Repertório 451 MHz,
Pilar Quintana e os medos femininos
Adriana Ferreira Silva e Elisa Menezes conversam sobre o universo literário da escritora colombiana, que lança o romance Noite negra e participa d’A Feira do Livro
29maio2026Está no ar o 198º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição traz uma conversa com a jornalista Adriana Ferreira Silva e a tradutora Elisa Menezes sobre o universo literário da autora colombiana Pilar Quintana, convidada d’A Feira do Livro 2026. Elas falam especialmente sobre Noite negra (Companhia das Letras), romance que acaba de sair no Brasil em tradução de Menezes e retrata os temores provocados nas mulheres pela solidão e por homens não confiáveis.
A conversa também aborda outros temas do livro, como a miscigenação e a questão racial, semelhante à brasileira, além dos desafios de tradução. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet.
Também escritora e curadora, Adriana Ferreira Silva é colaboradora assídua da Quatro Cinco Um, além de colunista do Nexo Jornal e comentarista do ICL Notícias. Já Elisa Menezes, que também tem formação de jornalista, é conhecida por suas traduções do espanhol, entre elas Os abismos (2022), romance anterior de Pilar Quintana, e Nossa parte da noite (2021), romance da argentina Mariana Enriquez, ambos publicados pela editora Intrínseca.
Isolamento
Autora da resenha de Noite negra publicada na edição de maio da Quatro Cinco Um, Adriana Ferreira Silva destaca que o novo livro da colombiana compartilha muito do universo ficcional de A cachorra (Intrínseca, 2020), romance que projetou Quintana, e de Os abismos, inclusive com personagens em comum. Para a jornalista, a atmosfera de Noite negra remete à do filme argentino O pântano (La ciénaga, 2001), de Lucrecia Martel, que acompanha uma família isolada numa casa do interior. “Eu me lembrei muito de O pântano porque você fica o filme inteiro esperando o que vai acontecer. E é o mesmo clima do livro”, afirma. Menezes concorda e diz que o romance se aproxima do filme por construir uma espécie de “tédio assustador”.
Grande parte dessa sensação vem do isolamento da protagonista Rosa, que se vê sozinha num casebre no meio de uma floresta após o companheiro partir em viagem. Ela então se sente ameaçada por animais selvagens e, sobretudo, por homens que vivem num povoado próximo e passam a adotar um comportamento intimidador, inclusive com “brincadeiras” de cunho sexual. A jornalista define a situação como “absolutamente aterrorizante”.
Miscigenação
Além da identificação com situações vividas pela protagonista do romance, Elisa Menezes destaca as semelhanças entre as sociedades de Colômbia e Brasil. Ela chama atenção para as questões raciais na narrativa e para a forma como a autora constrói a identidade de Rosa — uma mulher miscigenada, como muitas brasileiras — sem utilizar discursos raciais explícitos.
Mais Lidas
Outra conexão é a dimensão política do romance. Silva explica que a protagonista passa pela universidade em um período de projeção de movimentos estudantis socialistas, que mais tarde dariam origem às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
“Tem um indício ali [no romance] dos militares ocupando os lugares, uma repressão militar, que é muito semelhante com o que aconteceu aqui no Brasil”, afirma.
No caso colombiano, em vez de uma ditadura militar, o país submergiu num violento conflito armado depois do aumento, nos anos 80, de grupos paramilitares de direita encorajados por setores das Forças Armadas, políticos e empresários. Um acordo de paz só foi assinado em 2016.
Traduzir Quintana
Sobre a tradução de Noite negra, Elisa Menezes conta que buscou captar com precisão as palavras da autora, pois uma característica marcante da colombiana é a concisão. A tradutora diz que foi desafiador verter para o português as falas do companheiro da protagonista Rosa, o irlandês Gene.
“Se eu traduzisse literalmente, ele não ia parecer um estrangeiro de língua inglesa tentando falar português. Ele ia parecer talvez um caipira ou uma pessoa com baixa instrução”, conta.
A busca pela “palavra justa”, expressão do escritor francês Gustave Flaubert também traduzida como “palavra precisa”, deve sempre guiar o trabalho de tradução, lembra Menezes. “Ninguém lê um texto tão bem quanto quem o traduz. E não é porque a gente lê cinquenta vezes aquele texto; é porque você lê desconfiando e investigando cada vírgula. É nesse nível de detalhe que a gente opera.”
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- A cachorra (trad. Livia Deorsola, Intrínseca, 2020), de Pilar Quintana
- Os abismos (trad. Elisa Menezes, Intrínseca, 2022), de Pilar Quintana
- Noite negra (trad. Elisa Menezes, Companhia das Letras, 2026), de Pilar Quintana
- Recordações da minha inexistência: memórias (trad. Isa Mara Lando, Companhia das Letras, 2021), de Rebecca Solnit
- Antes que apague (Companhia das Letras, 2026), de Natalia Timerman
- Onde o vento faz a curva (trad. Letícia Mei, Editora 34, 2026), de Estelle-Sarah Bulle
- Chilco (trad. Elisa Menezes, DBA, 2025), de Daniela Catrileo
- O pântano (2001), filme de Lucrecia Martel
Mais na Quatro Cinco Um
Na época do lançamento de Os abismos no Brasil, Pilar Quintana disse à jornalista Marcella Franco, em entrevista para a revista dos livros, que se considera “uma escritora de poucas palavras”, devido ao gosto pela criação de histórias que podem ser lidas em um dia. Leia na íntegra.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio também traz uma dica literária do escritor e crítico literário Julián Fuks. Ele sugere Nossa vingança é o amor: antologia poética (1971-2024), da escritora uruguaia Cristina Peri Rossi, publicado em 2025 pela Editora 34.
“Essa antologia reúne dezoito volumes de poesia dela, publicados ao longo de cinco décadas; publicada pela Editora 34, traz muita força numa poesia, ao mesmo tempo, coloquial e rigorosa, toda carregada de desejo, de beleza — a declaração de desejo entre mulheres feita de forma muito explícita e muito contundente”, diz.
Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet
Para falar com a equipe: [email protected]
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