Literatura,

Um mundo de mulheres

Isabel Allende e Rosa Montero lançam em seus livros mais recentes um olhar feminista sobre a vida

01jun2021 - 01h00 | Edição #46

As histórias de mulheres ganharam nova visibilidade à luz da última onda do feminismo que, ao que tudo indica, veio para ficar. Isabel Allende e Rosa Montero são escritoras que fazem parte desse movimento maior, abordando tanto a sua própria trajetória quanto a de outras mulheres. Falam a mesma língua, o espanhol, e dominam com maestria a gramática do feminismo. Isabel nasceu em 1942, no Peru, e se reconhece feminista desde o jardim da infância. Rosa, quase dez anos mais moça, veio ao mundo em Madri, em 1951. As duas viram florescer as ideias feministas nos anos de juventude, nas décadas de 60 e 70.

Isabel Allende lançou seu primeiro romance, A casa dos espíritos, de imediato sucesso, em 1982. Seguiram-se muitos outros e, com eles, muitos prêmios. Com ela a palavra mais nunca é excessiva: sua obra foi traduzida para mais de quarenta idiomas. Depois de mais de 70 milhões de exemplares vendidos, transformou-se na escritora mais lida de língua espanhola, em pleno boom da literatura latino-americana. Sem se deixar enganar, ela sabe que o boom foi um fenômeno masculino, e, nele, ela foi uma voz solitária. Sua única vingança é que, para o bem ou para o mal, logo ficou evidente que o público leitor de romances era majoritariamente feminino.

Iniciou carreira de jornalista no Chile, mas foi desencorajada por Pablo Neruda, que lhe negou uma entrevista: “Você deve ser a pior jornalista deste país. É incapaz de ser objetiva, coloca-se no centro de tudo e suspeito que mente bastante. Quando não tem uma notícia, a inventa. Por que não se dedica a escrever romances? Na literatura, esses defeitos são virtudes”. Isabel insistiu um pouco, mas finalmente o escutou. Ré confessa, admitiu que trapaceava nas matérias jornalísticas.

Isabel fala de si e dos que a rodeiam; Rosa fala de mulheres, de outros tempos e de outras vidas 

Bem ao contrário disso, Rosa Montero fez brilhante carreira na imprensa. Suas entrevistas tornaram-se referência e ganharam prêmios em nível mundial, e ela teve suas técnicas estudadas em escolas de comunicação. Prefere falar dos outros a falar de si mesma. Escreveu biografias, pesquisou a vida de muitas mulheres. Não se coloca, como Isabel, “no centro de tudo”. Dolorosa exceção, talvez, quando contou em A ridícula ideia de nunca mais te ver a morte do marido, vítima de câncer.

Rosa e Isabel. Cada uma delas sabe exatamente o lugar que ocupa no ainda tão masculino reino das palavras.  Isabel fala de si e dos que a rodeiam. Rosa fala de mulheres, de outros tempos, de outras vidas que só cruzaram a sua ao acaso de suas leituras.

As duas lançam um olhar feminista sobre o mundo, e coincidem na medida em que esse olhar não exclui os homens, bem ao contrário. Para Rosa o feminismo não é coisa de mulheres, mas também de homens. Isabel admite, sem problemas, que foram as feministas europeias e norte-americanas que definiram sua personalidade e a influenciaram. Em literatura, ela deve quase tudo a nomes masculinos.

Centro das atenções

Em Mulheres de minha alma, lançado por aqui pelo selo Bertrand Brasil, Isabel faz um balanço de vida e mostra como é envelhecer com humor e sensualidade. Na medida do possível, claro. Ao descrever suas mulheres, começa pelas mais importantes: Panchita, a mãe, e Paula, a filha, que morreu depois de longa e dolorosa agonia. Abandonada pelo marido no Peru, Panchita mudou-se com os dois filhos pequenos para o Chile, para um casarão enorme e feio, e ali viveram, no “reino desordenado de minha avó”, conta ela. Não foi uma infância feliz, circunstância que lhe forneceu vasto material para a escrita. Diz que não consegue entender como alguém pode tornar-se escritor e, ao mesmo tempo, ter vivido infância amena e lar normal.

Os homens vão chegando aos poucos. Primeiro, tio Ramón, com quem Panchita se casou e a quem Isabel declarou guerra feroz, para reconhecer, bem mais tarde, que ele foi seu melhor amigo. Pelo pai biológico nunca se interessou, nem ele por ela. Do avô materno, Agustín, guarda boas lembranças do seu riso, do senso de humor galhofeiro e da convicção que lhe transmitiu: quem chega a este mundo como mulher está em franca desvantagem. Depois vieram os maridos. Três cavalheiros, amados e queridos: Miguel, Willie e Roger. E alguns amantes, que correram por fora. Sabendo o lugar que ocupa em cada uma dessas relações, admite sem pudores: “Confesso que a invisibilidade me ofende um pouco. Prefiro ser o centro das atenções”.

