Podcast,
Transcrição: Adriana Negreiros no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #202, em que a biógrafa de Dercy Gonçalves fala sobre a vida e as contradições da humorista em entrevista realizada ao vivo n’A Feira do Livro
21ago2026 • Atualizado em: 20ago2026Este episódio do 451 MHz, gravado ao vivo durante A Feira do Livro 2026, recebe a jornalista Adriana Negreiros, biógrafa da humorista Dercy Gonçalves. Negreiros conversa com a poeta Bruna Beber, que apresenta a coluna Lado Beber no podcast, sobre sua biografia Dercy: a diva debochada (Objetiva). Ouça a seguir e saiba mais aqui.
Leia a transcrição:
Paulo Werneck [PW]:
Oi. Está começando o episódio 202 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira, a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.
Adriana Negreiros [AN]:
A Dercy foi uma mulher que sofreu muito em relação ao amor. Nunca foi uma mulher que se sentisse amada o bastante. E ela dizia: “só quem me amou incondicionalmente foi o público”. Ela realmente tinha uma relação muito visceral com as plateias.
PW:
Essa voz que você acabou de ouvir é da Adriana Negreiros. Eu já vou te falar um pouquinho mais sobre ela, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com apoio da Lei Rouanet.
Mais Lidas
PW:
O episódio de hoje é especial. Ele foi gravado ao vivo lá n’A Feira do Livro 2026, no Palco da Praça, no meio da rua. A Feira do Livro acabou no mês de junho e foi uma delícia. A gente já te convida a marcar na agenda a próxima edição que vai acontecer dos dias 22 a trinta de maio de 2027. Lá no nosso festival literário, a colunista Bruna Beber recebeu a jornalista e escritora Adriana Negreiros para conversar sobre a biografia Dercy: a diva debochada. O livro acabou de sair pela editora Objetiva e conta a história de uma figura sem igual na cultura popular brasileira, a humorista e atriz Dercy Gonçalves, que morreu aos 101 anos em 2008.
Nessa conversa, a Adriana fala sobre os desafios que ela encontrou para desvendar essa artista que esteve durante décadas sob os holofotes da imprensa, mas criou e alimentou vários mitos sobre si mesma. Além disso, a Adriana ainda lembra das contradições da Dercy, que enfrentou preconceito de gênero e de classe ao longo da vida, mas também reproduziu visões e comportamentos homofóbicos e racistas. Uma figura complexa, mas muito importante para contar a história da cultura brasileira no século 20, comecinho do 21.
Então vamos lá para a primeira parte da conversa da Bruna Beber com a Adriana Negreiros.
Bruna Beber [BB]:
Tem uma frase do Falabella no livro em que ele define a Dercy como: “a grande dama do escracho, aquela que há anos vem gritando no deserto, confiando de que algum dia alguém responderá ao seu chamado”. E eu queria saber, Adriana, como foi esse chamado? Como que aconteceu o interesse pela Dercy na sua vida?
AN:
Bem, a Dercy é uma personagem que, para a minha geração, era muito resumida na figura de uma velhinha indecente e desbocada. Eu imagino, pela faixa etária de vocês, muitos devem lembrar da Dercy no Domingão do Faustão, ali nos anos 90, em que ela fazia um quadro, que era uma espécie de um jogo da velha, em que ela dizia um palavrão atrás do outro, em plena tarde de domingo, e eu assistia ao Domingão do Faustão na minha casa, no bairro Jardim das Oliveiras, um bairro da periferia de Fortaleza, do lado do meu pai, que era um homem muito sisudo e muito conservador, e que ficava muito incomodado com a presença daquela velhinha no domingo falando aquele monte de palavrões. Era uma figura que realmente incomodava.
E eu tinha uma certa curiosidade e pensava: “será que essa mulher realmente é assim o tempo inteiro? Em casa, será que ela passa o dia inteiro irritada, com raiva de tudo, dizendo palavrão atrás do outro?”. Aquilo ficou na minha cabeça e o tempo foi passando, comecei a escrever livros… E por causa da Maria Bonita — que foi a personagem do meu primeiro livro, da biografia Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço — eu tinha muita vontade de me debruçar sobre o século 20 porque foi um século de transformações na vida das mulheres. O século começou com as mulheres sem direito ao voto, não podiam sequer trabalhar se não tivesse autorização de um homem, o século terminou com uma série de transformações na vida feminina.
E eu tinha muita vontade de mergulhar no século 20, mas eu pensava também que seria interessante se eu pudesse fazer esse mergulho tendo uma cicerone, tendo alguém que me pegasse na mão e me contasse como é que tinha sido aquele século. Eu pensei: “bom, eu preciso de uma personagem que possa me contar a história do século 20”. E ninguém melhor do que Dercy, essa figura que já me encantava desde a minha adolescência em Fortaleza, e que, não por acaso, nasceu em 1907, portanto, viu o século nascer, e morreu em 2008, já no século seguinte.
Não apenas viveu todo o século, ela não viveu de um jeito qualquer. A Dercy foi uma mulher que nunca esteve circunscrita à domesticidade, não era uma mulher, como era comum no século 20, que mantivesse a sua existência presa ao lar. Ela não era uma “rainha do lar”, não era uma mulher que tivesse algum tipo de resistência a ocupar os holofotes. Muito pelo contrário, desde o começo da vida como atriz nos anos 20, até morrer em 2008, ou seja, cerca de oitenta anos, ela passou tendo sua vida escrutinada pela imprensa, tendo a vida documentada. Era uma figura que estava nos espaços públicos não apenas como testemunha ou figura secundária, mas boa parte do tempo como uma protagonista desses espaços que ela ocupou.
Então, eu pensei que a Dercy seria essa figura que poderia me ajudar a fazer esse passeio pelo século 20, de uma maneira absolutamente fascinante e com muito bom humor, o que é muito bom. A despeito de todas as tragédias que a Dercy enfrentou ao longo da vida, foi uma pessoa que sempre se deixou guiar pela alegria e por uma certa vocação para descortinar o ridículo por trás das situações. Ela era muito boa nisso e foi uma boa companheira de viagem, eu diria.
