50 anos da Revolução dos Cravos, Crítica Literária,

Esse corpo indecente gera a revolução

‘Novas cartas portuguesas’, a coletânea censurada no regime salazarista que se tornou manifesto feminista internacional, ganha edição brasileira

01abr2024
Maria Horta, Maria Barreno e Maria Velho em Coimbra, Portugal, em 1974 [Centro de documentação 25 de Abril/Divulgação]

Estou na cozinha. Penso nas Novas cartas portuguesas. É o corpo, sempre o corpo. Eu, ainda com meus movimentos coordenados, corto uma cebola. As três Marias, por tradição, subestimadas e, depois, perseguidas. “Comigo me desavim/ Minha senhora/ de mim.” Corto, decididamente, uma cebola ao meio. Depois, faço-lhe pequenos desenhos com pequenas talhas. Mariana, Maria, Maina, e corto, acidentalmente, a carne do meu dedo. A cebola escapou. Rolou sua cabeça pelo chão. O sangue do dedo é o sangue do meu corpo e não estanca. Mas isso não é novidade. É sempre o corpo pretexto e revolução. 

“The Rape of Lucrece” é traduzido no português como “O rapto de Lucrécia”. O incômodo com a tradução, se houver, é justificável — ainda que estupro e sequestro sejam ambos crimes, um estupro é de uma violência inominável e íntima. Ainda assim, é preciso contextualizar para não cair na tentação da conclusão rápida. Algumas palavras não existiam em séculos passados. Se pensarmos que as palavras servem para batizar objetos, sentimentos, ações, não é difícil entender que, por volta do século 16, a palavra “mãe”, por exemplo, significava “útero”, e a violação do corpo de uma mulher era não só normal e aceitável, como estimulado e motivo de piada. “Estupro”, se existisse, teria sido palavra inútil.

No poema de Shakespeare, escrito também no século 16, Lucrécia diz não às tentativas e aos avanços sexuais do amigo do marido. Ela diz não, e ainda assim, como se o não fosse palavra hesitante, ele insiste a ponto de violentá-la. E qual seria a razão dessa violência? Uma hipótese seria a normalização tanto da violência contra a mulher quanto da ideia de fragilidade feminina. Mas Lucrécia era linda, dormia nua e com a janela aberta. Seria um convite? Um convite ao crime? É preciso ampliar o debate. Não esgotamos ainda o tema do corpo feminino. Repetimos que sim, é um campo de batalha e exploração. Mas é fundamental repetir e ir além, ou seja, buscar na história e nas artes nossas provas. 

Numa das passagens mais fortes e, presumo, escandalosas para os tempos de cultura salazarista, que classificou as Novas cartas portuguesas como livro de “conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”, observamos a gravidade da conivência feminina quando concorda que é, inquestionavelmente, o corpo exposto da mulher o culpado por toda a violência. Se em “O rapto de Lucrécia”, a personagem estuprada se suicida, no texto a seguir, a filha é expulsa. De toda forma, é preciso se desfazer do corpo depois de usá-lo:

Tens de deixar esta casa — disse-lhe ele numa voz neutra, monocórdica. Não podemos continuar a viver todos juntos na mesma casa depois do que se passou. Foste a culpada de tudo, eu sou homem; sou homem e tu és provocante, perversa. És perversa. Uma mulher sem vergonha, sem pudor. Não te quero ver mais, enjoas-me, repugnas-me, envergonhas-me. To percebias, sei que percebias, que sabia como me punhas. Eu sou homem, minha puta.

Claro que sou uma puta, podes estar tranquilo, pai, sou uma puta.

Grande cabra — chamou-lhe a mãe quando ela se dirigia para a porta da rua, agarrada às paredes para não cair. 

Grande cabra.

Em 1971, Maria Teresa Horta publicou um poema chamado “Minha senhora de mim”. Uma imoralidade, consideraram os infelizes de plantão. Sempre eles, homenzinhos irritados que protestam, gritam, guincham com a voz grossa e escondem, sabe-se lá, o desejo de também ser livres como quem escreve poemas. Foi precisamente em direção ao corpo de Maria Teresa que marcharam os homenzinhos. “É para aprenderes a não escreveres como escreves”, relata-nos o prefácio de Tatiana Salem Levy para Novas cartas portuguesas, em urgente e belíssima edição da Todavia que acaba de sair. 

