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Transcrição: Adriana Ferreira Silva e Elisa Menezes no podcast 451 MHz

Leia a transcrição do episódio #198 do 451 MHz, um bate-papo entre Adriana Ferreira Silva e Elisa Menezes sobre a escritora colombiana Pilar Quintana

09jun2026

Esta edição do 451 MHz traz uma conversa com a jornalista Adriana Ferreira Silva e a tradutora Elisa Menezes sobre o universo literário da autora colombiana Pilar Quintana, convidada d’A Feira do Livro 2026. Elas falam especialmente sobre Noite negra (Companhia das Letras), romance que acaba de sair no Brasil em tradução de Menezes e retrata os temores provocados nas mulheres pela solidão e por homens não confiáveis. Ouça a seguir e saiba mais aqui.

Leia a transcrição:

Paulo Werneck [PW]:

Oi, está começando o episódio 198 do 451 MHz, o podcast para quem lê até com os ouvidos. Eu sou o Paulo Werneck, editor da revista Quatro Cinco Um. Toda sexta-feira a gente conversa aqui com autores, críticos e leitores sobre os livros mais legais que acabaram de ser publicados no Brasil.

Adriana Ferreira Silva [AFS]:
Se você está sozinha na rua Augusta aqui em São Paulo, por exemplo, e você gritar, alguém vai te ouvir. Agora, se você está sozinha no meio do mato, cercado de homens que passam a te tratar de um modo diferente assim que seu companheiro viaja, que é o que acontece com essa protagonista, é absolutamente aterrorizante.

Elisa Menezes [EM]:
Por que é Noite negra? A gente tem esses quatro dias em que a história transcorre e que o momento ápice vai ser quando vier essa lua nova, quando a noite fica totalmente escura. Então ela vai progressivamente enfrentando tons diferentes, né?

PW:
Essas vozes que você acabou de ouvir são da jornalista Adriana Ferreira Silva e da tradutora Elisa Menezes. Eu já vou falar um pouquinho mais sobre elas, mas antes eu preciso te avisar que esse episódio é realizado com o apoio da Lei Rouanet. 

PW:
A Adriana Ferreira Silva é jornalista, escritora e colaboradora assídua da Quatro Cinco Um, tanto aqui no podcast como também na revista. Na edição de maio, ela escreveu a resenha de Noite negra, romance da escritora colombiana Pilar Quintana, que acabou de ser publicado pela Companhia das Letras, por ocasião da presença da Pilar n’A Feira do Livro, que é amanhã, hein, gente? Amanhã(30) começa A Feira do Livro e vai até o dia sete de junho. E foi justamente para falar sobre a Pilar e esse novo livro dela com ela, que eu convidei a Adriana para vir aqui no 451 MHz.

Convidei também a Elisa Menezes, que é jornalista, editora e tradutora literária. Foi ela que fez a tradução de Noite negra e também de Os abismos, que é um outro romance da Pilar, publicado no Brasil em 2021 pela Intrínseca. Se você já acompanha ou quer conhecer mais a obra da Pilar, se gostou do romance A cachorra, e não vê a hora de ler esse novo romance dela, eu te convido para dar uma passada na Praça Charles Miller, lá no Pacaembu, para assistir a Pilar se apresentando pela primeira vez aqui para o público paulistano. O nosso Festival Literário começa nesse sábado, trinta de maio no Pacaembu, e vai até o dia sete de junho. A mesa dela vai ser no domingo dia 31, depois de amanhã, às dezoito horas.

A jornalista Adriana Ferreira Silva e a tradutora Elisa Menezes (Maria Ribeiro/Acervo pessoal; Acervo pessoal)

A Pilar vai conversar com o escritor Joca Reiners Terron — que estava aqui no 451 MHz, na semana passada falando com a Bia Bracher — e eles vão falar sobre esse novo romance e também sobre toda a obra dela. Depois, ainda tem uma sessão de autógrafo você pode pegar o jamegão da Pilar Quintana diretamente n’A Feira do Livro. Não dá para perder! Então, vamos lá para primeira parte da conversa com a Adriana Ferreira Silva e a Elisa Menezes.

PW:
Então estamos aqui para falar de uma das estrelas do nosso festival literário que começa amanhã. Se você está ouvindo o 451 MHz nessa sexta-feira que a gente está publicando esse programa, amanhã começa aqui no Pacaembu A Feira do Livro, que é um festival literário aqui da Quatro Cinco Um, e que vai ter a Pilar Quintana como uma das suas principais convidadas, uma das convidadas mais esperadas pelo público.

E para falar sobre ela, que é uma estrela da literatura latino-americana, uma autora que reúne multidões, que é aguardada, cujos livros são aguardados, a gente está aqui com a tradutora do livro, a Elisa Menezes. Seja bem-vinda, Elisa, ao 451 MHz. Tudo bem com você?

EM:
Obrigada pelo convite, Paulo. Tudo bem? Prazer estar aqui.

PW:
Tudo jóia. Muito bom falar com você, falar de tradução literária, um tema que a gente a gente sempre fala aqui, e dessa grande autora. E quem resenhou o livro da Pilar Quintana para a Quatro Cinco Um especial d’A Feira do Livro, que a gente também publica uma edição especial, é a grande Adriana Ferreira Silva, que está aqui com a gente, que eu convidei também para falar com a Elisa, trabalhar um pouquinho com a gente aqui sobre por que essa autora mobiliza tanto as leitoras.

Eu queria já começar perguntando isso, Elisa. Você que está por dentro dessa prosa, que está traduzindo ela de dentro, o que você acha que é a mágica que ela faz para conquistar tantos leitores?

