Ministério da Cultura apresenta
Ilustrações de Elvira Vigna (Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

Desaprender o horror

Entre a sátira política e o nonsense, infantojuvenis de Elvira Vigna retornam em nova edição, que expõe o ridículo do autoritarismo

01jul2026 | Edição #107

Foi um personagem infantil que revelou à literatura a ilustradora e jornalista Elvira Vigna (1947-2017). Asdrúbal é amarelo, molengo e tem olhos arregalados de monstro. “Inimigo de borboletas, gatos, corujas, tartarugas, cachorros, sapos, caramujos, periquitos, valsas e piqueniques em geral.” E veio para contar outra história dos anos 60 e 70, auge da ditadura militar brasileira. 

Mescla de sátira política e fábula nonsense, a ficção se desdobra nos quatro volumes da Coleção Asdrúbal (1971-1983), já publicados pelas editoras Bonde, José Olympio, Miguilim e Clube do Livro. Na nova edição, da FTD, o projeto gráfico foi atualizado para preservar as ilustrações originais.

A ilustradora e jornalista Elvira Vigna (Renato Parada/Divulgação)

A aventura começa com A breve história de Asdrúbal (1978), que nos apresenta esse protagonista de setecentos anos. Asdrúbal tem uma barata de estimação e passatempos perversos, como fazer caretas para tartarugas e roubar a espuma das ondas. “O mal é ingênuo, sofre com a solidão e se torna ridículo, um estorvo”, escreve a editora Isabel Coelho no posfácio da coleção. 

Palimpsesto

A literatura para as infâncias conheceu Elvira Vigna antes de sua consagração no romance. Sua influência visível vinha de referências do cartunismo d’O Pasquim e da sátira jornalística. A habilidade de sustentar assuntos complexos com mãos leves se depurou primeiro na coleção, que circulou nos anos 80, quando o livro infantil se firmava como fenômeno de vanguarda e driblava a censura apostando na invenção radical das crianças. 

O protagonista Asdrúbal, o Terrível

Em entrevista ao jornal Rascunho, Vigna contou que a literatura infantil deixou de interessar a ela. Em seguida, distraidamente, também disse: “Não sei falar das diferenças entre escrever para crianças e adultos. Sei falar das semelhanças. [] em ambos os casos, há coisas muito importantes a serem ditas”.

No posfácio da nova edição, a escritora Rosa Amanda Strausz descreve Vigna como “ilustrautora”, aquela que narra colocando texto e imagem como elementos indissociáveis. Essa é também uma definição do livro ilustrado: a palavra e a ilustração contam a partir do seu entrelaçamento. Na Coleção Asdrúbal, o refinamento dessa linguagem — que favorece diversas possibilidades de leitura e associações tanto com momentos históricos como com questões contemporâneas do universo da criança — faz dos quatro volumes objetos de interesse que perduram.

O presente, como o vemos hoje, contendo a ameaça ao próprio futuro, parece sugerir que vivemos entre reescritas. A violência, a opressão e a guerra são espectros de repetições — e nunca estivemos exatamente fora delas. A arte, por sua vez, pode imaginar a vida no que ela poderia ser. Elvira Vigna convida os leitores a identificar os monstros, nem que sejam os mais estapafúrdios, como Asdrúbal, que celebra o mal entre “coquetéis de rícino e bolachinhas de pimenta”. Suas histórias assumem a posição ética de manter a criatividade diante do horror.

Anti-herói

No livro que inaugura a coleção, o que Asdrúbal quer é se provar muito monstro, monstríssimo. Mas nem os gatinhos felpudos têm medo dele. “Nós, os monstros, sempre tivemos este problema: imaginar novas maldades.” Em A verdadeira história de Asdrúbal, o Terrível, lemos sobre sua infância na Floresta Dum-Dum e sobre seu pai, Sigmundo, que se fantasiava de rinoceronte para transformar sonhos em pesadelos. No terceiro volume, Asdrúbal no museu, ele vai trabalhar como peça de museu quando sua casa é ocupada. E, ainda assim, não desiste de tentar ser cruel. No derradeiro, O triste fim de Asdrúbal, o Terrível, rendido à nostalgia de si mesmo, o protagonista decide escrever sua biografia. Sem dar spoilers, bastaria dizer que ele passa a se chamar Vasconcelos e briga com a própria imagem no espelho. 

Asdrúbal quer se provar monstríssimo, mas nem os gatinhos felpudos têm medo dele

Em toda essa cômica desilusão, encontramos a estranheza ferina de Elvira Vigna, que narra como quem inventa em voz alta. O que se tem em mãos é uma aventura construída com humor e liberdade, sem concessões ou simplismos. Nas capas, traçadas por ilustrações minimalistas e iconográficas, as fisionomias do personagem narram transformações que vão do sarcasmo, ligado à suposta superioridade, ao aturdimento de se perceber irrelevante, passando pela euforia de um monstro que se alimenta da atenção alheia.

Aparece a alegoria de um sistema político cujos sentidos são disputados até hoje entre palavras-chave como “verdade”, “memória” e “monstruosidade”. Se somos palimpsestos e a verdade original é inacessível, o que resta é a fricção entre as camadas. Ao brincar com o recurso do ponto de vista, a coleção propicia que quem lê se perceba no papel de Asdrúbal e também no dos bichos que ele assombra — e assim oscile entre sentimentos contrários.

Cinco décadas depois, Asdrúbal surge diferente aos olhos do leitor. Em 2026, podemos ler com distanciamento o momento político narrado, enquanto identificamos onde estão as ameaças atuais, aquelas que impelem “a não se deixar influenciar pela alegria reinante, esse vírus que corrói o planeta”, como dizem alguns dos monstros no primeiro volume. 

Pela lente da arte, generosa de dar reviravoltas para sublimar a violência, deciframos um monstro que encontra enfim o seu lugar na história. “Muito deprimidos com a alegria e a beleza presenciadas, os monstros se desejaram uma péssima noite e foram dormir.”

Quem escreveu esse texto

Renata Penzani

Jornalista e pesquisadora do livro para a infância, é autora de A coisa brutamontes (Cepe).

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Desaprender o horror”

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.

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