BB:
Isso que você falou do achincalhe da imprensa… Ela era chamada de pornográfica, de desbocada, de feia, porque ela não cumpria nenhum tipo de padrão de beleza da época e de várias épocas que ela viveu. Depois, embora ela tenha sido uma atriz e humorista muito bem sucedida, tinha público e dinheiro, nunca pareceu ter recebido o respeito e admiração merecidos — mas vamos falar disso mais para frente. Quanto tempo, Adriana, você demorou entre a pesquisa e a escrita?
AN:
Foram de uns dois a três anos. Na verdade, estou com esse contrato assinado com a Objetiva há muito tempo, mas, para valer mesmo, foram uns dois anos, porque a gente não vive — pelo menos eu, muitos dos que estão aqui vivem assim — mas eu não consigo viver apenas escrevendo livros, eu tenho um trabalho em uma redação, tenho toda a vida para tocar, então eu escrevo nas brechas, nos horários possíveis, pesquiso também nos horários possíveis. Então, para valer, com esforço de concentração maior, eu diria que foram uns três anos.
BB:
E como você filtrou a pesquisa de uma vida que durou um século e um ano? Foi uma vida super documentada, então como se filtra cem anos? E também tem aquela informação de que a Dercy inventava novas histórias para a própria biografia e para certos fatos. Então, você também teve que fazer uma reapuração de vários fatos.
AN:
Pois é, essa é uma dificuldade que eu tive. Quando eu fiz a Maria Bonita e eu me queixava muito sobre a falta de informações acerca da Maria Bonita, porque ela foi uma figura pouquíssimo documentada, ninguém se interessava muito por ela porque estavam mais investidos no Lampião. Então, para escrever a Maria Bonita, foi uma luta para conseguir documentos, entrevistas e tudo mais. Terminei exaurida pela escassez.
No caso da Dercy, se deu o contrário. Eu tinha uma vastidão de informações sobre ela, exatamente por ela ter tido essa vida tão documentada. E o meu esforço, o meu desafio, foi muito mais em um sentido de estabelecer o filtro e o que me guiou foi a Dercy no espaço público, isso foi o meu fio condutor. A partir do trabalho da Dercy, eu fui procurando construir a trajetória íntima dela também, mas com muito cuidado.
Uma questão que muito me assoberbava ao longo da pesquisa era o fato de que eu comecei, em determinado momento, a registrar todos os espetáculos, cada vez que a Dercy aparecia no teatro, e comecei a ficar muito preocupada de produzir um documento relatorial. Então, isso era uma questão para mim. Eu tentava sempre buscar aqueles espetáculos que ajudassem a contar a trajetória de vida dela e aquilo que era algo absolutamente irrelevante, eu desconsiderava. Mas confesso que é um trabalho… É o nosso trabalho de jornalista: escolher, fazer uma certa curadoria das informações. E foi assim com a Dercy.
Agora, você falou sobre as mentiras. Eu não vou dizer que a Dercy era mentirosa, porque não é exatamente disso que se trata, mas ela tinha uma mania de fantasiar sobre a própria trajetória, o que não era uma mania exclusiva dela. Nós até conversávamos agora há pouco que a Elke [Maravilha] fazia isso também, era e é algo muito comum aos artistas criarem uma espécie de um mito de origem para atribuir uma certa nobreza à própria existência. Dercy fez isso muitas vezes por isso e porque ela se divertia também inventando coisas.
Então, quando eu comecei a pesquisar sobre o começo da vida dela, ali nos anos 1920, quando ela saiu de Santa Maria Madalena para tentar a vida como cantora… Só um parênteses: a Dercy não queria ser comediante, não queria ser uma humorista, nem uma atriz, o sonho dela era ser cantora. Ela cantava no coral da igreja, em Santa Maria Madalena, era filha de pais muito pobres e também era uma menina que era uma Dercy criança. Imaginem uma Dercy pequena, sempre muito sem paciência, mal educada, grosseira, batia nos colegas. Não era exatamente uma criança que fosse considerada pela elite de Santa Maria Magdalena uma figura boa para ser amiga dos filhos.
Então, a Dercy enfrentava um certo preconceito na cidade, mas conseguia cantar no coral da igreja, que era um momento de grande satisfação em que ela se sentia reconhecida. E ela nutria o desejo de ser cantora, então ela saiu de Santa Maria Madalena para tentar a vida como cantora e criou uma fantasia de que uma vez chegou a companhia de teatro da Maria Castro — era uma atriz cearense com uma companhia de teatro mambembe — e que um dos atores dessa companhia se enfeitiçou pela Dercy ao vê-la em um espetáculo e que resolveu oferecer uma cantoria para a Dercy, que era a música “Malandrinha”. Eu não vou cantar aqui porque eu não vou submeter vocês a esse sofrimento de me ouvir cantar.
Mas é uma música muito bonita que o Eugênio Pascoal teria cantado para a Dercy em 1924. E que, a partir dali, eles teriam se enfeitiçado um pelo outro e ela teria fugido da cidade em busca do grande amor e em busca do sonho de ser cantora. Mas ocorre que “Malandrinha” é uma canção que só viria a ser composta em 1927, então ali eu peguei a Dercy na mentira.
E ela inventaria outras histórias muito parecidas com essa, em que, se você fosse atrás das informações, você perceberia que era coisa da cabeça da Dercy. A minha dificuldade foi conseguir estabelecer uma versão que fosse a verdadeira. Eu, em determinado momento, vi que isso era uma missão impossível, até onde vão as minhas possibilidades. Eu não consegui descobrir muitas questões em relação à origem da Dercy.
A minha saída foi apresentar ao leitor as diferentes versões e reconhecendo a minha incapacidade de chegar a um veredito. Mas a Dercy fantasiou muito ao longo da vida, mas ela fazia isso também um pouco para zombar das pessoas. A Dercy tem essa vocação do palhaço, porque ela foi uma artista de circo mambembe, então, ela é, no fundo, uma grande palhaça. E ela também sempre improvisou muito. Então, ela se divertia com essa coisa de criar mentiras, e ela dizia: “eu minto o dia inteiro, passo 24 horas do dia mentindo”. E aí tem um exemplo que eu acho muito engraçado, que é o da música “A perereca da vizinha”. Vocês devem conhecer essa música.