EM:
Olha, a Pilar tem uma característica que está nos três romances dela, em A cachorra, traduzido pela Livia Deorsola, em Os abismos, que eu traduzi, e agora também no Noite negra, que é uma concisão, tem uma força na narrativa dela, tem os temas que são muito potentes, mas para mim é muito impressionante, como tradutora, essa capacidade dela se reinventar na linguagem, mas ao mesmo tempo sempre demonstrando um domínio absoluto da escrita.

Então, se a gente pensar nos três livros, a gente vai ver que em A cachorra tem um linguagem mais abrupta, mais seca e que diz muito daquele ambiente e daquela personagem, que sofre um milhão de preconceitos, de mazelas, que tem uma vida e um cotidiano muito duro. Já em Os abismos, ela também tem uma linguagem muito concisa, e eu lembro como eu sempre pensava na imagem de um ourives enquanto traduzia. É um trabalho de muita precisão, delicadeza, e aquela sensação de que cada palavra é a palavra exata, é a palavra justa. E é um livro também diferente de A cachorra, diferente do Noite negra, é um livro de muitas elipses e de muitos silêncios, que dizem muita coisa. E eu acho de uma perfeição.

Já em Noite negra, ela vai e faz uma nova coisa, ela vai usar outros recursos literários. Então, um deles, que mais tome a frente, é a repetição, e ela vai fazer muita coisa com essa repetição. Essa repetição vai demonstrar o tédio daquele cotidiano da Rosa, o quanto ele é maçante, ali naquela cabana sozinha, tendo que lidar contra a natureza. Vai mostrar os poucos recursos que ela tem, porque ela tem tão poucos recursos que não é “um facão”, é “o facão”, é “a faca de pesca”, é “a capa de chuva”. 

Eles são quase personagens, porque ela tem esse ambiente tão restrito, tão exíguo e ao mesmo tempo essa repetição, que serve para mostrar o quanto ela tem que fazer aquilo diariamente, nessa luta eterna contra a natureza, mas também serve para criar uma espécie de transe, né? E esse transe leva a gente também para esse mergulho tão profundo que a personagem vai fazer, que é uma loucura também.

É incrível como ela vai usando diferentes recursos a cada livro, vai se renovando, mas sempre com essa linguagem e com essa história muito potente. Eu sei que eu fugi um pouquinho da resposta, acabei indo para a tradução, mas aí é cacoete de tradutora mesmo.

PW:
Mas eu acho que é muito legal, porque você como tradutora observa a técnica que traz um certo efeito literário que é o mais difícil, entender como que o estilo, como o trabalho de texto literário causa uma sensação no leitor. É uma questão técnica em grande medida, essa síntese, essa concisão que você falou, que são coisas muito difíceis de atingir. Na verdade, é muito mais fácil ser prolixo, é muito mais fácil ser transbordante do que ser sintético do que ser econômico.

E você, Dri, na sua resenha fala muito dessa investigação dela dos temores das mulheres, é uma espécie de investigação para dentro, da subjetividade feminina. Você quer desenvolver um pouquinho aqui o que você escreveu para a gente na revista?

AFS:
Sim. Bom, primeiramente obrigada pelo convite, Paulo. Adorei ouvir a Elisa falando da linguagem. É bom ouvir alguém que se debruça com tantos detalhes na linguagem para falar sobre uma autora. Olha, Paulo, eu conheci a Pilar Quintana pelo A cachorra. Eu me lembro, quando foi lançado aqui no Brasil fez um grande sucesso, todo mundo falava de A cachorra, eu não conhecia Os abismos

Quando vocês me pautaram para escrever sobre o Noite negra, o novo livro, eu voltei a ler A cachorra e li na sequência Os abismos. Fiz um mergulho, fui ouvir todas as entrevistas que a Pilar Quintana deu nos últimos tempos, ler tudo o que ela falou, hoje com essa possibilidade do podcast é muito bom poder ouvir realmente a autora falando, isso é perfeito, é maravilhoso.

E o que me chama mais atenção na Pilar Quintana é a coisa da temática. Ela é uma feminista, a temática dela é uma temática feminista em todos os livros. Ela reforça muito isso quando fala nas entrevistas. E ao reler a obra toda, passando essa leitura toda desde o início, é muito interessante como também tem algumas coisas do universo dela que vão se repetindo. Então, em Noite negra, ele volta ao mesmo lugar onde se passou A cachorra

Essa é uma coisa que é muito… não é um spoiler, porque ela fala sobre isso. E eu sugiro que quem vai ler Noite negra a partir da passagem da Pilar pela A Feira do Livro, ou a partir da escuta desse podcast, que volte em A cachorra, e se não leu tem que ler, porque a personagem protagonista do Noite negra, a Rosa, ela está em A cachorra. Eu não sabia também, depois é que eu fui me tocar.

O que acontece? O Noite negra se passa antes de A cachorra, é no mesmo lugar, em uma praia no pacífico colombiano, um lugar paradisíaco onde uma publicitária, que é essa Rosa, vai morar com o namorado, o companheiro, um carpinteiro irlandês, que é o Gene, e tudo acontece. 

É muito interessante essa coisa da repetição que a Elisa já contou, porque nessa repetição, eu falei dessa temática feminista, essa repetição é uma repetição de coisas que mulheres fazem todo santo dia. Acordar, lavar a louça, e ela reforça muito isso no “lavar a louça”, eu até trouxe pro texto, porque a vida é lavar louça e lavar louça novamente. São coisas do cotidiano de uma mulher e o livro inteiro se passa em quatro dias, e em quatro dias ela joga a gente num thriller muito maluco, que a gente vai ficando paranoica junto com a personagem.

