Repertório 451 MHz,

No rastro de Brizola e Lacerda

Os biógrafos Karla Monteiro e Mário Magalhães revisitam a trajetória de duas figuras-chave das disputas entre esquerda e direita na história política brasileira

28ago2026 • Atualizado em: 27ago2026

Está no ar o 210º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o programa recebe os biógrafos Karla Monteiro e Mário Magalhães. Eles falam sobre a trajetória de Leonel Brizola e de Carlos Lacerda, duas figuras-chave da história política brasileira que acabam de ganhar novas biografias.

Karla Monteiro está lançando o volume um de Brizola: lobisomem contra o império, enquanto Mário Magalhães acaba de publicar Lacerda: coração de tempestade, também em primeiro volume. As duas biografias saem pela Companhia das Letras.  

Em uma conversa bem-humorada, repleta de histórias memoráveis envolvendo os dois políticos, os biógrafos lembram a rivalidade entre os biografados, como Brizola e Lacerda usaram o rádio e a imprensa para fazer política e a atuação marcante dos dois — um pela esquerda trabalhista, o outro pela direita conservadora — nos anos que precederam o golpe de 1964. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.

Jornalista com grandes reportagens publicadas por jornais e revistas como O Globo, Veja e Piauí, Karla Monteiro é coautora de Sob pressão: a rotina de guerra de um médico brasileiro (Globo Livros, 2017), que inspirou a série de TV Sob pressão,e autora da biografia Samuel Wainer: o homem que estava lá (Companhia das Letras, 2020).

A jornalista Karla Monteiro (Marcia Charnizon/Divulgação)

Também jornalista, Mário Magalhães trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo. É autor de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012), biografia adaptada para o cinema com direção de Wagner Moura e Seu Jorge no papel de Carlos Marighella. Ele ainda publicou Sobre lutas e lágrimas: uma biografia de 2018 — o ano que flertou com o apocalipse (Record, 2019).

O autor Mário Magalhães (Leo Aversa/Divulgação)

As adversidades e semelhanças entre Brizola e Lacerda dominam o início da conversa. Monteiro lembra uma frase do escritor e dramaturgo Antonio Callado sobre os dois: “Lacerda e Brizola eram irmãos gêmeos, um era o irmão estudioso e o outro era o irmão aventureiro; mas eles tinham personalidade muito parecida.”

Na era do rádio

Ambos os políticos eram reconhecidos pela habilidade como oradores e fizeram da comunicação uma ferramenta importante da disputa política. Grande opositor do então presidente Getúlio Vargas, Lacerda costumava atacar o governo e seus aliados, como o jornalista Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora. O discurso a seguir, de 1953, é um exemplo. Ouça: 

No episódio, Mário Magalhães conta curiosidades pouco difundidas sobre Lacerda, como sua atuação pioneira na imprensa brasileira ao introduzir o lide — estrutura que concentra as informações principais da notícia na abertura do texto —, quando dirigia a Agência de Notícias Meridional, dos Diários Associados, nos anos 40. “O Carlos Lacerda emitia comunicados dizendo que tinha acabado o ‘nariz de cera’, aquela embromação no início — agora é o lide”, diz Magalhães.

Brizola também fez do rádio uma de suas principais armas políticas. “O apelido ‘lobisomem’ é porque ele falava na rádio a noite inteira e as pessoas falavam que ele virava lobisomem à meia-noite”, conta Monteiro. A biógrafa se refere aos discursos de Brizola, na época governador do Rio Grande do Sul, na Rede da Legalidade — que juntou rádios, em 1961, numa campanha em defesa da posse do então vice-presidente João Goulart, após Jânio Quadros renunciar à Presidência da República.  

A diferença na oratória dos dois era a maneira de falar. “O Carlos Lacerda tinha uma eloquência, um jeito culto de se expressar. O Brizola era mais das metáforas, mais popular”, resume Monteiro. Criador de apelidos bem-humorados para os adversários, Brizola levaria seu estilo para a era da TV. Em discursos e debates presidenciais durante a campanha eleitoral de 1989, ele difundiu, por exemplo, a expressão “filhotes da ditadura”. 

Golpe de 64

Antípodas no espectro político, Brizola e Lacerda foram líderes de suas correntes no cenário que antecedeu o golpe de 1964. A relação de Carlos Lacerda com a ditadura, no entanto, se inverteu com o tempo. Depois de apoiar explicitamente o golpe e ajudar a criar as condições políticas para sua realização quando era governador da Guanabara (nome antigo do estado do Rio de Janeiro), Lacerda foi afastado pelos militares que defendeu. “Lacerda não foi presidente porque foi engolido pela ditadura que ele ajudou a criar”, avalia Magalhães.

“O meu grande desafio ao biografar o Lacerda foi libertá-lo das camisas de força históricas que insistem em apreendê-lo”, diz o biógrafo, lembrando que as mudanças de posição são parte da complexa história do político hoje associado à direita e ao conservadorismo, que foi, no entanto, um comunista ferrenho na juventude.

Brizola, por sua vez, teve a carreira interrompida pelo golpe quando estava no auge de sua trajetória. Depois de dezessete anos no exílio, diz Monteiro, ele encontrou dificuldades para reconstruir sua força política e viu a ascensão de Lula e do PT na liderança da esquerda.

“Ele [Brizola] já não é mais o revolucionário. Ele já não tem mais o charme do revolucionário e não consegue estruturar o PDT como o PT foi estruturado”, conta Monteiro.

Livro Marcador

O episódio traz a sugestão da crítica literária Eliane Robert Moraes, autora de A parte maldita brasileira,coletânea de ensaios sobre o erotismo na nossa literatura publicada, em 2023, pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um). Ela recomenda Os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade, que entre outras edições foi publicado no Brasil pela Penguin-Companhia, com tradução de Rosa Freire Aguiar.

A autora Eliane Robert Moraes (Renato Parada/Divulgação)

“Me perguntava como era possível alguém ter escrito aquilo, seiscentas paixões sexuais, relatadas uma a uma. Então aquele livro foi, de certa forma, responsável por eu passar a estudar a erótica literária, coisa que eu faço até hoje. Sade abriu portas muito importantes na minha vida”, diz.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]

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