BB:
Quer cantar?
AN:
Se alguém quiser cantar, fica à vontade. [Risadas] Mas a Dercy começou a trabalhar na televisão, logo ali nos primórdios da Excelsior e ela fazia um programa chamado Vovô de Vil. E o Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, era o roteirista desse programa, que era ao vivo. E a Dercy certa vez entrou no palco do programa, e ela esqueceu o que tinha que fazer. E a Dercy improvisava sempre, fazia o que vinha à cabeça. Mas ela tinha que ser programada para fazer algo ali, e na hora deu um branco nela, ela entrou, olhou para a orquestra e falou assim: “ô maestro, toca aí um ritmo de macumba, que lá vem a perereca”.
E aí ele tocou alguma coisa e ela, no ritmo da música, improvisou os versos. “A perereca da vizinha está presa na gaiola. Xô, perereca”. Improvisou isso. E aí o Grande Otelo, que acompanhava aquele momento, deu uma cutucada no Sérgio Porto e disse assim: “isso aí vai pegar mais do que sarampo no Carnaval”. E ele tinha razão. De fato, nos bailes municipais, a “A perereca” tocou direto. Eu até conto um episódio do Baile Municipal do Recife, em que a senhora do Miguel Arraes, cujo nome me escapa agora, pediu para que o maestro tocasse “A perereca”. Enfim, virou um sucesso.
Quando perguntavam para a Dercy a origem da música, cada hora, ela contava uma história diferente. Dizia: “uma vez, eu fui na casa da vizinha, roubei a perereca da vizinha, coloquei em uma gaiola”. E outra hora dizia: “eu estava com uma linguiça que eu tinha roubado de algum lugar, caí no riacho e a linguiça escapou. Quando eu fui pegar a linguiça, peguei uma perereca e coloquei a perereca na gaiola”. Ela inventava cada coisa.
O Sérgio Porto contaria que as pessoas começaram a procurá-lo para perguntar para ele, que era o roteirista do programa, qual era a origem da “A perereca”. Eles queriam saber se era verdade que “A perereca” tinha raízes folclóricas e ele disse assim: “olha, já que estão entrando no perigoso terreno da galhofa, vou entrar também”. E aí ele começava a inventar que era um terreiro da Bahia que tinha uma perereca sagrada, enfim.
Mas a Dercy fazia esse tipo de troça o tempo inteiro, inventava muitas histórias sobre si, o que é muito divertido, mas para um biógrafo é um inferno, um pesadelo, porque para você checar algumas informações é uma complicação. Mas isso faz parte do jogo, isso também é interessante, porque eu acho que revela essas contradições, revela muito sobre o próprio espírito “dercyniano”.
BB:
Mas eu imagino que você tenha se deparado o tempo inteiro com essa vivacidade indisfarçável da Dercy, e eu acho que isso está muito bem refletido no sumário do seu livro que para mim é um dos melhores sumários das últimas décadas. A Adriana coletou frases que a Dercy disse, então tem coisas como “Vá para a puta que pariu”, “Nunca pensei que aquela merda crescesse tanto”, “Cada um manda na sua xereca”, “Tomei no rabo a vida inteira”, “Nunca fui da sacanagem”, “Moralistas de merda vão tomar no cu”… Então, são dezenove pérolas coletadas.
“A perereca da vizinha”, na Baixada Fluminense do Rio, a gente aprende como cantiga de roda. Então, a minha avó me ensinou “A perereca da vizinha” como quem ensina “Atirei o pau no gato”, coisas do tipo. A história do [Osvaldo] Sargentelli é invenção? Ele foi uma criança apaixonada pela Dercy, que depois teve o reencontro?
AN:
Foi o próprio Sargentelli que contou. Quando ele era menino, ele era vizinho da Dercy e ela era amiga da mãe dele, ela tinha 17 anos a mais do que o Sargentelli, já tinha a filha Decimar, e ali na vizinhança ela tinha muita dificuldade em trabalhar com uma filha pequena que era fruto de um relacionamento com um homem casado que não dava nenhuma assistência, então ela contava com a ajuda dos colegas, dos vizinhos, para cuidar da Decimar.
O Sargentelli contaria, muitos anos depois, que ele era filho dessa amiga da Dercy que ajudava nos tratos com a Decimar, e se apaixonou pela Dercy ao vê-la, ficou encantado por aquela figura. E que, em nome desse amor, se sujeitava, inclusive, a suportar que a Decimar fizesse xixi nele. Ela usava aquelas fraldas de pano, ele cuidando da neném e tal.
Ele diria, muitos anos depois, quando os dois estavam em um programa da Hebe Camargo, que ele tinha tido essa paixão pela Dercy, que não foi correspondida por um acaso, também porque o Sargentelli era uma criança ainda. A Dercy tinha muito apreço por homens mais jovens, era o target dela, um homem com 20 anos a menos.
O que é muito comum em relação aos homens se relacionarem com mulheres mais novas, naquela época e hoje, eles não sofriam nenhum tipo de constrangimento por isso. Mas a Dercy, na imprensa, Bruna, era a todo tempo atacada por ser uma mulher que se relacionava com homens mais jovens. Então, se insinuava que ela era uma velha que estava sendo explorada comercialmente pelos namorados, ou que ela era sem vergonha, ou que ela não tinha noção da idade dela, e ela aguentava todo tipo de impropério.
Se dizia isso de maneira… Não era de maneira delicada ou mandando indireta, as pessoas diziam isso abertamente para a Dercy em relação aos relacionamentos que ela teve com esses homens. E você até mencionou, Bruna, logo no começo, que a Dercy sempre foi considerada uma mulher feia. Eu não acho a Dercy feia, não sei se é porque me apaixonei por ela. Não sei o que vocês podem dizer sobre isso, mas eu nunca achei que a Dercy fosse uma pessoa que se caracterizasse pela feiura, de maneira alguma.
