Repertório 451 MHz,
O luto de um pai
Fernando José de Almeida conta como a escrita de Elogio à saudade, ensaio sobre a morte precoce da filha, o ajudou a enfrentar a dor e transformá-la em beleza
04set2026Está no ar o 211º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, o filósofo e educador Fernando José de Almeida fala sobre luto, fé e como a escrita pode ser usada para lidar com a dor. Ele é autor de Elogio à saudade (Seja Breve), ensaio afetivo sobre a morte da filha, a documentarista e pesquisadora Lorena Almeida, que se suicidou em 2023, aos 43 anos.
O escritor conta que, ao revisitar momentos de alegria e refletir sobre a decisão da filha, conseguiu enfrentar a dor da perda e transformá-la em algo belo. O encontro aconteceu durante A Feira do Livro 2026, com mediação do jornalista e psicanalista Robinson Borges. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Professor da pós-graduação em educação da PUC-SP, Fernando José de Almeida é autor de vários livros sobre ensino, avaliação da aprendizagem e uso de tecnologias digitais em sala de aula, como Educação e informática: os computadores na escola (Cortez, 2012). Foi secretário de Educação da cidade de São Paulo (2001-2002) e, em 2026, estreou na literatura com Elogio à saudade — o mais vendido na livraria oficial d’A Feira do Livro 2006.
“Escrever [Elogio à saudade] não foi uma sublimação, mas uma forma de enfrentar o que há de sublime na morte sem mascarar a dor profunda do luto”, explica no episódio. Ele lembra que buscou entender o que sentia revisitando a relação da origem da palavra luto (do latim luctus) com a da palavra luta (de luctare). “O luto é a ideia de lutar mesmo — contra uma força poderosa que é o sentimento da perda. Dá uma rebordosa na gente, revira a gente do avesso. O luto é a manifestação do sentimento de luta.”
A escrita do livro, que ele diz ter sido prazerosa, serviu para expressar sua dor e, ao mesmo tempo, refletir sobre o convívio com a filha. “O prazer de escrever se revelou um ato terapêutico e um ato de buscar coisas bonitas que a vida da Lorena nos trouxe.”
Fé abalada
Almeida afirma que, depois da morte da filha, começou a questionar a própria fé. Segundo o autor, foi difícil não ter suas crenças abaladas diante da “concreticidade do mármore preto” do túmulo e das “fileiras de pessoas” mortas no cemitério.
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“Passei oitenta anos banhado no vapor de um cristianismo coerente, que dava conta de explicar minha vida. Com a morte da Lorena, perdi a fé quase inocente que tinha — agora é uma fé desconfiada”, diz. “A perda de uma pessoa muito querida sempre nos causa uma pergunta sobre a vida eterna e sobre o que fica do corpo.”
Consolo e amizade
Emocionado ao relembrar a filha, Almeida comenta o que funcionou ou não em seu processo de cura. Segundo o autor, “pequenos consolos” como um “vai passar” o irritavam. “Não vai passar, não quero que passe. Quem é você para dizer que vai passar?”, exemplifica. “Esses consolos parciais, esporádicos e muito cheios de companheirismo e boa vontade não consolam.”

O que o ajudou a lidar com a perda foi o contato com os amigos. Almeida conta que encontrou a força para escrever o livro ao ser incentivado por eles — cita, por exemplo, o filósofo da comunicação Andrés Bruzzone, o jornalista e professor Eugênio Bucci e o escritor e compositor José Miguel Wisnik.
“Zé Miguel também perdeu um filho de maneira bem trágica. Eu disse para ele: ‘estou escrevendo um livro sobre minha filha, mas não sei o que vai acontecer com esse livro’. Aí ele me disse: ‘está te fazendo bem escrever?’. Eu digo: ‘muito bem’. ‘Então fará bem aos outros. Escreva o livro”, aconselhou Wisnik, segundo Almeida.
Outro amigo que o autor lembra na conversa é o sociólogo Danilo Santos de Miranda (1943-2003), que dirigiu o Sesc-SP por vinte anos e era padrinho de Lorena. Miranda morreu quinze dias antes do suicídio da afilhada.
Vidas interrompidas
O educador ainda diz que, ao escrever Elogio à saudade, teve como principal referência escritos do filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005), que também perdeu um filho por suícidio e foi indicado por Bruzzone.

“Uma das coisas que aprendi é que o suicídio é um ato de profunda consciência. Não é uma doença”, diz. “A pessoa tem tal consciência do que é a vida, de quem é ela, do que está fazendo, que opta pela vida encurtada.” Almeida comenta que sua opção e a do restante da família foi seguir vivendo por Lorena. “Nós vamos continuar as coisas boas que ela fazia.”
“É a ideia de que não é só a recordação de coisas boas, [do] que ela foi para nós, mas de que as coisas que ela não completou podem caber a nós — essa continuação da vida dela, que nem sei se era dela, mas a gente cria como sendo dela. Isso é uma glória para nós.”
Livro Marcador
No quadro sobre livros marcantes na vida de escritores, o episódio traz a sugestão de Cidinha da Silva, que em 2026 publicou Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros (Relicário). Ela recomenda Afrografias da memória: o Reinado do Rosário no Jatobá (Perspectiva, 2021), de Leda Maria Martins.

“É um livro que eu li no meio da vida. Eu conheço a Leda desde muito jovem, e li esse livro talvez com trinta anos. É um livro que, para mim, descortinou a possibilidade do trabalho com a memória negra e como articular um pensamento ensaístico a partir de bases que são de religiosidade popular, como os reinados. Então foi um livro definidor na minha vida”, diz.
Encontre ajuda
Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, procure ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV) está disponível pelo telefone 188, e há outros serviços, como o SAMU 192 e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), em todo o Brasil.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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