Literatura,

A estética da idiotice

À luz de Dostoiévski, Nabokov e Flaubert, romance acompanha universitária inexperiente nos primórdios da internet

01jun2021 - 01h00 | Edição #46

Dois pontos distantes no espaço, uma vez ligados, ajudam a explicar a singularidade do romance de Elif Batuman: o primeiro deles é a frase inicial, “Eu não sabia o que era e-mail até entrar na faculdade”; o segundo é uma declaração da autora na seção final do livro, os Agradecimentos — ela escreve que, com as várias revisões do texto, descobriu que “o tempo o tinha transformado num romance histórico”. Iniciado em 2001 e publicado só em 2017, A idiota, finalista do Pulitzer, cobre um período de mais ou menos um ano ao redor de 28 de janeiro de 1996, data da morte do poeta Joseph Brodsky (referência rápida na história, mas que representa um ponto de ancoragem incontornável para o balanço simbólico do romance). As referências constantes às inovações tecnológicas tornam possível que um romance passado na década de 90 já possa ser considerado — especialmente pela própria autora — um “romance histórico”. 

Em paralelo a isso, o livro de Batuman utiliza dois gêneros tradicionais para contar uma história de amor frustrado. Primeiramente, fica claro que se trata de um romance de formação, um Bildungsroman nos moldes de Educação sentimental, de Flaubert, e Um retrato do artista quando jovem, de James Joyce. Em segundo lugar, A idiota se encaixa naquilo que se convencionou chamar campus novel, ou seja, um romance que se passa em uma universidade — como Desonra, de J. M. Coetzee, e A marca humana, de Philip Roth, para ficar em exemplos de livros que circularam no mercado editorial brasileiro (é preciso registrar, contudo, a obra-prima absoluta do gênero: Stoner, de John Williams).

Batuman aciona esses dois gêneros, misturando-os, para dar conta de uma progressão muito clara da protagonista e de sua voz narrativa. Não é apenas a natureza do e-mail e da internet que ela desconhece: sua jornada é a de alguém que sabe muito pouco sobre o que quer que seja, ainda que se trate de uma jovem evidentemente inteligente (ela está iniciando a graduação em Harvard). “Eu nunca tinha ouvido uma pergunta como aquela e senti uma combinação de choque e exasperação”, escreve a narradora a certa altura. E adiante: “Ivan também era amigo do filho de Rupert Murdoch, que se vestia como um vagabundo. Quem era Rupert Murdoch? Eu sabia que sabia, mas não conseguia lembrar. Um caçador de raposas famoso?”.

Desde o título fica à mostra o esforço de Batuman em retomar traços da poética de Dostoiévski, algo que já havia iniciado com seu primeiro livro, a coletânea de ensaios Os possessos. Em A idiota, a marca não só do autor, mas da literatura russa de forma mais ampla está no aparecimento por vezes vertiginoso de vários personagens secundários, algo que a própria narradora observa, em um dos momentos mais divertidos do romance (quando ela sai dos Estados Unidos para ensinar inglês em um programa de intercâmbio): “A Hungria era como ler Guerra e paz: novos personagens surgiam a cada cinco minutos, com nomes estranhos e locuções peculiares, e você tinha de prestar atenção neles por certo tempo, ainda que talvez você nunca mais fosse vê-los pelo resto do livro”. 

O que em Nabokov era crítica à vida estadunidense em Batuman se transforma em imersão e adaptação

Uma figura igualmente fundamental para Batuman é Vladimir Nabokov, outro escritor do trânsito e do múltiplo pertencimento. Na medida em que é uma narrativa sobre a linguagem e os idiomas, sobre a variabilidade de sentido das falas e das palavras, A idiota é um romance nabokoviano, especialmente porque encontra profundo prazer em explorar nuances da aquisição de vocabulário (existem trechos no romance sobre Chomsky, Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, além de outros sobre as semelhanças entre o turco e o húngaro). Mas aquilo que em Nabokov era ironia e crítica à vida estadunidense (não só em Lolita, mas também em Pnin, excelente campus novel) em Batuman se transforma em imersão e adaptação, muito por causa da própria natureza do romance de formação: Selin, a narradora, está sempre em uma posição de incerteza, de assimilação — seja como filha, aluna, amiga ou namorada em potencial (a única posição que não é contemplada e que, por sua incompletude, dá movimento ao romance).

Formação

Um dos principais trunfos do romance de Batuman é sua capacidade de fazer o leitor perceber o caos da “formação” em curso. Não se entende bem a razão de certos eventos e diálogos ou a insistência com certas pessoas — algo que parece refletir a confusão da narradora no meio dos anos 90, recém-chegada à universidade. É sutil, mas digno de nota, como Batuman consegue silenciar qualquer interferência de uma consciência posterior, que organiza as percepções juvenis a partir de um ponto de vista futuro, maduro, estruturado. 

