Ciências Sociais,

A vida depois da morte

Antologia que relaciona literatura e Antropoceno traz ensaios de Itamar Vieira Junior, Daniel Munduruku e Maria Esther Maciel

25ago2022 - 15h58 | Edição #61

Soube que você procura algo para amar.
Feche os olhos, minhoquinha, e prepare-se.

Os últimos versos da música “Anthrocene”, de Nick Cave, trazem uma proposta imagética perturbadora. A palavra Antroceno, uma variante de Antropoceno, faz uma referência à obscenidade desta nossa era geológica, em que o homem vem sendo o agente transformador da natureza e com consequências das mais devastadoras possíveis. O conceito começa a ser identificado já na década de 30, na antiga União Soviética, e em 2000 o termo se popularizou por meio do cientista Paul J. Crutzen, que propôs o fim do uso do termo “Holoceno” e a adoção de “Antropoceno” para expressar mais precisamente a interferência do homem nas mudanças climáticas e geológicas.

Os versos de Nick Cave nos remetem à ameaça em torno do que era considerado insignificante, como as vidas não humanas e que podem gerar a seguinte reflexão: pensávamos que a terra e a água seriam fontes de vida que durariam para sempre. A preparação à qual se refere Cave não é surpreendente; é de pura melancolia e ressalta o frágil desequilíbrio de um mundo onde as ações humanas criam consequências já irreversíveis para o futuro do planeta.

O Antropoceno apresenta uma nova perspectiva de pensar o nosso espaço, propondo um novo paradigma, em que os humanos são mais objetos do que sujeitos, como se acreditava. Essa visão requer uma ampliação do conceito cujas aplicações vão muito além da esfera geológica, envolvendo filosofia, ciências sociais, política, literatura e outras formas artísticas. Nas artes plásticas, por exemplo, há uma preocupação crescente com o acesso a tipos mais sustentáveis de mídias, texturas, cores e materiais que oferecem as ferramentas para a criação, ao mesmo tempo que dialogam cuidadosamente com os critérios de escolha de elementos da natureza como expressões criativas. É sobre esse novo paradigma que se debruçam os treze ensaios do livro Depois do fim, organizado pela crítica literária Fabiane Secches, com textos assinados por nomes como Christian Dunker, Daniel Munduruku, Paulo Scott, Itamar Vieira Junior e Micheliny Verunschk, entre outros, que está sendo lançado agora pela editora Instante.

A visão do Antropoceno requer uma ampliação do conceito para além da esfera geológica

No livro Uma exposição, de Ieda Magri (Relicário, 2021), a narradora lida com as consequências profundas de uma infância na qual testemunhou, de forma corriqueira, o sacrifício de bois e vacas para o próprio consumo. Um relato íntimo e sensível em que é exposta essa relação entre o ser humano e seu poder sobre os animais, especialmente os que são normalizados como alimento. A certa altura, a narradora reflete sobre uma espécie de padronização do horror, mas que é também como sobrevivem e se habituam as famílias daquele ponto geográfico descrito no livro a abraçar o assassinato de animais como cultura de subsistência e sobrevivência.

Seres não humanos

Essa preocupação direta com as características do Antropoceno vividas pela narradora do livro de Magri, que suscita um conflito entre o animal como caça, alimento e sujeito não humano, está presente no sensível texto escrito por Itamar Vieira Junior para a antologia, e que nos emociona com a simplicidade necessária para entender a equidade interespécies. Com suas reminiscências da Guerra do Golfo, exibida na tv nos anos 90 quando tinha onze anos, Itamar Vieira Junior reflete sobre a discrepância em relação ao valor dado aos mísseis se comparado àquele voltado para os peixes e as aves que morriam imobilizados pelo vazamento de petróleo na água durante a guerra. O ensaio do escritor baiano traz muitas referências e reflexões amadurecidas e bem investigadas acerca do tema. A sua abordagem nos faz pensar que, talvez, as soluções para evitar as catástrofes de hoje estivessem, de fato, onde mais havia descrédito: na simplicidade e objetividade das visões e das ações, tal qual pensaria uma criança. Criança nenhuma é indiferente à violência e à destruição que estão diante dos seus olhos.

A proposta, não de equivalência, mas de equidade entre os seres que vivem, é trabalhada no ensaio escrito por Maria Esther Maciel, um dos mais instigantes da antologia. No texto, ela aproxima a narrativa literária do pensamento do ser não humano, que, apesar de ser um recurso literário arriscado, acaba sobressaindo como estética e proposta. A autora aponta a zooliteratura das últimas décadas como um movimento literário instigante que oferece uma visão muito particular e menos centrada no homem como narrador de outros não humanos. Para isso, a escritora mineira se debruça sobre o elogiado livro da autora japonesa Yoko Tawada, Memórias de um urso-polar (Todavia, 2019), como exemplo da originalidade da qual pode ser capaz uma escrita que se propõe a espelhar ou a traduzir uma fala animal como uma voz narrativa sólida.

