FLIP 2025,
Ovacionada na Flip, Marina Silva se emociona ao lembrar de analfabetismo na infância
Em mesa disputada, a ministra disse que a guerra tarifária promovida pelos EUA reforça a importância de políticas ambientais
02ago2025Em um ambiente bem distante das tensões recentes que enfrentou em Brasília, onde chegou a se retirar, no fim de maio, de uma sessão na Câmara dos Deputados por se sentir desrespeitada por parlamentares de oposição, a ministra Marina Silva subiu ao palco da Flip na noite desta sexta (1º) em meio a muitos aplausos. Numa das mesas mais disputadas da 23ª Festa Literária Internacional de Paraty, a plateia, que enfrentou longas filas e detectores de metais na entrada do auditório — como ocorreu no encontro com Ilan Pappe —, a recebeu de pé, gritando “Marina”.
Na conversa, mediada pela jornalista Aline Midlej, âncora da GloboNews, a ministra do Meio Ambiente e Mudança Climática se emocionou algumas vezes e falou sobre as dificuldades que vem enfrentando na política. Nos últimos meses, a pasta comandada por ela teve reveses em temas como a exploração de petróleo na margem equatorial da Amazônia e a aprovação do chamado “PL da Devastação”, projeto que flexibiliza o licenciamento ambiental e foi aprovado na Câmara — o presidente Lula tem até o dia 8 de agosto para vetá-lo.
“O licenciamento ambiental é a principal vértebra da proteção ambiental no Brasil. Não consigo ver como conseguiremos alcançar as metas [climáticas] se o licenciamento for mutilado como está sendo na forma como o PL foi aprovado no Congresso”, disse Marina.
Segundo a ministra, a flexibilização do licenciamento ambiental é ruim mesmo para os interesses comerciais do Brasil, ao contrário do que dizem os defensores do projeto. Ela argumentou que o país ampliou os mercados para a agricultura nos últimos anos graças à redução do desmatamento e ao cumprimento de leis ambientais. A conclusão, afirmou, é que não é preciso destruir os biomas para promover o desenvolvimento, argumento que chamou de “pedagogia do prejuízo”.
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Questionada pela mediadora se Lula deve vetar parcial ou integralmente o projeto, Marina disse que as medidas estão sendo estudadas, e sublinhou que qualquer decisão será tomada em diálogo com o Congresso. “Na democracia é assim”, disse.
A ministra também admitiu as dificuldades para a realização da COP 30, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, em Belém este ano. “A COP acontece em um contexto geopolítico desafiador, em que a maior potência bélica e econômica sai do acordo [de Paris] e decide apoiar guerras bélicas e fazer guerras tarifárias”, declarou, sem mencionar diretamente o presidente dos Estados Unidos Donald Trump.
Marina também refutou a ideia de que as conferências sobre o clima não estão alcançando seus objetivos nos últimos anos, diante de um cenário de ascensão de governos de extrema direita e negacionistas. A ministra disse que a China se tornou o maior exportador de transição energética do planeta em função das convenções.
Literatura de cordel
Ao falar sobre como a literatura entrou na sua vida, a ministra, que foi analfabeta até os dezesseis anos, ficou emocionada ao relembrar a infância. Ela contou que a avó, também analfabeta, decorava livretos de literatura de cordel e recitava para ela. Num deles, um desafio entre poetas era vencido pelo que sabia ler. “Falei para minha avó: eu não quero ser analfabeta”, disse, com a voz embargada.
Outro momento emocionante aconteceu quando Midlej convidou ao palco Alessandra Sampaio, viúva do jornalista britânico Dom Phillips, que foi assassinado junto com o indigenista Bruno Pereira no Vale do Jaguari, em 2022. Ela deu a Marina um exemplar de Como salvar a Amazônia: uma busca mortal por respostas (Companhia das Letras, 2025), livro póstumo de Phillips concluído por amigos e colaboradores. No palco, as duas se abraçaram.
A ministra lembrou que o Brasil é um dos países onde mais se mata ativistas ambientais, citando, além da morte de Phillips e Pereira, a de Chico Mendes e a da missionária Dorothy Stang. Marina se comoveu ao lembrar da sua convivência com Mendes, ambientalista que definiu como seu “mestre amigo” e que foi assassinado em 1988 no Acre. Ela relatou o último encontro dos dois, quando, em suas palavras, ele teria dito que não deixaria o Acre e seus companheiros ambientalistas, mesmo diante das ameaças de morte que vinha sofrendo. “Dessa vez não vai ter jeito, os cabras vão me pegar”, disse Mendes, segundo a ministra.
Além de Chico Mendes, Marina citou os filósofos franceses Edgar Morin e Gilles Deleuze, além de brasileiros como Marilena Chaui, Florestan Fernandes, Lula, Eduardo Suplicy, Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis entre suas referências intelectuais. Contou ter cogitado fazer uma formação em psicanálise no passado, ideia abandonada em nome da política, e apontou os deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que estavam na plateia, como exemplos de políticos que “tentam fazer utopias se tornarem reais”.
A ministra reforçou, no entanto, que é preciso trabalhar para que a política não precise de figuras heroicas. “Quando todo mundo for um ativista do clima, da biodiversidade, não precisaremos de heróis. Nosso papel é fazer do extraordinário, ordinário”, disse. Aplaudida de pé longamente ao final da mesa, ela ergueu o punho em sinal de resistência, gesto que costuma repetir em suas aparições públicas.
Flip 2025
A 23ª Flip acontece de 30 de julho a 3 de agosto e homenageia o poeta curitibano Paulo Leminski. A edição de 2025 reúne trinta e seis autores convidados na programação principal. Entre os escritores e escritoras da Festa Literária Internacional de Paraty estão Arnaldo Antunes, Caetano Galindo, Gregorio Duvivier, Gaël Faye, Cristina Rivera Garza, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Ricardo Araújo Pereira, Ilan Pappe, Giovana Madalosso, Astrid Roemer, Sandro Veronesi, Marina Silva, Neige Sinno, Liv Strömquist e GauZ’. Leia mais sobre a Flip 2025.