Eu me lembrei muito de um filme argentino, que eu não vou lembrar o nome nesse momento, mas vocês podem me ajudar, que é uma diretora super famosa, um filme argentino que se passa em torno de uma piscina. Depois a gente pode procurar.

EM:
É La ciénaga. O pântano.

AFS:
Exatamente, O pântano. Eu me lembrei muito do O pântano porque você fica o filme inteiro esperando o que vai acontecer e é o mesmo clima do livro da Pilar Quintana, totalmente o clima desse Noite negra, a cada momento vai acontecendo uma coisinha. E isso dela situar essa personagem sozinha no meio de uma floresta, que é essa floresta onde se passa também também oA cachorra, a gente se sente muito porque é… Uma mulher sozinha numa cidade, sei lá, na rua Augusta, por exemplo, aqui em São Paulo, se você gritar, alguém vai te ouvir. 

Agora, se você está sozinha no meio do mato, cercada de homens que passam a te tratar de um modo diferente assim que seu companheiro viaja, que é o que acontece com essa protagonista, é absolutamente aterrorizante. E cada barulho, uma gota d ‘água que cai no telhado dessa casa é assustadora, um morcego que aparece é assustador. Então, ela vai criando um clima de muita tensão num paraíso, porque deveria ser o paraíso a vida dessa personagem no livro.

Voltando para essa história, que eu acho muito legal, porque esses dois personagens, a Rosa e o Gene, eu entendi que são personagens que perpassam a obra da Pilar porque ela aparece em A cachorra, em que a personagem principal, a Damaris, vai se apaixonar pela cachorra, a Chirli — esse nome é maravilhoso da vira-lata Shirley —, e ela trabalha na casa da senhora Rosa. Não é spoiler, não vou dar mais detalhes do que acontece lá na casa da senhora Rosa que a Damaris trabalha.

E eu descobri que tem dois contos que a Pilar escreveu e que ainda não foram lançados no Brasil, já fica a dica aqui: alô, Companhia das Letras aguardamos esses contos ansiosamente. Neles tem mais duas partes dessa mesma história, da história do casal Rosa e Gene. Então são personagens que passam pela obra da Pilar em vários momentos, passam pelo A cachorra, passam por esse conto, e que agora tem um livro só para eles, que é o Noite negra.

EM:
Os leitores mais atentos que tiverem lido Os abismos, no Noite negra tem uma piscadela para quem leu Os abismos. Não vou dizer o que é, mas quem lê com atenção vai ver que tem alguma coisa dos abismos ali.

PW:
Aqui o spoiler não é proibido, hein, gente? Só para avisar também vocês e os ouvintes que estamos aqui falando de livro. Isso que a Adriana falou, de que a expectativa de alguma coisa acontecer é a arte, na verdade, é a revelação do que essa habilidade de criar uma atmosfera de tensão, de suspense, de angústia, de tédio também, que é muito forte, é um espaço clássico da dita literatura feminina o espaço interno da casa e nesse livro, mas numa dimensão mais dark. Elisa, como você enxerga que ela obtém esse efeito? Como é que ela administra essa tensão narrativa do ponto de vista de texto?

EM:
Ela faz muitos jogos de oposição, o interior da casa, que é essa cabana inacabada, isso é importante também dizer, ela está numa cabana no meio da floresta, sem janela e sem porta, com plásticos pretos fechando as entradas porque ela ainda não está terminada. Tem até aquela piada: se você, mulher, está numa floresta e encontra ou um urso, ou um homem, do que você tem mais medo? E isso acontece no livro, porque ela tem muitos predadores, digamos, naturais, mas o que é mais assustador são aqueles homens que rondam a casa dela, mais do que as cobras, o morcego que ela vai enfrentar, e ela vai se provando o tempo inteiro.

E aí, tem várias oposições, tem a oposição do tão pouco que ela tem, materialmente falando, com a imensidão da natureza. Tem essa tensão, ao mesmo tempo que é muito bonito, porque ela coloca a natureza… Não há um olhar encantado para ela, mas eu acho que é um olhar diferente, né? Então, tem as formas como ela descreve a variedade das cores. Porque é isso: ela está numa cabana, ela tem um facão e uma capa de chuva, mas ela tem um milhão de nuances de céu e de pôr do sol, ela tem o cheiro da floresta, o cheiro da maresia, como as nuvens formam um desenho e as aves, o encantamento de chegar no riacho. Então, ela tem muito, né? Ela tem muito pouco material, mas ela tem muito.

Ela brinca o tempo todo com essas oposições dos poucos pertences com o muito da natureza, com a beleza da natureza, mas também com a violência da natureza, ela literalmente está com um facão abrindo caminho pela mata e essa mata volta, você vai lutar o tempo inteiro e você vai perder, a natureza é mais forte que você. Ao mesmo tempo, ela entra em vários conflitos internos, psicológicos, porque ela às vezes se vê como a predadora também, porque ela tem que matar para sobreviver. Ela vai usando essa reflexão mais interna pra explicar por que também esse medo tão grande do abandono, da onde vem, então ela vai resgatar a história familiar.

A Adriana falou dos temas que aparecem sempre na obra dela, a maternidade é muito forte no A cachorra e n’Os abismos, no A cachorra tem uma mulher com o grande desejo de ser mãe, já n’Os abismos a gente tem uma mãe que é extremamente infeliz nesse papel e uma filha que cresce vendo essa mãe infeliz. No Noite negra isso não é tão importante, mas tem, por exemplo, uma questão que está nos três livros que é a questão racial, é um tema dela, esse vilarejo de pescadores que está no A cachorra, que está no Noite negra, é um vilarejo de pescadores negros. A Damaris, a protagonista do primeiro livro, vai sofrer muitas violências por ser quem é, por ser uma mulher pobre, negra, gorda.

