Literatura brasileira,

Stênio Gardel é o primeiro brasileiro a receber o National Book Award

O escritor cearense foi premiado pela edição norte-americana de seu romance de estreia, 'A palavra que resta', e ilustra a boa fase que a literatura brasileira vive no exterior

16nov2023 - 17h09 | Edição #75

Stênio Gardel é o primeiro brasileiro a levar o National Book Award, prêmio literário mais importante dos Estados Unidos. O feito se torna ainda mais especial por ser seu romance de estreia, A palavra que resta (Companhia das Letras, 2021), que venceu na categoria Literatura Traduzida. O cearense desbancou romancistas experientes, como Pilar Quintana, David Diop, Mohamed Mbougar Sarr e Fernanda Melchor. 


Capa de A palavra que resta, romance de estreia de Stênio Gardel

Com a voz rouca, o autor falou por telefone com a Quatro Cinco Um, direto de Nova York, na manhã desta quinta-feira (16). “Acredito que a história do meu livro e seus temas podem, assim como tem acontecido com a recepção no Brasil, tocar leitores de vários lugares, criar pontes entre experiências que, mesmo distantes geograficamente, se encontram nos seus traços mais íntimos.” 

O caso do brasileiro evidencia o caráter universal da literatura, capaz de sensibilizar leitores com narrativas que ultrapassam fronteiras, inclusive a do idioma. A história de Raimundo, homem analfabeto que aprende a ler motivado por uma carta de amor, foi transposta para o inglês por Bruna Dantas Lobato. “Estar ali e receber o prêmio é uma conquista que deixa a gente tonto, ainda mais para mim e Bruna, que viemos do Ceará e do Rio Grande do Norte. É uma grande realização”, reflete Gardel. “Essa vitória entra [para a história] pela minha própria presença como autor gay. Que o livro possa inspirar outros meninos, adultos e velhos a persistir”. 

O caso brasileiro evidencia o caráter universal da literatura, capaz de sensibilizar narrativas que ultrapassam fronteiras

A editora norte-americana New Vessel Press se interessou pelo livro de Gardel por abordar as consequências do preconceito e o impacto da literatura na vida de um homem comum, sendo a escrita a sina e a solução para o protagonista. Brasileira radicada nos Estados Unidos, a tradutora acredita que sua vivência oferece vantagens no trabalho, visto que está completamente inserida nas duas culturas e nos dois idiomas. Ela diz que desenvolveu um interesse em capturar as vozes das pessoas como elas são, sem julgar ou editorializar. 

Segundo Dantas Lobato, a narrativa contribui para a disseminação de uma literatura brasileira mais plural. “Eu espero que leitores estrangeiros vejam que existem vários tipos de histórias no Brasil, com todo tipo de gente, que não existe uma única forma de ser brasileiro”, diz. 

A literatura brasileira fascina leitores estrangeiros desde o fim do século 19. Mas, hoje, há uma profusão inédita de livros brasileiros traduzidos no exterior. Clássicos são campeões na categoria. Iracema, de José de Alencar, primeiro livro brasileiro a ser traduzido, aparece ao lado de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que ganhou duas novas traduções recentes. Uma delas é a da Penguin Classics, assinada pela norte-americana Flora Thomson-DeVeaux, que roubou a cena no mercado de língua inglesa. Ovacionada pela revista The New Yorker, a obra esgotou em apenas um dia. 


The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, tradução de Machado de Assis, esgotou em um dia

Esforços anteriores ao feito de DeVeaux possibilitaram que leitores como Susan Sontag e Woody Allen se tornassem admiradores do Bruxo do Cosme Velho. A internacionalização da literatura brasileira permite ainda outros contatos. Dificilmente Françoise Ega teria escrito Cartas a uma negra (1978), coletânea de correspondências para Carolina Maria de Jesus, autora do célebre Quarto de despejo (1960), se a obra não tivesse sido vertida para o francês em 1962. Ega escreveu seu livro epistolar após ler sobre a obra de Carolina na revista Paris Match. Cartas a uma negra foi publicado no Brasil pela Todavia em 2021. Seria igualmente improvável a italiana Elena Ferrante incluir A paixão segundo G.H. (1964), de Clarice Lispector, entre os seus livros favoritos.

Letras do Brasil

Em um momento em que há uma crescente busca por superar estereótipos que reduzem o Brasil a ícones como o Carnaval e o futebol, nossas letras são uma boa pedida para um vislumbre não só da cultura brasileira, mas também dos conflitos que rondam o país. É o que diz a voz de nossos autores publicados nos últimos anos.

Ainda que a tradução de livros brasileiros seja uma faísca riscada no século 20, que tem ganhado mais força nas últimas décadas, vale ressaltar que velhos entraves ainda rondam a internacionalização da produção de nossos autores. Como primeiro ponto, destaca-se a competitividade da língua portuguesa. 

Na primeira metade do século 19, Goethe sugere a noção de Weltliteratur, que pode ser traduzida como literatura mundial, definida pelo autor em termos de um intercâmbio cultural. A concepção de Weltliteratur, entretanto, é problematizada pelo teórico literário italiano Franco Moretti.

Na visão de Moretti, a literatura mundial deságua em um sistema literário único, mas desigual. Dentro dessa lógica, é a periferia desse sistema que o Brasil ocupa, o que dificulta a venda de direitos para publicação de livros brasileiros, enquanto obras de países europeus e dos Estados Unidos têm um alto número de vendas para o exterior. 

