Ciências Sociais,

Entre herdeiros e senhores

Cida Bento lidera debate sobre branquitude enquanto pesquisadores trabalham para que reflexão ultrapasse os muros das universidades

01ago2022 - 04h51 | Edição #60

Há pelo menos uma foto de cada um dos principais presidenciáveis da eleição de 2022 capaz de ilustrar o pacto narcísico da branquitude. Neste ano, no evento de formalização da indicação de Geraldo Alckmin à chapa do ex-presidente Lula, dezenove pessoas enfileiradas sorriam para a câmera: eram dezessete homens e duas mulheres; todos brancos. Em 2019, a posse do alto escalão do governo Bolsonaro repetiu a mesma lógica. Aparecem na foto oficial 24 pessoas brancas, apenas duas mulheres.

Cida Bento costuma brincar que essas pessoas não se reúnem antes do amanhecer numa espécie de seita secreta. Muito pelo contrário. Trata-se de um pacto não verbalizado que mantém o mesmo segmento, em geral branco e masculino, em lugares de poder. A professora formulou o conceito de pacto narcísico da branquitude em sua tese de doutorado em psicologia, defendida em 2002 na Universidade de São Paulo (USP). Esse acordo é disfarçado pela ideia de meritocracia, em que todas as pessoas brancas só ocupam lugares de liderança única e exclusivamente por seus próprios méritos. Ao mesmo tempo que esse pacto fortalece um grupo de iguais, ele exclui quem não faz parte dele, como os negros e os indígenas. 

O acordo é disfarçado pela ideia de meritocracia, com pessoas brancas ocupando lugares de liderança

Eleita pela revista The Economist como uma das cinquenta personalidades mais influentes do mundo no campo da diversidade, Maria Aparecida da Silva Bento é uma das vozes mais respeitadas no combate ao racismo no Brasil. Ao lado de Ivair Augusto dos Santos e Hédio Silva Júnior, fundou, em 1990, o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), onde hoje ocupa o cargo de conselheira. A pesquisadora já escreveu dezenas de artigos acadêmicos e organizou diversos livros sobre questões raciais, mas agora ampliou o escopo. “Resolvi sintetizar algumas das principais questões que passam pela minha trajetória, tentando ser simples, para trazer uma contribuição para um grupo maior de pessoas, compartilhar o acúmulo de conhecimento nos estudos sobre branquitude”, diz Bento. Pacto da branquitude, lançado em março pela Companhia das Letras, é um livro curto e didático, em que a intelectual apresenta evidências desse acordo tácito.

Inquietava Cida Bento a ideia de que os negros haviam sofrido uma espécie de “deformação social” durante a escravidão — tese defendida por Florestan Fernandes no importante livro A integração do negro na sociedade de classes (1965). Ora, não haveria também uma deformação na personalidade do escravizador? Ao isentar o branco dos efeitos provocados pela escravidão, expõe-se uma cegueira conveniente, um silêncio cúmplice da branquitude.

“Os brancos, em sua maioria, ao não se reconhecerem como parte essencial nas desigualdades raciais, não as associam à história branca vivida no país e ao racismo”, escreve Bento. “Além disso, a ausência de compromisso moral e o distanciamento psicológico em relação aos excluídos são características do pacto narcísico.”

Ferida aberta

Os beneficiários do colonialismo europeu não eram apenas as companhias e as famílias ricas que participavam diretamente da extração das riquezas das colônias. Bento mostra que todas as outras classes, até as mais pobres, também se beneficiaram da elevação do padrão de vida, do desenvolvimento econômico e da transferência do trabalho pesado para as colônias.

Há, no entanto, uma clara dificuldade no que se refere à discussão sobre reparação histórica. Em 2001, a Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, em Durban, na África do Sul, reconheceu a escravidão e o comércio atlântico de escravizados como crimes contra a humanidade. Quando os pedidos de reparação começaram a ser discutidos na conferência, Estados europeus preferiram se retirar, recusando-se a debater o tema.

O Brasil, por sua vez, se preocupou em prover reparação aos escravizadores. Em 1871, a Lei do Ventre Livre libertou os filhos das mulheres escravizadas, mas os manteve sob custódia do senhor, que deveria receber uma indenização do Estado quando a criança completasse oito anos, ou poderia exigir compensação da própria criança, forçando-a a trabalhar até os 21 anos. 