Tem uma coisa que aproxima muito a gente como leitores brasileiros, eu acho que são sociedades que se identificam muito, porque a gente tem a miscigenação, a gente tem os eufemismos pra falar da cor da pele, pra ser preconceituoso. Em Os abismos, o tempo inteiro a menina, Cláudia, quer ser a boneca, que é a loira dos olhos azuis e a mãe falando de como a miss do tempo dela era loira de olhos azuis. No Noite negra, a Rosa diz que ela só se entendeu negra quando ela se viu ao lado do marido irlandês, porque ela cresceu ouvindo que ela era tão bonita, porque ela era a mais branca das três — as três sendo a avó, a mãe e ela. Os temas são fascinantes sobretudo pelo o que ela faz com esses temas, porque não é nada simplesmente declaratório.

PW:
O feminismo dela não é discursivo, ela vai lá e mostra diante dos olhos, a coisa ali na sua frente. De fato, a sociedade colombiana é muito parecida com a brasileira, então conversa muito com o público daqui. Você teve dificuldades específicas na tradução? Não é uma linguagem muito de dialeto local, né? Ela não traz uma dificuldade literária nesse nível, né, Elisa?

EM:
Mais ou menos. Nesse livro, especificamente, tem algumas questões. O espanhol que a Rosa fala é de uma mulher de Cali. O espanhol que os moradores daquele vilarejo falam é diferente. Um dos grandes desafios pra mim, fiquei muito atenta a isso, foi esse estrangeiro de língua inglesa, um irlandês que não fala totalmente bem o espanhol, fala com sotaque, e eu precisava emular isso no português. Se eu simplesmente traduzisse literalmente, ele não ia parecer um estrangeiro de língua inglesa tentando falar português, ele ia parecer talvez um caipira, ou uma pessoa com baixa instrução. Então, eu tenho que pensar como um estrangeiro de língua inglesa, que não fala totalmente bem português, falaria.

Também tem uma cartela de bingo aqui do Noite negra com muita planta, muito bicho, vocabulário náutico, material de construção, todo esse universo, isso é um trabalho infernal porque você tem que pesquisar e entender determinadas partes de coisas que nem na nossa língua a gente sabe como se chama. Eu não costumo consultar o autor, mas a primeira autora que eu consultei na minha vida estando traduzindo um livro foi a Pilar.

Eu não a conhecia e eu estava traduzindo Os abismos, tinha duas palavras que eu pesquisei muito, eu falei com pessoas da Colômbia, usei todos os dicionários, e eu via que ela era bem ativa no Twitter, então mandei uma DM [direct message] pra ela e falei: “sou sua tradutora brasileira, estou com uma dúvida. Será que você podia me ajudar?” Ela me respondeu em minutos, e uma das palavras era “sacolé” e ficou “sacolé” mesmo, porque eu sou carioca e não tenho nenhuma possibilidade de não colocar “sacolé”, mas poderia ser “geladinho”, poderia ser “dindim”, poderia ser várias outras palavras.

Traduzindo o Noite negra, eu já a conhecia, e ela esteve no Rio há dois anos, se não me engano, pra fazer um lançamento e eu mediei uma conversa com ela. Então, eu já tinha mais intimidade e no final da tradução teve algumas questões que eu bati com ela, que eram justamente de flora e fauna, eu mandava a foto e falava: “é essa a árvore? é esse o bicho?”. E a gente chegou juntas na solução, então esse é o tipo de pepino, que dá bastante trabalho.

AFS:
Nem deu pra perceber que era um pepino, viu, Elisa?

PW:
Pois é, Adriana, nunca dá. É um trabalhão que dá cada palavrinha que sai numa tradução. Me lembrei, Elisa, que uma vez eu descobri o nome daquela bola de pelo que fica dentro da barriga do gato, que ele vomita porque um dia aparece num livro, tive que pesquisar, tive que procurar um veterinário, eventualmente. Mas é um dos prazeres da tradução também, né? Eu sei da dificuldade. Você falou que é um trabalhão de descobrir o nome científico da planta, depois procurar uma planta parecida do Brasil. Será que existe, será que não existe? Será que eu coloco o nome em espanhol mesmo? Será que eu invento alguma outra coisa? É sempre um dilema.

Adriana, na sua opinião, essa questão do diálogo com o Brasil, com uma sociedade muito parecida, tudo aquilo que talvez em outros países pudesse soar como um exotismo, a gente entende de primeira nesse livro? Acha que tem uma comunicação direta?

AFS:
Cem por cento, Paulo. A gente que gosta de viajar, gosta de fazer aquelas aventuras ali naquelas praias do sul da Bahia… Tenho uma amiga que brinca: “paulista adora viajar pra lugar que você tem que pegar um avião, um ônibus, um jegue, um parco e só depois disso tudo chega na praia”. É mais ou menos assim esse lugar que ela está, é uma praia desse tipo, então tem essa similaridade, você consegue se imaginar sozinha num lugar muito semelhante a esse.

A questão racial que a Elisa destacou, bastante presente, é muito legal como a Pilar faz isso, porque não é uma questão que você fica falando o tempo inteiro, tem um processo de embranquecimento muito semelhante ao que aconteceu aqui no Brasil, famílias que passaram pelo processo de embranquecimento, não é uma questão você ficar falando do tom da pele, o que aparece mais é realmente isso: “olha, você é mais clara”. Mas não é uma questão você falar da negritude. E essa personagem, ela se confronta com a negritude, ela é uma mulher pobre, biracial — não vou dar detalhes da formação familiar dela, porque é um dos segredos do livro, — e ela vai tomando consciência de todas essas questões, raciais, de gênero e de classe, quando ela vai para a universidade.

