Repertório 451 MHz,

Utopias e distopias

O historiador Hilário Franco Júnior e a escritora Luisa Geisler conversam sobre o Brasil distópico em que vivemos e se ainda há espaço para sociedades utópicas na atualidade

23jun2022 - 12h00

Está no ar o 66º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Será que estamos vivendo uma distopia no mundo de hoje? E qual seria a utopia dos dias atuais? O que é utopia para alguém pode ser a distopia para outro? Essas e outras questões são tratadas pelo historiador Hilário Franco Júnior, autor de “Em busca do paraíso perdido: as utopias medievais”, e pela escritora Luisa Geisler, uma das autoras de “Corpos secos”. O episódio procura abarcar a visão desses temas tanto do ponto de vista histórico quanto literário.

Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. O 451 MHz tem apoio dos Ouvintes Entusiastas. Seja um você também! O podcast tem ainda apoio da Companhia das Letras. 


A Utopia, de Thomas More

A palavra “utopia” foi criada da justaposição de dois termos gregos, que significam “não” e “lugar”, e remete a um lugar que só existe na imaginação. O termo foi criado no século 16, para falar de um ideal de sociedade – e surgiu a partir da obra do filósofo inglês Thomas More. Na história do livro Utopia, lançado em latim, esse tal “ideal” aparece em uma ilha, onde não existe crime nem violência. 

A distopia é o inverso. É a antiutopia, segundo alguns dicionários. Pensando na história da ilha Utopia, de Thomas More, o contrário seria um mundo distópico violento, com desigualdade de todos os tipos. Então quer dizer que a gente vive, hoje, uma distopia? 

Para introduzir o assunto, é importante alinhar que a ideia de utopia, e também de distopia, é diferente entre as pessoas. São pontos de vista diversos. A utopia de um pode ser uma distopia para o outro. Ou vice-versa.


 

Apesar da palavra “utopia” ter se originado no século 16, a tese defendida por Hilário Franco Júnior é de que essa ideia já existia desde a Idade Média, e que compreender isso ajuda a entender o Ocidente de hoje. É o que ele analisa no livro Em busca do paraíso perdido: as utopias medievais, da Ateliê Editorial e da Editora Mnêma.

   
 

Franco Júnior é professor de pós-graduação de história social na Universidade de São Paulo. Ele também é pós-doutor em história medieval pela Escola Prática dos Estudos Avançados, na França. O professor já recebeu dois prêmios Jabuti, por A Eva barbada: ensaios de mitologia medieval (Edusp, 2010) e “Cocanha: várias faces de uma utopia” (Companhia das Letras, 1998).


 

Do outro lado da conversa está Luisa Geisler, que começou cedo a carreira como escritora. Ela tinha apenas dezenove anos de idade quando foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2011, com a obra Contos de mentira, da editora Record. E foi com esse livro, de estreia no mercado editorial, que ela levou o Prêmio Sesc de Literatura de 2010.


 

A partir de então, seguiram outros reconhecimentos. O mais recente foi o do romance Corpos secos, vencedor do Jabuti de 2021 de romance de entretenimento, que foi escrito a oito mãos, com Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado (Alfaguara/Companhia das Letras). A obra retrata a distopia de um surto que atinge corpos que não têm mais atividade cerebral, mas anseiam por sangue – como uma espécie de zumbis. Ao contrário do que pode parecer, a obra foi pensada e escrita antes da pandemia de Covid-19, o que acabou mudando alguns dos planos de divulgação do romance.

Vida real


 

Geisler, que participava do podcast Hora da distopia, já havia escrito para a Quatro Cinco Um sobre o tema em dezembro de 2019, tratando de catorze distopias que haviam sido lançadas ao longo daquele ano. No texto, ela também falou sobre um momento distópico que ela havia acabado de viver: “Enquanto escrevia este texto, eu me envolvi em um pequeno escândalo com a cidadezinha de Nova Hartz, no Rio Grande do Sul (é claro). A prefeitura baniu um livro de minha autoria, Enfim, capivaras, de escolas e da feira do livro da cidade por causa de ‘linguajar inapropriado’ (um eufemismo para ‘palavrões’). Falo de censura de livros na ficção neste texto e cá estou eu passando pela mesma coisa na realidade”.

    
 

Na entrevista, a autora também comentou de distopias clássicas, como 1984, de George Orwell, que voltou a aparecer na lista dos livros mais vendidos, e distopias juvenis, como a coleção Jogos vorazes, de Suzanne Collins.

Mais na Quatro Cinco Um

Tendo retirado seu nome do clássico Fahrenheit 451, a revista dos livros publicou em sua primeira edição um texto de Sérgio Augusto sobre iluminismo e distopia no clássico de Ray Bradbury.

As utopias também já foram tema de textos da revista dos livros, como a resenha na edição 27, escrita por Willian Vieira, sobre como a tentativa de criar um falanstério em terras brasileiras se transformou em um espetáculo tragicômico, a partir do livro Eles sonharam um outro mundo: história atlântica dos fundadores do Falanstério do Saí (1841-1846), de Laurent Vidal (Edusp, 2019). Vidal também concedeu uma entrevista sobre esse estudo.

Vista como utopia no Brasil há um tempo, a tarifa zero dos transportes caminha para se tornar tendência no país trinta anos após ser barrada em São Paulo, como mostra Rafael Calabria na resenha de Tarifa zero: a cidade sem catracas, de Luci Gregori, Chico Whitaker, José Jairo Varoli, Mauro Zilbovicius e Márcia Sandoval Gregori (Autonomia Literária, 2020), na edição 42.

A Quatro Cinco Um publicou um web story sobre seis distopias escritas por autores brasileiros.

O melhor da literatura LGBTI+

Neste episódio, Marana Borges, autora de Mobiliário para uma fuga em março (Dublinense, 2021), mestre em Teoria da Literatura e colaboradora da Quatro Cinco Um, recomenda a leitura do clássico Em busca do tempo perdido, de Marcelo Proust, especialmente o volume quatro Sodoma e Gomorra, que aprofunda mais o tema da homossexualidade, da bissexualidade e de outras sexualidades que fogem à norma, e da dificuldade das personagens assumirem publicamente a sua orientação sexual.


 

Ao longo de 2021, o quadro contou com o apoio do C6 Bank e reuniu catorze livros e dicas literárias LGBTI+ de colaboradores da Quatro Cinco Um. Veja a lista completa

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação 451.
Apresentação: Paulo Werneck e Paula Carvalho
Coordenação Geral: Évelin Argenta, Paula Scarpin e Vitor Hugo Brandalise
Produção: Gabriela Varella
Edição: Cláudia Holanda
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger e FêCris Vasconcellos
Gravado com apoio técnico da Confraria de Sons & Charutos (SP)
Para falar com a equipe: [email protected]

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