Não teria sido, parece-me, unicamente a violência contra o corpo de Maria Teresa Horta que gerou as Novas cartas portuguesas. Intuo que aqueles textos já fervessem tanto nela quanto em Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno quando passou a fluir a dinâmica entre as três escritoras para que se tornassem seus textos híbridos e de autoria imprecisa um dos mais importantes livros feministas de todos os tempos. Como os corpos feitos de revolução, as três Marias não só não deixaram de escrever, como escreveram mais e produziram um livro que é tão importante quanto merecedor de toda a atenção.

Seres subversivos

Como orientação de leitura, pode ser útil pensar em Portugal durante o período de escrita do Novas cartas portuguesas. Um país sob um regime ditatorial e em plena crise com o avanço da Guerra de Libertação e a subsequente independência dos territórios colonizados em África e Ásia. Como todo país fortalecido em regimes de ideais populistas, Portugal estava dominado pelo cumprimento rigoroso das leis de censura, cujo alvo sempre foi e sempre será os artistas, seres desobedientes e subversivos que causam grave ira ao sistema autoritário porque o ridiculariza — o ridículo fragiliza.

Na arquitetura de uma ditadura, porém, a censura não basta. É preciso criar ou alimentar uma narrativa única e com uma linguagem específica que controle qualquer tentativa de desordem. Os três pilares “Deus, pátria e família” são os temas mais nitidamente explorados. Argumento, no entanto, que cada um deles é fomentado precisamente pelo papel bem desempenhado da mulher controlada, e mais precisamente, do seu corpo dócil, como se referiu Foucault a esse aspecto de estrutura de poder. 

Como os corpos feitos de revolução, as três Marias não deixaram de escrever — escreveram mais

Em Novas cartas portuguesas esse sistema de manipulação imposto pelo Estado Novo é exposto e os textos constroem uma narrativa que não só aponta a necessidade de manter a mulher sob controle para o sucesso do discurso demagógico, como traz à tona os tabus do desejo, do sexo e da maternidade, como o peso que tem a carta “À mãe”:

E agarrando o filho pelos ombros, bate–lhe com a testa, violentamente, num dos enormes vidros duas, três vezes, até que horrorizada vê um fio de sangue descer da cara dele. Um grosso cordão vermelho, viscoso, lento…

Mãe:

Sabes que não quero mais voltar para casa. Estou cansada das tuas ajudas e da prisão que assim me vais conseguindo ter. Ao meu filho serei eu que hei-de-criar e não tu, como a mim me criaste, assim o espero fazer sem conselhos teus. Peço-te que me deixes em paz. Mariana.

Ainda que seja o conteúdo do livro de imensa importância política — e aqui me refiro não apenas ao feminismo como movimento político, como também à complexidade do tema colonial, que denuncia um Estado opressor em todos os seus territórios — gostaria de ressaltar o valor literário inestimável do livro das três Marias. Em termos estéticos, é uma obra impressionante. São textos exigentes, e igualmente belos e com uma estrutura que reflete a imprecisão da autoria de cada um.

Maria vai com as outras

Num acordo entre elas, Horta, Velho da Costa e Barreno decidiram jamais revelar quem escreveu cada texto. O resultado é um conjunto híbrido de poemas, cartas, contos e ensaios que, construído na impossibilidade de ser categorizado e na imprecisão da autoria, faz, muito inteligentemente, do suposto anonimato um ideal coletivo. Um livro escrito por mulheres, simplesmente, por três Marias, essa metáfora. Num exemplo precioso e invulgar de sororidade, as três se uniram para escrever seus desejos e libertar o corpo preso pelo Estado Novo. Usaram como ponto de partida as cartas do século 17 da freira Mariana Alcoforado para um homem com quem se envolveu no convento de Beja, publicadas originalmente como Lettres Portugaises, em 1669.

A ideia de se fundamentar na releitura de textos de uma jovem mulher do século 17 que, ao ser posta num convento, negocia o acesso à educação garantindo sua castidade, é uma ideia sagaz, especialmente se considerarmos que sóror Mariana não conseguiu garantir a castidade, podemos especular. Nessa proposta genial de acusar a manutenção da posse do corpo feminino, as autoras se utilizam da personagem que fracassa, aos olhos do sistema patriarcal, porque se suja, e triunfa, aos nossos olhos, porque fracassa. Fica convencionado que o acesso à educação é um desperdício para quem poderia bordar rendas tão belas ou ser a noiva de Cristo.