Ao prever indenização a escravocratas, o Brasil ia na contramão de países que adotaram medidas de promoção de direitos e integração econômica da população negra em contextos de abolição formal, como ocorreu no período denominado “Reconstruction” nos Estados Unidos, entre 1865 e 1877, após a Guerra Civil.

O resultado da falta de políticas públicas é constatado até hoje em números. Em novembro de 2019, o  Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) indicou que a população negra trabalha mais e recebe menos em todos os estados do Brasil — a média é de 30% a menos em comparação com os não negros, sendo as mulheres negras o grupo mais afetado, visto que trabalham quase o dobro do tempo para obter o salário de um homem branco. “Discutir sobre branquitude é discutir sobre esse pacto de relações de dominação que faz com que qualquer grande instituição brasileira, do campo judiciário, legislativo, executivo, empresarial, universitário, sempre seja branca e, no mais das vezes, masculina”, diz Bento.

Quem dita a norma

Branquitude pode ser definida como um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê os outros e a si mesmo. Uma posição de poder, um lugar confortável do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não se atribui a si mesmo: a raça. Essa é a definição dada por Ruth Frankenberg, socióloga britânica e uma das precursoras dos estudos sobre branquitude. É um conjunto de práticas culturais não nomeadas e não marcadas que colocam brancos em lugar universal. O branco é a norma — o resto é o resto.

A fundação histórica dos estudos sobre branquitude é reconhecida a partir das obras de W. B. Du Bois, entre o final do século 19 e o início do 20. No Brasil, o sociólogo Guerreiro Ramos já fazia seus apontamentos sobre o tema nas primeiras décadas do século 20, mas foi só nos anos 2000 que o conceito ganhou dimensão acadêmica. E o trabalho de Cida Bento tem um papel fundamental nisso.


O pacto da branquitude, de Cida Bento

Em 2012, quando Lia Vainer Schucman estava escrevendo sua tese sobre branquitude, hierarquia e poder, havia poucas produções brasileiras sobre a identidade branca. Além da tese de Cida Bento, ela consegue lembrar do trabalho de Liv Sovik, com o livro Aqui ninguém é branco (Aeroplano Editora, 2009), e a pesquisa de Lourenço Cardoso, com uma dissertação apresentada em 2008 na Universidade de Coimbra e uma tese de doutorado que viria a ser defendida em 2014 na Universidade Estadual Paulista (Unesp). 

“Quando entrei no doutorado, não tinha interesse em estudar as vítimas do racismo, e sim aquele que tem poder para mostrar quem é o outro. Nem sabia que existia o termo branquitude e, quando comecei a pesquisar, só encontrava artigos em inglês”, lembra a professora do departamento de psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (ufsc). “Hoje os meus alunos chegam à sala de aula sabendo o que é racismo. Na minha época, o debate era que não existia racismo no Brasil, inclusive os meus colegas de doutorado na USP acreditavam nisso. Nunca vi nenhum debate racial na psicologia durante toda a minha formação, da graduação ao doutorado. Há dez anos as únicas pessoas que falavam em racismo no Brasil eram do movimento negro.”

Para Schucman, racismo estrutural é um pleonasmo. Se não for estrutural, não é racismo; é discriminação: “No Brasil, o antissemitismo é um preconceito, pois não gera desigualdade social. Os judeus não têm menos acesso à saúde ou educação do que os brancos daqui. Agora, na Alemanha nazista existia uma política de Estado. Lá, o que os judeus sofriam era racismo. Racismo tem sempre a ver com relações de poder”, diz.

Tática política

Considerada uma referência nos estudos sobre branquitude no Brasil, Schucman viu o convite para participar de bancas de avaliação de trabalhos acadêmicos aumentar substancialmente nos últimos anos; além de ter apresentado em 2020, ao lado da jornalista Karen de Souza, o Entrevista Branquitude, programa televisivo do canal Futura.

O aumento do interesse pelo tema também foi constatado em levantamento feito pelo Observatório da Branquitude, organização lançada em maio no Rio de Janeiro. Mais da metade dos estudos brasileiros sobre branquitude (55,6%) foram publicados entre 2020 e o início de 2022. A regra utilizada pelos pesquisadores para realizar o levantamento era ter a palavra branquitude no título ou nas palavras-chave do texto. Até 2013, a frequência relativa de estudos sobre o tema não chegava sequer a 2%.

