Festival literário,
Flip equilibra a seriedade e a graça da literatura
Mais cheia e de volta a julho, edição tratou do genocídio em Gaza e da crise ambiental, além do humor e do poder da imaginação e da linguagem
04ago2025 • Atualizado em: 24fev2026Com uma programação que equilibrou a seriedade e a graça da literatura, a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) — que aconteceu entre 30 de julho e 3 de agosto, voltando a ser realizada em julho — teve ruas cheias, mesas esgotadas e grandes nomes internacionais, como Rosa Montero, Sandro Veronesi e Ricardo Araújo Pereira. Segundo a estimativa da Secretaria de Turismo de Paraty, 34 mil pessoas circularam ao longo dos cinco dias do festival — 10% mais que em 2024.
Com curadoria de Ana Lima Cecilio, a programação tratou tanto de temas difíceis e urgentes, como o genocídio em Gaza, a crise ambiental e o abuso doméstico, quanto de humor e do poder da imaginação e da linguagem literária. Ao mencionar a mescla de tensão e distensão entre os assuntos tratados, a curadora disse que a Flip deste ano foi uma espécie de versão da ideia de “caprichos e relaxos”, título de um dos livros mais famosos de Paulo Leminski, o autor homenageado desta edição.
O espírito leminskiano se estendeu às várias mesas com poetas, como Alice Ruiz, Marília Garcia, Fabrício Corsaletti, Lilian Sais, Mar Becker, Sérgio Vaz, Luís Perequê e Claudia Roquette-Pinto, e o novo espaço também com curadoria de Cecilio dedicado à poesia, chamado justamente Palco Caprichos & Relaxos, onde breves performances ocorriam durante o dia.
Em um clima relaxado, como uma conversa entre amigos, o compositor e poeta Arnaldo Antunes abriu a programação, na noite de quarta (30), lembrando as múltiplas facetas do autor homenageado, amigo e, em diversas ocasiões, parceiro do compositor. Antunes leu trechos de poemas e textos de Leminski, mostrou manuscritos e encerrou a apresentação recitando — e, para alegria dos fãs, também cantando — “Luzes”, poema de Leminski que gravou.
Guerra e paz
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Em um ambiente bem distante das tensões que vem enfrentado em Brasília, a ministra Marina Silva subiu ao palco da Flip na noite da sexta (1º) em meio a muitos aplausos. Numa das mesas mais disputadas da 23ª Flip, a plateia, que enfrentou longas filas e detectores de metais na entrada do auditório — como ocorreu no encontro com Ilan Pappe —, a recebeu de pé, aos gritos de “Marina”.
Na conversa mediada pela jornalista Aline Midlej, Marina defendeu que a guerra tarifária promovida por Donald Trump reforça a importância de políticas ambientais. A ministra do Meio Ambiente e Mudança Climática, que foi analfabeta até os dezesseis anos, também se emocionou e comoveu o público ao relembrar o primeiro contato com a literatura de cordel na infância e ao abraçar no palco Alessandra Sampaio, viúva do jornalista britânico Dom Phillips, que foi assassinado junto com o indigenista Bruno Pereira no Vale do Javari, em 2022.
Em outra mesa política — a mais política da Flip —, o historiador israelense Ilan Pappe falou sobre as razões históricas dos ataques do Hamas e da política de extermínio de Israel. Pappe sublinhou a importância de entendermos o contexto histórico para falarmos tanto do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 quanto do atual genocídio e afirmou que a criação de um Estado judeu foi um projeto europeu e que os palestinos pagam preço do antissemitismo europeu.
O historiador contou ter havido pressão para impedir sua vinda a Paraty. Segundo Cecilio, que afirmou ter tido total liberdade para a escolha dos convidados, a mesa sobre o tema foi algo imperativo quando o mundo “assiste um território ser dizimado por uma política de Estado”.
A situação humanitária em Gaza já havia sido mencionada no palco do festival na quinta (31), pelo rapper e escritor franco-ruandês Gaël Faye. Ao comentar sobre como as palavras podem interferir na realidade, o escritor comparou o conflito em Gaza com o genocídio em Ruanda em 1994, tema de seu novo livro Jacarandá (Editora 34).
“Hoje vemos políticos que falam das pessoas em Gaza como animais, as palavras podem ser usadas para justificar genocídios”, disse, muito aplaudido pela plateia. Na mesa com o marfinense GauZ’, autor de De pé, tá pago (Ercolano), os dois trataram ainda de colonialidade e imigração ao relembrar experiências como imigrantes na França.
Educar a tristeza
Além de ter voltado a ser realizada em julho, esta edição da Flip retomou convidados de outras edições da festa e grandes nomes da literatura internacional. Depois de catorze anos, Valter Hugo Mãe desembarcou na Flip para falar sobre a adaptação para as telas de seu romance O filho de mil homens, que estreia em breve na Netflix, e seu mais recente lançamento, Educação da tristeza (Biblioteca Azul), no qual reúne reflexões sobre vida e morte a partir da perda do seu sobrinho e de uma de suas melhores amigas.
Apesar do tema ser o luto, o que se ouviu foram muitas risadas. Bem-humorado, o escritor português divertiu a plateia fazendo piada sobre a própria aparência, os “desavergonhados” convites que recebeu para casar e sua relação com o Brasil. Hugo Mãe disse que a “educação da tristeza” do novo título trata exatamente de não deixar o luto se sobrepor à felicidade de uma vida. “Não estou interessado em transformar meu patrimônio, minha escrita, em tristeza. Meus mortos vão ser muita felicidade em minha vida sempre”, disse, muito aplaudido.
