Paulo? Porque é um fato que parece que é real. Ou eu devo dizer que a meningite não está braba aqui em São Paulo? Então, eu faço o samba duplex: m dizendo que a meningite está terrível, que é uma peste, uma epidemia desgraçada por aí. “Eu fui para São Paulo com a Judite, saí de lá com a meningite”. Ou “eu fui para São Paulo com a meningite e saí de lá com a Judite”. Quer dizer, para o secretário de saúde, tudo bem, tudo bem.
Falante A:
Tudo mal, tudo mal, tudo bem, tudo bem.
JA:
Tudo mal, tudo mal. A Secretaria de Saúde pode, inclusive, se basear nisso para, se não curar a meningite, pelo menos fazer um slogan, né? [Risadas] “Fui para São Paulo com a meningite, saí com a Judite”. Ao mesmo tempo, se ela quiser alertar a população contra o perigo da meningite, ela vai usar o outro. E aí eu tenho que ver se o sujeito, na hora, é a favor da meningite ou contra.
Falante B:
E se for bloqueada as duas versões, sobre a mesma base da lógica, você acredita que vale ainda criar uma… sempre existe uma…
JA:
Você está lançando o samba triplex, né? A terceira letra que aí fala de futebol, entende? E que um futebol que é um jogo que termina empatado. [Risadas] É um samba que eu tenho que cabe em todas as letras, que conta uma história de futebol que termina empatado. E tem muitos gols dos dois lados, para não dizer que é só retranca. É 4 a 4, termina o jogo, 5 a 5.
Falante B:
Eu tenho a impressão que o samba duplex vai ser muito bem recebido no seio da família brasileira.
MP:
Vai. Principalmente da família, né? Julinho, só uma última pergunta. Você está interessado apenas em fazer música para boate? Por exemplo, você declarou que veio para cá apresentar em uma boate. Você está interessado em fazer música apenas para boate, para shows? Ou você quer tentar teatro, cinema?
JA:
Ah, eu gostaria…
MP:
Coisas paralelas.
JA:
Coisas paralelas. Todas as paralelas me interessam! Música para novela, música para teatro, música para cinema, música para boate, música para teatro, música, música. Entende? Música é…
MP:
Julinho, eu queria que você cantasse para encerrar. Uma quadrinha do samba do ladrão.
Falante A:
Samba do ladrão?
MP:
“Pega ladrão” [“Acorda, amor”].
JA:
“Acorda, amor. Eu acho que tem gente lá fora. Tô indo embora… no portão, que aflição. Olha, amor” Não… Como que é? “Não deu tempo de tocar… Tenho tanto medo do vexame. Chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão. Acorda, amor…” Que é uma música que precisa de violão, precisa de harmonia para acompanhar, entende? Tem a segunda parte muito romântica, diz assim: “se eu demorar…” Não, deixa eu cantar a segunda parte que é mais romântica, eu não gosto mais. “Se eu demorar uns meses, convém às vezes você gemer. Mas depois de um ano eu não vindo, põe a roupa de domingo e pode me esquecer. Acorda, amor!”.
Falante A:
Põe isso em palavra, que isso vai sair no final da letra.
JA:
Põe em palavra?
MP:
É, desde o comecinho. Aí repõe em palavras.
JA:
O pedaço todo da letra?
Falante A:
É.
JA:
É porque, para falar a verdade, não está pronta. [Risadas]
MP:
Não, aquela, “Chame o ladrão”.
JA:
“Acorda, amor. Acorda, amor. Eu tive um pesadelo agora. Eu sonhei que tinha gente lá fora batendo no portão, que a aflição. São os homens. Uma cara de quem não me ama… Uma cara de quem não me ama. Não sei o quê, infame. Chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão, chame, chame, chame…” Aí tem uma gaguejada. “Acorda, não é mais pesadelo nada. Os homens estão subindo a escada e… atenção… Nem dá tempo de botar pijama, tenho tanto medo do vexame, chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão. Aí, se eu demorar uns meses, convém às vezes você gemer, mas depois de um ano não vindo, põe a roupa de domingo e pode me esquecer.”
Aí, acorda, amor. Aí o final pode acontecer com ela também, “que também um dia chega a tua hora, quando você quer, chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão”. Aí tem o bregue: “Não esquece a escova, o sabonete e o violão…”
Falante A:
A escova, o sabonete e o violão.
MP:
Agora, só para encerrar, você tem alguma coisa a mais que dizer?
JA:
Aquele abraço ao povo paulistano! Um abraço, amplo, descontraído, aético e pragmático. Aético, não.
MP:
Você gosta de São Paulo, né?
JA:
Gosto demais de São Paulo.
Falante A:
Aético, não. Até o seu fim foi permitido.
MP:
Quer falar mais alguma coisa?
JA:
Eu fiz uma música assim… Não.
MP:
Não? Tá legal?
JA:
Tá legal.
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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fábio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais
Porque você leu Podcast
Transcrição: Ana Guadalupe no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #205, em que a poeta paranaense fala na coluna Lado Beber sobre sua nova coletânea de poemas, Ensino à distância
AGOSTO, 2026

