A autora espanhola Rosa Montero (Walter Craveiro/Divulgação)

FLIP 2025,

Loucura é ruptura da narrativa comum e quem escreve se estrutura, diz Rosa Montero

A escritora espanhola, que falou na Flip sobre escrita sem sofrimento e literatura como salvação, mostrou que caiu mesmo no gosto do público brasileiro

03ago2025

Programada para um dos horários mais nobres da Flip, o início da noite deste sábado (2), a escritora espanhola Rosa Montero confirmou seu posto como uma das mais queridas autoras da festa literária em Paraty. Não bastassem os ingressos para sua mesa esgotados em menos de uma hora após a abertura das vendas, Montero passou quatro horas autografando livros depois do encontro no palco da Flip.

A autora espanhola já tinha sido uma sensação na segunda Flip, em 2004, quando ainda era pouco conhecida no Brasil. “Em 21 anos, o Brasil mudou. [Montero] não é a autora que o Brasil está descobrindo, é a autora que o Brasil ama. Hoje circulam pelo país 100 mil exemplares de seus livros”, disse o jornalista e colunista da Quatro Cinco Um Paulo Roberto Pires, que mediou a mesa “A ridícula ideia de estar lúcida”, título que mistura os nomes de dois dos livros mais conhecidos da escritora, que retribuiu a acolhida. “Vocês são as pessoas mais maravilhosas do mundo”, disse. 

A plateia durante a mesa de Rosa Montero da Flip 2025 (Agência Saíras/Divulgação)

Durante o encontro, Montero falou de assuntos que aparecem na sua escrita, como imaginação e loucura, temas de O perigo de estar lúcida (2023), e luto e morte, pontos de partidas de A ridícula ideia de nunca mais te ver (2019) — ambos foram publicados pela Todavia com tradução de Mariana Sanchez. Ela também expôs sua divertida teoria de como surgem os escritores.

“Nós, romancistas, somos pessoas que não amadurecemos totalmente do ponto de vista cerebral. Descobri que, na infância, todos os nossos neurônios se conectam e, na adolescência, há uma poda de algumas conexões. Em 20% da população, essa poda não é feita totalmente: são as pessoas com transtornos mentais e os artistas”, disse, acrescentando que suspeitava que um público que ama a leitura também teria essa “poda defeituosa”, em mais um afago para a plateia. 

A autora disse também detestar a ideia de que é preciso sofrer muito para escrever. “Nego esse destino falso do sofrimento dos escritores. Não temos que sofrer muito para nada.”

Capturar histórias

Para ilustrar o momento fugaz em que uma história surge para ser contada, Montero leu um trecho de O perigo de estar lúcida com uma descrição da breve aparição de uma baleia vista pela escritora e uns poucos amigos num barco no Pacífico. A baleia emerge sem causar uma onda no mar e mergulha como se nunca tivesse estado ali. “O escritor tem a sensação de que suas melhores obras foram perdidas. Todos nós guardamos um livro, mas, no tumulto da vida, não temos tempo de capturá-lo.”

Montero ainda contou como, ao começar a escrever ficção profissionalmente, superou as crises de pânico que teve dos dezesseis aos 36 anos e percebeu que a literatura de alguma forma a salvava. “O que chamamos de loucura é uma ruptura da narrativa comum, uma sensação de solidão brutal que não cabe na palavra ‘solidão’. Escrever e publicar ficção e ter alguém que leia é estruturante”, explicou. 

Rosa Montero e Paulo Roberto Pires na Flip 2025 (Agência Saíras/Divulgação)

Falando de A rídicula ideia de nunca mais te ver (a “melhor definição do que é a morte para quem fica”, segundo Paulo Roberto Pires), em que mistura a perda do companheiro de vinte anos com a história de Marie Curie, Montero afirmou escrever contra a morte. “Quero escrever como conseguimos ter uma vida mais leve e mais plena. Para isso, precisamos entrar em acordo com a morte. Quando está plena a consciência da morte, está plena a consciência da vida.”

Feminista, defensora de direitos civis e da causa ambiental, ela afirmou que não escreve romances para “ensinar” algo, mas para aprender. Livros “utilitários”, segundo Montero, são para gêneros como o jornalismo, mas “são a traição do que deveria ser a ficção”. 

A escritora ainda lembrou de seus tempos de militância contra o regime franquista na Espanha, período duro, mas, segundo ela, muito interessante porque os jovens tinham a sensação de que poderiam construir uma nova sociedade. Era a época, brincou Montero, em que ela fazia parte do grupo “dos três ou quatro hippies que viviam na Espanha”. Esses seus amigos se mudaram para outros países, ela ficou. “Poderia ter ido embora, viver on the road, virar uma camareira de hotel no Camboja. Mas seria uma camareira escritora”, disse. 

Flip 2025

A 23ª Flip acontece de 30 de julho a 3 de agosto e homenageia o poeta curitibano Paulo Leminski. A edição de 2025 reúne trinta e seis autores convidados na programação principal. Entre os escritores e escritoras da Festa Literária Internacional de Paraty estão Arnaldo Antunes, Caetano Galindo, Gregorio Duvivier, Gaël Faye, Cristina Rivera Garza, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Ricardo Araújo Pereira, Ilan Pappe, Giovana Madalosso, Astrid Roemer, Sandro Veronesi, Marina Silva, Neige Sinno, Liv Strömquist e GauZ’. Leia mais sobre a Flip 2025.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).