FLIP 2025,
Ricardo Araújo Pereira e Caetano W. Galindo divertem Flip falando de fake news, IA e Bolsonaro
O humorista português e o linguista curitibano ainda brincaram sobre nosso idioma e os mitos por trás da origem das palavras
03ago2025“Tenho a responsabilidade de parecer mais inteligente ao lado do maior humorista de Portugal”, disse de saída, admitindo inclusive o próprio nervosismo, o escritor, linguista e tradutor Caetano W. Galindo no início da última mesa deste sábado (2) na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Ao lado dele, o escritor e humorista Ricardo Araújo Pereira já havia procurado relaxar o colega de palco e também o público sobre um possível desconforto com piadas de português.
“Queria começar por garantir a todos que esta língua é a mesma que vocês falam”, disse, depois de contar que, ao apresentar na alfândega brasileira o passaporte onde estava escrito “português”, ouviu do funcionário da imigração um sonoro “Bienvenido!”.
Durante a mesa “Roçar a língua de Camões”, mediada pela também linguista Janaisa Viscardi, tanto Galindo quanto RAP — como é conhecido o português — riram e também falaram sério sobre fake news, IA, política e coisas minúsculas do cotidiano. Este último assunto, por sinal, é a matéria-prima preferida do humorista português. RAP deu um bom exemplo ao lembrar do dia em que acionou o GPS do seu carro e ouviu a pergunta filosófica: “Aceitar destino?”.
“Parecia que eu estava numa peça de Sófocles”, comentou o português, fazendo a plateia gargalhar. “Eu só queria comprar cerveja, mas achei que ia entrar no supermercado e um coro ia cantar sobre mim.”
A pedido da mediadora, ele e Galindo leram trechos de livros um do outro. O autor curitibano leu uma parte de Coisa que não edifica nem destrói, coletânea de RAP adaptada do seu podcast de sucesso de mesmo nome e publicada pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um.
Já RAP leu um trecho de Na ponta da língua: nosso português da cabeça aos pés (Companhia das Letras, 2025), novo livro de Galindo, que passeia pelas particularidades do nosso idioma. O texto lido versava sobre o percurso da palavra “omelete”.
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Ao discutir histórias que já se tornaram mitos sobre a origem de certas palavras, Galindo disse que não há profissional mais habilitado a lidar com fake news do que o linguista. Muitas narrativas sobre a origem de expressões da nossa língua são falsas, segundo o autor — como o “fazer nas coxas”, uma suposta alusão à prática de trabalhadores rurais escravizados de enrolar folhas de tabaco sobre as coxas. “Mas a verdade é menos sensual e crocante do que as versões que contam”, disse.
IA e calvície
A escrita criativa, ou o “pensamento selvagem”, na expressão do autor homenageado do Flip, Paulo Leminski, também foi tema de piadas. RAP disse acessar todos os dias o ChatGTP para checar se a inteligência artificial já tem graça e saber quanto tempo lhe resta de carreira.
O humorista contou ter testado a ferramenta de IA pedindo que lhe sugerisse algo excitante a dizer na cama para seduzir uma mulher. Após muitas respostas bem comportadas que falavam de consentimento e possíveis ofensas, o português declarou, sobre o ChatGPT: “Esse palerma é incapaz de perder a virgindade com uma torradeira das Casas Bahia”.
Até mesmo a calvície dos dois serviu de mote para o bom humor. Segundo RAP, a produção da Flip tinha diminuído a iluminação do palco após a apresentação anterior, da espanhola Rosa Montero, por causa do reflexo na cabeça dos dois. Galindo brincou que nem mesmo seu sotaque de paranaense era engraçado como o do português: “Curitiba é o lugar onde os sotaques vão para morrer”.
O escritor curitibano, que também é professor e dramaturgo, disse que o Brasil precisa fazer as pazes com a singularidade do seu português, marcado pela influência de línguas africanas e indígenas. “Somos os malucos esquisitos da América do Sul que falam português, isso é um presente para nós.”
A política também deu as caras na conversa, após a mediadora ler um trecho de Estar vivo machuca (2022), coletânea de crônicas publicadas por RAP na Folha de S.Paulo, jornal no qual o português é colunista. O texto escolhido tratava do uso da cloroquina, que foi defendido por lideranças como Donald Trump, Nicolás Maduro e Jair Bolsonaro para combater a covid durante a pandemia.
Parafraseando o ex-presidente brasileiro acusado de tentar um golpe de Estado, o humorista português disse que Bolsonaro não deve se preocupar com uma possível condenação, assim como não se preocupou com a covid: “Com seu histórico de atleta, vai ser só uma prisãozinha”.
Flip 2025
A 23ª Flip acontece de 30 de julho a 3 de agosto e homenageia o poeta curitibano Paulo Leminski. A edição de 2025 reúne trinta e seis autores convidados na programação principal. Entre os escritores e escritoras da Festa Literária Internacional de Paraty estão Arnaldo Antunes, Caetano Galindo, Gregorio Duvivier, Gaël Faye, Cristina Rivera Garza, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Ricardo Araújo Pereira, Ilan Pappe, Giovana Madalosso, Astrid Roemer, Sandro Veronesi, Marina Silva, Neige Sinno, Liv Strömquist e GauZ’. Leia mais sobre a Flip 2025.