A rapariga põe-me o juízo a arder tem cabelo na venta o raio. Moída de orgulhos e teimosia como quê meteu-se-lhe na cabeça que não casa “é melhor acabar com tudo” e mais isto e mais aquilo a fazer-se senhora lá porque tem estudos e agora já não lhe sirvo que eu na altura disse à tua mãe minha madrinha “ponha-a é na costura se tem saúdes fracas e nasceu fina de mais para o campo. Isso de estudos não me agrada.” Mas ela teimou e a fidalga a D. Mariana toda finuras e falinhas doces a puxá-la lá para casa a pôr-lhe laços e vestidos a dar-lhe livros… a estragá-la, a estragá-la que nunca mais foi a mesma. 

Na passagem acima, “Carta de um homem chamado José Maria para António, seu amigo de infância”, de irresistível sarcasmo, a relação entre a expectativa da identidade feminina e a autoridade masculina se torna claramente desequilibrada porque está diretamente associada à distribuição ou, melhor dizendo, à concentração de poder. Refiro-me não apenas à desvantagem econômica, financeira, e sim, crucialmente, ao analfabetismo e à restrição na participação política e social. O que eu proponho pensar com essas colocações é que essa desvantagem entre gêneros se deu claramente, como já propôs Mary Wollstonecraft, no século 18, a partir da educação e do reconhecimento de que, lamentavelmente, muitos homens estúpidos eram os proprietários das casas, e nós sempre precisamos de teto. Entre bordados, boas comidas, filhos e sexo, alimentamos a autoridade desses homens em troca de abrigo seguro, já que deixar a janela aberta, Lucrécia já avisou, é perigoso.

Em termos estéticos, é uma obra impressionante. São textos exigentes, e igualmente belos

Não que essa constatação cause surpresa. O que continua sendo surpreendente é a resistência, quando não a rejeição, de mulheres em abraçar as próprias causas, por medo, ignorância ou maldade. Talvez isso comece a explicar o espantoso silêncio de Novas cartas portuguesas no seu próprio país durante anos que seguiram à sua publicação. Talvez por medo de abraçar a mudança, mesmo que ela te favoreça, ou a ignorância que, em estruturas autoritárias, é logo preenchida pela demagogia que dá razão a narrativas opressoras.

A suposta imoralidade das Novas cartas portuguesas não era combatida apenas pelos homens do regime. Crucialmente, era também condenada pelas mulheres dos homens do regime. É quase impressionante que, enquanto na França e na Inglaterra, Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing e Iris Murdoch defendiam Novas cartas portuguesas e protestavam contra o julgamento das três autoras, em Portugal, grande parte das mulheres se calou dentro do próprio rosto assustado e obediente.

Na galeria Wallace Collection, em Londres, há uma sala bastante curiosa: estão expostas sequências de pinturas do século 17, retratando rotinas de homens e mulheres. É improvável não notar que, enquanto homens aparecem em torno de mesas repletas de papéis e livros, em conversa com outros homens, as mulheres analfabetas são as que cozinham, descascam maçãs, costuram e ensinam às filhas seus bordados. O quadro A Woman Cooking, do holandês Esaias Boursse, tem impressionante impacto ao revelar uma mãe com olhos no fogo da panela, em posição de cansaço e de costas para um bebê que dorme no berço — ou talvez esteja morto, nunca se sabe. O retrato da solidão pós-parto no século 17, de um corpo a serviço do papel criado pelo patriarcado. Essencialmente, na maioria das obras, os homens calçam sapatos e as mulheres, pantufas. Pela atemporalidade dessa prática violenta e de humilhação, é possível que seja mais interessante que as filhas herdem livros e reivindicações a bordados e joias.

A faca que cortou meu dedo no começo deste texto já foi limpa e guardada, mas o sangue mensal derramado do nosso corpo nos lembra que existimos pelas entranhas e que uma revolução se faz por dentro.

Especial 50 anos da Revolução dos Cravos

Especial 50 anos da Revolução dos Cravos realizado com o apoio do Camões Instituto da Cooperação e da Língua e da Fundação Fernando Henrique Cardoso

Quem escreveu esse texto

Nara Vidal

Escritora, é autora de Mapas para desaparecer (Faria e Silva), Eva (Todavia) e Shakespearianas: As mulheres em Shakespeare (Relicário).