Coluna

Juliana Borges

Perspectiva amefricana

Quem cala sobre racismo consente?

Cida Bento aponta a necessidade de romper com a ideia de universalidade como pertencente ao grupo branco e com seus silêncios e pactos de proteção

20jun2023 - 12h24 | Edição #71

Por muito tempo, a defesa da emergência de uma sociedade antirracista esteve centrada como responsabilidade única de pessoas negras. Se é verdade que nós, negros e negras, somos os protagonistas da nossa luta por liberdade e justiça, é também verdade que não fomos nós os produtores do racismo e executores de uma dinâmica e estrutura que hierarquiza grupos pela cor e pela criação da raça.

Vemos avançar na sociedade brasileira o sentido de responsabilidade de pessoas brancas na luta para desmantelar o racismo que, se não foi criado pelos nossos contemporâneos, continua garantindo lugares privilegiados e uma herança cultural, política e econômica que os coloca em vantagem.

Nesse movimento de reconhecimento de responsabilidades, o conceito de branquitude tem sido amplamente debatido, estudado e refinado em sua compreensão. Uma das mais importantes vozes brasileiras na discussão sobre essa responsabilidade é Cida Bento. Psicóloga e diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), Maria Aparecida Bento foi eleita, em 2015, como uma das cinquenta pessoas mais influentes do mundo no campo da diversidade pela revista The Economist. Sua tese de doutoramento, “Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público”, defendida em 2002, é uma das principais referências nos estudos sobre o tema no Brasil e, como resultado, Bento lançou uma síntese de suas ideias em 2022, no livro O pacto da branquitude (Companhia das Letras).

Sistema de privilégios

O pacto narcísico pode ser entendido, de maneira resumida, como um conjunto de “regras, processos, normas e ferramentas que dão preferência e fortalecem silenciosamente os que se consideram iguais”. Para essa compreensão, podemos retomar pontos de minha coluna sobre as importantes formulações de Sueli Carneiro, quando esta lança mão das teorias de Charles Mills para apontar que o dispositivo da racialidade é estruturado por um “contrato racial”. Este, por sua vez, determina lugares no sistema de privilégios e das possibilidades de vida e de morte e “se estabelece entre os que ganham o status de pertencentes à humanidade ao marginalizar todos os ‘outros’ à desumanidade”.

Não estamos desconsiderando que há brancos nas periferias que também são explorados, mas levando em conta que as pessoas brancas estão sobrerrepresentadas nos postos de comando e nos espaços de poder, como se fossem beneficiários de um “clube de exclusividade”. Assim como não há um “problema negro” ou “do negro”, mas um problema “nas relações entre brancos e negros”, tendo na supremacia branca o amálgama da branquitude e desse sistema de pactuações que “assegura privilégios para um grupo e relega péssimas condições de trabalho, de vida ou até a morte para o outro”.

Em seu livro, Cida Bento questiona a meritocracia, já que não é possível considerar mérito se há heranças e reproduções sistemáticas, sistêmicas e institucionais para garantir que um grupo seja sempre beneficiado ou obtenha vantagens em relação a outro. Para isso, algumas questões são fundamentais: por que não racializamos pessoas brancas? Por que há silêncio sobre hierarquias? Para a pensadora, isso se dá por uma “herança inserida na subjetividade do coletivo”, fazendo com que herdeiros brancos se identifiquem com outros herdeiros brancos, construam mecanismos de proteção e de defesa entre si e de negação de desigualdades processadas historicamente.

Por que não racializamos pessoas brancas? Por que há silêncio sobre hierarquias?

É a partir do avanço da presença negra, fruto de lutas históricas, que o supremacismo branco passa a inflar ressentimentos e a mobilizar o medo branco, intensificando o sentimento de que pessoas negras seriam uma ameaça. É aí que percebemos que há momentos em que, mesmo quando pessoas brancas reconhecem seus privilégios, ainda têm imensas dificuldades em abrir mão deles. A branquitude, então, é vista como esse “conjunto de práticas culturais que não são nomeadas”, em que o “silêncio e a ocultação” são predominantes. Ou seja, cegueira conveniente e silêncio são cúmplices da branquitude.

O que Cida Bento aponta é a necessidade de romper com a invisibilidade branca, com a ideia de universalidade como pertencente ao grupo branco, e com os silêncios e pactos de proteção. Esses processos podem, e devem, afirma, ser inspirados a partir da insurgência de mulheres negras. Como intelectual que é, Bento pensa o nosso tempo presente e chama a atenção para que brancos se reconheçam como parte essencial nas desigualdades raciais e se comprometam moral e psicologicamente em relação aos marginalizados. Isso se realiza com a reconstrução histórica e da memória, visando e exercendo mudanças nas instituições.

A pensadora apresenta algo substancial no pensamento de feministas negras: não há mudanças sem tensionamentos. E faz um chamado pela ampliação das vozes indignadas diante do racismo, que devem se perguntar: “Qual é o nosso lugar de brancos e brancas antirracistas?”. Certamente, não é o silêncio. Poderíamos estabelecer um paralelo entre o chamado de Cida Bento e o poema de Bertolt Brecht, quando este gritou “É preciso agir”:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
[…]
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Silenciar é consentir à guilhotina que um dia pode lhe ter como alvo.

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #71 em maio de 2023.