Essa empatia fundamenta a ideia de respeito e envolvimento conectados e de harmonia, ressaltada no texto de Daniel Munduruku, escritor brasileiro indígena dos mais reconhecidos no país. Munduruku nos faz mergulhar na dor da perda que é a prestação de contas de séculos de falta de políticas de proteção aos povos originários. São dados catastróficos e expõem os ossos da estrutura doentia que, por ganância, preguiça e estupidez, optou pelo massacre dos povos que conhecem as técnicas necessárias para a manutenção (e criação) do próprio território.

É inteligente como a organização dos textos cria um diálogo entre os ensaios, ainda que cada um apresente propostas muitas vezes originais para pensar o tempo do fim, o Antropoceno. O texto de Paula Carvalho, editora da Quatro Cinco Um, por exemplo, poderia ser um desdobramento do que elabora Munduruku em relação ao eurocentrismo como agente determinante no Antropoceno. A partir de associações de Bússola (Todavia, 2018), romance premiado do francês Mathias Enard, a autora explora o conceito do eu em contraponto ao outro. Uma reflexão sobre as fronteiras e a interseção que mescla os considerados opostos. A conexão com a reflexão proposta por Munduruku se baseia precisamente nessa relação entre “o nós e os outros”, a distância, a intimidade e a alteridade como elementos não distintos, mas complementares.

Estranhamento

O interessante ensaio de Christian Dunker também segue essa linha de pensamento, que traz a ideia de estrangeirismo dentro do nosso próprio território a partir de Alexander Humboldt como propagador, já no século 18, de ideias com características identificáveis do que entendemos hoje por Antropoceno. Dunker ainda nos propõe uma reflexão perturbadora sobre a terra como posse, tendo como base o tratamento dado pelos invasores europeus aos povos originários das Américas, que foram tratados por eles como estrangeiros em seu próprio território.

A ideia de conquista de territórios com base tanto na violência como na catequese coloca em xeque a questão do estrangeirismo e do estranhamento. Quando Próspero chega a uma terra desconhecida por ele e encontra Ariel e Caliban, seres nativos de um território estranho, mas que ele deseja com fascínio e ganância, William Shakespeare nos propõe pensar que o maior obstáculo para o invasor é, para além dos povos locais, a ideia de carma, medo e culpa pela consciência da invasão. Assim, quando Sycorax, o espírito da mulher morta e nativa da ilha, na peça A tempestade, é revelado, ela se torna o maior receio do invasor, porque, além de ser invisível, há o seu intransponível pertencimento àquela terra. Essa dinâmica nos sugere repensar quem é o estrangeiro e quem pressupõe desequilíbrio.

É comovente essa relação sem sinal algum de sintonia entre os povos que ocuparam terras e seus ocupantes originários. É como se todo esforço dos colonizadores em nomear terrenos, delimitar espaços e designá-los como propriedade já tivesse nascido anacrônico e obsoleto, inútil e despropositado dentro de uma cultura que desconhecia a proposta de pensar o próprio chão, a própria terra abundante e comum a todos, como espaço fronteiriço e demarcado.

É uma antologia exigente porque não é possível terminar a leitura e sentir-se indiferente

Como cita a organizadora desta admirável coleção de textos sobre nós mesmos, Fabiane Secches, ao falar do pensador Ailton Krenak, “eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza”. Ou seja, essa comunhão entre a terra e seus habitantes foi desastrosamente ignorada pelos humanos, que criaram os modelos hierárquicos de poder vigentes, assim como o capitalismo, as fronteiras e a subordinação. O eurocentrismo tem muito a responder por isso, uma vez que causou o desequilíbrio na ordem simples que caracteriza a relação dos povos originários com seus lugares de estar, favorecendo a desigualdade social e a valorização de um sistema que só se sustenta com a exclusão e a subestimação de pessoas e pensamentos desviantes.

Depois do fim é uma antologia exigente. Não somente pela profundidade dos subtemas propostos, mas pelo incômodo tratado e exposto de forma inteligente e perturbadora. É também exigente porque não há possibilidade de terminar a leitura e sentir-se indiferente. É possível que, ao fim do livro, tenhamos categorias de leitores esperançosos e os que se identificam com a minhoca dos versos de Nick Cave. Ou seja, não há nada que seja insignificante diante da vida, mesmo depois do fim.

Quem escreveu esse texto

Nara Vidal

Escritora, é autora de Mapas para desaparecer (Faria e Silva), Eva (Todavia) e Shakespearianas: As mulheres em Shakespeare (Relicário).

Matéria publicada na edição impressa #61 em julho de 2022.