Daí pra frente o feminismo entra definitivamente em cena e é por essa ótica que desfia suas memórias e narra sua vida. Sua definição de feminismo não deixa margem a dúvidas: “Não é o que temos entre as pernas, mas, sim, entre as duas orelhas”. Ao fim e ao cabo, Isabel adaptou-se bem ao gênero feminino, até mesmo para poder lutar pela mudança de sua condição. Vaidosa, sabe que o feminismo não a salva da escravidão das coqueterias, do gosto pelas quinquilharias, nem da ilusão de que um batom pode, quem sabe, mudar o seu destino.

Humor e sensualidade não lhe faltam. Não é mais a autora que um dia escreveu Afrodite, livro recheado de receitas afrodisíacas, todas testadas pela mãe. E parece, até prova em contrário, ter desistido da fantasia de passar uma noite com o ator Antonio Banderas: “Agora essa remota possibilidade me parece exaustiva”. As coisas se acalmaram dentro dela, e, um dia, se a paixão erótica desaparecer, que possa ser substituída pelo humor e pelo companheirismo. Por enquanto, ainda se sente capaz de, à luz de velas, enganar algum distraído, desde que ele tenha tirado os óculos e tomado três taças de vinho…

Isabel tem netos que se declaram não binários e ela se esforça para acertar o pronome exato ao dirigir-se a cada um. Interessa-se bastante pelas tais relações poliamorosas, mas não pretende se aventurar nesse terreno. Está bem com Roger, o terceiro marido. Quando escreveu Mulheres de minha alma, em março de 2020, os dois estavam trancados em casa, protegendo-se do coronavírus. O livro é cheio de sacadas inteligentes e sutis, ainda que resvale, algumas vezes, para certo tom de divertida autoajuda. Ao falar de suas mulheres — e de seus homens —, Isabel fala de si e do seu tempo, tecendo o inventário preciso de uma vida bem vivida.

Recuperar as esquecidas

Rosa Montero não. Fala de outras mulheres de tempos distantes do seu. Ainda que não se coloque “no centro de tudo”, como Isabel, é preciso desconfiar dela: nas páginas do seu catálogo camufla seu próprio retrato, de corpo inteiro. Historias de mujeres foi lançado em 1995, primeiro sob a forma de crônicas no jornal espanhol El País. Naquele momento eram raras as biografias femininas, publicadas a duras penas em editoras menores. Rosa vai em busca de mulheres que tiveram seu passado sequestrado pelo preconceito machista e, para isso, dedicou-se a um trabalho quase arqueológico de recuperação das esquecidas. Quando uma mulher morre, diz ela, citando a escritora italiana Dacia Maraini, morre para sempre.

Outra edição, acrescida de histórias inéditas, surgiu em 2007, e a mais recente, de 2018, ganhou tradução brasileira pela Todavia sob o título Nós, mulheres. A cada nova edição, Rosa comemora os avanços da causa antissexista, mas sabe que ainda não dá para baixar a guarda. Mesmo porque “está mais do que na hora de pararmos de pensar que a desconstrução do sexismo é coisa de garotas. […] A mudança no papel da mulher pressupõe uma mudança equivalente no papel do homem, de modo que estamos falando de um novo tipo de sociedade, de uma nova forma de viver que nos afeta e deveria interessar tanto a umas quanto a outras”.

Arguta, Rosa reinterpreta a nosso favor o mito de Eva e de Pandora, responsáveis por todas as mazelas da humanidade: elas possuíam o dom da curiosidade, ingrediente básico da inteligência. Tiveram “a ousadia de perguntar o que há além” e de trazer à luz o que estava oculto. A dedicatória do livro já informa a que veio: às bravas guerreiras curdas de Rojava, que estão na linha de frente da luta contra o Estado Islâmico.

O livro de Rosa é sobretudo verdadeiro; não faz concessões ao politicamente correto. Sempre se sentiu incomodada quando tratam o que escreveu como um catálogo hagiográfico de mulheres perfeitas. Bem ao contrário disso, afirma que as mulheres não precisam ser particularmente admiráveis: “Reivindico que possamos ser tão más, tão tolas e tão arbitrárias como os homens às vezes o são. Almejo a verdadeira liberdade do ser, assumir nossa humanidade cabal e plena, com todas as suas luzes e suas sombras”. Fiel a esse princípio, Rosa convida as mulheres a cuspirem fogo com ela, abrindo sua imensa goela de dragão. Dragão da maldade, admite sua franca preferência pelas malévolas. 