A escrita como forma de expressar o indizível foi também tema na mesa “Tristes tramas”, que reuniu a jornalista e escritora portuguesa Anabela Mota Ribeiro e a francesa Neige Sinno. Autora de Triste tigre (Amarcord), em que narra o período de sete anos em que sofreu contínuos estupros do padrasto, Sinno contestou a ideia de que seu livro seja um mero relato da violência. “Sei que é difícil para todos nós, mas é um tema que diz respeito a todo mundo. Uma em cada dez pessoas na França e no Brasil é violentada dentro da família”, disse.
Anabela Mota Ribeiro também comoveu o público e fez do íntimo universal ao compartilhar a história que narra em O quarto do bebê (Bazar do Tempo), de uma personagem que lida com a descoberta de um câncer durante a pandemia — experiência que também viveu. Entre ler passagens do romance e cantar Roberto Carlos, a portuguesa trouxe a política de volta ao palco. “Bolsonaro e Trump deveriam ser julgados por crimes de guerra e são dois vermes”, disse, muito aplaudida pela plateia, após ler trecho em que lembrava a condução dos dois presidentes durante a pandemia.
Rindo do português
Lembrando a todos que toda boa festa precisa ter graça, a 23ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty também caprichou na diversão, com dois dos maiores humoristas da língua portuguesa em atividade tomando o palco nas noites de sexta e sábado.
“Somos mesmo o país do jeitinho”, disse Gregorio Duvivier para uma plateia lotada nos auditórios da Matriz e da Praça na noite de sexta (1º). Numa versão de bolso do seu monólogo O céu da língua, o ator e humorista desfiou histórias sobre as origens e singularidades do nosso português.
Enquanto projetava palavras e frases num telão, foi do escracho ao sublime, ao recitar Paulo Leminski, questionar o sentido de canções e de expressões populares que usamos sem nos dar conta do quanto são absurdas, como os muitos usos da palavra “jeito”. “É possível dizer em português ‘eu preciso dar um jeito no meu joelho que deu um mau jeito’”, brincou.
No mesmo tom, a mesa “Roçar a língua de Camões”, no sábado (2), fez o público gargalhar com o encontro do autor e humorista português Ricardo Araújo Pereira, que está lançando Coisa que não edifica nem destrói (Tinta-da-China Brasil), com o escritor e tradutor curitibano Caetano W. Galindo, autor de Na ponta da língua: nosso português da cabeça aos pés (Companhia das Letras). Os dois riram e também falaram sério sobre fake news, IA, política e coisas minúsculas do cotidiano.
Celebração da literatura
Um dos grandes destaques internacionais, a espanhola Rosa Montero falou sobre escrita sem sofrimento e literatura como salvação. Programada para um dos horários mais nobres da festa, o início da noite de sábado (2), a escritora de 74 anos — que tinha participado da 2ª edição da Flip, em 2004 — confirmou seu posto como uma das mais queridas autoras em Paraty.
Não bastassem os ingressos para sua mesa esgotados em menos de uma hora após a abertura das vendas, Montero passou mais de quatro horas autografando livros depois do encontro no palco da Flip. Na mesa, mediada por Paulo Roberto Pires, colunista da Quatro Cinco Um, a autora de O perigo de estar lúcida e A ridícula ideia de nunca mais te ver, ambos publicados pela Todavia, falou sobre a relação entre loucura e criação literária.
“O que chamamos de loucura é uma ruptura da narrativa comum, uma sensação de solidão brutal que não cabe na palavra ‘solidão’. Escrever e publicar ficção e ter alguém que leia é estruturante”, disse.
Outra estrela internacional, o italiano Sandro Veronesi, conversou com o brasileiro Pedro Guerra em uma mesa mediada pela jornalista Gabriela Mayer que abordou o lado extraordinário das vidas ordinárias. Os escritores falaram sobre sobre o uso da linguagem para tracionar o tempo e prender a atenção do leitor, a beleza de retratar a vida comum e o tempo histórico, e sobre como transformam a experiência pessoal em escrita literária.
“Eu faço o contrário da autoficção, faço autoimaginação”, resumiu Veronesi, para quem a literatura, mais do que ser um campo de luta pela verdade, é a verdade em si.
Flip 2025
A 23ª Flip aconteceu de 30 de julho a 3 de agosto e homenageou o poeta curitibano Paulo Leminski. A edição de 2025 reuniu trinta e seis autores convidados na programação principal. Entre os escritores e escritoras da Festa Literária Internacional de Paraty estavam Arnaldo Antunes, Caetano Galindo, Gregorio Duvivier, Gaël Faye, Cristina Rivera Garza, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Ricardo Araújo Pereira, Ilan Pappe, Giovana Madalosso, Astrid Roemer, Sandro Veronesi, Marina Silva, Neige Sinno, Liv Strömquist e GauZ’. Leia mais sobre a Flip 2025.
CORREÇÃO > Uma versão anterior desse texto afirmava incorretamente que o Palco Caprichos & Relaxos teve curadoria de Bruna Beber, mas a curadora do espaço foi Ana Lima Cecilio. A informação foi corrigida. Uma versão anterior desse texto fazia menção ao Vale do Jaguari, mas o local correto é o Vale do Javari. A informação foi corrigida.