Ela foi, desde o começo da carreira, taxada de feia pela imprensa. Então, no teatro de revista, em que as vedetes, com corpos esculturais e com aquele padrão de beleza muito definido, eram a todo momento exaltadas pela beleza e pela juventude, a Dercy, a todo instante, era lembrada que não correspondia àquele padrão. Então, se dizia: “Dercy é uma atriz cômica excepcional, que não tem atrativos físicos. Os atrativos físicos dos espetáculos ficam a cargo da Mara Rúbia”. Que era uma grande vedete da época.
Além de ser considerada feia, era considerada velha desde que tinha trinta anos. Então, mesmo ali no teatro de revistas, os comentários eram mais ou menos dessa ordem: “espetáculo tal é muito bom a despeito de algumas vedetes de aparecerem e fazer parte do mobiliário do teatro”. Isso com vedetes que tinham vinte e poucos anos. Então, era esse tipo de comentário que a Dercy passou a vida inteira ouvindo a seu respeito.
E por mais que fosse uma mulher que aparentemente lidasse bem com esse tipo de cobrança, claro que isso a afetava, tanto é que a Dercy fez tantas cirurgias plásticas ao longo da vida que eu não saberia dizer quantas foram. Nem ela própria lembrava mais quantas eram. Inclusive, isso rendeu o título de um capítulo, que eu imagino que é o que a Bruna vai agora mencionar.
BB:
“Só paro quando a buceta se juntar com o queixo”.
AN:
Ela era uma entusiasta das cirurgias plásticas. Ela diria que quando resolveu fazer a primeira cirurgia plástica, foi por ocasião de uma ofensa que ela ouviu do marido, Danilo Bastos, que era um jornalista muito metido a besta, que se achava um grande intelectual porque escrevia numa revista literária chamada Dom Casmurro.
Ele tinha ali companheiros de alto quilate, como Jorge Amado, Brício de Abreu, Joel Silveira, ele era o menos talentoso dessa turma, mas se achava o tal. Um sujeito horroroso, que se achava lindão e que ficava o tempo inteiro dizendo pra Dercy que ela era velha. A primeira vez em que ele a chamou de velha, ela fez uma cirurgia plástica, a primeira cirurgia plástica que ela fez na vida de uma série de muitas outras que ela faria.
BB:
Adriana, através de depoimentos de pessoas que trabalharam com a Dercy em cena, você ressalta no livro o improviso absoluto dela. Ela recebia um texto de uma peça e ignorava quase que por completo esse texto, então as pessoas que estavam com ela dividindo a cena tinham que agir normalmente.
Eu queria que você contasse alguma dessas histórias. Você comenta também que a Dercy tinha dificuldades de leitura, em termos de alfabetização mesmo, então ela não conseguia ler. Era por isso também?
AN:
Era também por isso, Bruna. A Dercy estudou até o terceiro ano primário e ela não era exatamente uma boa aluna, então ela não aprendeu a ler da maneira mais eficiente, nem a escrever. Era uma semi-analfabeta mesmo. Essa é uma das razões pelas quais ela não decorava os textos, porque ela não conseguia lê-los. Então, o que acontecia, usualmente, era que alguém lesse o texto para a Dercy, ela captava o sentido geral daquele texto, e no palco era com ela. Ela entendia do que se tratava a peça, e ali interpretava a seu modo.
Além disso, a Dercy vem de uma linhagem de interpretação com origens circenses, é aquela figura que lembra muito mesmo a figura do palhaço, que tem no improviso a sua maneira de atuar. No começo da carreira, isso era um modus operandi. Mas depois, à medida que o teatro foi se profissionalizando, em que os dramaturgos começaram a apresentar seus textos, isso virou um problema.
A Dercy, muitas vezes, comprava textos dos dramaturgos, a quem ela classificava, não vou saber exatamente como é a frase, mas ela dizia assim: “o dramaturgo é um sujeito que recebe direitos autorais por algo que ele julga ter escrito”. Porque, no caso dela, ela pegava o texto e mudava radicalmente, fazia o que estava na cabeça dela. A Dercy também tinha uma questão que era a ojeriza ao beletrismo ou a quem tinha orgulho da própria erudição.
Era quase um certo anti-intelectualismo da Dercy, ela tinha muita birra de autores de peças que usavam palavras difíceis e ela dizia: “vocês ficam colocando esse monte de palavras difíceis que ninguém entende, eu vou lá e troco tudo”. Ela dava até alguns exemplos: “o cara escreve ‘proctologista’, eu troco por ‘especialista em cu’. Ninguém sabe o que é ‘proctologista’. Escreve ‘felação’, eu troco por ‘chupar pau’”.A Dercy fazia isso.
E imaginem vocês como é que não se sentiam os autores dos espetáculos, eles ficavam indignados. Mas, ao mesmo tempo que ficavam indignados, ficavam muito satisfeitos, porque os espetáculos eram sempre um sucesso de bilheteria. Então, eles ganhavam muito dinheiro às custas dessas maluquices da Dercy.
Para as pessoas com quem ela atuava, imaginem vocês a loucura que era, porque, em uma peça convencional, o que acontece? Você tem uma deixa, um ator diz uma frase, e aquela frase é a deixa para que um outro ator entre em cena. Só que, como a Dercy dizia o que vinha à cabeça, os colegas com quem ela contracenava nunca sabiam a hora de entrar. Era uma loucura, eles tinham que improvisar tanto quanto ela, e nem todos conseguiam, muitos ficavam indignados.
Não era raro que alguém pedisse demissão no meio do espetáculo, porque não conseguia trabalhar com “aquela louca”, que eram coisas que se diziam sobre a Dercy, exceto alguns que entenderam que aquilo era uma grande escola de atuação. O Décio de Almeida Prado, que é um crítico de teatro muito importante, dizia que um espetáculo da Dercy era sempre uma briga entre a intérprete e o texto, em que o texto faz triste figura, ela sempre ganhava.
