Repertório 451 MHz,

Zen, tá ligado?

Emicida e o pesquisador Arthur Dantas conversam sobre literatura, rap e espiritualidade no episódio comemorativo dos sete anos do 451 MHz

08jul2026

Está no ar o 203º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Em clima de comemoração pelo aniversário de sete anos do programa, esta edição recebe o rapper Emicida e o jornalista e pesquisador da cultura hip-hop Arthur Dantas, que conversam com o apresentador Paulo Werneck sobre literatura, rap e espiritualidade a partir do álbum Emicida racional volume 2: mesmas cores & mesmos valores, lançado no fim de 2025.

O papo gira em torno das influências do compositor presentes na obra, que incluem o pensamento zen-budista, memórias pessoais e os Racionais MC’s — o álbum é uma releitura de Cores & valores, lançado pelo grupo em 2014. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet. 

Esta é a segunda participação de Emicida — nome artístico de Leandro Roque de Oliveira — no 451 MHz. A primeira foi no episódio #27, em outubro de 2020,  quando ele estrelou a capa da Quatro Cinco Um caracterizado como Gepeto, o criador de Pinóquio. 

No especial Rebentos publicado na pandemia de Covid (e fake news), o compositor reviveu Gepeto

Um dos artistas mais influentes da cultura brasileira contemporânea, o rapper ainda é escritor. Ele publicou os infantis Amoras (2018), E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas (2020), Volta por cima: vocação e trabalho e Conta comigo: estratégias para a redução da pobreza, os últimos dois recém-lançados, em parceria com a economista francesa Esther Duflo, vencedora do Nobel de Economia. Todos saíram pela Companhia das Letrinhas.

Já o pernambucano Arthur Dantas, que também é educador, publicou, em 2021, Racionais MC’s: Sobrevivendo no inferno, que integra a coleção O Livro do Disco, da editora Cobogó.


Capa Racionais MC’s: sobrevivendo no inferno (Cobogó), de Arthur Dantas (Reprodução)

No programa, Emicida conta que o novo álbum mistura memórias da adolescência — quando diz ter sido “salvo” pelos Racionais MC’s — a outras influências musicais, como a do compositor, arranjador e maestro Moacir Santos (1926-2006), e conversas com a mãe, Jacira, morta em julho de 2025.  

“Pensando no disco, se eu tivesse que definir em uma palavra, eu diria que a palavra é zen. Por quê? Tem uma coisa que é muito paradoxal, que é a seguinte: a melhor maneira, e talvez a única, de você lidar com um sentimento aterrador é você olhar ele de frente”, diz. Segundo o rapper, o que o moveu foi encarar a morte da mãe e outros traumas pessoais como fatos, e não como “erros da natureza”. 

O cantor e compositor Emicida (Walter Firmo/Divulgação)

Werneck compara o disco a um livro, por causa da densidade das letras. O rapper diz que já pensou em escrever mais livros, mas entendeu, com ajuda da psicanálise, que sua prioridade é produzir música de qualidade. “Se você faz seu rap com esse apreço, você não precisa ficar fazendo quinze coisas. Eu ponho os livros que eu gostaria de escrever dentro dos discos.”

Sobre as influências literárias do álbum, Emicida menciona a antropóloga norte-americana Marcyliena Morgan (1950-2025), criadora do Arquivo de Hip-Hop da Universidade Harvard, e o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, cujo livro Filosofia do zen-budismo (trad. Lucas Machado, Vozes, 2020) é um dos que aparece na foto da capa. 

Capa do álbum Emicida racional volume 2: mesmas cores & mesmos valores (Reprodução)

Nela, é possível ver a mesa de trabalho do compositor ao lado de uma estante repleta de livros — alguns também estão espalhados pelo chão. No programa, o rapper conta ter começado a montar conscientemente uma biblioteca durante sua residência artística na Universidade de Coimbra, em 2021. “Me cercar de livros foi a coisa mais inteligente que eu pude fazer”, diz.

Zen-budismo 

Voltando ao budismo, Emicida lembra que o pensamento zen o influenciou desde a adolescência. Ele diz que, nos mangás que lia na época, descobriu os koans — pequenas narrativas dessa tradição religiosa que, afirma o rapper, “brincam muito com a necessidade humana de ver sentido em tudo e buscar soluções com a intelectualidade”. Segundo ele, o zen-budismo ensina a “pensar com o coração”. 

“Está todo mundo maravilhado com as máquinas aprendendo coisas, o que não é necessariamente aprendizado — são máquinas de quebra-cabeça muito rápidas”, diz. “Pensar é outra coisa. Exige uma coisa muito característica de nós [humanos], que é sentir, não calcular.” 

O rapper ressalta que vê a tradição oriental como uma “forma de manutenção da espiritualidade”, que pode ser interpretada como religião, filosofia ou estilo de vida. Esses caminhos, diz, não são excludentes e abrem espaço, inclusive, para outras correntes religiosas, como o candomblé e o cristianismo, que têm contribuições a dar a depender da situação.  

Pluralidade 

Na conversa, Emicida ainda fala sobre ter se tornado uma referência para a comunidade negra, especialmente nos ambientes universitários. Questionado por Dantas sobre a quantidade de trabalhos acadêmicos sobre sua obra, o rapper diz considerar isso um reflexo da maior pluralidade nos meios intelectuais. 

“Eu acho que é o retrato maravilhoso de como a nossa rapaziada — a rapaziada preta — tem não só ocupado o ambiente universitário, como produzido conhecimento a respeito de seus amores, seus sonhos, seus desejos de transformação.”

Ele ainda ressalta que oportunidades transformam vidas. “Tudo isso aqui é sobre oportunidades. Eu tive a oportunidade de ir para uma biblioteca. Eu tive a oportunidade de abrir um livro certo no momento em que eu necessitava da ideia certa.”

Livro Marcador 

O episódio tem a estreia de um novo quadro do 451 MHz: o Livro Marcador. Nele, os ouvintes podem descobrir quais livros marcaram a vida de escritores e outras personalidades da cultura e das artes. Quem inaugura o bloco é Gregorio Duvivier, que destacou Matilda, de Roald Dahl, como livro que marcou sua infância. 

“Quando eu era pequeno, amava e me identificava com ela [a personagem Matilda] porque eu era apaixonado por livros e era meio ‘excluidinho’ — assim, a dificuldade de lidar com as pessoas. Me ajudaram muito a atravessar a infância o Matilda e todos os livros do Roald Dahl — eu sou apaixonado por ele. Todos — o James e o pêssego gigante era incrível, A fantástica fábrica de chocolate… Está aí alguém que escreveu para a infância com graça e humor, com respeito à criança”, diz. 

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]