Repertório 451 MHz,
Argentina, civilização e barbárie: 50 anos do golpe
Sérgio Alcides e Julián Fuks contrastam o clássico Facundo, de Domingo Sarmiento, com as raízes do autoritarismo, a ditadura militar e seus ecos no governo de Javier Milei
20mar2026 • Atualizado em: 24mar2026Está no ar o 188º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, o crítico literário Sérgio Alcides e o escritor Julián Fuks falam sobre os cinquenta anos do golpe militar na Argentina, deflagrado em 24 de março de 1976. Na conversa, eles discutem as raízes do autoritarismo no país a partir do clássico Facundo, ou civilização e barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento, que acaba de ser republicado no Brasil pela editora Pinard em tradução de Alcides.
Os convidados contrastam a narrativa do livro — uma mistura de biografia, romance e ensaio sobre um caudilho que dominou a política local no século 19 —, com os ideais do golpe militar e seus ecos, observados no governo do atual presidente Javier Milei. De origem argentina, Fuks ainda relembra a fuga dos pais para o Brasil por causa da perseguição dos militares. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Julián Fuks é autor dos romances A resistência (2015) e A ocupação (2019). Publicou ainda o ensaio Romance: história de uma ideia (2021) e a coletânea Lembremos do futuro: crônicas do tempo da morte do tempo (2022). Todos foram lançados pela Companhia das Letras. Também tradutor, verteu recentemente para o português Conversa infinita: entrevistas sobre psicanálise (Quina, 2025), em que o psicanalista argentino Mariano Horenstein relata conversas com vinte personalidades — entre elas Paul Auster, Caetano Veloso, Sophie Calle e Marina Abramović — sobre o impacto da psicanálise em suas vidas.
Já Sérgio Alcides, além de crítico, é poeta, tradutor e professor na Faculdade de Letras da UFMG, a Universidade Federal de Minas Gerais. Lançou a reunião de ensaios sobre poesia Armadilha para Ana Cristinae outros textos (Verso Brasil, 2016) e coletâneas de poemas como Píer (Editora 34, 2012). Sua tradução de Facundo, ou civilização e barbárie, agora relançada pela Pinard, foi publicada originalmente em 2010 pela extinta editora Cosac & Naify.

“Se estou falando aqui em português com vocês, se nasci aqui, posso me ter por brasileiro, se escrevo na língua em que escrevo, é exatamente pelo acontecimento desse golpe de 24 de março de 76”, diz Fuks no começo da conversa. Ele relata as circunstâncias em que seus pais, militantes de esquerda, vieram para o Brasil. “Meu pai se fez clandestino para proteger a própria vida e para preservar a sua militância”, conta. “Minha mãe não tinha uma atuação tão direta, mas acaba sofrendo uma ameaça. Um chefe dela é preso, torturado, demitido. E, quando ele sai, a avisa que ela é a próxima.”
A violência brutal da ditadura argentina, que matou cerca de 30 mil pessoas segundo estimativas, pode ser vista como uma reprodução daquela retratada por Sarmiento em Facundo, ou civilização e barbárie, apontam os entrevistados. Eles também veem similaridades no discurso de “organização da nação, da política, das ideias, da moralidade”, diz Alcides. “A ditadura militar se apresenta como processo de reorganização e instaura uma brutalidade nunca imaginada”, completa Fuks.
Apesar disso, grande parte da sociedade argentina conviveu normalmente com o regime, lembra o apresentador Paulo Werneck no programa. Um exemplo está nas comemorações pelo título da seleção nacional na Copa do Mundo de 1978. Imagens feitas pelo fotógrafo japonês Masahide Tomikoshi nas ruas de Buenos Aires durante as comemorações, mencionadas por Werneck, revelam torcedores eufóricos a despeito do que acontecia nos porões da ditadura. Tomikoshi divulgou as fotos nas redes sociais. Veja mais imagens aqui.
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Clássico fundador
Fuks e Alcides destacam a importância de Facundo na história argentina. Publicado originalmente em 1845, o livro é considerado o fundador da literatura do país por romper com modelos eurocêntricos e tratar pela primeira vez da identidade nacional. Na narrativa, Sarmiento conta a vida do militar e político Juan Facundo Quiroga (1788-1835), mas também trata do “aspecto físico, costumes e hábitos” da nova nação, cuja independência havia sido proclamada em 1816.

Facundo foi escrito durante o exílio de Sarmiento no Chile, onde o autor, que também atuava na política, se refugiou devido à sua oposição ao governo de Juan Manuel de Rosas — o líder da unificação argentina, que comandou a província de Buenos Aires por mais de vinte anos em regime ditatorial e estendeu sua influência por todo o país.
“Esse livro manifesta, digamos, a oposição do Sarmiento e de um grupo de intelectuais de corte mais liberal ao regime tirânico de Rosas”, explica Alcides no programa. Ele destaca, contudo, que o próprio Sarmiento revelou um “teor autoritário na perspectiva liberal” quando se tornou presidente da Argentina em 1868, apesar de contribuições como uma reforma educacional e o estímulo à leitura.
As contradições entre o ideal de civilização representado pela cultura letrada e a violência com que políticas foram implementadas — principalmente contra os povos originários — atravessam o ensaio “Sarmiento, escritor”, do grande autor argentino Ricardo Piglia (1941-2017), que é lembrado na conversa e foi incluído como prólogo de Facundo no Brasil. Para além do aspecto político do livro, Piglia o considerava “um manual de técnicas literárias” por misturar “a fábula, a lenda, o romance, a prosa de aventura, a homenagem aos clássicos, uma infinidade de referências e de exemplos de experiências de uso da linguagem”, disse em 2010 em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.