Muitas vezes era um texto estrangeiro traduzido por uma pessoa e adaptado por outra. Então, juntava ali quatro ou cinco homens trabalhando no texto e o Décio falava: “de nada adiantam os esforços desses nobres cavaleiros”. Porque quando chega no palco, a Dercy ignora solenemente esse texto, para a sorte, inclusive, do público, porque ela tinha uma capacidade de leitura do público que era muito rara e muito genial.
A Dercy conseguia perceber, pelas reações do público, se aquilo que ela estava fazendo funcionava ou não e o espetáculo era conduzido muito a partir dessa interação com o público, era quase como se fosse uma dança em que o público também fazia parte do espetáculo. Por isso que todo mundo ficava tão fascinado. E ela não fazia nenhum espetáculo igual ao outro exatamente porque ela improvisava muito, e porque ela dizia: “não tem como você fazer, a plateia é diferente, as reações são diferentes. E eu não sou uma copiadora, caralho, eu sou uma criadora”. Ela dizia isso. O “caralho” é da Dercy, não é meu.
O Marco Nanini, que começou a carreira com a Dercy, diria por toda a vida que aprendeu com ela o tempo certo da comédia, que é algo que não tem uma receita. “O tempo certo são cinco segundos após uma piada”. Isso não existe, é preciso ter sensibilidade para perceber o momento em que o público reage, a maneira como ele reage e saber qual o momento certo para dizer na sequência alguma outra coisa. É uma coisa até difícil de explicar.
Vamos supor que eu dissesse alguma coisa muito engraçada e vocês rissem, se eu dissesse uma outra coisa muito engraçada na sequência, enquanto vocês ainda estivessem rindo, vocês não iam pegar a piada seguinte. Mas se eu demorasse muito a prosseguir com a segunda piada, talvez vocês perdessem um link com a piada anterior. Então, é preciso saber o tempo certo da comédia, e isso a Dercy sabia como ninguém.
O Marco Nanini contou algo muito interessante, havia uma peça em cartaz aqui em São Paulo e ele foi lá fazer um teste para atuar nessa peça, e quando chegou lá, foi aprovado pela Dercy e disseram assim: “ô Nanini, você vem dia tal com o texto”. Ele foi, mas crente que era para ensaiar. Quando chegou, ele soube que já era o dia de atuar de fato, sem nenhum ensaio. A reação dele foi assim: “meu Deus, não tem o que fazer”.
E aí entrou no palco com a Dercy, sem nem falar com ela, porque ela chegava ao teatro, se trancava no camarim com os peruqueiros, os maquiadores, e não trocava nenhuma palavra com as pessoas com quem ela iria atuar. E o Marco Nanini entrou ali no espetáculo junto com ela, foi aquela loucura onde a Dercy dizia tudo diferente do que estava no texto, o Marco Nanini ficou completamente nervoso.
Ela, vendo que ele estava nervoso, começou a zombar dele com a ajuda do público, ele foi humilhado ali e as pessoas acharam aquilo engraçadíssimo. Mas ele disse que aprendeu com ela, quando às vezes ela falava uma coisa engraçada e ele falava alguma coisa na sequência, ela dava um grito: “Para! Não é agora! Espera o público se recuperar”. Então era uma aula em tempo real para ele e as pessoas adoravam isso.
Ele foi um dos que não se ofendeu com esse modo de atuar da Dercy, mas era muito raro, a maioria dos atores ficava ofendidíssima. “Essa doida, não tem condições”, e abandonava. Mas é isso, esse era o grande barato da Dercy.
BB:
Ela tinha um código próprio de respeito ao teatro, à cena, às outras pessoas.
AN:
Porque ela falava que o compromisso dela era com o público, esse era o grande compromisso dela. A relação que se estabelecia era entre ela e a plateia, não era entre ela e os colegas de atuação. Ela tinha muito mais respeito pelo público. Ela tinha uma adoração e reverência que fazia, inclusive, com que ela cometesse essas deselegâncias com os colegas de cena.
A Dercy foi uma mulher que sofreu muito em relação ao amor, nunca foi uma mulher que se sentisse amada o bastante e ela dizia: “só quem me amou incondicionalmente foi o público”. Ela realmente tinha uma relação muito visceral com as plateias.
BB:
Eu fiquei o tempo inteiro, enquanto eu lia o seu livro, tentando fazer comparações da Dercy com uma outra figura que se aproximasse dela, alguma outra artista criadora brasileira que tenha tido fama, público, grana, reconhecimento. Pensei em algumas mulheres, algumas atrizes, você cita muito a Alda Garrido, eu me lembrei da Zezé Macedo, mas eu consegui chegar, por exemplo, no Mazzaropi, no Oscarito, no Grande Otelo, que são contemporâneos da Dercy, e a recepção da obra e do trabalho deles foi bem mais benevolente, bem mais amena.
Eu sempre penso sobre isso, Adriana, e eu queria saber o que você acha. Sempre foi e ainda é difícil para a mulher dizer o que ela pensa, o que ela quer e agir do jeito que ela decide. Se a gente entra na arte, o humor muitas vezes é um pecado. Então, a Dercy não pediu permissão, não pediu licença e sofreu todo tipo de achincalhe. Então, que incômodo é esse, que pudor é esse do nosso país de, por exemplo, não abraçar e idolatrar uma artista como a Dercy?
AN:
Pois é, Bruna. A Dercy realmente era uma artista que tinha tudo para dar errado, porque era uma mulher tida como feia, velha, com habilidades reduzidas de leitura, muito insubordinada, se recusava a cumprir ordens. E não tinha a seu favor nada, não tinha costas largas que a permitissem atuar assim. Para começar, quando a Dercy conseguiu um trabalho na Casa de Caboclo, no Rio de Janeiro, ela era uma cantora ainda iniciante, e como era muito engraçada conseguiu um bico para um espetáculo em que ela tinha que atender um telefone, isso era bem no começo do serviço de telefonia no Rio de Janeiro.
