A Feira do Livro,

Vera Iaconelli e Geni Núñez desconstroem senso comum sobre maternidade, cuidado e gênero

Em mesa lotada na manhã de domingo, a psicanalista e escritora e a psicóloga, poeta e ativista indígena falaram sobre a crise do cuidado e a imposição da monogamia pelos colonizadores

07jul2024 - 15h22
São Paulo, 06/07/2024 - Vera Iaconelli, Geni Núñez e Martha Nowill nA Feira do Livro 2024. (Filipe Redondo / Divulgação)

O público d’A Feira do Livro acordou cedo neste domingo (7) para acompanhar o papo entre a psicanalista e escritora Vera Iaconelli e a psicóloga e ativista indígena Geni Núñez, na mesa “Formas de afeto”, mediada pela atriz e roteirista Martha Nowill. Pouco antes das 10h, o público já lotava o Palco da Praça para a conversa, que girou em torno de outras perspectivas para temas muito enraizados no senso comum, como trabalho de cuidado, maternidade, gênero e monogamia. Depois do debate, as autoras deram autógrafos por uma hora e meia para dar conta da longa fila de fãs.

Retomando o trabalho que faz em seu livro Manifesto antimaternalista: psicanálise e políticas da reprodução (Zahar, 2023), de retraçar as origens históricas da ideologia que atrela as mulheres ao papel de cuidadoras, Iaconelli apontou que estamos vivendo um “colapso do cuidado”.

Vera Iaconelli (Filipe Redondo)

“Eu me deparei com essa questão da maternidade — uma ideologia que começa na virada do século 19 para o 20, e que a gente reconhece no nosso dia a dia — que faz crer que as próximas gerações são de inteira responsabilidade das mulheres. Não só isso, o maternalismo faz supor que a mulher é sobretudo mãe, e não só dos seus filhos, do marido, dos pais envelhecidos, dos amigos. A gente tem um lugar de pessoa que está sempre disponível pro outro”, afirmou a psicanalista.

Cuidado e interdependência

Recapitulando os violentos processos de subjugação das mulheres a esse lugar de cuidadoras não remuneradas, do qual o capitalismo depende para se desenvolver, como a caça às bruxas, Iaconelli explicou a situação atual.

“Chegamos num momento em que as mulheres realmente compram a ideia de que ser mulher é ser mãe, é ser cuidadora. E elas vão entrando numa lógica neoliberal de achar que dá pra ser CEO e ainda ser essa cuidadora. Então chegamos num colapso do cuidado”, apontou. “Temos crianças cuidando de outras crianças porque os responsáveis por elas estão cuidando de crianças de outras classes.”

Núñez, que é autora de Descolonizando afetos: experimentações sobre outras formas de amar (Paidós, 2023), trouxe a questão do cuidado para outra perspectiva, a da interdependência. “A interdependência nos constitui, a gente vai precisar de colo, cuidado, amparo ao longo de toda a nossa vida. É claro que algumas pessoas vão precisar mais, mas é algo que constitui a vida”, disse. “A saúde está em quanto esse cuidado é compartilhado, circula.”

Para exemplificar essa ideia do ponto de vista guarani, em que as relações de parentesco se dão não só entre pessoas, mas também com a terra, os rios, os bichos, ela apresentou uma história que lhe foi narrada por uma cacica de Santa Catarina. “Lá faz frio, né? Ela me contou que, bem cedinho, as crianças vão tomar banho no rio, e acordam com aquela água gelada. Mas o rio também acorda com as crianças.”

Geni Núñez (Filipe Redondo)

Tratando de suas pesquisas sobre não monogamia, Núñez relatou que recebe muitas mensagens de pessoas que dizem que não têm tempo de ter mais de uma relação, porque uma só já exaure muito. “Existem várias pesquisas que mostram que ser mulher, heterossexual, esposa, mãe rende oito horas a mais de trabalho por dia. Então é claro que exaure, não sobra tempo para se divertir, para o prazer.”

Ela lembrou então dos dois sentidos da palavra “vagabunda” quando usada como xingamento contra mulheres. “É aquela que não trabalha e aquela que teria uma performance sexual não hegemônica. Além de não trabalhar, ainda usa o tempo para o seu prazer.”

Iaconelli trouxe uma opinião semelhante sobre a associação entre ser mulher e ser mãe. “Até a sexualidade tem que estar a serviço disso – a mulher pode sair cinquenta horas para trabalhar, mas não pode sair no fim de semana com as amigas porque vai deixar os filhos sozinhos em casa.”

No entanto, para a psicanalista, é preciso ir além de repensar a divisão de gênero do cuidado. “A questão é pensar a própria ética do cuidado numa sociedade que não pensa no cuidado, que pensa em exploração, em explorarmos uns aos outros para vencer. A questão é transformar o cuidado, que é a posição de menos valor na nossa sociedade, naquilo que tem mais valor. Positivar o trabalho de cuidado como algo de um valor ético acima de qualquer outro é a questão crucial aqui.”

