Bagagem Literária, Festival literário,
Poesia e química
Segunda edição do festival Poesia no Centro emociona público em conversas sobre como extrair beleza até do horror
19maio2026 • Atualizado em: 20maio2026Entre poemas sobre terremotos, cartas de exílio, sexo, memórias e genocídio, o Festival Poesia no Centro, realizado pela livraria Megafauna, transformou o centro de São Paulo em um território de escuta febril. Durante três dias, autores brasileiros e estrangeiros ocuparam o palco do teatro Cultura Artística para falar de técnica, política, desejo e morte — mas, sobretudo, para lembrar que a poesia ainda é capaz de incendiar plateias com a força dos versos.
Nomes como Raúl Zurita, Eileen Myles, Henrique Marques Samyn e Alice Sant’Anna levaram os espectadores das lágrimas às gargalhadas. Com histórias cotidianas, relatos de dor e declarações apaixonadas, os poetas que fizeram parte da segunda edição do evento pareciam movidos pela mesma pergunta: o que ainda pode caber dentro de um verso?
A mesa “Ninho para Quero-Quero e Sabiá”, com Alice Sant’Anna e Sylvio Fraga e mediação de Luiza Leite, abriu o evento às 18h de sexta-feira com uma conversa sobre a importância de retratar o cotidiano na poesia, ressaltando como buscar beleza no banal faz os autores verem o mundo com outros olhos.
Sant’Anna divertiu a plateia ao contar sobre a vez em que foi ver uma apresentação circense no centro de São Paulo e foi abordada por um dos artistas, que a convidou para passar uma temporada em uma ocupação. Da experiência, nasceu o poema “Dia de Circo”.
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A troca de cartas também virou assunto quando os poetas Alberto Martins, autor de Boris e Marina (Companhia das Letras, 2025) e Paula Abramo, que lança pela Editora 34 Fiat Lux, participaram da conversa “De quem são essas cartas”, mediada pela também poeta Prisca Agustoni.
Martins contou como transformou a correspondência de Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva e Rilke em poesia. Já a mexicana Abramo falou sobre os poemas escritos a partir das cartas enviadas pelo avô Fulvio Abramo nos anos 30 e 40, muitas delas escritas durante o exílio do jornalista.
Amor e cicatrizes
Em uma das mesas mais esperadas, o poeta chileno Raúl Zurita emocionou o público ao falar sobre como as cicatrizes — reais e figurativas — que ganhou ao ser preso e torturado durante a ditadura de Augusto Pinochet influenciaram sua produção. Os mediadores Francesca Cricelli e Joca Reiners Terron abriram a mesa com leituras de poemas de Zurita. Cricelli organizou, com Ana Rüsche, a primeira antologia do chileno publicada no Brasil, Sua vida quebrando-se (Círculo de Poemas, 2026).
Com a experiência dos seus 75 anos e o corpo curvado pela idade, Zurita falou sobre a finitude em uma conversa salpicada por frases aplaudidas em pé, como “Todo amor é urgente, porque vamos morrer” ou “O grito é a primeira aproximação com a morte”. Questionado se todo chileno é poeta, ele refletiu que seus versos podem ter alguma relação com a paisagem, lembrando da proximidade do Chile com os Andes e da ocorrência frequente de terremotos no país.
Seguindo na mesma toada de transformar até o horror em arte, o carioca Henrique Marques Samyn falou sobre como sua poesia é atravessada pelo racismo brasileiro e o genocídio contra o povo preto no Rio de Janeiro na mesa “A alvenaria do mundo”.
“Como arrancar beleza do horror? Tive que parar minha série de sonetos sobre o genocídio negro no Rio de Janeiro, ou ela seria infinita”, disse em uma conversa com o também poeta e imortal da Academia Brasileira de Letras Paulo Henriques Britto, mediada por Paulo Werneck.
Como formar novos poetas e a subversão das regras também foram temas da conversa entre os dois autores, que também são professores universitários. “O que eu ensino pro aluno é a técnica, a inspiração é questão dele”, disse Britto, professor de letras na PUC-RJ. “Você só pode subverter se conhece bem as regras.”
A quebra das regras e métricas foi assunto ainda da mesa composta por Guilherme Gontijo Flores e a portuguesa Tatiana Faia, que falaram sobre a influência dos clássicos em sua poesia. Os dois já traduziram para o português autores como Horácio, Homero e Safo.
Faia lança no Brasil Adriano (Editora 34), que narra o amor trágico entre o imperador romano e o jovem grego Antínoo; Gontijo Flores lançou, em 2025, Panapaná (Ars et Vita). Além de ler trechos dos seus livros mais recentes, eles conversaram sobre a releitura e recriação que trazem os cânones para a contemporaneidade, mediados pelo também poeta Dirceu Villa.
Desejo
Outro importante tema da experiência humana explorado no festival foi o desejo. A poeta norte-americana Eileen Myles, autora de, entre outros títulos, Chelsea Girls (Todavia, 2019), falou sobre inspiração, política e sexualidade. Atração de abertura do festival, que acabou adiada por problemas com o voo que a traria ao Brasil, Myles tomou o palco do Poesia no Centro com sua poesia enérgica, afiada, declamada de pé enquanto espalhava folhas com versos pelo chão.
Na conversa mediada pela jornalista Fernanda Mena e a poeta Angélica Freitas, Myles provocou muitas risadas da plateia ao falar sem rodeios sobre o peso do sexo em sua obra e recebeu aplausos ao criticar, em diversos momentos, o governo Trump. Também emocionou o público ao falar sobre a perseguição a pessoas queer como ela e da centralidade da poesia em sua vida. “A poesia sempre me deu um lugar no mundo”, disse. “Enquanto a prosa é império, a poesia é encantamento.”
O desejo como impulso criativo continuou em evidência na mesa “O que quer esta língua?”, que inspirou discussões metafóricas e concretas entre Flora Lahuerta e Ricardo Domeneck, autores brasileiros que vivem fora do Brasil e pesquisam a poesia erótica e homoerótica.
Os dois abriram a apresentação lendo poemas de seus lançamentos recentes: Língua solta (Uruatu, 2023), de Lahuerta, e Memorando: Maximin (Ercolano, 2025), de e A cidadania das bonecas de pano (Ars et Vita, 2026).
Provocados pelo mediador, o editor Schneider Carpeggiani, ambos disseram considerar ficção tudo aquilo que colocam no papel, mesmo quando o material literário são suas experiências. “Os musos são reais e fictícios ao mesmo tempo”, disse Lahuerta.
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