Repertório 451 MHz,
Formar nossos filhos
Luciana Temer e Marina Helou falam sobre como proteger crianças e adolescentes dos riscos da internet
07ago2026 • Atualizado em: 06ago2026Está no ar o episódio #207 do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a deputada Marina Helou e a advogada Luciana Temer conversam sobre como proteger crianças e adolescentes dos riscos do mundo virtual. Helou acaba de lançar, pela Tinta-da-China-Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), Quem está formando os nossos filhos?: manifesto por uma infância e adolescência livres de telas.
Mais do que uma conversa sobre o lançamento, o episódio traz uma discussão sobre temas de extrema relevância para a educação de crianças e adolescentes. As convidadas também tratam dos impactos negativos das novas tecnologias na geração atual e apontam maneiras de ter uma relação mais saudável com as telas. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Luciana Temer é advogada e professora de direito constitucional na PUC-SP. Desde 2017, ela é também diretora-presidente do Instituto Liberta, que age no enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Este ano, lançou Educar para proteger, pela coleção Educar para… da Editora Senac São Paulo.

Marina Helou é deputada estadual (PSB-SP) desde 2019 e autora da Lei estadual nº 18.058, que restringe o uso de celulares nas escolas paulistas, tanto públicas quanto privadas. Quem está educando os nossos filhos? é a estreia dela como autora.
Temer abre a conversa com dados alarmantes sobre a violência sexual de menores no Brasil. “A gente tem seis registros por hora de estupro de menores de catorze anos no país”, alerta. Para ela, o objetivo do trabalho de seu instituto sempre foi “furar a bolha” da militância e levar o tema à sociedade em geral. “Esses problemas são da sociedade, não de grupos específicos.”
Questionada sobre como conversar com crianças pequenas sobre um tema tão delicado, Temer afirma que é preciso superar tabus que existem mesmo entre adultos. Ela cita o hábito de evitar os nomes corretos das partes íntimas do corpo ao falar com os filhos e utilizar substantivos infantis como sintoma desse tabu.
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“Por que você não fala pênis, vagina, vulva? Por que você não fala o nome correto? É porque nós temos um tabu, como se aquilo fosse um nome feio, então você não ensina.”
Marina Helou reforça que nomear as partes íntimas ou falar de relações sexuais desde cedo não é antecipar o tema com as crianças, como muitos pais pensam, mas protegê-las. “Você não está ensinando a criança a fazer sexo, você está ensinando como funciona”, diz.
Ameaças
Ao tratar da lei que restringe o uso de celulares nas escolas, Helou lembra que a reação inicial de pais e filhos foi violenta. “Eu cheguei a receber ameaças de morte”, conta.
Apesar disso, a parlamentar acredita que o trabalho foi recompensado. Ela conta que meses depois de ter lhe enviado ofensas, um estudante voltou a procurá-la para pedir desculpas.
“Ele contou que a vida dele estava muito mais legal, que a escola estava melhor, que eles tinham começado a criar um campeonato de vôlei”, diz.
“O reconhecimento das crianças e adolescentes talvez seja o ponto mais gratificante dessa jornada”, completa a deputada, que também vê efeitos positivos da lei no aprendizado e na diminuição da violência, com menos casos de bullying entre os estudantes.
Machosfera
Luciana Temer fala sobre o crescente aumento de movimentos misóginos na internet, a chamada “machosfera”, e explica como um adolescente comum pode chegar a discursos de ódio.
“O algoritmo não é bom nem mau, só é eficiente, e tem que captar e permanecer com a sua atenção ligada para poder te vender coisas”, explica. “Extremismo, violência e sexo são as coisas que vão ser entregues para você frequentemente, sobretudo para um adolescente.”
Segundo a advogada, desde 2020 o Conselho Nacional de Justiça registrou quase o dobro de adolescentes cometendo estupro contra crianças. Temer cita ainda uma pesquisa americana segundo a qual mais de 70% dos meninos entre 13 e 17 anos já tiveram contato com pornografia, muitas vezes sem procurar por isso.
O tema é uma das sete frentes dos impactos do uso indiscriminado de telas elencadas por Helou em seu livro. A dessensibilização, segundo a deputada, é o efeito provocado pela exposição repetida à violência e à pornografia, que “vai criando uma percepção diferente, mesmo sem tornar o adolescente violento de imediato”.
Na resenha de Quem está formando os nossos filhos? para a revista dos livros, Luciana Temer escreve que “além de não culpabilizar os pais nem os filhos, a autora não cai na armadilha de simplesmente condenar o uso da tecnologia ou reduzir a discussão ao problema do tempo de telas.” Leia o texto na íntegra.
Livro marcador
O episódio traz a sugestão do poeta, contista e ensaísta Ricardo Domeneck, que estreou na literatura em 2005 com Carta aos anfíbios (Bem-te-vi) e já publicou mais de uma dezena de livros, sendo o último deles A cidadania das bonecas de pano (Ars et Vita). O poeta recomenda Proclamem nas montanhas, de James Baldwin, lançado pela Companhia das Letras em 2025, em tradução de Paulo Henriques Britto.
“Foi um livro que me marcou muito por várias coincidências biográficas. Baldwin era um homossexual que também cresceu numa casa muito religiosa. E esse livro é um acerto de contas dele com essa infância”, diz Domeneck. “É claro que ele também traz a questão racial, e isso é extremamente importante para o livro, mas esse livro marcou a minha saída da igreja.”
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]