Literatura,

Uma ficção fora do lugar

Condição latino-americana de instabilidade ocupa ficção da escritora boliviana Giovanna Rivero

16jul2021 - 07h39 | Edição #48

O vigor da atual produção ficcional latino-americana torna ainda mais complexa a tarefa de mapear o que por décadas vem sendo tratado de modo marginal pelo mercado editorial nacional. Se serve de alento, mesmo em meio a tantos percalços, nos últimos anos o país viu surgir selos e casas editoriais atentos a essa deficiência, tornando acessíveis ao leitor brasileiro algumas dessas obras.

Nesse contexto, a ficção boliviana resiste como um desses lugares secretos. Puxando pela memória, em anos anteriores à pandemia tivemos em nossas livrarias o excelente Os afetos, de Rodrigo Hasbún, e Hotéis, de Maximiliano Barrientos, mas por aqui restam inéditos em livro autores importantes dessa geração, como Liliana Colanzi e Wilmer Urrelo.


 

Faço esse preâmbulo para poder falar de Giovanna Rivero, autora que não é nenhuma novidade no mercado hispano-americano e no eixo de circulação de obras entre o Cone Sul e o México, que com frequência encontra guarida nas universidades e no sistema de bolsas e financiamentos norte-americano. Seu primeiro volume de contos publicado no Brasil, Terra fresca da sua tumba, lançado numa coedição das editoras Jandaíra e Incompleta, é uma das melhores surpresas desta temporada 2021, ainda com ares de 2020.

‘Terra fresca da sua tumba’ pode ser lida como um mosaico do duplo estrangeiro em que se transforma aquele que migra

Nascida em 1972, Rivero é autora de diversas coletâneas de contos, quatro romances, além de obras para o público juvenil. Nas seis histórias de Terra fresca da sua tumba — imagem que remete a uma das catarses que marcam o livro — há uma coesão que se equilibra em vários polos de recorrências: situações-limite, diálogos privados, variados matizes da violência e da morte, revelações familiares. Ao mesmo tempo, essa obra protagonizada por um diverso arco de personagens femininas pode ser lida como um mosaico do duplo estrangeiro em que se transforma aquele que migra.

Sensação de atopia

Oscilando entre as dificuldades de lidar com as peculiaridades de uma nova sociedade e com o impacto das mudanças ocorridas no país de origem, suas personagens experimentam uma constante sensação de deslocamento, internalizando os efeitos psíquicos de uma existência em trânsito e mobilizadas pela necessidade de reinventar a si mesmas longe de seu local de origem.

É  a partir dessa perspectiva que acompanhamos, em “Irmão servo”, o cotidiano do casal de pós-graduandos bolivianos radicados nos Estados Unidos que ganham a vida trabalhando em supermercados, sendo babás de animais domésticos ou servindo como prospective subjects — cobaias de testes farmacêuticos. Ou então a comunidade religiosa de menonitas radicados na Bolívia, local de uma série de crimes que mobilizaram o país e que Rivero ficcionaliza pela perspectiva de uma das vítimas em “A mansidão”. Há ainda os irmãos órfãos que protagonizam “Pele de asno” e que, levados para o Canadá pela tia que ganha sua guarda, passam a conviver com indígenas de uma reserva próxima. E a senhora Keiko, de “Quando chove parece humano”, que ensina a arte do origami para presidiárias da cadeia de Santa Cruz de la Sierra enquanto revisita suas recordações da Colônia Okinawa, cidade boliviana fundada por imigrantes japoneses.

Essa transição entre culturas, ao mesmo tempo que expõe processos de formalização das nações latino-americanas, com forte presença de imigrantes  e sucessivas gerações que partem em busca da América anglo-saxã, traz à tona uma sociedade boliviana intensamente alterada pelos anos Evo Morales, adicionando uma nova camada de identidades que borra a compreensão daqueles que veem o país à distância.

Essa sensação de atopia, em que o sujeito vive sob o estigma do provisório, vagando à deriva sem lugar para aportar ou fixar raízes, amplia-se na dimensão privada das vidas familiares que ocupam as histórias de Rivero, reproduzindo-se no campo dos afetos, na vida íntima de suas personagens. É nesses momentos que o volume ganha tensão narrativa, valendo-se de silêncios, sugestões não verbalizadas e na emersão do passado como intensificadores de desfechos de alta carga dramática, muitas vezes assombrados por uma atmosfera aterrorizante.

Dando atenção a esses espaços intermediários, o trabalho de Rivero se ocupa daqueles desprovidos de um lugar que os acolha

Em “Peixe, tartaruga, urubu”, conto que abre a coletânea, a mãe da vítima de um naufrágio recebe em sua casa o sobrevivente que permanecera à deriva por meses ao lado de seu filho. Entre a gentileza de fornadas de tortillas servidas pela gentil anfitriã e o desespero comedido de uma mãe que quer saber mais detalhes sobre os últimos dias do filho morto, sutilmente um halo de desconfiança ganha corpo, transformando a aparente cordialidade numa estranha roleta-russa.

Já em “Socorro”, uma mulher retorna à casa em que sua mãe vive com uma irmã, a quem se atribuem problemas mentais. Aos poucos, o registro inicial de que Socorro, a tia, diz coisas desconexas ganha gradações que colocam em xeque antigos julgamentos familiares, desestabilizando o sentido ficcional das narrativas que sustentam a família.

Dando atenção a esses espaços intermediários, em que a existência oscila entre passados e presentes, coletivos ou pessoais, o trabalho de Rivero se ocupa daqueles desprovidos de um lugar que os acolha, seja material ou psiquicamente. Situados entre as sinuosas ilusões do ser e a clareza da autoconsciência, suas personagens instalam na narrativa uma estranheza que a torna rara, distinta, difícil de ser ancorada em rótulos ou convenções. Instaurando um lugar instável para sua ficção, Rivero acaba por formalizar no campo estético uma das recorrências mais potentes da condição latino-americana: a de constantemente pelejar com o passado sem ainda saber onde firmar o que está por vir.

Quem escreveu esse texto

José Godoy

Escritor, editor e crítico de livros da rádio CBN, é autor de coletâneas de poemas e de obras para o público infantil. Em parceria com Mariza Tavares, escreveu Os gatos detetives e o sumiço do canarinho (Globo Livros).

Matéria publicada na edição impressa #48 em junho de 2021.