Então, era uma peça de Jararaca e Ratinho que acontecia no Teatro de Revista, o telefone tocava no palco, ela atendia a ligação e falava: “alô? Ah sim, Jararaca e Ratinho” — que era uma dupla de cômicos muito conhecida no Rio — “sim, Jararaca e Ratinho”. Desligava, e aí Jararaca e Ratinho entravam em cena. Ela pensou: “o quê? Vou atender esse telefonema para ficar fazendo aqui escada para Jararaca e Ratinho? Não”.
Aí atendia, falava “aqui está” ou uma coisa assim e começou a fingir que não estava ouvindo e que tinha um barulho, uma interferência, que era como acontecia no serviço de telefonia muito incipiente no Rio de Janeiro, que era muito precário. Então as pessoas se identificaram muito com aquela cena, porque em casa quando atendiam ao telefonema não conseguiam ouvir quem estava do outro lado.
Ela percebendo isso, resolveu cuspir no bocal fingindo que era uma tentativa de fazer o telefone funcionar, as pessoas acharam aquilo engraçadíssimo e começaram a gargalhar. Quando Jararaca e Ratinho entraram em cena, ela já tinha tomado de conta do palco. Era uma mulher muito insubordinada nesse sentido, não se rendia às ordens. Então, ela tinha realmente tudo para dar errado.
Depois, começou a falar palavrões, quando os jornais diziam que ela era uma mulher pornográfica e que aquilo atentava contra a moral e os bons costumes. E ela agia mesmo atentando contra a moral e os bons costumes, mesmo tendo enfrentado duas ditaduras, foi uma mulher que nunca obedeceu às ordens. Quando trabalhou em televisão fazia o que estava na cabeça dela e mesmo tendo contrato com a Globo, já velha, sempre que dava uma entrevista, esculhambava a Globo, não estava nem aí, mesmo tendo contrato com a emissora.
Foi uma mulher que tinha realmente tudo para dar errado, que contrariou todas as expectativas de gênero que foram depositadas sobre ela, mas, ainda assim, de uma maneira muito turbulenta, conseguiu ser bem-sucedida. Mas teve que enfrentar uma série de percalços ao longo da vida que, certamente, os colegas dela, como o Grande Otelo e o Oscarito, não enfrentaram. A Dercy e o Oscarito tinham praticamente a mesma idade, ele era um ano mais velho, e ela o adorava.
O Oscarito e a Dercy tiveram filhos na mesma época, mas isso não afetou em nada a carreira do Oscarito, como vocês podem imaginar. Quando teve a Decimar, em 1934, ela já tinha começado a trabalhar nos teatros, já tinha uma certa imagem pública consolidada, mas o nascimento da filha fez com que ela tivesse uma série de problemas para se manter no teatro, porque ela não tinha com quem deixar a filha.
Enfim, teve que fazer ali, enquanto o Oscarito estava trilhando a carreira do sucesso, a Dercy teve que interromper durante muito tempo o trabalho e se dedicar a outros trabalhos menos nobres, eu diria, do que aquele para o qual ela estava habilitada. Então, houve uma época em que a Dercy, sem conseguir emprego no teatro, exatamente por essa questão da maternidade, resolveu começar a fabricar perfumes.
Ela ia ao centro do Rio de Janeiro, comprava essências, comprava uns vidrinhos mais bonitinhos para disfarçar, porque os perfumes realmente eram muito ruins e começou a vender esses perfumes no teatro, que era um ambiente que ela conhecia e conhecia as pessoas. Uma certa vez, a Dercy foi vender os perfumes no teatro em que o Jardel Filho tinha um espetáculo em cartaz — muito bem sucedido, aliás — e era uma ocasião de um ensaio.
As pessoas interromperam o ensaio para receber a Dercy e comprar os perfumes dela. E o Jardel Filho, vendo aquilo, inclusive com a Decimar no colo, com cerca de dois anos, expulsou a Dercy do teatro. Ela foi, nas palavras dela, escorraçada do teatro, ele começou a gritar na frente da Decimar. E a Dercy saiu chorando do teatro e, quando chegou na calçada, começou a bater a cabeça na calçada para se penitenciar por aquilo. E ela diria depois que o que mais a magoou nem foi o fato de ter sido expulsa daquela maneira, mas de ter sido humilhada na frente da filha, ainda que a filha só tivesse dois anos.
Então, ela teve que enfrentar todas as dificuldades que certamente eram dificuldades próprias de uma mulher com filho pequeno e, depois, dificuldades por ser considerada feia, porque se achava também que a mulher não tinha vocação para o humor, se achava que somente homens poderiam ser engraçados. Inclusive, se referiam a Dercy como Oscarito de saias, mas ninguém chamava Oscarito de Dercy de calças, ela é quem tinha essa pecha. Se dizia que ela imitava o Oscarito, embora ela já tivesse uma trajetória até prévia a dele.
A despeito de tudo isso, a Dercy não era uma mulher rancorosa, ela tinha uma grande afeição pelo Oscarito, via nele algo muito parecido com ela, que era essa capacidade do improviso. Mas o Oscarito, ao contrário da Dercy, não era dado a esculhambação, a pornografia, a falar palavrões, ele era mais tímido, mais encabulado.
Ela odiava o Grande Otelo, dizia que o Grande Otelo tentava no palco, ficava improvisando, introduzindo cacos nos espetáculos só para ofuscar o trabalho dela — exatamente o que ela fazia com todos os colegas com quem atuava. O que ela não gostava no Grande Otelo eram as características semelhantes às dela.
BB:
E a Dercy namorou mesmo com o Oscarito ou aquela foto do arraiá é brincadeira, daquele casamento?
AN:
Eles fizeram um casamento de mentirinha, de São João, mas não chegaram a namorar, não.
BB:
Eu fiquei em dúvida, eu pensei: “gente, imagina a Dercy e o Oscarito namorando”.
AN:
O Oscarito era muito velho para a Dercy, ela só gostava de homens bem mais jovens.