Suas fontes de pesquisa desprezam a história oficial. Espiona cartas, vasculha diários, relatos autobiográficos, tudo o que há de mais íntimo que puder encontrar. Sua pena ferina não poupa nem mesmo as reputações mais ilibadas. A descrição que faz de Simone de Beauvoir não é nada lisonjeira. Gélida, precisa, “um relógio dentro de uma geladeira”, submissa a Sartre como a maioria das mulheres a seus homens, construiu seu mundo com belas e imensas palavras, mas também com palavras mesquinhas, banais, mentirosas. Quem foram verdadeiramente Simone e Sartre só se soube postumamente, com a publicação de suas cartas. Interessados apenas na louvação de si mesmos, destruíram pessoas e arrasaram amantes com requintes de crueldade e cinismo. 

Rosa nunca deixa de se espantar com o número de mulheres fortes submissas a homens frágeis e medíocres

Quanto à antropóloga americana Margaret Mead, Rosa admite, logo nas primeiras linhas, que se trata de uma personagem monumental, uma das grandes mulheres do século 20. Isso não a impede de, na sequência, dizer que ela engordou muitíssimo, “se alargou e se achatou como um croquete”, “redonda e pigmeia para além do verossímil”. Prossegue nessa toada, mas, ao fim e ao cabo, o que se depreende da leitura é o retrato de uma mulher brilhante, capaz de repensar o mundo e de se adaptar às suas mudanças.

Talvez resida aí o fascínio da leitura de Nós, mulheres. Em estilo certeiro, Rosa é capaz de mesclar humor ferino e impiedoso com verdade e generosidade. Os defeitos físicos de suas heroínas são descritos de forma implacável. Além da gordíssima Margaret ficamos sabendo que Agatha Christie também engordou e se transformou em uma “matrona majestosa de peitos grandes e cadeiras opíparas”, além de ter maus dentes. Algumas são alternadamente bonitas e horrorosas. E há as feiíssimas. Homens também não são poupados.  Rosa descreve o dramaturgo espanhol Gregorio Martínez Sierra, casado com María Lejárraga (ou Martínez Sierra), como “um garoto feiíssimo, cabeçudo, sem queixo, orelhas de abano e todo o aspecto de um rato”. 

Na extensa galeria das mulheres más podemos encontrar de tudo um pouco. Há mulheres que mataram a própria filha, ou cegaram o filho herdeiro do trono para se manter no poder, como Irene de Constantinopla. Há as devoradoras de homens e as assassinas de maridos. E as que chantagearam e mentiram. Embora considere inglória a tarefa de escolher, entre todas, a mais malvada, o título é outorgado a Elizabeth Báthory, a Condessa Sangrenta (1560-1614). Acreditava ter descoberto a fonte da eterna juventude banhando-se em sangue de donzelas. Para isso torturou e sacrificou mais de seiscentas jovens. A existência dessas mulheres malvadas é, em alguma medida, um alívio, assegura Rosa. Elas representam “a maldade essencial”, “a alma obscura” em substância, plenamente humana. 

É preciso falar ainda das mulheres escritoras, as que, malgré seu defeito de gênero, resistiram. E escreveram. De modo geral, os homens que as rodeiam não estão muito bem na fita. María Martínez Sierra teve sua obra assinada, na íntegra, pelo marido, o tal Gregorio, o feiíssimo. Charlotte Brontë foi proibida de escrever pelo médico, já que o trabalho intelectual lhe causava crises nervosas. A lista é grande, e segue. Rosa nunca deixa de se espantar com o número imenso de mulheres fortes dedicadas e submissas a homens frágeis e medíocres.

Há que se destacar a tópica das mulheres que se vestem de homem, o extenso catálogo das que tiveram amantes jovens, as que se submeteram como Alma Mahler, Camille Claudel e Frida Kahlo. Também são evocadas as vítimas do infanticídio feminino, aquelas que, por terem nascido mulheres, não tiveram a chance de se tornarem. Tudo somado, fica a sensação de que é preciso remover com urgência a nefasta névoa sexista para que a história humana possa ser contada de outro jeito. Como Rosa conta.

Quanto a Isabel Allende, não seria difícil imaginá-la como uma personagem a mais a compor a galeria de retratos femininos construída por Rosa Montero. Ela seria descrita, talvez, como uma brava mulherzinha, brilhante e mandona, uma pigmeia de metro e meio de altura, que mente bastante e sempre se coloca no centro de tudo. Ao reconhecer-se no retrato, Isabel, a pequena notável, concordaria e, divertida, riria de si mesma.

Quem escreveu esse texto

Mariza Werneck

Professora de antropologia da PUC-SP, escreveu O livro das noites: memória-escritura-melancolia (Educ).

Matéria publicada na edição impressa #46 em abril de 2021.