A barreira do idioma contribui, por exemplo, para a falta de nomes brasileiros no rol de vencedores do Nobel de Literatura. A agente literária Lucia Riff aponta esse entrave, uma vez que materiais, como o próprio original, precisam ser traduzidos para o inglês para a divulgação no exterior. 

Em um momento em que há uma crescente busca por superar estereótipos que reduzem o Brasil a ícones como o Carnaval e o futebol, nossas letras são uma boa pedida para um vislumbre não só da cultura brasileira, mas também dos conflitos que rondam o país

Fernando Rinaldi, coordenador do setor de direitos estrangeiros da Companhia das Letras, conta que há também a possibilidade de se traduzir apenas um trecho do livro para a submissão. De qualquer modo, a língua se mostra um obstáculo. 

As editoras brasileiras se empenham para mudar esse cenário. Para Leandro Sarmatz e Ana Paula Hisayama, editor e diretora de direitos da Todavia, respectivamente, ter um livro publicado em outra língua é ter no exterior mais uma obra de literatura brasileira compondo o concerto de vozes da nossa cultura. 

A dupla conta que o trabalho é facilitado pois há muitos editores estrangeiros acompanhando a produção do Brasil com interesse em publicação, de modo que o diálogo é constante. Assim, o impacto das nossas letras tem aumentado consideravelmente. O interesse em obras brasileiras e a tradução do português para outros idiomas é uma via de mão dupla.

Já Rinaldi nota que, antes da pandemia, as feiras literárias internacionais — como as de Frankfurt, Bolonha e Londres — mobilizavam a atenção da editora na busca por mercados estrangeiros. Com a impossibilidade da realização desses eventos, os esforços para a venda de direitos passaram a acontecer durante todo o ano por meio da preparação de materiais, folhetos e newsletters digitais. 

O Jabuti, maior prêmio literário brasileiro, adicionou, em 2017, a categoria “Livro brasileiro publicado no exterior” em seu eixo de inovação. Em 2021, a condecoração foi para Tupinilândia (2018), de Samir Machado de Machado, veiculado no Brasil pela Todavia e na França pela Métailié. O autor foi surpreendido pela recepção do romance em terras francesas. “Vendeu em seis meses mais do que qualquer outro livro meu já vendeu no Brasil”, conta. 

As referências da cultura pop brasileira em Tupinilândia contribuíram para o interesse da editora estrangeira. Estamos longe da “cor local” almejada pelos escritores românticos — entre eles, um dos nossos primeiros autores traduzidos, José de Alencar — embora os livros que mais fazem sucesso no exterior se valham de elementos já consagrados na literatura brasileira.

Essa atmosfera, contudo, não cai em localismos. O romance O amor dos homens avulsos (Companhia das Letras, 2016),  publicado neste semestre pela editora londrina Peirene Press, com tradução de James Young para o inglês, é outro exemplo. The Love of Singular Men recebeu atenção da crítica pela potência da trama, uma prova do alcance da nova literatura brasileira. Na narrativa, Victor Heringer retrata a relação de dois meninos no subúrbio carioca em um microcosmo sensível que se funde ao imaginário popular.


Versão em inglês de O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer

O livro ganhou várias reedições no Brasil e, no começo de outubro, uma resenha generosa no The New York Review of Books, maior veículo literário dos Estados Unidos. Não é pouco. Morto aos 29 anos em 2018, Heringer ganhou uma bela ilustração do artista plástico Lorenzo Gritti. Aos poucos, seu legado literário se faz forte no exterior. Dele, a Companhia das Letras também publicou Glória e as crônicas de Vida desinteressante, seleta pinçada da revista Pessoa, da qual foi colaborador. 

Rinaldi observa que a ficção que está chegando com força no exterior combina “uma voz própria brasileira com uma história que tem algo a dizer para o mundo, e não só para os brasileiros”. Em nosso tempo, o tratamento de questões sociais está em alta. 

É o caso de dois romances recentes. Marrom e amarelo (Alfaguara, 2019), de Paulo Scott, tematiza o espinhoso debate das cotas raciais. O livro foi traduzido para o inglês, com o título Phenotypes, pela prestigiosa And Other Stories, e ganhou resenha positiva no jornal The New York Times. Ele foi indicado ainda ao International Booker Prize, concorrendo com nomes como a Nobel Olga Tokarczuk.

 
Os escritores Victor Heringer, Aline Bei e Paulo Scott [Renato Parada/Divulgação]

O peso do pássaro morto (Nós, 2017), de Aline Bei, toca os vazios da vida de uma mulher. Sucesso tanto com a crítica especializada quanto com o público, o romance foi vertido para o francês em 2022 pela Editora Aldeia, casa que tem como projeto apresentar jovens escritoras latino-americanas para os leitores franceses.

Uma coisa é certa: os autores veem com bons olhos a tradução de suas obras. Paulo Scott define o trabalho do tradutor Daniel Hahn em Marrom e amarelo como brilhante. “Que ele encontre seus leitores e que seus leitores encontrem algo nele também”, são os votos de Aline Bei para O peso do pássaro morto viajar mundo afora.

Quem escreveu esse texto

Matheus Lopes Quirino

Giovana Proença

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.