Esse livro se passa na década de 1970, numa época que as mulheres não estudavam, mesmo lá na Colômbia, então, tem mais isso de semelhante também com o Brasil, não era comum uma mulher, nas décadas de 50 a 70, ir para a universidade. A outra coisa é que essa personagem na universidade vai se relacionar com pessoas que vão fazer parte da revolução na Colômbia, que depois vai derivar nas Farc, então tem um indício dos militares ocupando os lugares, uma repressão militar, que também é muito semelhante com o que aconteceu aqui no Brasil. Era uma coisa que eu não sabia e fui pesquisar, esse movimento universitário que ela menciona no livro, ela trata especificamente de um movimento universitário socialista, que foi o que derivou depois nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, é bem ali o embrião, os primeiros momentos desse movimento.

Tem dois momentos dessa história, um momento que é o dos estudantes, depois tem o momento de repressão. E essa coisa também de você ser mulher no país da América do Sul, é muito parecido, é muito semelhante. Ser uma mulher no mundo, a Pilar fala muito sobre isso, ou a Rebecca Solnit, por exemplo, tem um livro maravilhoso sobre isso, o Recordações da minha inexistência: memória, que é sobre ser um corpo de uma mulher no mundo, você está, inclusive dentro de casa, em perigo, não há lugar de segurança.

Mas para quem é latino-americano, lendo a Pilar, você se identifica ainda mais porque são circunstâncias todas muito semelhantes, inclusive no relacionamento com o gringo, a maneira como eles se relacionam, os medos que ela tem desse gringo, o que vai acontecer depois que ele viaja e deixa ela sozinha na praia. Então, sim, a leitora e leitor brasileira vão se identificar com muitas muitas passagens, assim como acontece em Os abismos e em A cachorra.

PW:
Esse carpinteiro irlandês é quase um arquétipo cômico de um personagem, quase uma figura clichê e que deixa ela sozinha a partir de um certo momento.

AFS:
É maravilhoso porque ela usa ele, na verdade. Ela tem um sonho, ela é uma publicitária na década de 1960, uma mulher independente, ganha o seu próprio dinheiro, é sócia de uma agência de publicidade, e ela tem o sonho de ter a casa própria e de morar no meio do mato — aquele sonho idílico de morar no meio do mato, que todo mundo que mora na cidade tem, contudo, depois você descobre que morar no meio do mato não tem nada, absolutamente nada, de idílico.

E o que que ela vê nesse carpinteiro? Ele pode construir a casa, ele pode resolver o problema dela, entendeu? Ele é uma ferramenta pra ela, na verdade. Não é que ela está apaixonada, louca de amor, não, tem uma paixão ali, mas, principalmente, o cara pode construir a casa pra ela, esse é o principal motivo dela estar com ele.

PW:
Mas no meio dessa ligação com a natureza… Tem um enfrentamento dessas feras, bichos, mas também de integração de alguma forma. Nesse sentido é quase Clarice Lispector, ela vai se afundando.

AFS:
Esse livro é um pouco a experiência da própria Pilar, porque ela morou numa casa no meio do mato, exatamente na mesma região da Colômbia. Numa das entrevistas que ela deu, ela fala que, ao contrário dessa personagem, a casa dela tinha porta, mas uma porta só. A casa dessa personagem não tem porta nenhuma, ela falou que a casa dela tinha a porta do quarto, mas o resto não tinha também. Também era uma casinha de madeira, tudo igual.

Num determinado momento dessa temporada, acho que foram seis ou sete anos que ela morou nessa mesma região da Colômbia, o marido dela na época precisou fazer uma cirurgia e viajou, e ela ficou três meses sozinha nessa casa enquanto ele estava na cidade. É exatamente a mesma situação da personagem, mas da personagem o motivo da viagem é outro. Ela falou que imediatamente, no momento em que o marido viajou, todos os homens passaram a tratar ela diferente, que é o que acontece com a personagem.

Essa coisa da natureza, Paulo, numa das entrevistas que eu ouvi, a Pilar fala: “os únicos animais que podem relaxar é gato e cachorro. Qualquer outro animal que está na rua, você tem que ficar atento. A mesma coisa é o ser humano, é um animal também”. Você está no meio de uma floresta, você está no meio do mato, é sobrevivência, não existe segurança para absolutamente ninguém. Então vai aparecer o morcego, vai aparecer a cobra, tudo é um perigo o tempo todo. É perrengue o tempo inteiro, do começo ao fim.

PW:
Muito legal. É incrível como ela junta, de fato, muitas dimensões. Tem essa dimensão autobiográfica que você contou — não precisa saber disso para curtir o livro —, tem essa dimensão histórica das Farc, a própria natureza da Colômbia, que é a mesma do Brasil, de alguma forma. Muitas dimensões. O livro parece que tem uma densidade muito grande. Elisa, e a tradução, nesse caso você teve que ter um diálogo com ela.

EM:
No final do livro eu estava com algumas dúvidas e chequei com ela. Porque ela tinha até… eu não sei se ela tinha me falado isso, ou se eu li em algum lugar, mas ela comentou que na época chegou a fazer um tipo de registro de fauna e de flora, então eu chequei algumas coisas com ela. Mas eu tendo, de maneira geral… Eu acho que é um recurso super válido, é uma sorte você traduzir autores vivos, porque eu posso fazer isso, tenho essa proximidade, mas eu não gosto da ideia de recorrer sempre à autora, porque quem está escrevendo esse livro em português é quem traduz. Então, também acho que às vezes você pode começar a se autocensurar na hora de fazer as escolhas.