BB:
Adriana, e tem o outro lado que, apesar de ter rompido tantas coisas, a Dercy também foi uma mulher preconceituosa, racista, homofóbica. Hoje em dia a gente pensa muito no cancelamento. Você tem pensado sobre isso? Você fez perguntas para a Dercy enquanto você escrevia? Porque esse outro lado dela é complicado.
AN:
É bem complicado. A Dercy era uma mulher de seu tempo, é sempre bom lembrar. Mas, por exemplo, essa questão dela com o Grande Otelo tinha um componente racista muito forte, ela fazia comentários sobre ele absolutamente racistas e não escondia isso de ninguém. A Dercy também era uma mulher de um comportamento muito conservador. Ela era tida como essa mulher depravada, porque dizia palavrões, taxada de pornográfica, mas, na intimidade, ela era uma mulher muito retrógrada.
Ela defendia que as mulheres casassem virgens, dizia que sexo era… Ela não gostava de sexo, achava que era uma atividade superestimada, mas recomendava que as mulheres na cama jamais tomassem a iniciativa, achava que essa era uma atribuição dos homens, dizia que as mulheres não poderiam falar palavrões na intimidade também, mesmo em casa, a Dercy não gostava que se falasse palavrões, reclamava da filha Decimar, dos netos, quando eles cometiam alguma ousadia nesse sentido.
A Dercy também era extremamente homofóbica, houve ocasiões em que ela humilhou publicamente atores com quem trabalhava, dizendo coisas como: “sai daqui, sua boneca, te manda seu veado”. Era realmente uma mulher de comportamento e de um discurso muito preconceituoso em relação a isso. A primeira vez em que Dercy mostrou seios em público foi por ocasião de uma entrevista que ela deu para a Hebe Camargo, em que estava muito chateada com o fato de a Roberta Close, que é uma mulher trans, ser tida, à época, em 1984, um símbolo sexual do Brasil. Então, ela dizia: “que país é esse em que a mulher mais bonita do Brasil é um homem?”.
Essas eram as palavras da Dercy em relação à Roberta Close, e ela ficava muito indignada e reclamava, sempre que dava entrevista a esse respeito. E, quando foi ao programa da Hebe, mostrou os seios para dizer que mesmo na idade em que estava, na ocasião já perto dos oitenta anos, os seios dela seriam mais bonitos do que os da Roberta Close, porque a Roberta Close, nas palavras da Dercy, era um homem. Então, aquilo que poderia parecer à primeira vista um ato de ousadia, de insubordinação, era uma reação muito preconceituosa contra uma mulher trans.
A Dercy foi essa mulher muito contraditória. Ela odiava as feministas e dizia: “feministas são umas babacas que não têm o que fazer. Feminismo é perda de tempo”. Era por aí o discurso dela, mas temos que considerar o tempo em que a Dercy vivia e isso não é passar pano. Quando ela dizia essas barbaridades em relação a Roberta Close, por exemplo, era o discurso corrente, não havia ninguém que dissesse: “não fala isso, Dercy”. Não, as pessoas diziam a mesma coisa, era o discurso socialmente aceito esse, os jornais também se referiam a Roberta Close dessa forma, as revistas de fofoca se referiam a Roberta Close dessa maneira.
Teve um Roda Viva em que ela participou, em 87, em que havia o Leão Lobo como um dos entrevistadores e que ela dizia coisas absurdas em relação a homossexuais. Mas eu acho que tem uma diferença fundamental entre esse discurso absolutamente condenável da Dercy e o discurso retrógrado dos tempos atuais, que é o seguinte: eu não identifico nesse discurso da Dercy o ódio que nós identificamos hoje no discurso em relação a pessoas trans, em relação a mulheres.
Ela, eu acho, estava muito mais numa chave de ignorância, talvez dizendo, do que do ódio. Não vejo a Dercy como uma figura que odiasse a Roberta Close, talvez ela não compreendesse aquilo, para ela fosse algo tão novo, que ela tinha uma dificuldade de compreensão. E a reação era terrível, mas não a vejo como alguém que pregasse ódio contra Roberta Close ou mesmo contra o Grande Otelo, ou quando ela falava das feministas, não era exatamente algo no sentido do ódio, que eu acho que é uma diferença fundamental.
Mas claro que, nos tempos de hoje, a Dercy, com todas essas frases, seria cancelada. Assim como todos nós que vivemos nos anos 1980 seríamos cancelados pelo que dizíamos na época, se traduzíssemos isso para os tempos atuais, sem contextualização. É claro, tudo é questionável, mas é preciso não correr o risco de sermos anacrônicos nesse tipo de julgamento, compreender que os tempos eram outros também.
E a esse propósito, a Dercy foi uma mulher que enfrentou uma série de violências ao longo da vida, todo o cardápio de violência de gênero a Dercy experimentou: violência patrimonial, violência psicológica, violência sexual. Há uma delas que ocorreu quando a Dercy tinha mais de setenta anos. Ela foi apresentar um espetáculo em Londrina, no interior do Paraná, tinha por volta de 73 anos, e foi ao jornal da cidade, a Folha de Londrina, pedir a divulgação da peça, que era uma coisa comum.
Quando chegou à redação, conheceu o dono do jornal, um sujeito chamado João Milanês, que foi ao espetáculo dela à noite e depois a convidou para jantar, ela aceitou — disse que foi por educação porque estava muito cansada. Após o jantar, o João Milanês ao invés de levá-la para o hotel, conforme era o combinado, a levou para um motel e a estuprou lá. Ela já tinha mais de setenta anos, já fazia muitos anos que não tinha relação sexual.
Ela contaria depois que terminou essa relação em petição de miséria, completamente ensanguentada, foi um episódio de muita brutalidade. Passou, ficou por isso mesmo. Mas, tempos depois, ela foi ao Roda Viva, entrevistada por uma bancada de jornalistas, e contou esse episódio. Isso viralizou nas redes sociais, alguns de vocês talvez tenham visto. Enquanto ela contava, em termos muito parecidos aos que eu contei aqui, as pessoas gargalhavam, morriam de rir.
