Literatura,

Bailando com Allende

A escritora chilena fala sobre as figuras femininas de sua vida, a luta contra o patriarcado e o que aprendeu dando entrevistas

16jul2021 - 07h39 | Edição #48

Isabel Allende é boa de ritmo. Não só no andamento dos seus mais de vinte livros publicados, mas no passo que conduz aqueles que insistem em encher de perguntas seu tempo escasso. Ela até gosta de entrevistas, garante, porque, ao dá-las, aprende mais sobre si mesma. O problema é quando o roteiro foge dos assuntos autorizados — aí, Isabel dá um baile. Nessa dança, foram dois meses do convite até o aceito definitivo.

A escritora chilena — prima do ex-presidente Salvador Allende e perseguida pelo governo Augusto Pinochet após o golpe militar no Chile que a levou a um exílio de treze anos na Venezuela — fez objeções sobre certos temas e explicou que não responde ao que não tenha relação com sua carreira. A sorte é que são raras as suas tramas que não tratam, explícita ou veladamente, do que é existir como mulher em um mundo comandado por homens. Assim, falar da carreira de Isabel Allende é falar do feminismo na prática.

Em dezembro de 2020, ela lançou Mulheres de minha alma, em que relembra figuras femininas importantes para sua formação. Entre elas, sua  mãe, Francisca, e sua filha, Paula, que morreu aos 28 anos em decorrência da porfiria, doença rara que afeta a síntese de parte da hemoglobina sanguínea –— Paula, uma homenagem à jovem, foi publicado pouco mais de uma década depois de seu grande sucesso A casa dos espíritos (1982).

Isabel Allende falou à Quatro Cinco Um por e-mail, de sua casa na Califórnia, quando o Brasil já enfrentava o novo coronavírus, mas ainda estava distante dos mais de 500 mil mortos registrados no meio de junho.

Você faz um paralelo entre a vida de sua mãe e o feminismo, comentando que ela foi “uma esposa dominada e frequentemente furiosa”. Essa raiva acumulada por causa da dominação masculina pode ser benéfica para a luta feminista?
Todas as revoluções começam com a raiva de algo que é brutalmente injusto. A raiva é o combustível da revolução feminista. Ela precisa ser usada bem para se transformar em ação, em vez de se virar contra si mesma. Viver constantemente com raiva pode deixar alguém deprimido ou amargo.

Quando as mulheres trabalham juntas, podem alcançar coisas extraordinárias. O feminismo não é uma guerra contra os homens, é uma guerra contra o patriarcado, um sistema que confere supremacia absoluta aos homens sobre as mulheres, sobre outras espécies, sobre a natureza e sobre qualquer outro homem que não seja parte da estrutura de poder. É o caso, por exemplo, da colonização. E isso tudo tem que acabar.

Você conviveu com o seu pai até os seus três anos, quando ele foi embora de casa, abandonando filhos e casamento. Você recriou esse pai em A casa dos espíritos. Como essa ausência paterna a afetou como mulher e influenciou sua escrita?
Meu avô e, mais tarde, meu padrasto substituíram meu pai, então eu nunca senti falta conscientemente do meu pai biológico. Na verdade, nunca tive curiosidade suficiente para procurá-lo. De todo modo, suponho que o abandono sempre deixe cicatrizes. Na minha escrita, os pais são ou totalmente ausentes, ou emocionalmente distantes, como o patriarca de A casa dos espíritos. Mas com frequência algum outro homem toma o lugar desse pai.

Todas as revoluções começam com a raiva de algo que é brutalmente injusto. A raiva é o combustível da revolução feminista

Mulheres ainda se culpam por abrir mão de parte da educação dos filhos para poder se dedicar à carreira. Como foi para você, como mãe, quando precisava focar em um novo livro?
Comecei a escrever com quase quarenta anos, em um momento em que meus filhos já não precisavam de mim. Quando eles eram pequenos eu tinha outros empregos, às vezes até três ao mesmo tempo. E eu não poderia ter feito isso tudo sem a ajuda de outras mulheres: minha sogra, uma avó adotada, as babás que trabalharam na minha casa etc.

Existe muita retórica sobre a importância das famílias, mas não existe muita ajuda. Em alguns países, quando um bebê nasce, é paga a licença tanto para a mãe quanto para o pai. Há creches gratuitas, suporte financeiro do governo para cada criança etc. Essa deveria ser a regra, não a exceção.

Como uma feminista declarada, na sua visão, qual seria uma política justa e universal em relação ao aborto?
Acredito que os direitos reprodutivos são um direito humano. Qualquer mulher ou menina em idade reprodutiva deveria ter a opção de manter até o fim ou de interromper uma gestação nas primeiras semanas. O aborto é uma medida extrema, porém não é uma medida complicada. Abortos deveriam ser realizados em segurança, cobertos pelo sistema de saúde. Se a educação sexual e a contracepção estivessem disponíveis para todos desde a puberdade, os abortos seriam raros.

Alguns advogados de direitos humanos acreditam que, em vez de legalizar o aborto, ele deveria ser descriminalizado. Em primeira instância, a lei está nas mãos dos políticos, dos religiosos e das forças de segurança, o controle não está com as mulheres. Em segunda instância, isso significa que não é assunto sujeito a punição. 

Quando sua agente sugeriu que escrevesse enquanto sua filha estava hospitalizada, você a princípio recusou. O que a levou a mudar de ideia e então escrever Paula, um dos seus livros mais importantes?
Minhas dúvidas não eram sobre escrever o livro. Eu precisava escrever para entender a tragédia que havia acontecido e aceitá-la. Minha dúvida era sobre publicar, porque era algo muito pessoal e doloroso. Mas, quando o marido da Paula e outros familiares leram o original, disseram que a Paula ia querer aquilo publicado porque poderia ajudar outras pessoas que estivessem sofrendo.

Você começou a escrever ficção depois de largar o jornalismo — em uma entrevista à Playboy brasileira, você disse que era “péssima” como repórter. Em que ponto da sua carreira você se reconheceu talentosa?
Nunca achei que ser escritora era uma profissão, e ainda não acho. Para mim é uma jornada, um passo de cada vez, sem rota e sem destino. Eu só continuo escrevendo. Não conto com o talento; trabalho duro, sou disciplinada e tenho quarenta anos de experiência. Não sofro da síndrome da impostora. Todos nós improvisamos nesta vida.

Você sempre começa a escrever seus livros na mesma data. Já pode adiantar o que nasceu em 2021?
Comecei todos os meus 25 livros em dias 8 de janeiro. Ano passado, em dezembro, terminei um romance chamado Violeta, que será publicado em fevereiro de 2022. Então, em 8 de janeiro eu estava livre para começar outro livro, e foi o que fiz. Mas nunca falo de trabalhos em andamento.

Em entrevistas, você relata um episódio em que perguntou algo ao seu tio Salvador e ele respondeu “No me preguntes huevadas, niña” (Não me faça perguntas estúpidas, menina). Você ainda gosta de dar entrevistas? Qual foi a pergunta mais huevada que já ouviu?
Ainda gosto de dar entrevistas. Elas me forçam a ser clara sobre quem sou, sobre minhas crenças, minhas esperanças, meu trabalho, minha luta. Respondendo, aprendo sobre mim mesma. E não há perguntas estúpidas, só respostas estúpidas.

Quem escreveu esse texto

Marcella Franco

É jornalista e escritora.

Matéria publicada na edição impressa #48 em junho de 2021.