‘E’, não ‘ou’
Os convidados chamam atenção para um detalhe crucial no título do livro, que não opõe a civilização à barbárie. Em vez disso, as combina utilizando a conjunção “e”. Para Alcides, Facundo permanece atual também por essa ambiguidade. “O nó do livro está nessa conjunção”, afirma. “Não é civilização ou barbárie, são as duas coisas ao mesmo tempo.”
Na visão de Fuks, trata-se de uma dualidade quase dialética, na medida em que revela incoerências do projeto de civilização implantado na Argentina e, em grande medida, em toda a América Latina. Ele lembra que o ideal civilizatório envolveu “a conquista dos espaços recônditos e dos bárbaros, que seriam os indígenas lá presentes”. Mas, ao impor seu projeto violentamente e de maneiras frequentemente sanguinárias, é a suposta civilização que se mostra “profundamente bárbara”.
Ele ainda lembra que a ideia de ocupar territórios para civilizá-los foi reproduzida durante a ditadura no Brasil, a partir do golpe de 1964. E acrescenta que a violência do regime militar brasileiro, responsável oficialmente por cerca de quatrocentos mortos e desaparecidos, é subestimada. “Os quatrocentos desaparecidos e mortos brasileiros, são parte de uma elite política e cultural. Não se registra entre as vítimas da ditadura todo um conjunto de militantes camponeses e não se registra o genocídio indígena”, diz. “A ditadura militar brasileira é muito mais mortífera do que a gente costuma conceber.”
Alcides ressalta que as políticas genocidas continuam ativas em chacinas envolvendo a polícia, que tem como alvo frequente populações negras e periféricas. “A gente não consegue deixar para trás essa violência grotesca, da qual o Sarmiento fala de maneira muito vibrante no Facundo. E quando a gente retorna a uma obra assim, escrita quase dois séculos atrás, e tem essa sensação de atualidade, isso é de arrepiar”, diz.
‘Reboot’ com Milei
Os entrevistados também tratam do cenário político argentino atual, e comparam o presidente Javier Milei aos governantes do século 19 que se diziam representantes da civilização. Para Alcides, há um “reboot da história”. “O Milei me parece atuar como uma espécie de versão palhaça dos caudilhos do passado, uma versão pop da arrogância e do autoritarismo”, define.
Para Fuks, o presidente e suas políticas ultraliberais representam um renascimento do passado e também a expressão local dos movimentos de extrema-direita. Ele vai além e diz que Milei chega a ser um personagem exótico e extravagante. Sobre isso, Fuks lembra que o presidente argentino diz se comunicar com um cão morto através de médiuns e se aconselha politicamente com o espírito do cão, que se chamava Conan e foi clonado a pedido de Milei, resultando em outros quatro cachorros que o argentino tem hoje. “É um personagem literário, de um absurdo, estranho”, diz Fuks.
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- Guerra — 1: ofensiva paraguaia e reação aliada. Novembro de 1864 a março de 1866, de Beatriz Bracher (Editora 34, 2024)
- Facundo, ou civilização e barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento, tradução de Sérgio Alcides (Publicação original em 1845) (Pinard, 2026)
- Uraguai, de Basílio da Gama
- Duas vezes junho, de Martín Kohan, tradução de Marcelo Barbão (Amauta Editorial, 2005)
- Conversa infinita: entrevistas sobre psicanálise, de Mariano Horenstein com tradução de Julián Fuks (Quina, 2025)
Mais na Quatro Cinco Um
Colaborador da revista dos livros, Julián Fuks resenhou em 2024 Literatura infantil: cartas ao filho (Companhia das Letras), em que o escritor chileno Alejandro Zambra “narra o mundo de que uma criança se esquecerá”. Leia aqui.
Ele também escreveu sobre Baixo esplendor (Companhia das Letras), romance de Marçal Aquino que passeia entre o policial e o erótico, e sobre o infantil A água e a águia, do moçambicano Mia Couto, publicado em 2020 pela Companhia das Letrinhas. Leia a resenha.
Em 2019, Fuks foi entrevistado por Paula Carvalho a respeito do romance A ocupação, lançado na época. “Ocupação é palavra aberta, ela própria se deixando ocupar por sentidos vários. Hoje, gosto de pensar, é ato político dos mais contundentes, o de tomar espaço com o próprio corpo e resistir, e impedir com compromisso máximo o avanço da barbárie”, disse. Leia na íntegra.
Sérgio Alcides também já esteve nas páginas da Quatro Cinco Um. Em 2023, ao resenhar reedições de clássicos de Antonio Candido — Formação da literatura brasileira: momentos decisivos e Iniciação à literatura brasileira, ambos republicados pela Todavia —, comparou a importância das obras à da batida de João Gilberto para a música brasileira. Leia aqui.
Também tendo Antonio Candido como tema, Alcides participou do 87º episódio do 451 MHz, em maio de 2023 — ouça aqui. Ele ainda escreveu sobre Tudo em volta está deserto, ensaio de Eduardo Jardim sobre a literatura e a música no tempo da ditadura militar (1964-85), e sobre o poeta Murilo Mendes e seu livro de memórias Poliedro. Leia aqui.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz uma dica da escritora Mariana Salomão Carrara, autora dos romances Não fossem as sílabas do sábado (2022) e A árvore mais sozinha do mundo (2024), ambos publicados pela Todavia. Ela indica Boulder, da escritora e poeta catalã Eva Baltasar, que saiu pela editora Dublinense em 2024.
“Eu achei um livro muito maravilhoso, tanto do ponto de vista da linguagem, como do assunto ali narrado, um relacionamento entre duas mulheres. E tem várias fases desse relacionamento, tem maternidade e uma poesia, mas ao mesmo tempo uma sacanagem poética, muito triste”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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