Checar coisas factuais é uma coisa, ou às vezes você fica na dúvida de qual a intenção, acho que eventualmente você pode achar alguma coisa, mas eu tento não fazer disso uma ferramenta fixa. A gente tem que fazer as nossas escolhas. Eu já tive diálogos com outras autoras e eu acho muito legal quando a resposta delas é assim: “não sei, escolhe você, você que sabe”. A gente tem que ter essa dimensão de que é o mesmo livro, mas não é o mesmo livro.

PW:
Sim, a tradução é um outro livro de alguma forma, mas a gente também tem essa preocupação em não errar. Eu acho que tem essa coisa do tradutor que você não quer cometer ter uma gafe. E muitas vezes, pra você saber um objeto, se ele é uma poltrona ou um sofá, sei lá, você tem que olhar no Google Images, você usa lá a palavra em português, pede as imagens, depois busca em outro idioma.

EM:
Eu achei bom que você deu esse exemplo, porque no caso é sillón, que pode ser uma poltrona ou um sofá. E tem livros em que você não vai ter como saber se é uma poltrona ou um sofá, porque não vai ter nenhuma uma pista naquela cena pra você saber, às vezes você vai ler seiscentas páginas pra ter uma pista, ou então você vai escolher. São as delícias da tradução. Mas eu venho do jornalismo, sou jornalista de formação, eu sou editora e o meu olhar de tradutora tem muito a ver com a minha formação de jornalista. A forma como eu abordo o texto tem muito da questão do “não chute, cheque”, de ser muito clara no que eu estou dizendo, desconfiar de absolutamente tudo, inclusive das intenções.

Acho que ninguém lê um texto tão bem quanto quem traduz um texto, você vai ler cinquenta vezes aquele texto porque você lê desconfiando e investigando cada da vírgula. Às vezes eu tenho embates com a preparação [de texto] e falar: “não, não dá pra trocar a ordem dessa palavra, porque se a gente trocar aqui, a gente vai estar antecipando uma coisa que ela só quer dizer no final, ela está criando um suspense nessa frase. Então, essa palavra tem que ficar aqui no final e não antes.” É nesse nível de detalhe que a gente opera. É uma checagem e uma desconfiança constante de mim, do que eu acho que sei, das intenções do autor e de tudo.

PW:
É um prazer, né? Tem a satisfação de encontrar a palavra certa. Você até falou no começo que ela se caracteriza na escrita da palavra… “Le mot juste”, lá como dizia o Flaubert. Mas a gente, o tradutor, também tem essa sensação de alegria muito grande quando você acerta na mosca, você fala: “putz, era isso”. Dri, eu queria que você falasse pra mim sobre os homens do livro, porque essa mulher está sozinha, pero no mucho. Ela tem interações com outros homens, o carpinteiro irlandês que vai embora, e quem são os outros? Como você enxerga esses outros homens que aparecem no livro?

AFS:
Eles são “o uó”, Paulo. Os outros homens do livro são dois vizinhos, mas são terrenos muito grandes, ou seja, as casas são muito longe umas das outras, aquela coisa de “meio do mato” mesmo. Lembrando que é um “meio do mato” na praia, ela mora em cima de uma falésia, ela vê um penhasco, um abismo, que é outra imagem que se repete na obra da Pilar. É interessante isso, o mato se repete, mesmo em Os abismos, que se passa em Cali, a mãe faz uma floresta no meio da sala. Então tem algumas imagens que vão se repetindo. A queda de lugares altos, o penhasco, o abismo…

Bom, ela mora numa casa, nesse penhasco, e os vizinhos ficam muito longes. Tem um caseiro, que é um homem mais velho, com quem ela esperava contar no período em que o companheiro está viajando, mas ela percebe que não pode contar com ele. Tem um engenheiro, ele mora numa casa vizinha também, e está em fuga, eles não sabem porque que ele fugiu da cidade grande, mas ele está ali escondido, então já tem um mistério em torno desse personagem. Tem um ex-drogado que mora numa barraca, numa casa que as irmãs dele compraram, mas é uma situação super precária. E esses três ficam ali no entorno dela. O que acontece é que, de repente, depois que o marido viaja, esses três começam a aparecer o tempo inteiro em torno dela. Então, ela está lá, vira para o lado, aparece um. Ela sai de casa, dá de cara com o outro, entendeu?

Tem uma outra figura que é a mais… Que daria um pouco mais de medo do que todos os outros, um pescador, um faz tudo, que quer cortar uma árvore que tem no quintal dela. Assim que o marido da Rosa vai embora, ele já passa a olhar esquisito pra ela e em um dia, ela sai de casa e dá de cara com ele segurando uma serra elétrica na porta da casa dela. Então, são pequenos elementos, um está com uma navalha e o outro aparece com essa serra elétrica.

Ela começa a achar que eles estão o tempo inteiro confabulando, eles começam a soltar piadinhas sobre uma mulher sozinha no meio do mato. Então são coisas que as mulheres costumam passar mesmo, e como ela está sozinha, eles se sentem mais à vontade para fazer piada, para visitar ela em horários impróprios. Ela fica paranoica. Ela passa a dormir com uma faca embaixo do travesseiro, mas ao mesmo tempo ela imagina: “não adianta absolutamente nada dormir com essa faca, porque se alguém decidir entrar aqui, essa faca não vai servir pra nada”.

EM:
Ela pensa: “eles são três e eu sou uma”.

AFS:
Exatamente. Então é esse comportamento que os homens vão mostrando assim que o marido dela entra no barco e vai embora, o comportamento deles muda completamente, é um pavor.

PW:
O pior é que isso não é nada metafórico. Ela coloca nesse cenário simbólico, literário, parece uma grande criação ficcional, mas de fato provavelmente aconteceu, se você diz que tem um fundo autoficcional nesse trabalho, essa sensação ela deve ter sentido.

