O escritor italiano Sandro Veronesi (Flip/Divulgação)

FLIP 2025,

‘Faço o contrário da autoficção, faço autoimaginação’, diz Sandro Veronesi

O escritor italiano conversou com o brasileiro Pedro Guerra sobre a vida extraordinária das pessoas comuns e o que move os ‘heróis ordinários’

01ago2025

O premiado escritor italiano Sandro Veronesi e o brasileiro Pedro Guerra discutiram o lado extraordinário da vida das pessoas comuns — e como isso aparece em seus escritos — na noite desta quinta (31), o segundo dia da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em mesa mediada pela jornalista e crítica literária Gabriela Mayer. 

Ao entrar no palco principal do evento, o italiano, autor de O colibri (2024) e Setembro negro (2025), ambos traduzidos por Karina Jannini e publicados no Brasil pela Autêntica Contemporânea, sacou o celular para tirar uma foto da plateia lotada. 

Antes de começarem a conversa, os escritores leram trechos de seus livros: a cena irônica e divertida de um advogado que teve um burnout e resolve fazer comédia stand-up, descrita em O maior ser humano vivo (Record), de Guerra; e o êxtase de um adolescente com uma música de Harry Belafonte, tocada em um disco de vinil em Setembro negro e reproduzida nas caixas de som da tenda em Paraty. 

“A extraordinária vida comum”, nome da mesa, é o que interessa a Veronesi em sua ficção. “Antes, a literatura era dos grandes heróis, reis, deuses. No século 20, passou a ser das pessoas comuns”, disse o escritor, para quem o heroísmo das pessoas ordinárias é representado por uma frase do dramaturgo irlandês Samuel Beckett: “Não posso continuar. Continuarei”. 

Para Guerra, as motivações do “herói ordinário” são comuns a muitas pessoas, como o próprio anti-herói protagonista de O maior ser humano vivo. “A gente gosta de ser amado, de amar, de vencer na vida”, enumerou. 

Tração

Os escritores ainda discorreram sobre o uso da linguagem para acelerar e desacelerar o tempo em seus romances. “Não me preocupo com aceleração, me preocupo com a tração”, afirmou Veronesi. “O romance é uma das convenções mais poderosas, o leitor tem que acreditar nos personagens e acreditar que vale a pena ler o livro. Uso vários tempos para controlar isso.” Para o italiano, o tempo está relacionado às emoções e “as únicas emoções reais do livro são as do leitor”.

Guerra contou ter usado o humor para desacelerar tanto a escrita “quase psicótica” da primeira parte do seu livro quanto o personagem principal depois do episódio do burnout. “Não é autoficção, mas tem coisas minhas. Principalmente a parte do piripaque é baseada em mim”, contou.

“Eu faço o contrário da autoficção, faço autoimaginação”, disse Veronesi, citando de cabeça o poeta italiano Milo de Angelis. “Ele disse algo assim: ‘se me pedissem de volta o que não é meu, não me sobraria mais nada’”.

A quase obrigação do escritor de representar seu tempo histórico foi outro tópico da conversa. “O Sandro [Veronesi] escreve isso de forma cristalina. Eu sou meio cínico, irônico, talvez até demais. O personagem sofre com esse espírito do tempo massacrante que faz as pessoas sacrificarem a própria vida para ter sucesso”, disse Guerra. 

Psicanálise

Em Setembro negro, Veronesi, além de retratar uma época específica da história recente (o início dos anos 70), trata de temas como a psicanálise, por meio de um protagonista cético em relação à prática — um personagem totalmente diferente do autor, que afirmou ser adepto da psicanálise. 

“No nosso mundo, a psicanálise tomou o lugar da filosofia, que até o século 19 inspirava e preenchia as páginas dos livros. Quando a psicanálise chegou, colocou aquela faísca enlouquecida que é o ‘eu’ de cada um. Como pode ser ordinária uma pessoa que tem ego, id, todo este universo dentro de si?”, questionou. 

Pedro Guerra, Sandro Veronesi e Gabriela Mayer na Festa Literária Internacional de Paraty – Flip 2025 (Flip/Divulgação)

Finalizando a mesa, os escritores responderam duas perguntas da mediadora com concisão e força quase literárias. À pergunta sobre a literatura ser um campo de luta pela verdade, Veronesi respondeu: “É a verdade”. E se lutamos para que a literatura não capitule, Guerra resumiu: “Sim. É isso que a gente faz”. 

A 23ª Flip acontece de 30 de julho a 3 de agosto e homenageia o poeta curitibano Paulo Leminski. A edição de 2025 reúne trinta e seis autores convidados na programação principal. Entre os escritores e escritoras da Festa Literária Internacional de Paraty estão Arnaldo Antunes, Caetano Galindo, Gregorio Duvivier, Gaël Faye, Cristina Rivera Garza, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Ricardo Araújo Pereira, Ilan Pappe, Giovana Madalosso, Astrid Roemer, Sandro Veronesi, Marina Silva, Neige Sinno, Liv Strömquist e GauZ’. Leia mais sobre a Flip 2025

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).