Repertório 451 MHz,

Um novo Shakespeare

Rodrigo Lacerda, tradutor da nova versão de ‘Rei Lear’, e Sofia Nestrovski, crítica literária, conversam sobre William Shakespeare no novo episódio do 451 MHz

07abr2023 - 03h51

Está no ar o 85º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros. William Shakespeare é o tema do novo episódio do 451 MHz, que traz o escritor Rodrigo Lacerda, autor da nova tradução de Rei Lear, e a crítica literária Sofia Nestrovski, que dá cursos sobre o dramaturgo. Os dois desconstroem os mitos em torno da dificuldade da leitura das peças shakespearianas e explicam o fascínio em torno da obra de um dos maiores gênios da literatura mundial.

Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. O 451 MHz tem apoio da Companhia das Letras e dos Ouvintes Entusiastas. Seja um você também!

Desconstruindo Shakespeare

    
O tradutor Rodrigo Lacerda e a crítica literária Sofia Nestrovski

Rodrigo Lacerda é tradutor de Rei Lear, recém-lançado pela editora 34 em versão bilíngue. Essa peça é uma das obras-primas do dramaturgo inglês, que mostra as três filhas do Rei Lear disputando quem fica com a herança do reino. O pulo do gato é que o rei quer ver quais das filhas o ama mais. A nova edição dessa tragédia traz uma nota de abertura e um posfácio em que Lacerda apresenta os dilemas dos personagens e os pontos-chave da peça.

Lacerda é também escritor e autor de O mistério do leão rampante (Ateliê, 1995), que traz Shakespeare como um dos personagens. A narrativa segue uma jovem inglesa do século 17 que tenta se livrar de um feitiço que a impede de amar; nessa busca, ela encontra no teatro a cura para a maldição. A história foi feita a partir da única anedota contemporânea a Shakespeare que chegou até nós. Sua estreia na ficção recebeu os prêmios Jabuti (1996) e Caixa Econômica Federal/CBN de Autor Revelação (1995).

Ele também escreveu Hamlet ou Amleto?: Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos (Zahar, 2015), um diálogo entre um diretor de teatro e um ator que vão encenar o texto dramático. É uma adaptação que não apenas reconta a história do príncipe da Dinamarca, mas que é também um guia para entender a peça.

Sofia Nestrovski é conhecida do público da Quatro Cinco Um por causa do podcast Vinte Mil Léguas, que ela apresenta e assina o roteiro junto com Leda Cartum. O sucesso do podcast foi tanto que virou livro, lançado no ano passado pela editora Fósforo, e vai entrar na sua terceira temporada abordando Galileu Galilei.

Especialista em literatura inglesa, Nestrovski dá cursos sobre Shakespeare desde 2016; o último aconteceu em janeiro e foi uma leitura acompanhada da peça Hamlet. Aliás, Nestrovski fez a preparação técnica da edição de Hamlet lançada pela editora Ubu com tradução de Bruna Beber. Isso significa que ela fez o cotejamento entre as diferentes versões dos vários manuscritos da peça, uma vez que não existe um original consolidado.

Em 2022, ela lançou um livro infantil para adultos chamado A história invisível, que saiu pela editora Fósforo com ilustrações de Danilo Zamboni e foi resenhado por Cristiane Rogerio na Quatro Cinco Um. A história do livro foi inspirada nos versos de um dos sonetos mais conhecidos de Shakespeare: “Qual é a sua substância, do que você é feito?/ Quantas sombras esquisitas te acompanham?”.

Muitos leitores, muitos tradutores

As peças de Shakespeare foram traduzidas por vários nomes ilustres aqui no Brasil. O poeta Manuel Bandeira se embrenhou pela tradução de Macbeth, a mais sinistra e sanguinária tragédia do autor, que chegou a ser relançada em 2009 pela Cosac & Naify.

Millôr Fernandes foi outro grande tradutor de Shakespeare, tendo vertido para o português A megera domada, As alegres matronas de Windsor, Hamlet e O Rei Lear, duas comédias e duas tragédias respectivamente. O autor afirmava que: “Sheikispir, sim, é que era bão: / só escrivia citação!”.

No entanto, a crítica de teatro Barbara Heliodora é a mítica tradutora da obra de Shakespeare no Brasil, tendo traduzido as peças que foram publicadas pela editora Nova Aguilar e escrito livros sobre a leitura desses textos.

Lacerda conta que o ponto de virada para sua leitura de Shakespeare foi assistir a versão adaptada para o cinema pelo grande ator e diretor britânico Laurence Olivier. Veja abaixo o trailer:

As tramas do dramaturgo inglês continuam muito contemporâneas e inspirando várias outras histórias, como a da série norte-americana Succession (HBO), com o ator shakespeariano Brian Cox.

Mais na Quatro Cinco Um

O dramaturgo inglês já apareceu algumas vezes nas páginas da Quatro Cinco Um. Fernanda Torres escreveu sobre Reflexões sobre Shakespeare, de Peter Brook, na edição 4 da revista dos livros: “Brook dedica o primeiro capítulo a soterrar teorias conspiratórias, provando o que qualquer profissional familiarizado com a prática teatral é capaz de perceber: que William estava ali, autor e ator, atento à reação da plateia, cortando cenas, acrescentando diálogos, aparando arestas, trabalhando em coletivo com a sua companhia, lapidando e testando um material vivo, como até hoje se faz”.

“Ao longo da sua existência, o dramaturgo atravessou diversos períodos de epidemia, muitos dos quais obrigaram ao fechamento dos teatros. Eram períodos de distanciamento social, ao lado de outras medidas inúteis, como o sacrifício de gatos e cachorros, queima de ervas, ou uso de poções fabricadas por charlatães, de grande aceitação pelos incautos”, escreveu. Eduardo Muylaert sobre como Shakespeare representava em suas peças as pragas e as epidemias que assolaram a Inglaterra.

Já Eliana Cardoso tratou de como as mulheres crossdressers de William Shakespeare desconstroem estereótipos, tornando ambígua a identidade de gênero. “William Shakespeare (1564-1616) veste cinco personagens femininas como homens. Numa época marcada pelo patriarcalismo, esse recurso facilitava um discurso corajoso na boca de uma mulher e subvertia os papéis impostos por convenções tradicionais. As crossdressers, em busca da independência e do amor, são: Julia, em Os dois cavalheiros de Verona — uma comédia do autor iniciante — ; Portia, em O mercador de Veneza; Viola, em Noite de reis; e Rosalind, em Do jeito que você gosta (também traduzido por Como gostais) — três comédias do dramaturgo em seu apogeu —; e, por último, Imogen, em Cymbeline (uma peça que parece novela das 9). Vestidas de homem, elas se safam de diferentes crises e se mostram capazes de prodígios”, escreveu ela na edição 27.

O melhor da literatura LGBTQIA+

Caroline Fernandes, editora e uma das fundadoras da Pulsa, livraria itinerante focada em literatura LGBTQIA+, recomenda Garota, mulher, outras, de Bernardine Evaristo, lançado pela editora Companhia das Letras em 2020, com tradução de Camila von Holdefer.

Vencedor do Booker Prize em 2019, segue a história de mulheres não brancas, algumas em relacionamentos homossexuais, em uma Londres dividida e hostil, logo depois da votação do Brexit.

Confira a lista completa de indicações dadas no podcast 451 MHz, no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro cinco um.
Apresentação: Paulo Werneck 
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin 
Produção: Ashiley Calvo
Edição: Gabriela Varella 
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace e Luis Rodrigues, da Pipoca Sound
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger e FêCris Vasconcellos
Para falar com a equipe: [email protected].br