Isso se justifica se lembrarmos que A idiota é também um romance sobre a formação de uma escritora. “Minha regra naquela época era que, quando confrontada por duas possibilidades de ação, devia-se sempre escolher a menos conservadora e mais generosa”, escreve. “Eu considerava isso uma obrigação moral para todos os que tinham qualquer tipo de privilégio, e especialmente para qualquer pessoa que desejasse escrever.” Volta e meia a referência ao ofício da escrita retorna no texto, frequentemente sob o registro da dúvida: “Pela primeira vez na vida não consegui pensar em nada que eu desejasse estudar ou fazer. Ainda alimentava a velha ideia de ser escritora, mas isso era uma questão de ser, não de fazer. Eu não sabia o que era preciso fazer”.

Ainda que a reflexão posterior da escritora (já formada e publicada) não apareça diretamente no livro, ela é evidente em sua invisibilidade: para que o romance seja possível do modo como se apresenta (sucessivo, cronológico, por vezes enfadonho e sem propósito), é preciso que haja uma escolha deliberada, uma aposta estética na eloquência do inacabamento — o caráter um pouco amorfo do romance é a encenação, na linguagem romanesca, de uma juventude que já não existe como experiência, somente como discurso. 

É preciso perguntar, no entanto, quem é essa “idiota” do título (de resto, é a pergunta que o romance coloca desde a capa). A definição do gênero é uma escolha de tradução, já que o inglês do título original, The Idiot, não apresenta desinência nominal. O idiota pode muito bem ser também Ivan, o interesse amoroso da narradora, que com sua indecisão e suas ações erráticas contribui para o aumento da angústia de Selin. 

Batuman faz uma escolha deliberada, uma aposta estética na eloquência do inacabamento

São poucos os momentos, contudo, nos quais o tema da idiotia aparece: a primeira menção é quando a narradora relembra um cachorro que teve e como ela imaginava o bicho dizendo a ela: “Tudo que você faz é me tratar de forma condescendente, você fala comigo como se eu fosse um idiota, e ainda me chama por esse nome estúpido” (repare nessa projeção em direção ao animal — também em Dostoiévski os animais estão aquém e além do humano, entre o místico, o mágico e o religioso).

Adiante na história, o período de exames se aproxima e logo depois é preciso evacuar os dormitórios. “Ninguém tinha caixas de papelão suficientes” e algumas pessoas agiam “como se fosse muito fácil conseguir caixas de graça, tanto que só um idiota pagaria por elas”. A narradora só consegue uma caixa de papelão de graça, “infestada por moscas fruteiras”. Ela decide comprar caixas, como uma idiota faria. O espectro da idiotia é internalizado por Selin páginas adiante, com a ajuda de Ivan, o rapaz por quem está apaixonada: “Parecia horrível, mas ainda era melhor do que ficar sentada ao telefone, fingindo escrever o trabalho e pensando se o Ivan iria ligar ou não, o que aparentemente era o que meu cérebro idiota estava preparando para mim”.

Já na Hungria, na parte final do romance, Selin tenta abrir um portão: um “segurança saiu da guarita e começou a gritar com a gente”. A amiga local, Rózsa, traduz os gritos: “Ele disse que você é estúpida”, Rózsa explica, e um momento depois aprimora a tradução: “‘Não estúpida’, Rózsa disse, pensativamente. ‘Idiota’”. “Aquele cara acha que eu sou idiota”, diz Selin algumas páginas adiante, com “certo orgulho”. 

Um eixo possível de significação para o romance de Batuman diz respeito à relação entre idiotia e formação: como funciona o amadurecimento da juventude em uma sociedade doente, fraturada, em permanente conflito? A inadequação de Selin não parece ter uma perspectiva de resolução, e o último parágrafo do romance cancela, ironicamente, tudo que foi apresentado nas mais de quatrocentas páginas anteriores (voltamos à estaca zero com a frase “Não tinha aprendido nada”). 

Resgate

Além de Dostoiévski, outro modelo literário é fundamental para entender o resgate que Batuman faz da idiotice como questão estética: trata-se de Gustave Flaubert, especialmente pelo viés que Jean-Paul Sartre oferece de sua obra e biografia no monumental e precisamente intitulado O idiota da família. Esse resgate é importante para dar sustentação a um projeto de formação que não leva a lugar algum — ou, pelo menos, que não leva aos lugares imaginados dentro da estrutura social convencional. Já que a narradora de Batuman deseja ser uma escritora, e pauta suas escolhas a partir desse desejo (sempre ir pelo caminho “menos conservador e mais generoso”), faz sentido que sua trajetória retome, ainda que de forma indireta, a figura do Flaubert “idiota da família” — que é tomado como tal porque faz as escolhas “erradas”, escapando da matriz conservadora de organização dos destinos.

É preciso ter em mente essas questões de fundo para apreciar A idiota naquilo a que o romance se propõe: um percurso que cancela a si próprio, ironicamente, no final, ensaiando a performance de sua própria vacuidade — já que a linguagem é ação, como quer a teoria dos atos de fala que Selin faz força para entender em determinado ponto da narrativa. O estilo de Batuman está ligado a um campo da literatura contemporânea que busca a observação e a descrição, como na poética de Rachel Cusk, por exemplo. Não se trata tanto de um esforço de invenção formal ou especulação histórico-arquivística, como em Valeria Luiselli ou Katja Petrowskaja. É difícil dizer quais os caminhos futuros da obra de Batuman, mas, sem dúvida, trata-se de um percurso que vale a pena acompanhar.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #46 em abril de 2021.