FLIP 2025,
‘Meus mortos vão ser muita felicidade em minha vida sempre’, diz Valter Hugo Mãe
De volta à Flip para lançar Educação da tristeza, escritor português fez o público rir mesmo falando sobre o luto
01ago2025 • Atualizado em: 03ago2025Valter Hugo Mãe desembarcou na Flip para falar sobre a adaptação para as telas de seu romance O filho de mil homens, que estreia em breve na Netflix, e seu mais recente lançamento, Educação da tristeza (Biblioteca Azul), no qual reúne reflexões sobre vida e morte a partir da perda do seu sobrinho Eduardo e da artista plástica Isabel Lhano, uma de suas melhores amigas. Mas quem chegasse em Paraty na tarde desta sexta (1º) e ouvisse as risadas na plateia que acompanhou sua mesa poderia imaginar tudo menos uma conversa sobre o luto.
Bem-humorado, o escritor português começou a fazer piada já durante a sua apresentação, feita pelo mediador, o jornalista Walter Porto. Ao ouvir que teria até recusado pedidos de casamento após sua primeira passagem pela festa literária, em 2011, Hugo Mãe questionou: “Quem foi que te disse que eu recusei? Eu continuo encalhado até hoje.”
Seguiram-se, no mesmo tom, mais brincadeiras: sobre a própria aparência ao se olhar no monitor do palco (“Estou muito gordo e essas imagens ficam perpétuas”), sobre os “desavergonhados” convites para casar e sobre o escritor não aceitar os elogios da plateia (“Se eu tirar a camisa, a maior parte das vezes o povo foge”).
O mediador, então, tentou mudar o rumo da conversa, iniciada com uma pergunta sobre o que o autor de 53 anos teria aprendido com as duas mortes tão próximas, tema do seu novo livro.
Sem titubear, Hugo Mãe disse que a “educação da tristeza” do título trata exatamente de não deixar esse luto se sobrepor à felicidade que foi a convivência com Isabel e Eduardo. “Não estou interessado em transformar meu patrimônio, minha escrita, em tristeza. Meus mortos vão ser muita felicidade em minha vida sempre”, disse, muito aplaudido.
O escritor descreveu a felicidade que foi ter convivido com Isabel Lhano. A amiga, “uma punk de setenta anos e cabelo vermelho”, com quem nutriu uma amizade de trinta anos, era a pessoa mais carismática que conheceu — “até mais carismática que Elza Soares”, com quem Hugo Mãe disse que queria ter tido filhos.
Educar a tristeza
Já o sobrinho Eduardo, que morreu de um tipo incurável de câncer quando estava perto de completar dezessete anos, “conheceu mais a vida que muita gente”, afirmou. O escritor contou como, mesmo diante do diagnóstico da doença e da dor da família, o adolescente encarou tudo com naturalidade. “Não é uma questão de justiça, é um acaso”, dizia para consolar o tio.
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Ali, enquanto tentava se manter firme diante da família e poupar sua mãe — a avó de Eduardo — por temer que ela pudesse sofrer um ataque cardíaco, Hugo Mãe disse ter descoberto uma forma de “educar a tristeza”.
Inspirado, o escritor não abandonou o bom-humor nem quando relembrou os primeiros anos de convivência com o sobrinho. Eduardo, afirmou, era uma criança diferente das outras, calma, com quem era possível conversar. Hugo Mãe também disse ter mudado muito ao longo dos anos e que gostaria de ter tido filhos, mas que só sonhou “coisas erradas”.
“Acho que não sei fazer filhos direito”, brincou. “Isso dos filhos devia ser uma coisa mais fácil, não só gostosa. Devia ter um lugar em que se pega um filho depois de apresentar as credenciais, não ter antecedentes criminais.”
Adaptação
Outro motivo que trouxe o escritor português novamente ao Brasil, a adaptação cinematográfica de O filho de mil homens (Biblioteca Azul, 2016), feita pelo diretor Daniel Rezende para a Netflix, pode superar o livro no qual se inspirou, ao menos segundo o escritor.
“Vi há dois dias e amei. Hoje já não estou gostando muito. É possível que seja melhor que o livro”, brincou Hugo Mãe, que disse só conhecer até hoje um único caso de adaptação para as telas melhor que o livro que a inspirou, o longa Coração selvagem (1990), de David Lynch, baseado no romance homônimo de Barry Gifford. “Achava que era um caso paradigmático, mas agora O filho de mil homens vai fazer companhia.”
Ao comentar sobre por que queria que o filme fosse produzido no Brasil, o escritor relembrou a grande receptividade dos leitores brasileiros ao romance e brincou sobre sua relação com o país, seu primeiro e repetido destino de férias.
“Queria muito ser brasileiro. Até a tragédia no Brasil tem sol. Aqui tem dor, mas a gente fica moreno, bebe uma água de coco, sempre tem um pouco de pudim, de paçoca. Sofrer aqui é um pouco melhor. Talvez por isso muita gente faz o Brasil sofrer.” A plateia, lotada, aplaudiu o escritor de pé.
Flip 2025
A 23ª Flip acontece de 30 de julho a 3 de agosto e homenageia o poeta curitibano Paulo Leminski. A edição de 2025 reúne trinta e seis autores convidados na programação principal. Entre os escritores e escritoras da Festa Literária Internacional de Paraty estão Arnaldo Antunes, Caetano Galindo, Gregorio Duvivier, Gaël Faye, Cristina Rivera Garza, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Ricardo Araújo Pereira, Ilan Pappe, Giovana Madalosso, Astrid Roemer, Sandro Veronesi, Marina Silva, Neige Sinno, Liv Strömquist e GauZ’. Leia mais sobre a Flip 2025.
