Repertório 451 MHz,

A analista no divã

Vera Iaconelli fala sobre Análise, os desafios e as descobertas da escrita sobre questões íntimas e perturbadoras

12set2025

Está no ar o 163º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição recebe a escritora e psicanalista Vera Iaconelli, que fala sobre seu livro Análise (Zahar), um relato franco em que ela expõe questões familiares e da sua própria intimidade elaboradas em mais de trinta anos de divã. 

Na conversa, Iaconelli reflete sobre a dificuldade brutal de escrever sobre as angústias e revela descobertas inesperadas que só vieram com a escrita — como aceitar que o pai tinha uma família paralela e os limites da própria psicanálise. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Também doutora em psicologia e colunista da Folha de S.Paulo, Vera Iaconelli é autora de livros como Felicidade ordinária (2024), que traz uma reunião de suas colunas publicadas no jornal, e Manifesto antimaternalista (2023), em que aborda o mito do instinto materno e outras questões envolvendo o papel das mulheres como cuidadoras — ambos os títulos saíram pela editora Zahar, do Grupo Companhia das Letras. Além disso, é apresentadora de podcasts como o recente Isso Não É uma Sessão de Análise, em que conversa com convidados ilustres sobre as versões reais, não idealizadas, das famílias. 

Em Análise, Iaconelli vai de analista a analisanda — ou analisante, como a autora diz no livro —, dividindo com o leitor os caminhos e as emoções que a levaram ao divã, inclusive como profissional da psicanálise. No episódio, ela afirma que o novo livro foi também uma forma de encarar incômodos que ainda precisavam ser elaborados, o que não foi nada fácil.

“Foi brutal escrever. Foi um processo muito difícil, eu não imagino que toda escrita de um livro seja tão dramática assim como foi essa”, revela. “Mas eu encontrei nessa forma de escrever um jeito possível de elaborar questões perturbadoras que vinham.”

Descoberta pela escrita

Iaconelli conta que, aos poucos, identificou na escrita um distanciamento interessante e necessário para observar melhor certas partes de sua vida, o que nem sempre foi possível no processo de análise. “Fui descobrindo na escrita um caminho muito bom para dar destino para as coisas vividas e que me interessa muito. Até pela minha escolha profissional, de pensar a minha existência, de analisar.”

Em trechos do livro, ela revela episódios da sua vida que mesmo familiares próximos não conheciam — como um aborto feito aos dezoito anos — e trata de temas familiares delicados, como a segunda família que seu pai tinha. Antes de encarar o assunto no livro, Iaconelli diz que considerava que o pai tinha uma “amante”.

“Quando as pessoas falam que contei segredos de família, eu entendo perfeitamente o que estão me dizendo, mas não é o que eu sinto”, afirma a psicanalista. “Eu acho até o contrário. Na minha perspectiva pessoal, eu sinto que eu dei uma dignidade à minha história. Se uma história pode ser contada, ela tem alguma dignidade.”

A psicanalista Vera Iaconelli (Marlos Bakker/Divulgação)

Se lidar com a possível reação de familiares e conhecidos às revelações do livro não foi uma dificuldade, Iaconelli percebeu que o que a preocupava mesmo era encarar os sentimentos que ela mesma não queria ver. “O mais difícil foram os segredos para mim mesma, a minha resistência em ver certas coisas”, diz.

Figura paterna

Análise também trouxe outras descobertas inesperadas para Iaconelli durante a escrita. Ela conta que havia se proposto a escrever sobre a mãe idosa e os cuidados exigidos pela velhice, mas acabou sendo surpreendida pela figura do pai, que se impôs como tema. “Tive muitos insights” diz. “Não tinha jeito, eu sentava e escrevia sobre o velho Zacarias.” 

“E ao escrever sobre ele, eu o vi de uma forma inédita, como homem, um homem no mundo dos homens. Eu nunca tinha visto meu pai assim, por mais esquisito que seja falar isso. Um homem entre homens, e não só o homem que é meu pai.”

Despedidas

A publicação de Análise, segundo Iaconelli, também marcou um momento de luto simbólico para ela. Ao revisitar sua relação com os pais, a autora descreve uma sensação de separação inevitável, que mistura elaboração psicanalítica e experiência existencial.

“Passados dois meses do lançamento do livro, eu estou bem deprimida”, revela. “Uma depressão produtiva, como chamamos na psicanálise. Me havendo com essa questão da despedida dessa figura que está viva [a mãe], acabei de ir no aniversário dela, mas é mais uma despedida”, conta. 

“Tem um luto aí, é mais uma separação possível dessas figuras centrais da existência, pai e mãe, que são os primeiros grandes amores, que são uma referência que a gente sempre volta para tentar entender quem a gente é”, reflete a escritora. “Acho que estou matando cada vez mais uma certa dependência dela e me havendo com o que sobra.”

Livros do episódio

Veja abaixo a lista de livros e outras referências que aparecem nesta edição do 451 MHz:

  • Análise, de Vera Iaconelli (Zahar, 2025)

  • Manifesto antimaternalista, de Vera Iaconelli (Zahar, 2024)

  • Felicidade ordinária, de Vera Iaconelli (Zahar, 2023)

  • A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói (várias editoras)

  • Lutos finitos e infinitos, de Christian Dunker (Paidós, 2023)

Mais na Quatro Cinco Um

Em fevereiro de 2025, Vera Iaconelli esteve no episódio 130 do 451 MHz, em uma conversa com a psicóloga, poeta e ativista indígena guarani Geni Núñez. O papo entre as duas, sobre a crise do cuidado, maternidade, monogamia e outras possibilidades de amor, foi gravado n’A Feira do Livro 2024 e transformado no episódio “Formas de afeto”. Ouça aqui.

Manifesto antimaternalista, de Iaconelli, foi resenhado para a Quatro Cinco Um pela jornalista e podcaster Carol Pires na edição #74 da revista dos livros. No texto, ela afirma que “a autora coloca as próprias categorias ‘mulher’ e ‘mãe’ em discussão” e também traz para o debate a busca dos homens e mulheres transgênero ou não binários pelo “seu lugar de reconhecimento no universo parental”. Leia a íntegra da resenha.

Ainda sobre a diversidade de gêneros, a própria Iaconelli escreveu sobre o filósofo trans Paul B. Preciado, que para ela faz de seus livros uma bússola ética para os humilhados e ofendidos de nosso tempo. O texto fez parte do especial “Livros e Livres”, sobre literatura LGBTQIA+, publicado em 2024 na edição #77

No ano anterior, Iaconelli participou junto com o poeta Fabrício Corsaletti do 90º episódio do 451 MHz, em que conversaram sobre a obra do cineasta espanhol Pedro Almodóvar e como as mulheres aparecem como personagens centrais, do mesmo modo que o desejo e a maternidade, nos filmes do diretor.

O melhor da literatura LGBTQIA+

Este novo episódio do 451 MHz traz ainda uma dica literária da escritora e psicanalista Elisama Santos. Ela é autora dos romances Ensaios de despedida (2025) e Mesmo rio (2024), que saíram pela Record. Também escreveu os best-sellers Educação não violenta (2019), Por que gritamos (2020), Conversas corajosas (2021) e Vamos conversar (2023), todos publicados pela Paz & Terra. 

Para os ouvintes do podcast dos livros, ela indica Corpo desfeito (Alfaguara, 2022), romance de estreia de Jarid Arraes. “Tudo que ela escreve é incrível. Corpo desfeito é um livro que dói na alma. Ela tem uma capacidade de falar de coisas doloridas com uma beleza única”, recomenda. 

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Mariana Franco
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Para falar com a equipe: [email protected]