Não se constrói um antirracismo sólido sem entender os brancos e seu racismo

“Acho que o debate racial está amadurecendo no Brasil, mas ainda sinto brancos falando de racismo a partir de um lugar de conforto: passei a falar sobre esse tema logo, deixei de ser um problema para esse tema”, comenta Thales Vieira, coordenador executivo do Observatório. O pesquisador também compartilha o incômodo com a forma como o termo “antirracista” vem sendo usado: “Parece que a autoidentificação antirracista gera um movimento individual que enfraquece movimentos coletivos. No que você está envolvido coletivamente? Ou é apenas uma convicção pessoal?”.

O pesquisador salienta que a instituição não surge para ser fonte de culpa ou um lugar de conforto para brancos. “Grada Kilomba [pesquisadora portuguesa] fala que sujeito é quem tem voz. Estudar branquitude é colocar o branco como objeto. Por isso, no observatório, não queremos ter brancos em nossa equipe. É até uma espécie de provocação que fazemos à sociedade.” Hoje, a instituição é formada por apenas quatro funcionários negros e, conforme for se expandindo, a ideia é contratar também pesquisadores indígenas.

Nos dois primeiros anos de atuação, o Observatório pretende concentrar os seus esforços de pesquisa nos eixos de justiça, economia e educação, temas que mais afetam a população negra no Brasil. O esforço da organização se soma à inquietação de muitos pesquisadores das relações sociais: quanto o debate racial — que parece estar avançando — tem de fato incidido sobre a desigualdade racial?

Os trabalhos de Guerreiro Ramos, Cida Bento, Lia Vainer Schucman, Lourenço Cardoso, Liv Sovik, do novo Observatório da Branquitude, entre outros, têm um claro objetivo político: não se constrói um antirracismo sólido sem entender os brancos e seu racismo. “Estudar a branquitude ajuda a compreender como brancos, entre si, reproduzem a desigualdade e ignoram ou silenciam sobre uma herança de quatro séculos”, diz Cida Bento.

Armadilha empresarial

“A genealogia masculina e branca é protegida pelo pressuposto de que qualquer pessoa que questiona essa genealogia sofre de uma auto-obsessão”, escreve Sara Ahmed, em Viver uma vida feminista, lançado no Brasil pela editora Ubu. Colocando a afirmação da pesquisadora anglo-australiana em diálogo com a formulação de Cida Bento, é justamente o contrário que ocorre na vida real. 

Quando pessoas de grupos minorizados apontam falta de diversidade em empresas, elas estão olhando para uma estrutura, e não apontando suas identidades para aquela situação. “Apontar uma estrutura é percebido como fundamentação identitária. Talvez estejamos testemunhando a supressão da estrutura pela identidade”, conclui Ahmed.

Desde os anos 90, Cida Bento trabalhou com diversas organizações que buscam implementar políticas de diversidade. Sua experiência corrobora o relato de profissionais que dizem que a equidade racial nas instituições é aquela que mais suscita resistências no Brasil.

É possível observar essa dificuldade em um estudo de Daniel Teixeira, diretor executivo do Ceert, publicado em 2017. Na análise, as cinquenta grandes empresas consideradas com melhor desempenho em diversidade pela revista DiversityInc, em 2014, revelaram possuir políticas para inserção e ascensão de negras e negros nas matrizes, porém suas filiais brasileiras focalizavam, quase exclusivamente, programas relacionados a gênero e pessoas com deficiência. Assim, a diversidade nessas multinacionais aparecia de maneira limitada, não considerando a dimensão estrutural da desigualdade racial, principalmente em intersecção com gênero.

Políticas de diversidade, em organizações públicas, privadas ou da sociedade civil, não dizem respeito a apenas diferenças — de visões de mundo, de ideias, de aparências; elas precisam estar diretamente articuladas à noção de desigualdade social. “O termo ‘diversidade’ pode se transformar em armadilha”, escreve Cida Bento. “Temos que diferenciar aquelas [discriminações] cuja violência está na base de um verdadeiro genocídio, como o que observamos cotidianamente com relação à população negra.”

Quem escreveu esse texto

Yasmin Santos

Jornalista. Foi editora-assistente do Nexo Jornal e repórter da revista Piauí.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.