AFS:
Só vou acrescentar uma coisa, Paulo, que eu acho que é interessante saber da Pilar. Quando a gente fala que ela é uma autora com todos esses elementos presentes em livros de autoras mulheres, ela é uma autora que estuda outras mulheres. Essa personagem a Rosa nasce nas décadas de 1940 e o livro se passa entre 1960 e 1970, e para construir essa personagem, a Pilar foi justamente beber na fonte dessa coleção que ela edita, que se chama “Biblioteca de Escritoras Colombianas”, um projeto que ela faz a direção feito em parceria com a Biblioteca Nacional da Colômbia e o Ministério da Cultura de lá.

Numa primeira fase dessa coleção ela editou dezoito títulos de autoras que nasceram do período colonial até a primeira metade do século 20 e que os livros não tiveram divulgação ou estavam esgotados. Tem romances, contos, tem crônicas, mas o bacana é que ela não parou por aí. Agora, no final de 2025, essa coleção entrou na segunda fase com mais uma leva de escritora em dez antologias. No total já são mais de vinte livros que ela lançou nessa coletânea de autoras, é um trabalho muito interessante de resgate de autoras colombianas.

Eu, por exemplo, fazendo a pesquisa para escrever a reportagem, descobri várias autoras graças a esse trabalho que a Pilar faz de recuperar autoras colombianas que, enfim, assim como no Brasil, passaram batido pelo grande público.

PW:
A Colômbia é uma potência literária, tem prêmio Nobel, mas as mulheres a gente conhecia muito pouco. Acho que a Pilar talvez seja a autora colombiana mais conhecida no Brasil, então ela tem esse papel. Como a Colômbia é um país muito forte editorialmente, há uma estrutura bem robusta. É um exemplo que poderia ser replicado no Brasil.

Nesse nível você entra, Elisa? Como é a sua imersão no universo do escritor, da escritora que você está traduzindo? Às vezes a gente fica obcecado por saber tudo, não necessariamente por causa da tradução, mas porque a gente acaba gerando um fascínio sobre aquela pessoa.

EM:
Eu sou bem do tipo fascinada, fico imersiva. São duas coisas, tem a ver com fascínio, eu realmente sou apaixonada pelos livros, eu traduzi sobretudo mulheres, traduzi pouquíssimos homens, e eu sou apaixonada, dou de presente os livros que eu traduzo, acho realmente que são excelentes. Tem um misto de ficar muito fascinada por esses autores e tem também a minha formação, como eu estava falando, assim como a gente faz a apuração pra fazer uma reportagem ou entrevista, eu sempre me preparo pra uma tradução mergulhando naquele universo.

Eu tenho que saber do que se trata aquele livro, ler reportagens, eu tô lendo um livro que já foi publicado então, salvo raríssimas exceções, a gente tem uma fortuna crítica, reportagens que já saíram sobre o livro, então eu sempre vou ler, ouvir podcasts, como a Adriana disse, é muito bom ouvir a autora falando sobre o próprio livro. E o fato de ficar muito imersa eu, por exemplo, não consigo traduzir mais de um livro ao mesmo tempo, pra mim seria impossível, porque justamente eu fico muito mergulhada, minha cabeça fica o tempo inteiro rodando em paralelo, enquanto eu estou fazendo outras coisas, aquela história.

Tem essas coisas que parecem meio folclóricas, mas que acontecem mesmo, de acordar com uma palavra na cabeça, de estar tomando banho e ver a palavra, estar vendo um filme e na legenda encontrar a solução. Enfim, eu adoro, porque sempre me interessa muito aquele universo. Mas isso também volta para mim, porque, por exemplo, já teve palavras ou questões que eu descobri justamente por eu pesquisar tanto sobre aquele livro, teve um livro que eu traduzi que já na dedicatória surgiu uma dúvida. Então, foi um grande debate entre mim, a editora e a preparadora, para entender o que poderia ser aquilo. No final, a editora falou: “vou checar com a autora.” Eu já tinha entregue a minha tradução e eu fui ouvir um podcast da autora falando, era uma conversa dela no Instituto Cervantes da Alemanha e o mediador, a primeira fala dele era: “você dedica o seu livro à sua avó.” Então, foi assim que eu descobri.

É um misto de… É uma forma de me preparar para o trabalho, mas também por estar muito fascinada com aquele universo. E eu trago os autores que são muito fascinantes, como a Mariana Enríquez, que coloca muitas músicas, por exemplo, nos livros, cita muito a literatura, então eu acabo abrindo muitas abas pra ouvir tudo e ver os filmes.

PW:
Mariana Enríquez também traz uma literatura latino-americana mais dark, mais negra nesse sentido do título. Eu queria até te perguntar sobre esse título, se teve discussão. É Noche negra?

EM:
Por que é Noite negra? A gente tem esses quatro dias em que a história transcorre e que o momento ápice vai ser quando vier essa lua nova, quando a noite fica totalmente escura. Então ela vai progressivamente enfrentando tons diferentes, né? E esse caseiro, esse senhor mais velho, fala pra ela: “você não vai ver a sua mão na sua frente quando chegar a lua nova, você não está preparada para isso”. Então, não teve discussão nesse sentido, acho que era bem claro que deveria ser assim. Há situações em que a palavra é estanque, não é sempre aquela palavra, mas nesse caso nesse caso era.

PW:
Bom gente, estamos nos aproximando do final. Dri, e A Feira do Livro, como é que vai ser pra você?

