Literatura,

A menina é mãe da mulher

A colombiana Pilar Quintana, que lança novo romance no Brasil, fala dos aprisionamentos por que passam as mulheres desde cedo

26ago2022 - 16h46 | Edição #61

A priori, toda criança teme perder os pais em algum momento. É como um treinamento para o cérebro humano, com a função evolutiva de nos proteger de riscos e ameaças no futuro. No caso da escritora colombiana Pilar Quintana, aliado ao temor clássico da infância havia também um fato concreto que a assombrava: a casa da família ficava em meio às montanhas de Cáli, aonde só se chegava por estradas cheias de curvas e neblina. “Eu tinha muito medo de que meus pais morressem ali naquele escuro. Era irracional, mas, ao mesmo tempo, tinha fundamento”, diz Pilar em entrevista a esta reportagem, via chamada de vídeo, para falar sobre o lançamento no Brasil de seu romance Os abismos.

Convém pedir perdão ao leitor pela indelicadeza de antecipar uma cena que só se dá na terceira (e última) parte do livro — é que resulta dela, diz Pilar, toda a construção da história, passada na Colômbia dos anos 90. “Cresci ouvindo que uma amiga de infância da minha mãe sumiu naquelas estradas e sentia medo de que isso também acontecesse com ela. Foi nos anos 60, e os filhos cresceram sem saber o que aconteceu com a mãe. Ouvia as pessoas dizerem que ela havia fugido com um amante, que tinha outra família”, lembra.

A explicação para o desaparecimento na vida real é replicada, ipsis litteris, na ficção — houve inclusive quem, na crítica especializada, a considerasse “forçada”, sonhando com um desfecho mais aberto e menos explicativo. Essa, no entanto, nunca foi uma opção para Pilar, que entende seu romance também como forma de olhar para seus medos infantis. “Agora, adulta, posso ver que eu sobrevivi, que meus pais sobreviveram e que estamos todos bem”, avalia.

A insatisfação alheia diante de um elemento verdadeiro demonstra o poder da autoficção de Pilar Quintana — (quase) tudo nas páginas de Os abismos faz parte da biografia da autora e chega ao leitor com tintas romanceadas. É um bálsamo para escritores amadores — qual deles nunca se viu paralisado diante da folha em branco, pensando não ser capaz de inventar boas histórias? Pelo método Pilar Quintana, todos têm à sua disposição as próprias histórias, e delas se podem fazer livros.

Levou quatro anos para que Os abismos ficasse pronto. Depois das 160 páginas de A cachorra (Intrínseca), considerado pela crítica um livro curto, entregou um romance com 272 páginas. “Saiu maior do que eu esperava. Sou uma escritora de poucas palavras, gosto de histórias que dá para ler em um dia, mas não consegui controlar.” Os abismos, diz a escritora aos cinquenta anos, é uma forma de entender e se reconciliar com a geração de sua mãe, hoje com 72 anos. “Foi também para dizer a mim mesma, como mãe, que não serei perfeita, não importa quanto eu tente. E tudo bem.”

Maternidade frustrante

No enredo, a menina Claudia, de oito anos, mora com a família em um apartamento em Cáli. O pai, uma figura silenciosa e focada no trabalho, parece apenas orbitar a ordem da casa. A mãe, também chamada Claudia, gasta suas horas com revistas de celebridades e enfrenta uma depressão que a faz questionar suas escolhas, do casamento com um homem muito mais velho à maternidade.

É outro contraponto ao romance anterior de Pilar, que retrata uma mulher cujo maior desejo, inviável por questões biológicas, é ser mãe. “Sempre quis ter meu filho, mas é tão difícil ser mãe! Quando ele nasceu, comecei a entender as mulheres frustradas com a maternidade. Eu tinha uma posição confortável na vida, mas mesmo assim achei exaustivo. Então, queria falar desse outro lado”, diz. “Não esperamos que os homens se sacrifiquem para se tornar pais, mas esperamos isso das mulheres. Isso não produz boas mães, produz mulheres frustradas. Nos dizem que, quando virarmos mães, não poderemos mais ter desejos e devemos dar tudo pelos nossos filhos. Isso não é realista nem justo.”

Pelo método Pilar Quintana, todos têm à sua disposição as próprias histórias, e delas se pode fazer livros

Assim como a Claudia de Os abismos, a mãe de Pilar também não cursou faculdade. Embora houvesse o que a escritora chama de “autorização” para que estudasse e tivesse uma profissão, tais práticas não eram “bem-vistas pela sociedade”, que condenava mulheres ambiciosas. “O dever dela eram o lar, o marido e os filhos. Muitas se tornaram mães simplesmente porque era o que uma mulher tinha que fazer naqueles tempos. Não acho que, como eu, elas tiveram a chance de se perguntar se realmente queriam aquilo. Muitas viveram presas em gaiolas.”

Outra forma de aprisionamento de que fala no romance é a pressão pela beleza feminina. A questão aparece na obsessão da mãe com figuras femininas sabidamente oprimidas, como Diana Spencer e a cantora Karen Carpenter, e na frustração com a aparência da filha. “Venho de um país em que concursos de beleza eram muito importantes nos anos 80. As beauty queens eram as mulheres mais importantes da Colômbia. Lá você precisa ser bonita para ser valorizada; é como um dever. Quando cresci, entendi que havia uma distância entre a imagem que você tem que ter e a realidade e queria falar sobre isso.”

Os abismos é conduzido pela voz da menina que cresceu — não que tenha sido escrito pela criança, mas sim pela adulta que rememora. Há passagens delicadas que deixam transparecer a ternura com que Pilar se veste para o exercício, como quando Claudia conta de uma visita ao zoológico ou da noite em que dormiu na casa da tia e escovou os dentes com os dedos porque esquecera a escova. Além de demonstrar indiscutível domínio técnico, essa voz é mais um testemunho de que Pilar é um dos maiores nomes da autoficção contemporânea.

A escritora lembra o dia em que, no consultório do analista, foi encorajada a contar sobre um evento traumático da infância. “Comecei e ele me corrigiu, dizendo que eu estava refletindo e contando como adulta. Ele queria que eu o fizesse como a criança que viveu aquilo. Isso me ajudou a construir o personagem. Não é o que ela pensa hoje, mas o que viveu na época.”

Quem escreveu esse texto

Marcella Franco

É jornalista e escritora.

Matéria publicada na edição impressa #61 em julho de 2022.