As Cidades e As Coisas, Literatura infantojuvenil,
Pedagogia da terra
Livro póstumo de Antônio Bispo dos Santos marca sua recusa à linearidade do tempo e propõe que ensinar é permanecer vivo no outro
18maio2026 • Atualizado em: 19maio2026 | Edição #106O começo é uma despedida. Tio Norberto chora ao dar adeus, e seu pranto pode ser lido em dois sentidos. O primeiro evoca o sentimento de limitação e insuficiência: “Eu estou chorando porque ensinei tudo o que eu sabia. Mas eu não sabia tudo que queria lhe ensinar”. As lágrimas marcam o descompasso entre a extensão do mundo e aquilo que pode ser efetivamente aprendido ao longo de uma vida, mas também apontam para além desses limites: “Enquanto você passar para outras gerações aquilo que eu passei para você, mesmo que eu esteja enterrado, eu estarei vivo”. Nesse segundo sentido, a despedida não é interrupção, mas passagem. A morte de quem ensina é capaz de abrir o tempo para que se viva no outro.
Em A manga da terra, Antônio Bispo dos Santos narra os ensinamentos que aprendeu com a assim chamada “geração avó”. O autor se coloca na posição de quem é neto e ouve os mais velhos e as mais velhas. Mas, no momento em que Bispo escreve, sua idade já é avançada. Ele volta à infância para se dirigir às crianças, reposicionando a si mesmo como pequeno. Neste livro, consolida elementos fundamentais do que pode ser entendido como uma pedagogia da terra.
Antiacumulação
Na pescaria, todos aprendem com os mais velhos a dividir tarefas e a desenvolver habilidades, independentemente da idade. Para além de atividades práticas, como remendar tarrafas e cortar palha para tapagens, o que se ensinava era uma economia moral contra o excesso:
Quando eu queria pescar mais peixe do que o suficiente, eles diziam: ‘Pare de pescar: você já tem os peixes para comer até a próxima pescaria! O melhor lugar para guardar o peixe é no rio, não na geladeira’.
Uma ética antiacumulação, pautada na noção de que a medida das coisas é a necessidade de alimentação e o que se pode verdadeiramente usufruir. Almejar mais é cruzar uma fronteira, tanto da fruição quanto da própria dinâmica da vida: “No rio, ele continua crescendo e se reproduzindo”, diz mãe Joana ao pequeno Antônio.
Além da máxima da suficiência, a relação com os alimentos não incluía o termo “lixo”. Quando criança, Antônio aprendeu que nada é “resto”, ainda que possa apodrecer, deixando de servir à alimentação e à fruição imediatas. Mãe Joana orientava: “Se apodrece, joga no mato”. A manga do título ilustra esse ensinamento. A lógica do descarte é substituída pela reintegração à terra. Uma manga que caiu no chão se decompõe e passa a existir em outras vidas. É, também, uma economia da abundância: é sempre possível colher outra manga do pé; não há falta no horizonte.
O fio condutor da didática de Bispo é tratar a terra como sujeito ativo, com demandas e reciprocidade
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“E assim mãe Joana foi me dizendo aquilo como um alerta, mas também como um convite para rever as nossas relações com a terra.” O fio condutor dessa didática é tratar a terra como sujeito ativo, com demandas e reciprocidade. A terra não é recurso. O mote “a terra dá, a terra quer”, que dá título a seu último livro publicado em vida (Ubu, 2023), é repetido aqui e elevado a aforismo político, orientador das decisões mais íntimas e das mais coletivas.
A menção a tio Norberto, que se despede, é feita apenas na primeira página. Não é retomada de forma explícita depois. No entanto, um dos grandes ensinamentos dessa pedagogia da terra diz respeito à recusa da linearidade do tempo. O círculo substitui a linha reta. Bispo afirma que “a vida é começo, meio e começo”, uma ciranda que vale tanto para a semente de manga quanto para tio Norberto, que, ao se despedir, não encontra o fim, mas um novo começo.
As ilustrações do coletivo Xiloceasa operam como uma camada própria de enunciação. A xilogravura marca os contrastes, deixa ver os veios da madeira, entalhada para criar as imagens circulares que emergem das palavras do autor.
Antônio Bispo dos Santos fez sua despedida no último mês de 2023 e, em A manga da terra, mostra que o adeus não é fim, mas meio para um novo começo, com um convite aos pequenos e às pequenas para compartilharem a passagem e a ideia de que a justa medida é a vida, em suas diversas manifestações.
Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Pedagogia da terra”
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