AFS:
Olha, eu acabei de publicar um texto na Revista Liberta onde eu sou colunista destacando as mulheres d’A Feira do Livro, tem vários homens que eu quero ver, não vou me desfazer deles, vocês fizeram uma curadoria de bons homens. Mas eu acho que tem coisas imperdíveis, além da Pilar tem a Natália Timerman lançando o livro novo, que, aliás, eu quero já deixar a dica, a Natália faz um trabalho de linguagem nesse livro impressionante, fiquei bastante tocada com a escrita dela desse livro.

A gente vai ter a minha mesa, por favor, estejam convidados, é no dia cinco de junho às 14h30, com uma autora francesa muitíssimo interessante, a Estelle-Sarah Bulle, e com a Bianca Santana, num livro que eu achei incrível, o Onde o vento faz a curva — esse título ficou muito bom, né? E é uma história que trata da colonização em Guadalupe, tem esse trânsito entre a França e Guadalupe, que é também a origem da autora.

Carla Madeira é imperdível, Giovana Madalosso que também fez um dos melhores livros do ano passado. Tem a Maria Brant, a gente vai ter a oportunidade de ver ela falando do romance recém-lançado. Eu destaquei justamente isso, tem muita autora com livro novo participando d’A Feira, a Pilar, a Sarah.

PW:
A Timerman, a Mariana Salomão Carrara.

AFS:
Mariana Salomão Carrara, exatamente. Multipremiada! Não tem mais nem graça, ela lança livro e ganha prêmio, lança livro e ganha prêmio.

EM:
Posso fazer uma indicação também? Puxando aqui uma sardinha pro meu lado. A curadoria d’A Feira anda muito com a minha curadoria, quase todo ano está vindo uma autora que eu traduzi. Além da Pilar, vem a Daniela Catrileo, que é uma autora chilena, com um livro chamado Chilco, que é uma joia, você falou sobre dimensões do Noite negra,e nesse livro ela está falando de tantas questões, é tão interessante, um híbrido de arquivo, romance, ensaio, memória, em que ela vai falar de povos originários, de ancestralidade, de gentrificação, é lindíssimo. Deu um monte de trabalho, cheio de termos mapuches, e é um livro muito interessante, muito diferente. Daniela também nunca teve no Brasil, eu vou à Feira e estou muito ansiosa para vê-la também.

PW:
Uma alegria receber a Daniela Catrileo com esse livro publicado pela editora DBA, uma editora que se caracteriza não só pela excelente curadoria de autores, mas também de tradução. É uma editora que publica essencialmente tradução literária, a proposta do projeto editorial tem muito a ver com tradução literária. A Daniela Catrileo também é latino-americana, está lá do outro lado dos Andes, e a gente precisa conhecer melhor.

A tradução literária proporciona isso, Elisa, a transposição dos Andes, poder conversar com as autoras que estão lá do outro lado, que talvez não foram publicadas ainda em Nova Iorque, não passaram pelo circuito internacional antes de voltar para a América do Sul. A tradução tem esse poder de circular a obra das autoras.

Esperamos todos os ouvintes do 451 MHz aqui no Pacaembu. A Adriana vai estar lá, pelo visto o tempo todo, vai ser fácil te encontrar. O barato d’A Feira é passar o dia lá vendo debates ou conversando com os amigos, o tempo passa muito rápido.

AFS:
É a grande chance da gente tietar os autores que a gente tanto gosta. Esse é o bacana, ficar circulando pela feira.

PW:
Beleza, gente. Muito obrigado. Viva Pilar Quintana! Parabéns, Elisa, pela tradução. E nos vemos lá no Pacaembu.

EM:
Um abraço pra você. Obrigada pelo convite. Obrigada, Adriana. Foi um prazer conversar com vocês.

AFS:
Prazer imenso, Paulo, Elisa, obrigada pelo convite.

PW:
E antes de me despedir, eu queria passar para o quadro do451 MHz, que traz o melhor da literatura LGBTQIA + de todos os tempos. LGBTQIA + significa lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais e assexuais. Nesse quadro, a gente convida autores e grandes leitores em geral para indicar os livros que foram marcantes, as leituras recentes e outras dicas literárias LGBTQIA + imperdíveis para todos os leitores.

A dica de hoje é do escritor Julián Fuks, que esteve aqui no nosso podcast em março, no episódio #188, falando sobre os cinquenta anos do golpe militar na Argentina. Ele é autor de vários livros, entre eles o romance A ocupação, de 2019, e a coletânea de crônicas Lembremos do futuro, de 2022, ambos publicados pela Companhia das Letras. Aqui para o 451 MHz, o Julián indicou Nossa vingança é o amor, antologia poética 1971-2024, da escritora uruguaia Cristina Peri Rossi. O livro saiu pela Editora 34 em 2025, com tradução do Cide Piquet e da Ayelén Medail, que esteve no 451 MHz justamente para falar da Cristina Peri Rossi junto com a Bruna Beber.

Julián Fuks:
Olá, eu sou o Julián Fuks. Queria indicar o livro Nossa vingança é o amor da Cristina Peri Rossi, essa autora uruguaia que permaneceu um bom tempo esquecida até mesmo pelos uruguaios e que recentemente foi retomada com muita força. Foi publicada no Brasil nessa antologia que reúne dezoito volumes de poesia dela, publicados ao longo de cinco décadas, numa seleção feita pela Ayelén Medail e o Cide Piquet, publicada pela Editora 34, e que traz muita força numa poesia, ao mesmo tempo, coloquial e rigorosa, toda carregada de desejo, de beleza, a declaração de desejo entre mulheres feita de forma muito explícita e muito contundente. “As mulheres vêm de longe para consolar os poetas pela decepção das palavras”. Esses são alguns dos versos dela que eu acho que dizem muito para a potência que podem adquirir no nosso tempo.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura –  Lei Rouanet
Para falar com a equipe: [email protected]