Divulgação Científica,

O dinheiro recomenda o cardápio

Autora repete fórmula, mas mantém olhar crítico sobre as pesquisas bancadas pela indústria alimentícia

01nov2019

Será que as indústrias de alimentos, bebidas e suplementos deveriam financiar pesquisas de saúde pública? A prática, afinal, é bastante comum historicamente. Mas será que aceitar o dinheiro de algumas empresas — enormes, em sua maioria — não comprometeria a integridade dos pesquisadores envolvidos? Essas são as perguntas que motivaram Marion Nestle a escrever seu livro mais recente, Uma verdade indigesta, publicado em 2018 nos Estados Unidos. 

A americana, nascida em 1936, tem pós-doutorado em nutrição e saúde pública. É professora emérita aposentada da Universidade de Nova York e ainda dá aulas como professora visitante na Universidade Cornell. Ao longo de sua carreira, estudou os determinantes socioeconômicos das escolhas alimentares, assim como a obesidade, a segurança de alimentos e, especialmente, o papel do marketing na saúde pública. Por ironia, seu sobrenome faz com que precise frequentemente negar qualquer ligação com a gigante suíça do setor alimentício.

Food Politics (2002, inédito no Brasil) é o mais famoso dos livros que escreveu. É também o endereço do site em que publica com regularidade textos sobre seus temas de pesquisa. Nos últimos anos, tem se dedicado especialmente à tarefa ingrata — como ela própria classifica — de apontar os conflitos de interesse entre a ciência e a indústria de alimentos (que recebeu da mídia o epíteto de Big Food).
É sabido, por exemplo, que muitos pesquisadores formatam seus estudos segundo interesses comerciais, o que acaba por produzir, quase invariavelmente, resultados favoráveis aos financiadores. Também é notório que entidades profissionais, como a Academia Americana de Nutrição e Dietética, recebem vultosas contribuições anuais dessas grandes empresas ou conglomerados. Poucos escapam do comentário atento de Nestle. 

À primeira vista, Uma verdade indigesta promete repetir o impacto de seus trabalhos passados. Mas o livro desaponta. Além de reciclar parte do que escreveu anteriormente, Nestle reconstitui de maneira excessivamente minuciosa episódios reais envolvendo cientistas, organizações de fachada, lobistas e empresas. Mesmo os que já estão familiarizados com o assunto têm dificuldade em atravessar as quase quatrocentas páginas. Dada a profusão de personagens e entidades americanas completamente desconhecidas do público brasileiro leigo, o fardo passa a ser ainda maior.

Ceticismo saudável

Nestle teria respondido melhor à sua pergunta fundamental — como nós, cidadãs e cidadãos, devemos lidar com questões como essas, exaustivamente descritas no livro? — se fosse mais concisa e menos anedótica. Sua longa e notável experiência como educadora em saúde pública parece não ter prevalecido nesse caso.

Cada vez mais, há quem desconfie das ciências, quando não as rejeita frontalmente. Acreditam ser possível equivaler fatos e crenças — com o mesmo desassombro de especialistas com décadas de experiência. Para que a divulgação científica cumpra sua missão de desenvolver o pensamento crítico e um ceticismo saudável, é preciso que seja a mais clara e direta possível e muito, muito persistente.

 Supostas soluções revolucionárias devem ser vistas com muita cautela — é o caso das ‘superfoods’

Nesse sentido, a autora defende que, antes de mais nada, é importante saber quem financiou as pesquisas que pretendemos usar como fonte de informação sobre comida e saúde. A maioria dos periódicos exige que os autores declarem possíveis conflitos de interesse. Pelo levantamento de Nestle a partir de dados americanos, a existência de um viés favorável aos patrocinadores dos estudos parece ser a regra, com poucas exceções. Para os “resultados” noticiados na imprensa, ela pede atenção ao tom das matérias. Caso soem como um release, devemos desconfiar. E a desconfiança deve ser ainda maior se o jornalista cultivar o hábito de não citar o título do artigo científico no qual se baseou ou deixar de informar o link para a publicação original.

Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias, diria o astrônomo Carl Sagan (1934-96). Supostas soluções definitivas, inéditas e revolucionárias devem ser vistas com muita cautela. Essa precaução serve para tendências como a das chamadas superfoods — açaí, abacate, goji berry, cúrcuma e batata-doce são algumas. Para começar, não há alimento isolado capaz de produzir efeitos mágicos. Esses modismos miraculosos são o que Nestle chama de “nutrifluff”, ou “perfumaria” nutricional: se a descoberta não leva em conta fatores como o conjunto da dieta e os hábitos de vida, é certamente peça de propaganda mal disfarçada. Comemos comida, não nutrientes.

O caso do chocolate é ilustrativo: pesquisas patrocinadas pela fabricante de doces Mars recomendam que se consuma uma quantidade de flavonoides presentes no cacau para manter a saúde vascular. Para atingir a meta de ingestão, porém, seria preciso comer 750 calorias por dia em forma de chocolate amargo. Se for ao leite, isso significa mais de um quilo de sobremesa. O aporte adicional de calorias, gorduras e açúcares comprometeria, no fim das contas, os benefícios alegados. 

O público está ávido por soluções imediatas e milagrosas e a indústria está sempre de prontidão para oferecê-las. A aliança espúria entre a ciência da nutrição e as empresas que dela se valem para conferir saudabilidade aos seus produtos aumenta a cacofonia de informações sem fundamento. Como ciência, temos sido pródigos em alimentar a confusão entre correlação e causa. Temos dificultado, e não auxiliado o público a reconhecer alegações falaciosas ou fraudulentas. Falta aos especialistas em nutrição produzir e adotar um conjunto de orientações equivalente ao “Baloney Detection Kit (“ferramenta para detecção de baboseiras”), que Sagan consagrou. Em seu último capítulo, Uma verdade indigesta só começa a abrir esse caminho.

Este texto foi realizado com o apoio do Instituto Serrapilheira

Quem escreveu esse texto

Camila Lafetá Sesana

É nutricionista comportamental.