“Temos que pensar de que jeito a interdependência pode acontecer de um jeito benéfico”, concordou Núñez.

Deus e a monogamia

Para Núñez, que tem pesquisado cartas dos jesuítas que vieram ao Brasil para catequizar os indígenas, lidar com questões como essa também passa por fazer uma crítica aos universalismos por trás de diversas concepções, como a de gênero ou a de monogamia.

“Nessas cartas, nossos antepassados eram bichos, e só depois de serem civilizados seriam homens e mulheres. Para ser homem ou mulher, é preciso primeiro ser humano. E, nesse pensamento, a categoria mulher esteve sempre associada a mãe e esposa”, afirmou a psicóloga e poeta.

“O gênero é um atributo civilizatório que distinguiria homens e mulheres. E onde houve ‘homem’ e ‘mulher’, sempre houve desigualdade. Mas não há só homens e mulheres em todos os lugares onde houve gentes neste mundo”, concluiu.

Falando especificamente sobre a construção da ideia de monogamia, ela disse que sentia falta de uma perspectiva indígena sobre a não monogamia. “Parece que estão descobrindo algo novo, mas é algo documentado desde 1500. O primeiro adultério que aparece é o adultério espiritual. Só se pode amar um deus. É a não concomitância que caracteriza essa fidelidade. E é uma fidelidade que, embora se diga que é livre arbítrio, se você desobedecer, você vai pro inferno”, contou.

“Essa ideia de um deus único que exige essa prova de amor pela não concomitância é algo que eu vejo na minha pesquisa, algo que vai perdurando ao longo do tempo. No início, ‘mono’ é um, ‘gamia’, casamento. Era um único casamento para a vida inteira, é sobre o tempo. Hoje a gente vê que a maioria das pessoas adultas não tiveram só um vinculo afetivo-sexual ao longo da vida. Não é mais mono. Mas por que persiste? Minha aposta é de que não é mais mono, mas não pode ser ao mesmo tempo, não pode ser concomitante.”

Núñez contou que, em suas cartas, o padre Manuel da Nóbrega até fez um esforço para entender qual seria o vínculo principal nos modos de se relacionar dos guaranis, mas se decepcionou ao descobrir que o termo usado para as parcerias também poderia se referir aos rios, aos bichos etc.

Iaconelli então brincou: “Não dá muita vergonha ver que nossa grande revolução sexual foi nos anos 60 e 70? A invasão colonial encontrou um povo que tinha uma relação com a sexualidade, a nudez, o corpo, que é muito mais moderna que a nossa.”

Psicanálise e palavra

As duas ainda falaram sobre sua relação com a palavra e, por meio dela, com a psicanálise. “Uma das narrativas do nosso povo é que, quando a pessoa engravida, ela engravida de uma palavra. E a psicologia e a psicanálise têm uma relação com a palavra que admiro muito. Me interessa pensar que outros fins, usos, encantos a palavra pode ter para além da descrição da realidade. Acho que tanto a psicanálise quanto a poesia fazem isso”, afirmou Núñez.

“Estamos condenados à linguagem”, completou Iaconelli. “Na psicanálise a gente trabalha escutando o sujeito num lugar muito privilegiado e maluco. E o grande trabalho não é naquilo que ele fala de modo organizado, preparado, mas onde ele falha, onde escorrega, onde passa vergonha. Você diz sem querer dizer, e isso diz mais de você do que você gostaria.”

Núñez associou a fala de Iaconelli a algo que o filósofo e poeta quilombola Antônio Bispo dos Santos, que foi convidado d’A Feira em 2023, dizia. “É muito especial estar aqui, porque uma das presenças das últimas edições foi o mestre Bispo, que não está mais conosco. E isso que Vera fala sobre o que escapa me lembra de mestre Bispo. Ele dizia: ‘Tudo que é reto mente’. Aquilo que desvia talvez sejam as coisas mais bonitas que nos ocorreram.”

Ainda falando sobre a linguagem, a poeta e psicóloga mencionou a questão do marco temporal – tese de que só têm direito a terras os indígenas que as ocupavam em 1988, quando a Constituição foi promulgada – e explicou como a pergunta “quem é o verdadeiro dono da terra?” não faz sentido para os povos indígenas, que não acreditam que se possa ser dono da terra, de um rio, de outra pessoa.

“A gramática guarani não tem pronomes possessivos. A língua de uma comunidade diz muito sobre como ela vive. A própria língua tenta impor um certo tipo de pensamento. Em guarani, em vez de dizer ‘isso é meu’, dizemos ‘isso está em minha companhia’. É uma relação que não se estabelece por via da posse”, concluiu.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Natalia Engler

É jornalista e pesquisadora de comunicação e gênero.