Então, a Dercy era essa mulher que falava essas barbaridades, mas tinha no ambiente gente que cometia barbaridades iguais. As pessoas falavam: “mas esse garanhão, esse amante…” Até que alguém nesse Roda Viva teve o bom senso de falar: “gente, não era um amante, foi um estupro, não foi uma noite de amor”. Mas o comum, o espírito do tempo daquela época era esse, considerar que um estupro era uma noite mal sucedida, talvez.
Tanto é que esse sujeito, João Milanês, gravou um vídeo, que também está disponível no YouTube, o vídeo se chama “Eu comi a Dercy Gonçalves”, contando isso, contando que ele estuprou uma mulher com o maior orgulho do mundo: “eu levei para um hotel, ela disse que não queria, mas ela fez tudo direitinho, porque ela ficou paralisada. Depois ela tomou um banho…” Obvio que ela tomou banho, ficou toda ensanguentada.
Então, era nesse momento, nesse Brasil, que a Dercy dizia que os peitos dela eram mais bonitos do que os da Roberta Close, porque, “no fundo, a Roberta Close era um homem”. Então, eu acho que é sempre importante a gente compreender esses contextos antes de cancelar as pessoas a posteriori.
BB:
Não à toa e muito acertadamente, a Dercy dizia que “eu sou o Brasil”, porque eu acho que nenhuma outra artista absorveu e expôs tantas chagas, preconceitos, talentos, mediocridades de um povo da complexidade do povo brasileiro. A Dercy conseguiu condensar isso e a custa de muito, sabe-se lá o quanto, intimamente. Eu fico muito impressionada com essa síntese que ela é do Brasil e se a gente pensar no auge da popularidade dela nos anos 1980, em um período pré-democrático, depois uma democracia recente, a Dercy atuando no teatro, nas ditaduras.
AN:
E a Dercy, mesmo tendo enfrentado duas ditaduras, era uma mulher que não se ligava muito em política. Ela dizia isso, que não tinha interesse em política, embora muitas vezes atuasse politicamente. Na época do regime militar, o ator Mário Lago foi preso, e, quando saiu da prisão, ele teve muita dificuldade para conseguir se recolocar no mercado. As pessoas tinham muito medo de oferecer trabalho ao Mário Lago porque ele era tido como um ator subversivo…
A Dercy, era uma pessoa até simpática aos militares, ela até achava o Costa do Silva simpático, inclusive o recebeu no retiro dos artistas, para um passeio, tomou um café com ele, o Humberto Castelo Branco também tinha uma simpatia pela Dercy, era um apreciador do estilo dela. Certa vez, ela também fez campanha para um candidato ligado aos militares, era uma mulher que não tinha muitas reservas ao governo na época do regime.
A despeito disso, quando Mário Lago saiu da prisão e não conseguia emprego em lugar nenhum e estava com dificuldades, inclusive, para comprar comida para os filhos, foi a Dercy que ofereceu um trabalho para ele. O Mário Lago, que era um ator mais tradicional do que a Dercy, vamos dizer assim, disse: “Dercy, eu não sou muito dessas coisas que você faz, não sei se eu vou ficar muito à vontade”.
E ela falou para ele: “Mário, pensa no leite das crianças”. E aí ele fez as coisas que tinha que fazer com a Dercy na televisão, que não eram exatamente muito edificantes para um ator como ele, mas ele sempre pensava no leite das crianças e saiu daquela situação de dificuldade financeira graças a Dercy.
Ela era essa mulher que depois virou uma grande entusiasta do Paulo Maluf, por exemplo, era malufista, ela e a Hebe, juntas. Recorreu ao Adhemar de Barros na época em que ela estava na Venezuela e precisou voltar para o Brasil e não tinha dinheiro. Então, ela tinha uma relação com essas figuras. Depois, mais para frente, virou uma grande entusiasta do Fernando Henrique Cardoso, chegou, inclusive, a ir à posse dele. Mas é isso, era uma figura muito contraditória.
BB:
Adriana, o que ela falou para a dona Ruth [Cardoso]?
AN:
A Dercy foi para a posse do Fernando Henrique Cardoso com a Ruth Escobar, de quem era muito amiga. E a Dercy era muito desligada de política, não lia jornais, não tinha condição de fazer isso, não acompanhava o noticiário, mas foi convidada para a posse do Fernando Henrique, e foi junto com a Ruth Escobar.
Em determinado momento, na recepção aos convidados, ela se perdeu da Ruth Escobar e ficou procurando, perguntando às pessoas: “cadê a Ruth?”. Alguém apontou para uma rodinha, dizendo que ela estaria lá, ela foi até a rodinha, não viu a Ruth Escobar e falou: “disseram que a Ruth estava aqui, cadê a Ruth?”. Aí a Ruth Cardoso falou: “estou aqui”. Ela disse: “não é tu não, nega”. E não sabia que a Ruth Cardoso era a Ruth Cardoso, então continuou procurando a Ruth Escobar.
Alguém falou para ela: “Dercy, aquela é a mulher do Fernando Henrique, a primeira dama”. Aí ela foi lá, pediu desculpas, disse que não a conhecia, ainda deu uns conselhos para a Ruth Cardoso, recomendando a ela que, quando quisesse pedir alguma coisa para o Fernando Henrique, pedisse na cama, porque era o momento em que ele estava mais vulnerável.
BB:
Para fechar, Adriana, queria fazer uma pergunta em parte mediúnica, em parte de caderno de perguntas da década de 90: o que você perguntaria para a Dercy em 2026?
AN:
Nossa! Hoje eu perguntaria o que ela achou da biografia, se ela ia me mandar tomar no cu ou não. Alguém teria que ler para ela e ela poderia me dizer o que pensou a respeito. Mas eu acho que eu perguntaria para a Dercy se ela acha que os tempos em que vivemos são mais ou menos moralistas do que os tempos que ela viveu.
Porque você leu Podcast
Transcrição: Ana Guadalupe no podcast 451 MHz
Leia a transcrição do episódio #205, em que a poeta paranaense fala na coluna Lado Beber sobre sua nova coletânea de poemas, Ensino à distância
AGOSTO, 2026

