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Avô não é passado

Estreia de Stênio Gardel na literatura infantil, cordel ilustrado é canto de permanência à memória — individual e coletiva

01jun2024 - 04h51 • 29maio2024 - 11h55 | Edição #82
Ilustrações de Nelson Cruz (Divulgação)

Stênio Gardel não se lembra com exatidão quando foi que reparou nas graúnas de plumas pretas que apareciam na fala do avô, Francisco Fidelis Maia, conhecido como vô Cacá. Talvez elas sempre tivessem estado ali, sem muita explicação. Até agora.

Nelson Cruz tinha doze anos quando conheceu a Graúna, personagem criado pelo cartunista Henfil (1944-88); acabava de abandonar a escola, por conta de uma profunda timidez e por não conseguir lidar com o fato de policiais militares torturarem alunos — era época da ditadura.

As duas personagens estão no recém-lançado Bento Vento Tempo, embora só uma delas apareça, pincelada nas páginas feito um achado para olhares atentos. Inspirada no avô paterno de Gardel, que morreu em 2010, a obra recupera memórias do escritor e do ilustrador  recheadas de histórias íntimas, mas também coletivas.

A Graúna com letra maiúscula surgiu em 1970, quando Henfil passou a publicar, no Jornal do Brasil, as aventuras dessa pequena ave nordestina. A personagem integrava a série A Turma da Caatinga, e logo virou protagonista. O país vivia a ditadura militar, e as tirinhas da Graúna se transformaram em modos de insubordinação e valorização da potência dessa figura inspirada em um pássaro simbólico, que aparece no romance Iracema (1865), de José de Alencar. Já a segunda graúna — essa que aparece no livro — foi o ponto de partida para desencadear uma autoficção há tempos sonhada por Gardel: contar a vida do avô. 

Os leitores acompanham um cortejo em direção à vida e a descoberta de que as pessoas vão embora

O livro inaugura a parceria entre dois autores premiados. Gardel ganhou, em 2023, o National Book Award por A palavra que resta, e Cruz levou o Jabuti de melhor livro do ano de 2021 por Sagatrissuinorana — escrito por João Luiz Guimarães — e, em 2024, representou o Brasil no prêmio Hans Christian Andersen pelo conjunto de sua obra.

Escrito em forma de cordel, Bento Vento Tempo conta a saga de um neto para fazer o avô recuperar memórias perdidas pelo Alzheimer, condição que o avô da vida real também viveu. Da dor de testemunhar o olhar do avô se tornar “vago como um lago escuro”, o menino arranca uma ideia: vai levá-lo à feira na garupa da bicicleta. Curiosidade autobiográfica: a bicicleta do livro é uma recriação da mobilete amarela com que o vô Cacá buscava Gardel na escola todos os dias.

Cada detalhe, narrado em verso ou em desenho, busca puxar um fio de memória pessoal ou coletiva. Símbolo de resistência cultural cearense, as foto-pinturas são um personagem à parte na narrativa. Nelas, Cruz acrescenta tintas coloridas em cima de uma fotografia em preto e branco, e assim aplica camadas de histórias novas onde já havia outras, prestes a perder a cor. Juntos, neto e avô recuperam mais que lembranças, mas a própria vida que desbotava no “passado por um triz”.

“Nos breves instantes em que o avô recobra a memória, é ele quem leva o Bento na garupa. Ao mesmo tempo, é o próprio Bento quem está criando novas recordações”, diz Gardel à Quatro Cinco Um.

Na história, as duas graúnas são símbolos daquilo que, assim como o afeto, resiste nos apesares da perda cognitiva, do esquecimento coletivo, de sistemas que oprimem a vida. “Quando um cearense nasce, a graúna está lá com seus mitos. Quando a pessoa morre, é ela quem a leva para o espaço. Foi um presente poder trabalhar esses símbolos do Nordeste. Agora, para onde eu for, vou falar da graúna”, conta Cruz.

Para o ilustrador, a cultura nordestina é sinônimo de seu retorno a si mesmo, na adolescência. “Saindo da escola, percebi que deveria estar sempre bem informado para não me perder”, conta. Quando deixou o estudo formal, ainda no ensino fundamental, educação passou a ser a cultura que ele adquiria sozinho, em infindáveis visitas à biblioteca. “Bento Vento Tempo mexeu comigo, trouxe à tona toda minha formação, esse percurso de sair da escola e voltar à vida através de uma biblioteca pública”.

Gardel lembra de quando escreveu o trecho do cordel em que a graúna aparece. “Antes mesmo de imaginar que seria o Nelson [Cruz] a ilustrar o livro, eu tinha um desejo enorme de que ela tivesse destaque. Quando vi a imagem do pássaro segurando o avô pelo bico, foi incrivelmente catártico. Para mim, é uma grande chave de leitura do livro”. Das cores das penas, veio a ideia de falar sobre os momentos sem memória do personagem, nesse espectro de luz e escuridão, como lembrar e esquecer, ou saber e não saber.

Diz o livro: “A doença tinha as asas/ Abertas sobre o sentido”. Ao ler essas palavras, o leitor imagina compreender, por um instante, como o tempo funciona: um movimento selvagem, à parte de qualquer um de nós. Com as imagens acontece coisa parecida, há sempre um pedaço para o leitor preencher, colocar suas próprias tintas em cima. Como escreve o professor colombiano Efrén Giraldo: “Uma ilustração é sempre um passeio por uma realidade indomável”.

Morte e vida

O trabalhador rural Francisco Fidelis Maia era “a mão firme da família”, conta Stênio Gardel. Ao mesmo tempo, era também suavidade, levando o neto pra cima e pra baixo para ajudar a tanger o gado. Sua partida, aos 85 anos, deu início a um caminho silencioso do autor na lida com a finitude. Entre 2010 e 2021, Stênio perdeu o avô, dois tios, a avó e a mãe. Com a publicação do livro, o luto adquire a forma da elaboração literária, acompanhado pelo traço de Cruz. 

Na história, os leitores acompanham um cortejo em direção à vida, a partir do encontro de um avô consigo mesmo, e também de uma criança com a percepção de que as pessoas vão embora — às vezes, antes mesmo da morte. Canta o cordel:

Posso revirar o tempo
E restaurar o essencial
Posso ressoprar o vento
De uma saudade especial

Nas palavras de Cruz, Bento Vento Tempo representa “o encontro do humano com o humano”. “Não vamos nos enganar com as grandes descobertas, se o humano não estiver valorizado diante disso tudo, o tempo vai passar por cima de nós.” O livro lembra que a vida se protege do esquecimento quando é contada. Com a companhia da graúna pousada na janela, o leitor vê a palavra desarmar a bomba-relógio do tempo. “Meu avô não é passado/ Isso que é o mais bonito”.

Quem escreveu esse texto

Renata Penzani

Jornalista e pesquisadora do livro para a infância, é autora de A coisa brutamontes (Cepe).

Matéria publicada na edição impressa #82 em junho de 2024.