Ilustrações de Kaká Leal (Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

Em defesa do enigma

Revisitando um de seus primeiros livros, Detetives de pelúcia, Andréa del Fuego atesta que a infância começa onde nasce o mistério

17jul2026

Uma série de crimes. Breve descrição das suspeitas: duas cachorras de porte pequeno, irmãs, mimadas. O local: um sítio onde até o vento parece ter segredos. Lá avança a investigação das protagonistas, com o faro de personagens de Poe e Agatha Christie, a fim de provarem sua inocência. Na nova edição de Detetives de pelúcia (Escarlate), revisitada pela escritora Andréa del Fuego e com ilustrações inéditas de Kaká Leal, cada descoberta leva a outra e os enigmas valem tanto quanto (ou mais que) a solução.

Em entrevista para a Quatro Cinco Um, Del Fuego fala sobre o humor em sua literatura e a infância como espaço onde o mistério não precisa ser resolvido, mas bem habitado.

De onde surgiu Detetives de pelúcia?
Foi o meu segundo livro infantil. Eu estava terminando Sociedade da Caveira de Cristal (Escarlate, 2024), em um sítio no sul de Ilhabela. O proprietário, Galeno, havia reflorestado a área, recuperando fauna e flora. Fiquei apaixonada pela relação que ele tinha com os animais e pelas histórias que contava sobre eles. Escrevi o livro ali mesmo. À época, o título era Irmãs de pelúcia (Scipione, 2010). Mas agora, relendo e revisando, achei que Detetives de pelúcia dizia muito mais sobre a história. Para crianças, ele comunica imediatamente o “cadê?”, o esconde-esconde.

Como foi reencontrar essas protagonistas depois de tantos anos?
As duas Scottish Terriers existiam de verdade — eram as cachorrinhas do Galeno. Quase não latiam; viviam pela casa, mas eram caçadoras exímias. Me apaixonei por elas. Tenho até hoje uma foto das duas deitadas no sofá. Então foi engraçado reencontrá-las.

Nunca releio meus livros; tenho aflição. Só faço quando sou obrigada, como agora, por causa do relançamento. Relendo, percebi uma voz, que já estava ali, que hoje poderia aparecer, por exemplo, n’A pediatra (Companhia das Letras, 2021) — certo cinismo, aquele humor específico. É curioso revisitar um texto e perceber que algumas marcas da sua voz literária já estavam presentes nele.

‘É curioso revisitar um texto e perceber que algumas marcas da sua voz literária já estavam presentes nele’

Foi a mesma sensação que tive ao reler Sociedade da Caveira de Cristal dezesseis anos depois. Percebi que muita coisa que estava ali, de alguma forma, acabou acontecendo na minha vida. Além da situação com um vírus mortal e a pandemia, tenho um filho de catorze anos muito parecido com o protagonista, que é filho único de pais mais velhos, nerd, magrinho, usa óculos, é do signo de peixes, gosta de videogame…

Medo do que você escreve…
Nem me fale! O próximo livro é todo sobre doença mental. [Risos.]

O livro traz a curiosidade nata da infância. Acha que as crianças leem o mundo como detetives?
Completamente. A infância é uma investigação — e você mal sabe que está investigando. Investigar pressupõe conhecer o mistério, mas a criança ainda nem sabe que existe um mistério. Ela está sendo apresentada a ele pela primeira vez. Depois, passa a vida toda tentando investigá-lo.

O que te interessa na lógica infantil?
Tento olhar para as coisas como se fosse a primeira vez. Claro que isso não é possível; então a gente simula esse primeiro olhar. Quando escrevi Sociedade da Caveira de Cristal, por exemplo, pensei: “Como escrever do ponto de vista de um adolescente?”. Então lembrei de mim aos treze anos. Eu achava que estava pronta para o mundo. O adolescente vive essa contradição: ao mesmo tempo que você acredita que pode tudo, sente que não será capaz de nada.

Em Detetives de pelúcia, esse olhar apareceu de outra forma. As crianças nomeiam tudo: as bonecas, os carrinhos, as brincadeiras. O faz de conta é a criação de outro mundo. Você vive plenamente essa fantasia sem perder o contato com a realidade. Depois volta para casa, para a vida normal. Esse “como se” da infância também move a escrita.

O humor e a dúvida, tão presentes nos seus romances, já apareciam neste livro. O que nasceu aqui e voltou na sua obra adulta?
Brinco que uma das cachorrinhas, quando adulta, poderia virar pediatra — e talvez fosse daquelas sem muita paciência com as mães. [Risos.]

Hoje percebo que este livro já dialogava com muitos contos que escrevi na época, embora eles nunca tenham sido publicados. O humor sempre esteve presente — não exatamente como estética, mas como forma de abrir espaço para outras palavras e possibilidades. O humor coloca tudo em dúvida e quebra as pedras do caminho, mas faz isso pelo riso e não pelo drama. Sempre que o texto encontra esse lugar, sinto que ganha mais fôlego.

E a família está em todos os meus livros. Em As miniaturas (Companhia das Letras, 2013), há a relação entre uma mãe e seu filho. O centro do romance que estou escrevendo é uma relação conjugal. Em Os Malaquias (Companhia das Letras, 2022), a força do núcleo familiar, mesmo separado, continua movendo a narrativa. Em Detetives de pelúcia, as duas cachorras são inseparáveis e só conseguem solucionar o caso juntas. A família é sempre um ponto de partida, porque nada surge de nenhum lugar.

As crianças vivem em um tempo de respostas instantâneas dadas por telas. A literatura pode estimulá-las a conviver melhor com o mistério?
Sim. As tecnologias muitas vezes passam a ideia de exatidão, de correspondência absoluta com a realidade, quando não é bem assim. A própria IA faz conexões entre dados. A preocupação dela é simular eloquência, não necessariamente os fatos. As crianças vão crescer expostas a essa eloquência simulada, mas a eloquência original continua sendo a das relações humanas. É aprender a lidar com os pais, a chegada de um irmão, o ciúme, a escola, aquilo que não sabemos explicar. É aí que criamos uma gramática para existir.

Sempre gostei de escrever. Logo depois de ser alfabetizada, uma professora começou a propor redações. Fiquei fascinada — fazia várias versões do mesmo texto para levar à escola. Lembro que queria muito que minha mãe fosse a uma reunião de pais, mas ela nunca conseguia. Então escrevi uma carta e deixei para ela na cozinha. Ela foi. A fala não deu conta, mas a escrita encontrou um jeito.

Não estou dizendo que toda criança precise escrever uma carta para os pais. Mas vai ser preciso continuar falando e pensando. O que me preocupa é perdermos o prazer do pensamento espontâneo. Parece surgir do nada, mas não surge. Ele nasce das experiências, do que você acabou de ler, do que lembrou, das conexões que fez sem perceber. É assim que construímos opiniões, imaginamos histórias, entendemos o mundo. Se deixarmos um piloto automático pensar por nós o tempo todo, será como assistir a uma montanha-russa em 3d sem estar dentro do carrinho.

Há mistérios que as crianças não conseguem acessar?
Acho que não existe mistério que não possa ser contado a elas. Nem a morte. Existem formas diferentes de abordar os assuntos, mas as crianças já vivem mergulhadas no mistério. Todos os dias elas se perguntam sobre o que é isso, para onde as coisas vão, por que acontecem. Às vezes os adultos escondem certas questões por proteção. Eu entendo. Mas o mistério é intrínseco à infância.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.

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